Malditas Aranhas! / Eight Legged Freaks

zzmalditas1

Nota: ★★☆☆

Malditas Aranhas!, no original Eight Legged Freaks, de 2002, pareceria, para qualquer cinéfilo daquele tipo de nariz empinado, que gosta de “cinema de arte”, uma estupidez, uma perda de tempo, coisa menor, “cinema americano”, como eles gostam de dizer, empinando ainda mais o nariz.

Pois é.

É também uma homenagem deliciosa, bem humorada e com belas, espertas sacadas, aos filmes de ficção-científica e terror dos anos 50, aquelas produções de orçamento baixo que povoaram a imaginação de gerações inteiras, não só de americanos, mas de meio mundo.

Fiquei pensando, enquanto via o filme, que ele se parece demais com Marte Ataca!, que Tim Burton fez seis anos antes, em 1996. A diferença é que Tim Burton tem grife, e seu filme – ele também uma homenagem tão escrachada quanto este aqui aos filmes P&B de ficção-científica e/ou terror dos anos 50 – tem um monte de grandes atores.

Malditas Aranhas! tem a assinatura de um diretor sem grife alguma, Ellory Elkayem, um neo-zelandês de apenas seis títulos, sendo dois deles os nada atraentes A Volta dos Mortos Vivos – Necrópolis e A Volta dos Mortos Vivos – Rave.

zzmalditas2Em termos de currículo, portanto, Elkayem está para Tim Burton mais ou menos como uma bolsa do Le Postiche está para uma Gucci, Hugo Boss, Prada, Louis Vitton.

Marte Ataca! tem também um elenco Gucci, Hugo Boss, Prada, Louis Vitton, enquanto o de Malditas Aranhas! – embora com ótimas interpretações – seja mais para Le Postiche. Os únicos nomes mais conhecidos, são os de David Arquette e de Scarlett Johansson.

Eu, que não ligo a menor para grifes (até porque já me disseram que se eu vestisse o melhor Armani eu o transformaria imediatamente na pior obra do alfaiate de São José do Pito Aceso), e entendo que uma bolsa Le Postiche de R$ 30 carrega as coisas exatamente da mesma forma que uma Gucci de sei lá quantas centenas de euros, acho que Malditas Aranhas! não fica nada, nada, nada a dever a Marte Ataca!

A gosma que sai das aranhas do filme de Ellory Elkayem, quando elas são mortas, é de um verde musgo nojo igualzinha que nem a que sai dos marcianos de Tim Burton.

O criador de aranhas as alimenta com insetos do lago atingido por carga tóxica

Os primeiros 15, 20 minutos de Malditas Aranhas! esbanjam esperteza, belas sacadas, imaginação – e brincam deliciosamente com os clichês dos gêneros que o filme elogia e satiriza.

A primeira figura que vemos é um desses loucaços, doidões, tão típicos no cinema americano quanto, creio, na vida real americana – um maluco beleza que acredita em todos os tipos de teoria conspiratória da história possíveis e imagináveis. Chama-se Harlan, e é interpretado por uma negão de cabelão rastafári (Doug E. Doug); Harlan tem uma rádio, e transmite sua programação diretamente de seu trailer, estacionado em um lugar perdido no meio do Arizona. Ele fala da invasão alienígena que vem aí, queixa-se de quem acredita que Lee Harvey Oswald tenha matado o presidente Kennedy, ataca todo tipo de autoridade.

Corta, e vemos um motorista de caminhão cruzando uma estrada no meio do nada do Arizona, que sintoniza aquela rádio e toma café para tentar evitar o sono.

Um inocente coelho atravessa a estrada normalmente deserta – mas dá de atravessar justamente no momento em que aquele motorista exausto está passando com sua carga tóxica.

O motorista tenta mudar de pista para não matar o bichinho.

Com a manobra forçada, um dos tanques de carga tóxica, altamente tóxica, cai e vai se depositar num lago à margem da estrada.

Corta, e vemos outro sujeito muito doidão (meu, como há doidões no país mais rico do Planeta) pegando bichinhos naquele mesmo lago.

Um letreiro avisa: “Uma semana depois” – e a câmara passa por uma placa na estrada onde se lê “Fazenda de aranhas exóticas do Taft – 1 milha”.

É para a fazenda de aranhas exóticas que se encaminha, de bicicleta, um garotinho de uns nove, dez anos, de óculos e cara de nerd. Chama-se, veremos em seguida, Mike (Scott Terra, na foto acima).

zzmalditas0Mike entra no local em que Joshua Taft mantém sua fantástica coleção de aranhas. Chama por Joshua – e nada. Pára diante de uma espécie de aquário – e uma aranhona bem grande pula no vidro, na cara do garoto.

Assustado, Mike dá um pulo para trás – e duas mãos tampam sua cara, seu óculos.

O espectador pode ter tido um susto – mas é só Joshua, o doidão criador de aranhas, tentando pregar uma peça no garoto Mike. O espectador percebe claramente que os dois são muito amigos e trocam muitas informações, o cientista maluco e o garoto muito inteligente.

Joshua conta para o amiguinho que descobriu junto do lago uns grilos que estão sendo autênticos esteróides para suas aranhas. Elas comem os grilos que Joshua traz do lago e em seguida crescem, crescem, crescem.

O papagaio do doidão diz: “I see dead people”.

E o doidão Joshua diz para o pequeno Mike: “Ele adora esse filme”.

Eu, de minha parte, adoro filmes que citam filmes. O Sexto Sentido, de M. Night Shyamalan, em que o personagem interpretado por Haley Joe Osment vê gente morta, é de 1999, três anos antes deste Malditas Aranhas!

Enquanto Joshua vai falando de suas aranhas para o pequeno Mike, o espectador vê que uma das aranhas tornadas muito grandes por ter se alimentado de grilos vindos do lago contaminado pelo despejo tóxico escapa de seu aquário.

Mike se despede do amigo, pega sua bicicleta e vai embora. A câmara permanece no viveiro de aranhas de Joshua, para mostrar que ele, e também o papagaio que via gente morta, passam desta para melhor.

A filha da xerife sai pela estrada com um bando de rebeldes sem causa

O garoto Mike vai de bicicleta pela estrada, tendo saído da fazenda de Joshua, em direção à cidadezinha em que mora, e que tem o sensacional nome de Prosperity – uma pequena cidade que não está prosperando em nada, muito ao contrário. Aí passa pelo lago, onde dois policiais estão trabalhando, recolhendo amostras, junto daquele tanque de substâncias tóxicas que já havíamos visto cair do caminhão.

zzmalditas3

Os policiais – veremos em seguidinha – são a xerife da cidade, Samantha, Sam para os íntimos, e em Prosperity City todos são íntimos (Kari Wuhrer, na foto acima), e seu auxiliar Pete (Rick Overton).

Acontece que o garoto Mike é filho de Sam. Sam dá uma bronca no menino por ter ido visitar aquele maluco do Joshua. Ao ouvir da mãe que a água do lago pode estar contaminada, Mike quer avisar Joshua, mas a mãe é brava, e é xerife, e bota o garoto e a bicicleta dentro do carro de polícia, e ruma para a cidade.

Na estrada rumo à cidade, o carro da xerife Sam passa por uns motoqueiros que vinham em sentido contrário, fazendo tudo o que não se deve fazer, mas que garotos bobões de cidades pequenas, onde nada muito excitante acontece, gostam de fazer: correr demais, e botar as motos para andar apenas na roda de trás.

A xerife Sam freia o carro, vira, volta, e vai atrás dos garotos rebeldes sem causa. Obriga os garotões a pararem na beira da estrada, e dá uma multa a um deles, Bret (Matt Czuchry), que acontecia de levar na garupa a namorada Ashley (o papel de Scarlett Johannson, com 18 aninhos de idade) – que acontece de ser a filha mais velha da xerife Sam.

Detalhinho: esse Matt Czuchry interpretaria, anos mais tarde, o jovem advogado sem caráter Cary Argos, da série The Good Wife.

Alienígens ou monstros invadiam os EUA e saíam matando gente aos borbotões

Levei um monte de parágrafos para relatar o que acontece neste início de Malditas Aranhas! – mas, no filme, tudo isso é muito rápido, dura aí uns 15, 20 minutos no máximo.

É uma beleza, uma delícia essa abertura do filme.

Bem… Uma beleza, uma delícia, para quem tenha bom humor, para quem entenda que o cinema é também uma grande diversão. Para aqueles seres que se julgam superiores, de nariz empinado, tão empinado quanto os preços de uma bolsa Louis Vitton, ver isso aqui seria tortura chinesa.

zzmalditas8

Depois dessa abertura gostosa, tudo, ou quase tudo, passa a ser previsível, e previsivelmente bobão.

Ainda sobrarão algumas boas piadas. A verdade, no entanto, é que Malditas Aranhas! vira um filme para adolescentes que gostam do gênero terrir, a horrenda mistura de terror com comédia.

Mas insisto: mesmo depois que as aranhas começam a atacar as pessoas, exatamente como os marcianos começam a atacar no filme cult de Tim Burton, este filme sem grife não fica nada, nada, nada a dever ao outro.

Exatamente como Marte Ataca!, igualinho que nem, Malditas Aranhas! faz o elogio dos filmes de horror e ficção dos anos 50.

Já falei isso demais, ao comentar outros filmes, mas é preciso dizer: os filmes de horror e ficção dos anos 50 em que alienígenas e monstros pavorosos atacavam a população das pequenas cidades americanas têm um sentido político. Não são à toa. São metafóricos. Representavam a paranóia americana diante de uma – na cabeça dos paranóicos – iminente invasão dos… russos! Dos soviéticos!

zzmalditas5Tadinhos dos russos, dos soviéticos. Naqueles anos 50, sofriam dos males da economia estatal. Haviam, de fato, diminuído muito o número de pobres, de miseráveis – é bem verdade que à custa também de uma grande diminuição da população, devido às matanças sem fim do stalinismo. Mas não estava sobrando dinheiro para que eles pudessem invadir quem quer que fosse – a não ser os países que já eram dominados por eles mesmo, e que seriam invadidos por tanques a cada vez que tentassem se rebelar, como a Hungria em 1956 ou, mais tarde, a Checoslováquia em 1968.

Mas o fato é que os russos jamais teriam condições de invadir os Estados Unidos. E, no entanto, a paranóia era essa: ah, os russos estão chegando, os russos estão chegando!

Foram anos terríveis, aqueles de fim dos 40, início dos 50. Inaugurou-se no Congresso o tal do HUAC, a sigla em inglês para o Comitê das Atividades Anti-Americanas, e com ele a caça às bruxas, a caça a qualquer pessoa que tivesse tido simpatia pelas idéias socialistas.

O cinema reproduziu aquele clima todo de diversas maneiras. Uma delas foi fazendo filmes em que alienígenas e/ou monstros invadiam as pequenas cidades, a América profunda, e matavam pessoas aos montes, aos borbotões.

Mas, afinal, por que as aranhas provocam tanto medo – e tantos filmes?

Em 1955, a Universal, que nos anos 30 havia se estabelecido como o estúdio dos filmes de terror, dos Frankensteins e Dráculas, produziu um troço chamado Tarântula! Nele, uma aranha que fazia parte de uma experiência genética, capaz de aumentar seu tamanho, escapa do laboratório – e cria-se o terror.

zzmalditas6Este Malditas Aranhas! presta homenagem a Tarântula!, ao mesmo tempo em que goza o filme da época da paranóia anti-soviética. A rigor, é a mesma idéia – com um tratamento bem mais moderno, com efeitos especiais mais requintados, só isso.

Bem – mas por que a aranha é um bicho tão temido, tão presente em tantos filmes, dezenas e dezenas e dezenas de filmes, tipo Tarântula!, Aracnofobia (1990), A Maldição das Aranhas (1977), A Maldição da Aranha (1958), Aranhas Assassinas (2007), A Invasão das Aranhas Gigantes (1975)?

Ah, aí tô fora. Aí só o Doutor Freud para explicar.

Anotação em dezembro de 2013

Malditas Aranhas!/ Eight Legged Freaks

De Ellory Elkayem, EUA, 2002

Com David Arquette (Chris McCormick), Kari Wuhrer (xerife Samantha Parker, Sam), Scott Terra (Mike Parker), Scarlett Johansson (Ashley Parker), Doug E. Doug (Harlan Griffith), Rick Overton (policial Pete Willis), Leon Rippy (Wade, o prefeito), Matt Czuchry (Bret), Jay Arlen Jones (Leon), Eileen Ryan (Gladys)

Roteiro Jesse Alexander & Ellory Elkayem

Baseado em história de Ellory Elkayem e Randy Kornfield

Fotografia John S. Bartley

Música John Ottman

Montagem David Siegel

Produção Warner, Village Road Show.

Cor, 99 min

**

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*