Histórias de Amor / Liberal Arts

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Nota: ★★★☆

É um ótimo filme este Histórias de Amor, no original Liberal Arts, de 2012, típica produção do cinema independente americano. Fala de universidade, academia, conhecimento intelectual que às vezes atrapalha as pessoas a sentirem as emoções, viverem a vida. Mas, sobretudo, fala de relações humanas, de amadurecimento, de diferenças entre gerações, de como lidamos com a passagem do tempo e com os afetos.

O mais surpreendente, no entanto, é constatar – como eu fiz, depois que o filme acabou e fui fazer a ficha técnica – que o autor do argumento e diretor do filme é também o ator principal, Josh Radnor (na foto abaixo), garotão nascido em 1974, e que portanto estava com 38 anos quando lançou este Liberal Arts.

E Liberal Arts é seu segundo filme como autor e realizador. (Como ator, tem 18 títulos no currículo.) Dois anos antes, em 2010, havia escrito e dirigido Tudo Acontece em Nova York/Happythankyoumoreplease, no qual também atua. Mais ainda: os temas desse primeiro filme, do qual jamais tinha ouvido falar, são os mesmos deste segundo, pelo que dá para ver pela sinopse do IMDb: fala sobre jovens que começam a amadurecer, sentem-se cansados de seu cinismo reflexivo, cada um procurando seus meios de entender o que é amar e ser amado.

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Quando li que o autor e diretor é também o ator central, não consegui conter uma exclamação: será que estamos diante de um novo Edward Burns?

Essas comparações não são boas, de forma alguma. Quando vi o segundo filme realizado por Ed Burns, Nosso Tipo de Mulher/She’s the One, de 1996, também não consegui evitar essas comparações que sempre devem ser evitadas, e anotei ter tido a sensação de que “esse menino Edward Burns é um novo Woody Allen”.

Essas comparações não são boas, porque são reducionistas. A gente deveria fazer esforço para evitar essas rotulações simples, bobas, reducionistas. Além de tudo, elas podem se comprovar absolutamente erradas.

Edward Burns provou-se um competente realizador de bons, perspicazes, inteligentes, simpáticos, gostosos filmes sobre relações afetivas, sobre gente que nem a gente. Às vezes em alguns de seus filmes faz lembrar, sim, Woody Allen – mas ele não é Woody Allen, ninguém é um novo Woody Allen. Ele é Ed Burns, e isso é muito bom.

Então, corrigindo a exclamação que saiu da minha boca sem que eu pensasse direito: com este seu segundo filme, abordando os mesmos temas que havia abordado no primeiro, o garotão Josh Radnor mostra talento, competência, inteligência. Segue a tradição de tantos outros realizadores do cinema independente – e também do cinemão comercial – americano, como Woody Allen, Rob Reiner, Nancy Meyers, Lawrence Kasdan, Edward Burns, Nora Ephron, Nicole Holofcener, de fazer filmes sensíveis sobre os assuntos que realmente importam: gente como a gente, ordinary people, vida em família, relações afetivas.

Tomara que não se perca, que não vire diretor de blockbusters sobre super-heróis, super-assassinos ou o fim do mundo, porque esse tipo de coisa já tem de sobra.

Logo de cara, o protagonista é roubado. E em seguida a namorada vai embora

Jesse Fisher, o protagonista da história (que muito provavelmente tem bastante coisa em comum com seu criador, assim como Antoine Doinel tinha com o dele, François Truffaut), fez carreira acadêmica. Tendo feito com afinco uma boa faculdade em sua terra natal, Ohio, trabalha agora, aos 35 anos de idade, em uma boa faculdade de Nova York, a capital do mundo. Não dá aulas: trabalha na seleção de candidatos a uma vaga. Entrevista os candidatos, procura saber se têm o perfil para serem admitidos.

Não é um trabalho que o entusiasme muito, mas é o que tem.

Sobretudo, acima de todas as coisas, Jesse é um leitor voraz de boa literatura. Lê muito, demais, compulsivamente. Lê rapidamente – e consegue ler até mesmo caminhando pelas ruas de Nova York, rumo à lavanderia automática.

O filme abre com diversas tomadas de Jesse entrevistando candidatos a uma vaga na faculdade. As tomadas são curtas, a montagem é esperta – vemos o mesmo Jesse falando frases semelhantes para os candidatos. A roupa que usa muda mais que o discurso.

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Corta, e vemos Jesse caminhando carregando um grande saco de roupas sujas, enquanto com a outra mão segura o livro que vai lendo enquanto anda.

Na lavanderia, deixa o saco com as roupas em cima de um balcão, ao lado do livro, enquanto bota na máquina de lavar as moedas necessárias. Quando se vira para pegar o saco de roupas… no balcão está só o livro. Ele sai da lavanderia, vê um trombadinha correndo com todas, ou quase todas, as suas roupas. Tenta correr atrás do ladrão, mas o cara desaparece no meio da multidão.

Corta, e vemos Jesse em seu apartamento de classe média média, enquanto sua namorada vai dando o fora. A namorada de Jesse – de quem o espectador não ficará sabendo nada – está juntando seus pertences para dar o fora. Pega um livro e pergunta se é dele ou dela…

E aqui é impossível não lembrar o conselho que Harry-Billy Crystal dá aos amigos que estão para se casar, em When Harry Met Sally…, direção de Rob Reiner, argumento e roteiro de Nora Ephron: bote o nome em cada disco, em cada livro que comprar, porque isso vai facilitar enormemente a sua vida na hora da separação, e vai poupar uma grana preta em telefonemas e pagamento de advogados.

Jesse diz para a namorada que o livro é dele, mas ela pode levá-lo, se quiser.

(Não consigo deixar de lembrar das minhas duas experiências de fazer a divisão de discos e livros ao final dos dois primeiros casamentos. Elas não foram propriamente muito tranquilas.)

O professor de História chama Jesse para sua festa de aposentadoria

Pouco depois que a namorada se manda, Jesse recebe um telefonema de Ohio. Seu professor de História, Peter Hoberg (o papel do sempre ótimo Richard Jenkins, na foto abaixo), está se aposentando, após 37 anos de bons serviços prestados àquela universidade, e gostaria que Jesse, um de seus alunos favoritos, estivesse presente à festa de despedida. Na festa, Jesse – o maior mentiroso que Peter diz ter conhecido – poderia até fazer um discurso, falar bem do professor…

Há um pequenino detalhe nessa conversa telefônica que é revelador, interessante, rico. Quando Peter liga de Ohio, e tudo indica que professor e aluno não se falavam há muito tempo, o rapaz ainda está dormindo. O diálogo começa assim:

Voz ao telefone: – “Jesse Fisher?”

Jesse: – “Sim.”

Voz ao telefone: – “É o seu comunista preferido”.

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Jesse (identificando de pronto a voz, e surpreso): – “Professor Peter Hoberg?”

Voz ao telefone: – “Vá se foder. Eu não sou comunista.”

Delicioso, revelador detalhe. Claro que o professor Peter Hoberg não é comunista – mas na brincadeira já fica claro que é um liberal (no sentido político e americano do termo), um progressista, e que é chamado pelos conservadores, pela ala direita dos republicanos, de comunista.

Mas isso é apenas um detalhe. Vamos em frente.

Uma garota linda – o papel de Elizabeth Olsen – vai dar um nó na cabeça de Jesse

Jesse voltará – ao que tudo indica, pela primeira vez, desde que terminou a universidade e se mudou para aquilo que chama de a maior cidade do mundo – à sua terra natal.

É algo muito estranho voltar à sua terra natal muito tempo depois de dar as costas para ela, como eu fiz, por exemplo, quando tinha 16 anos de idade. Ou como fez, deixando a mesma cidade que eu, o grande Fernando Sabino. Em seu romance Encontro Marcado, ele usa uma expressão maravilhosa para descrever a sensação de voltar a uma Belo Horizonte que não há mais como a do passado: “Aqui outrora retumbaram hinos”.

Na sua primeira viagem de volta à terra natal, onde outrora retumbaram hinos, Jesse vai reencontrar os dois professores de que mais gostava, e que mais o influenciaram: o de História, o amigo Peter, e a de Literatura Inglesa, uma especialista no período romântico, Judith Fairfield (Allison Janney).

Vai também conhecer três jovens. Um, Nat (Zac Efron), é um total, absoluto maluco beleza, um doidão avoado, de bem com a vida. Outro, Dean (John Magaro), é um doido de verdade, um garoto que parece inteligente, adora ler, e lê os livros de que Jesse mais gosta, mas tem uma tendência fortíssima à depressão.

zzliberal6A terceira jovem que Jesse fica conhecendo é Zibby, uma garota de 19 anos de idade, inteligente, curiosa, fascinante, e de uma beleza faiscante, filha de um casal de amigos do professor Peter Hoberg.

Zibby vem na pele de Elizabeth Olsen, essa jovem atriz que me parece uma força da natureza, uma coisa seriíssima. Das muitas e muitas jovens atrizes de língua inglesa que me têm me fascinado nos últimos anos, Elizabeth Olsen é uma das mais impressionantes. Muito mais que a super hiper ultra badalada Jennifer Lawrence – talvez até por não ser tão super hiper ultra badalada como Jennifer Lawrence.

Elizabeth Olsen, para mim, só tem comparação com Ellen Page e Saoirse Ronan.

Elizabeth Olsen, perdão, a garota Zibby vai dar um nó na cabeça de Jesse.

É absolutamente deliciosa a seqüência em que ele, em Nova York, faz as contas num papel. Ele, 35, ela, 19. São 16 anos de diferença. Quando ele tinha 19, a idade dela agora, ela tinha 3. Quando ele tinha 16, ela tinha 0.

Uma garotinha jovem dos dias de hoje que gosta dessa coisa antiga, os suportes físicos

Quando se despedem após a primeira ida de Jesse a Ohio, para a festa de aposentadoria do professor Peter, a garotinha Libby o presenteia com um CD com algumas composições eruditas marcantes – Bach, Beethoven, Mozart. Peças mais do que conhecidas, como um dos Concertos de Brandenburgo, fazem Jesse ver Nova York de uma outra maneira.

As imagens de Jesse vendo Nova York de outra maneira porque agora está ouvindo no fone de ouvido obras dos grandes mestres são de imensa beleza – mas, na minha opinião, pouca lógica. Achei isso estranho: como pode um sujeito de 35 anos, formado em boa universidade, que trabalha em universidade, estar tomando conhecimento só agora de Bach, Beethoven, Mozart?

Na mesma despedida, a garotinha Zibby pede a Jesse que escreva para ela – a mão, em papel. E a partir daí os dois trocam diversas cartas. Cartas – não telefonemas, ou e-mails, ou torpedos, mas cartas, escritas a mão, em papel, posteriormente colocado no correio.

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Achei isso fascinante, essa coisa retrô vindo de uma garotinha inteligente, especial, de 19 anos de idade nesta década da graça do Senhor de 2010.

Me lembrei de Ruby Sparks – A Namorada Perfeita, daquele mesmo ano de 2012. Nela, o protagonista, um jovem escritor de sucesso, na Los Angeles de hoje, escreve não no computador, ou no laptop, mas numa antiquíssima, obsoleta máquina de escrever.

É verdade que, para o desenvolvimento da trama de Ruby Sparks, era necessário que o trabalho fosse feito em papel, suporte físico – e não na nuvem.

Neste Histórias de Amor, diferentemente de em Ruby Sparks, a correspondência entre Jesse em Nova York e Zibby em Ohio poderia perfeitamente se dar via computador. E aquela antologia de peças de Bach, Beethoven e Mozart e outros poderia perfeitamente ter sido entregue num pen drive – ou via nuvem.

Gostei dessa coisa de uma garotinha dos dias de hoje que gosta de suportes físicos – músicas em CD, palavras em papel.

Um delicioso diálogo sobre a grande literatura e os livros sobre vampiros

Não cabe, evidentemente, adiantar mais nada sobre a trama, sobre o que acontecerá entre Jesse e Zibby.

Mas é importante registrar que a discussão entre os dois a respeito dos livros sobre vampiros é deliciosa, fascinante. Ah, seria tão bom se muitos jovens americanos (ou  brasileiros, paquistaneses, bolivianos, ucranianos, etíopes, iranianos) vissem este filme e aproveitassem um pouco daquele diálogo…

É fundamental também notar que a visão que o autor-diretor Josh Radnor, aos 38 anos, demonstra ter sobre os professores de sua geração, as pessoas da minha geração, portanto, é bastante apavorante.

Peter Hoberg passou anos da vida querendo a aposentadoria – mas, quando ela finalmente chega, sente-se perdido, absolutamente perdido. Sei que isso acontece muito; sei muito bem que isso é extremamente comum. O tipo de sociedade que criamos acaba levando as pessoas a entender que, quando se aposentam, quando deixam de ter o papel social que tiveram, perdem o valor. Ficam sem saber o que fazer, deslocadas, infelizes.

Sei que isso é bem verdade – mas é uma verdade que me choca. Desde que tinha ali uns 26 anos, sou um fiel discípulo do mestre de Georges Moustaki que o ensinou sobre o direito à preguiça, e desde lá pelos 40 e poucos anos trabalhei mirando o dia em que não teria mais que botar os pés dentro de uma redação.

A tristeza do professor Peter Hoberg depois que se aposenta me deixa assustado, chocado.

A personagem da outra professora adorada por Jesse, a de Literatura, Judith Fairfield, é ainda mais triste, mais assustadora, mais chocante.

Embora, a rigor, seja importante que ela seja exatamente como é, porque é bastante a partir dela que Jesse aprende finalmente a lição de que a vida real é maior e mais importante do que os livros.

A professora Judith Fairfield faz lembrar bastante a Mrs. Robinson de A Primeira Noite de um Homem/The Graduate.

Há coisas que o passar das décadas não muda muito. A professora Judith Fairfield, nos anos 2010, é igualinha que nem a mulher que come o garotão Ben Braddock-Dustin Hoffman em The Graduate.

O autor-diretor Josh Radnor tem talento – e sorte. Que faça muitos filmes

Talvez a lembrança de Ben Braddock e Mrs. Robinson tenha vindo porque, ao ler sobre o garoto Josh Radnor no IMDb, logo que terminamos de ver seu segundo filme como autor-realizador, vi que ele estreou na Broadway em 2002 numa versão para o teatro de The Graduate. Mrs. Robinson, na peça em que ele fazia Ben Braddock, era interpretada por Kathleen Turner. Sujeito de sorte!

Contei a informação para Mary, e ela comentou que, claro, há algumas pessoas que nascem com o fiofó para a Lua.

zzliberal8Verdade. Woody Allen costuma dizer isso nos filmes dele, e também nas entrevistas: o pessoal da auto-ajuda que desculpe, mas, para a gente ser feliz no amor, é preciso de alguma sorte.

Josh Radnor tem talento. Parece conhecer aquela verdade clara de que quem fala de sua aldeia tem mais chances de ser universal. Parte deste filme surpreendentemente bom foi filmada no Kenyon College, em Ohio, a terra natal tanto do realizador quanto do seu protagonista. O rapaz estudou exatamente no Kenyon College – e lá ganhou o prêmio Paul Newman, organizado pelo departamento de teatro.

Tem talento, tem sorte. Que faça mais belos filmes.

Anotação em abril de 2014

Histórias de Amor/Liberal Arts

De Josh Radnor, EUA, 2012

Com Josh Radnor (Jesse Fisher), Elizabeth Olsen (Zibby), Richard Jenkins (Professor Peter Hoberg), Allison Janney (Professora Judith Fairfield), Elizabeth Reaser (Ana), John Magaro (Dean), Kate Burton (Susan), Robert Desiderio (David), Zac Efron (Nat), Kristen Bush (Leslie), Ali Ahn (Vanessa)

Argumento e roteiro Josh Radnor

Fotografia Seamus Tierney

Música Ben Toth

Montagem Michael R. Miller

Produção Strategic Motion Ventures, BCDF Pictures, Tom Sawyer Entertainment. DVD Califórnia Filmes.

Cor, 97 min

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Um Comentário

  1. Luana
    Postado em 21 abril 2017 às 4:07 am | Permalink

    Acabei de assistir ao filme, fui procurar mais informações e me deparo com esse texto que captou exatamente todos os sentimentos que tive durante as cenas e que ficaram voltando na minha cabeça. Acho que tenho um novo filme favorito.

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