Eu, Anna / I, Anna

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Nota: ★★½☆

Eu, Anna, é o primeiro longa-metragem de Barnaby Southcombe, um jovem nascido em Londres em 1972 que até então havia dirigido episódios de séries para a TV inglesa. Ele foi também o autor do roteiro, baseado em uma novela de Elsa Lewin.

Além de jovem e estreante, Barbaby Southcombe é ambicioso, pretensioso: ele diz que quis fazer em Eu, Anna, um film noir que se passa nos dias de hoje mas que parecesse atemporal, e suas influências foram os filmes franceses dos anos 70 e 80, Jean-Pierre Melville, Claude Sautet.

As afirmações dele estão em um breve making of que acompanha o filme no DVD lançado no Brasil pela Imovision.

Para produzir seu primeiro longa, teve dinheiro de três países. O filme é uma co-produção Inglaterra-Alemanha-França. Embora a ação se passe toda em Londres, parte das filmagens foi em Hamburgo.

Não sei se Melville ou Sautet assinariam embaixo do filme, mas o rapaz mostra talento. Com o tempo, poderá fazer bons filmes.

Vários personagens são apresentados ao mesmo tempo ao espectador

Eu, Anna, abre mostrando diferentes personagens, em ações paralelas. Me pareceu que o roteiro força um pouquinho a barra para que as relações entre os vários personagens não sejam muito claras, e a câmara se mostra um tanto estilosa demais.

zzanna3Anna (o papel da grande Charlotte Rampling) é a primeira a aparecer. Está numa cabine telefônica, dirigindo-se a Simon – veremos depois que Simon é seu ex-marido. Pergunta se ela poderia ir passar o fim de semana lá, com Emmy e Chiara. Em seguida diz que compreende a resposta negativa, tudo bem.

Muito rapidamente, o desempenho formidável de Charlotte Rampling mostra para o espectador que Anna é uma mulher muito solitária. Não com muita vontade ou alegria, ela se força a usar um belo vestido vermelho para ir a uma reunião de solteiros – pobres seres solitários à procura do príncipe encantado/princesa encantadora, ou, se isso não for possível, ao menos o parceiro/a para uma trepada ocasional.

Naquela noite, Anna conhece George Stone (Ralph Brown).

Vemos então um novo personagem, um sujeito que observa que começam a cair pingos d’água da lâmpada de sua cozinha. O sujeito sai de casa, sobe as escadas até o andar de cima, bate na porta do apartamento exatamente acima do seu. Não atendem; ele percebe que a porta está aberta, entra, chamando por alguém. Não há resposta. Ele vê um corpo no chão.

zzanna2Novo corte, novo personagem: um homem de meia-idade dirige pelas ruas tarde da noite, expressão de exaustão no rosto, uma exaustão de quem é insone. Um chamado no rádio avisa de uma morte no Ink Building, pede à viatura mais próxima que vá para lá. O homem exausto está naquele momento, por pura coincidência, perto daquele prédio, um grande arranha-céu residencial aparentemente muito conhecido, e então é o primeiro policial a chegar ao local do crime: chama-se Bernie Reid (o papel de Gabriel Byrne), e é inspetor-chefe da polícia.

Bernie faz o primeiro interrogatório do vizinho que havia descoberto o corpo. O homem fala da água caindo, alguém havia deixado uma torneira aberta no apartamento de cima.

Quando outros policiais chegam e assumem as tarefas, Bernie deixa o trabalho para os subordinados, e desce até o térreo.

No momento em que elevador pára no térreo, Bernie tinha se encostado na parede, e dormitava. Diante dele está uma mulher sorridente, dizendo que ali no elevador estava o que ela havia esquecido – um guarda-chuva colorido. É Anna.

Ela pega o guarda-chuva, e se dirige a uma cabine telefônica em frente ao prédio. Bernie sai do prédio depois dela e fica observando a mulher. Percebe que, ao desligar o telefone, ela esquece o guarda-chuva colorido na cabine.

Um garoto com hematomas no rosto havia ido à casa do homem assassinado

Surge um novo personagem, um adolescente, Stevie (Max Deacon). Ele chega tardíssimo da noite em casa, e sua mãe, Janet (Jodhi May) nota que ele tem hematomas no rosto. A mãe pergunta onde ele havia estado, se ele estava na casa de George. Vai levar algum tempo para que o espectador seja informado de que Janet havia sido casada com George Stone, o homem que Anna conhera no encontro de solteiros solitários e que naquela mesma noite seria assassinado. O garoto Stevie é filho de um casamento anterior de Janet, mas, apesar das proibições da mãe, continua frequentando a casa do ex-padrasto.

Anna sente uma dor no braço direito. Vai a um hospital, o médico identifica uma fratura, e coloca uma faixa bem apertada no braço.

Veremos Anna receber a filha, Emmy (Hayley Atwell), e a neta, Chiara.

Por uma coincidência, o inspetor-chefe Bernie voltará a encontrar Anna.

O diretor é filho da atriz principal, a fascinante Charlotte Rampling

Esse relato longo não avança nos segredos do filme: os fatos descritos aí acima acontem nos primeiros 20 minutos do filme.

zzanna5Grandes atores fazem toda a diferença. Charlotte Rampling como a mulher madura solitária e Gabriel Byrne como o inspetor-chefe separado da mulher, vivendo na impersonalidade de um belo hotel e incapaz de pegar no sono estão excelentes. São belíssimas suas atuações.

A trama é interessante, fisga o espectador de tal forma que dá até para esquecer os maneirismos da câmara e os momentos iniciais que parecem ter sido escritos daquela forma mais para confundir do que para explicar.

Há grande reviravolta, e o final é surpreendente.

Não sabia disso enquanto via o filme: Barnaby Southcombe, o roteirista e diretor, é filho de Charlotte Rampling, essa atriz fascinante. Me lembrei, quando vi essa informação no IMDb, de Gena Rowlands, outra atriz maravilhosa mais ou menos da mesma geração de Charlotte, que em 2004 foi dirigida pelo filho, Nick Cassavetes, em Diário de uma Paixão/The Notebook.

Deve ser uma experiênia bastante estranha para uma grande atriz ser dirigida pelo filho. Deve haver um misto de ansiedade e torcida para que tudo dê certo.

Eu, Anna, foi apresentado nos festivais de Xangai, Vancouver e Viareggio. Ganhou um prêmio em cada um destes dois últimos.

Não é um grande filme, nem me parece propriamente noir. Mas, repito, a trama fisga o espectador – e as atuações de Charlotte Rampling e Gabriel Byrne são excelentes.

Anotação em março de 2014

Eu, Anna/I, Anna

De Barnaby Southcombe, Inglaterra-Alemanha-França , 2012.

Com Charlotte Rampling (Anna Welles), Gabriel Byrne (Bernie Reid),

e Eddie Marsan (Kevin Franks), Hayley Atwell (Emmy), Jodhi May (Janet Stone), Ralph Brown (George Stone), Max Deacon (Stevie), Honor Blackman (Joan), Jumayn Hunter (Adz)

Roteiro Barnaby Southcombe

Baseado em novela de Elsa Lewin

Fotografia Ben Smithard

Música K.I.D.

Montagem Peter Boyle

Produção Embargo Films, Riva Filmproduktion, Arsam International. DVD Imovision.

Cor, 93 min

**1/2

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Ginger & Rosa em 22 agosto 2014 às 11:33 pm

    […] excelente Timothy Spall, que interpreta o outro Mark, do casal gay de amigos dos pais de Ginger, e Jodhi May, que faz Anoushka, a mãe de […]

  2. […] podem dar. O perigo vem na bela forma de uma jovem atriz iniciante, mas muito ambiciosa, Angela (Hayley Atwell). Ian usa os belos carros que o irmão Terry conserta na oficina mecânica e mais o papo de que é […]

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