Diana

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Nota: ★★★☆

Diana, que narra os dois últimos anos de vida da princesa mais amada das últimas muitas décadas, é um belo filme. Belo e triste. Muito belo, muito triste.

Não poderia ser diferente. Afinal, a vida de Diana Spencer, princesa de Gales, é de uma beleza tão grande quanto a dela mesma, de uma grandeza tão grande quanto a dela mesma. A vida de Diana é extraordinária, extraordinariamente bela – e triste.

O roteiro, assinado por Stephen Jeffreys, baseia-se no livro Diana: Her Last Love, de Kate Snell. Enquanto via o filme, acreditei que o livro é sério, baseado em pesquisa acurada.

Vida triste, a dessa mulher em tudo por tudo extraordinária. Por três vezes, no filme, se diz que Diana era a mulher mais famosa do mundo, e isso é perfeitamente verdadeiro. Nos anos 1990, a época em que se passa a ação do filme, a princesa Diana era a mulher mais famosa do mundo. Não tinha Madonna ou Meryl Streep que a suplantasse.

Candle in the Wind.

zzdiana2Depois que o filme terminou, fiquei com duas canções na cabeça. Está certo, é verdade: vi o filme num dia triste, muito triste – tentava mudar de estação vendo um bom filme, mas estava triste, e a tristeza do filme, da vida de Diana, se somou à minha própria tristeza pessoal. Mas o fato é que fiquei com duas canções na cabeça. As duas de autoria de súditos da Família Real britânica. Uma tem tudo a ver com Diana, “Candle in the Wind”, de Elton John e Bernie Taupin. A outra é uma velhíssima canção dos Stones, “You can’t always get what you want”.

A canção está no disco Let it Bleed, de 1969. Diana Spencer tinha oito anos de idade quando os Stones fizeram o disco que tem essa música.

Fiquei com esse verso na cabeça por muito tempo – you can’t always get what you want.

É uma verdade universal: você não pode conseguir sempre o que quer.

Lá pelo meio do filme, Diana – interpretada, muito bem, por Naomi Watts – diz algo assim: “Eu sou uma princesa: eu sempre consigo o que eu quero”. O tom é brincalhão, irônico – mas, por trás da brincadeira, da ironia, há uma dura tristeza.

O filme mostra que Diana, essa mulher esplendorosa, maravilhosa, admirável sob qualquer ponto de vista, jamais conseguiu o que queria.

Uma mulher extremamente solitária, prisioneira das regras do Palácio

Começa com um plano-seqüência: a câmara vai seguindo Diana-Naomi Watts através de vários aposentos de uma gigantesca suíte de um hotel de luxo. Carrega um telefone na mão, que acaba deixando em um dos aposentos. Encontra-se com um grupo de pessoas – seu namorado, o milionário Dodi Fayed (Cas Anvar), e vários seguranças -, todos deixam a suíte, entram no elevador.

Um letreiro já havia informado: “Paris, 31 de agosto de 1997”. A data em que a princesa Diana, ao sair do hotel em Paris no início da madrugada, morreu em um acidente de carro.

E então a narrativa volta dois anos atrás, para, portanto, 1995. Um letreiro informa que Diana, a princesa de Gales, já estava, em 1995, há quase três anos formalmente separada de seu marido, o príncipe Charles, o herdeiro do trono britânico.

zzdiana0O retrato que se traça de Diana é o de uma mulher tremendamente solitária. Vive em um palácio, tem um séquito de auxiliares, participa de atividades de filantropia, visita hospitais, escolas – mas é absolutamente solitária. O Palácio – ela diz, sobre a rainha Elizabeth II – só permite que ela veja seus dois filhos uma vez a cada mês, ou algo assim. E ela sente tremendamente a falta deles.

Só tem duas amigas: Sonia (Juliet Stevenson) e  Oonagh Toffolo (Geraldine James).

Quando o marido de Oonagh tem um problema cardíaco e é levado para um hospital, Diana vai visitá-lo. Conhece, então, o cirurgião que operou o marido da amiga. É um jovem e competente médico paquistanês, Hasnat Khan (Naveen Andrews, nas fotos). Apaixona-se por ele – loucamente, perdidamente.

Será um romance extremamente complicado, difícil. Ela é a mulher mais famosa do mundo, todos os seus passos são seguidos por repórteres e paparazzi. Ele quer privacidade, nenhum tipo de publicidade.

É uma história de amor triste, trágica. Bela, triste, trágica.

Dodi Fayed é personagem secundário. O médico Hasnat Khan é o protagonista

No final dos 113 minutos de filme, volta-se, num belo achado do roteirista Stephen Jeffreys, exatamente para a sequência que abre a narrativa. No iniciozinho, a câmara seguia Diana pelos muitos aposentos da suíte do hotel de luxo, mostrando-a de costas. Ao final, vemos a mesma série de movimentos de Diana, de novo em um plano-seqüência,  desta vez com a câmara colocada adiante dela, mostrando-a de frente. E agora o espectador já sabe como e por que a princesa andava com aquele telefone na mão, antes de sair para o passeio que a mataria, aos 36 anos de idade.

zzdiana3Nunca tinha ouvido falar nesse cirurgião paquistanês Hasnat Khan. Lembrava, claro, do nome de Dodi Fayed, o muçulmano podre de rico no carro de quem a princesa Diana teve o acidente fatal em Paris. No filme, Dodi Fayed é um coadjuvante, ocupa um lugar ínfimo. Toda a trama se concentra na paixão de Diana pelo médico paquistanês, e, secundariamente, em seu trabalho como embaixadora de boa vontade mundo afora, em especial sua campanha contra as minas terrestres, iniciada numa viagem a Angola. (Com a guerra civil que arrasou Angola a partir de 1975, o país foi um recordista de vítimas de minas terrestres, e o filme mostra um pouco essa realidade.)

Após o final da narrativa e antes dos créditos finais, como é comum em cinebiografias, letreiros dão informações sobre acontecimentos posteriores ao mostrado ao longo do filme. “Desde a missão de Diana a Angola, ferimentos provocados por minas terrestres caíram mais de 60%. Três meses após a morte de Diana, o Tratado de Ottawa, banindo minas terrestres antipessoais, foi aberto para assinaturas. Até agora, 161 países já o assinaram.”

O filme se concentrou nos fatos menos divulgados, paixão de Diana pelo médico

Mary e eu gostamos bastante do filme. Achamos que ele é bem realizado em todos os quesitos. O roteiro é bom, atraente, Naomi Watts nos pareceu muito bem – e, afinal, a história e o personagem central são fascinantes.

Achamos muito boa a opção dos realizadores de não focalizar o processo longo e doloroso de separação de Diana e Charles. Esses fatos são muito conhecidos, todo o envolvimento do príncipe herdeiro com sua eterna paixão, Camilla Parker-Bowles foi amplamente divulgado pela imprensa.

zzdiana4Em outra boa sacada do roteiro, vemos, ainda no início da narrativa, Diana falando alto, sozinha em seus aposentados majestosos e solitários, a frase: “Nosso casamento tinha três pessoas, era gente demais”. Só quando o filme está com exatos 30 minutos o espectador percebe que Diana estava ensaiando a entrevista bombástica que daria no dia 20 de novembro de 1995 à BBC, pela primeira vez comentando abertamente os motivos da separação.

Então, as referências ao passado, ao casamento com Charles e a separação, são poucas, en passant. Fala-se bastante da saudade que ela sente dos filhos, da vontade que ela tem de vê-los mais – no que é impedida pelo Palácio.

Mary e eu achamos ótima decisão de concentrar a narrativa do filme nesse romance com o médico paquistanês, algo muitíssimo menos conhecido da vida de Diana, uma parte menos divulgada – assim como seu empenho na campanha pelo tratado contra as minas terrestres.

Haveria, no ódio destilado contra o filme, a sombra tenebrosa do preconceito?

Assim, me assustei ao ler, depois de começar esta anotação, que o filme foi massacrado pela imensa maior parte da crítica.

No IMDb, afirma-se que a própria Naomi Watts descreveu o filme como “um navio afundando”.

O site Rotten Tomatoes diz que, em 95 críticas, o filme teve a aprovação de apenas 8%, com uma cotação média de 3.5 em 10. Segundo o site, Naomi Watts se esforça, mas Diana enterra os esforços dela sob um roteiro inferior e uma direção desastrada.

O crítico do jornal The Mirror definiu o filme como “um esforço barato e sem graça que parece uma matiné do Channel 5 durante a semana”, e que “Wesley Snipes com uma peruca loura seria mais convincente”. Cravou 1 estrela em 5 para o filme, a mesma cotação do muitíssimo mais respeitado Guardian, que chamou o filme de “cinema de batida de carro”.

Estranhíssimo.

Tudo bem – há todo tipo de opinião, é natural, é absolutamente normal haver diferentes juízos a respeito de um filme. Outro dia mesmo vimos um filme que tem sido adorado pelas pessoas, em especial as muito jovens – A Menina Que Roubava Livros – e achamos uma porcaria danada.  Mas, mesmo assim, mesmo sabendo que é normal alguém adorar algo que outro acha um horror, fico achando que Mary e eu vimos um filme completamente diferente desse aí que esses críticos viram.

Também no IMDb, um leitor que se identifica pelo pseudônimo de NotLilly escreveu o seguinte: “Espero estar errado, mas vou perguntar de qualquer jeito. Quanto do ódio contra este filme é por causa do filme e quanto é pelo fato de que Diana teve um caso com um muçulmano paquistanês? Pode ser que haja um sutil racismo aí e ninguém queira dizer isso claramente. Se o filme fosse sobre um caso de amor com um nome tipo Harold Kirk interpretado por (insira aí o nome de um branco de cerca de 40 anos), teria havido tanto escândalo?”

zzdiana5Achei muito interessante esse questionamento. Não sei se é o caso – mas que é um questionamento que merece ser feito, acho que é.

Eu, pessoalmente, tinha adorado ver na tela a proximidade da pele branquinha de Naomi Watts com a pele bem escura do ator Naveen Andrews, que interpreta o dr. Hasnat Khan. Tenho fascinação por relações afetivas de pessoas de cores de pele diferentes; tenho fascinação por sociedades que souberam se miscigenar ao longo dos séculos.

E achei bonito que Diana, essa pessoa que aprendi a admirar, tivesse se apaixonado por um paquistanês de pele bem escura. Achei bonito saber que Diana não dava a menor importância para a cor da pele das pessoas – mais um ponto para ela.

Por admirar desde muito toda a cultura inglesa, de uma maneira geral, e por admirar especificamente essa princesa triste, me comovi muito com a morte dela. Me lembro de ter ficado diante da TV durante horas, acompanhando a transmissão ao vivo da cerimônia religiosa realizada na Westminster Abbey, que eu havia visitado uns anos antes em estado de adoração.

Elton John sentou-se ao piano e cantou “Candle in the wind”, com uma nova letra composta por seu parceiro de sempre Bernie Taupin, adaptando os versos originais feitos para Marilyn Monroe para uma homenagem à princesa morta. Dizia-se que Diana gostava de Elton John, e os dois, se não eram propriamente amigos íntimos, eram conhecidos que se admiravam.

Só mesmo na Inglaterra poderia haver um acontecimento como aquele. Só no país de mais longeva democracia do mundo, o país de maior respeito às liberdades individuais, e no entanto tão cioso das diferenças entre as classes sociais. Só na Inglaterra poderia acontecer de, no funeral de uma princesa adorada pela imensa maioria do povo – mas não amada e sequer respeitada pelo marido príncipe herdeiro, nem pela rainha mãe dele –, um cantor de rock, homossexual assumidérrimo, cantar, na Basílica de São Pedro da religião anglicana, um elogio que havia sido inicialmente feito para uma estrela de cinema que foi o maior mito sexual do século.

Não me lembro se chorei, ao ver na TV, no momento em que aquilo acontecia, Elton John cantar a segunda versão de “Candle in the Wind” na Westminster Abbey, mas seguramente travei de emoção. Travo de emoção até hoje ao lembrar do momento. E não sou nem inglês nem monarquista.

É preciso registrar que este Diana e A Rainha, que Stephen Frears lançou em 2006, completam-se à perfeição, como goiabada e queijo, arroz e feijão. Em A Rainha, o grande Frears mostra como foi necessária a intervenção do então jovem primeiro-ministro trabalhista Tony Blair para o Palácio de Buckingham – a rainha Elizabeth II – saísse de sua postura de não dar qualquer importância à morte da princesa amadíssima pelos britânicos. Com jeito, cuidado, mas também uma dose certa de firmeza, o político trabalhista evitou que se agravasse um mal-estar que se generalizava contra a família real naqueles dias que se seguiram à morte de Diana.

O diretor Hirschbiegel fez dois outros filmes extraordinários, grandes

Há filmes demais para se ver e rever, há trocentos filmes importantes que eu deveria rever para anotar e botar neste site, mas, interessante, tenho desde já vontade de rever Diana – até para verificar se as críticas pesadíssimas feitas a ele têm alguma justificativa. Ou se foi minha admiração pela personagem que me fez gostar tanto do filme de Oliver Hirschbiegel.

Quem mesmo?

zzdiana6Não lembrava do nome, mas, ao ver agora que sua filmografia inclui A Queda! As Últimas Horas de Hitler (2004) e Rastros de Justiça/Five Minutes of Heaven (2009), sinto grande alívio. O sujeito que fez esses dois filmes aí – extraordinários, grandes – tem que ser respeitado.

Não dá para saber se tanto crítico meteu o pau em Diana por algum resquício de racismo, como sugere o leitor do IMDb. Mas o fato é o seguinte: Oliver Hirschbiegel sabe fazer bom cinema.

Na Time Out New York, o crítico Joshua Rothkopf  deu a Diana 3 estrelas em 5, disse que a atuação de Naomi Watts é extraordinária e classificou o filme como “uma cinebiografia contida que fornece a sua personagem a privacidade romântica que a vida lhe negou”.

É. Mary e eu vimos o mesmo filme que o cara da Time Out New York viu.

Anotação em setembro de 2014

Diana

De Oliver Hirschbiegel, Inglaterra-França-Suécia-Bélgica, 2013

Com Naomi Watts (Princesa Diana), Naveen Andrews (Dr. Hasnat Khan),

e Douglas Hodge (Paul Burrell), Juliet Stevenson (Sonia), Charles Edwards (Patrick Jephson), Geraldine James (Oonagh Toffolo), Daniel Pirrie (Jason Fraser), Cas Anvar (Dodi Fayed)

Roteiro Stephen Jeffreys

Baseado no livro Diana: Her last Love, de Kate Snell

Fotografia Rainer Klausmann

Música Keefus Ciancia e David Holmes

Montagem Hans Funck

Produção Ecosse Films, Le Pacte, Film i Väst,

Filmgate Films, Scope Pictures, MP Film.

Cor, 113 min

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