Bronco Billy

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Nota: ★★½☆

Em 1980, Clint Eastwood resolveu cometer uma comédia. Bronco Billy, seu sétimo filme como diretor, é uma homenagem ao Velho Oeste Selvagem, à paixão dos americanos pelo Velho Oeste, suas lendas – mas acaba também sendo uma homenagem ao western, o gênero que tornou Clint Eastwood um dos atores mais conhecidos do cinema em todo o mundo.

Tinha uma lembrança muito agradável do filme, que tinha visto na época do lançamento, em 1981. Ao revê-lo agora, a impressão não foi tão positiva assim. Claro, tem qualidades, mas tem também coisas que me pareceram bobas demais.

É a história de uma trupe circense que percorre as cidadezinhas do interiorzão bravo dos Estados Unidos fazendo apresentações de tipos que fazem lembrar as histórias do Wild West. O líder do grupo é Bronco Billy (o papel, claro, de Clint Eastwood), o gatilho mais rápido do Oeste – e ele de fato é competente. Entra no picadeiro com seu belo cavalo, dá várias voltas pelo espaço fazendo todos os tipos de piruetas. Depois passa a atirar nos pratos que sua assistente, necessariamente uma moça bonita de shortinho e coxas à mostra para alegrar os pais da meninada, joga para o alto, enquanto ele continua cavalgando.

zzbronco2O ápice do show é de fato sensacional. A assistente é colocada numa grande roda, e a roda passa a girar. Em torno da moça há balões coloridos. Bronco Billy atira nos balões, enquanto a roda está girando – e de olhos vendados! Finalmente, lança uma faca para acertar o balão colocado entre as pernas da moça!

A platéia vai à loucura. A criançada fica embasbacada, de queixo caído.

Há uma dupla de índios, o chefe Grande Águia (Dan Vadis) e sua mulher Lorraine Água Corrente (Sierra Pecheur). O chefe Grande Águia apresenta um número com cobras, enquanto Água Corrente bate um tambor. No primeiro espetáculo mostrado no filme, a cascaval morde o pobre índio!

Há um rapaz bom de laço, um cowboy que faz exibições com uma corda. Chama-se Leonard James (Sam Bottoms), e seu número também deixa as crianças encantadas.

Há um assistente, um faz-tudo, que perdeu uma das mãos, e usa um gancho parecido com o do Capitão Gancho do desenho de Walt Disney, Lefty LeBow (Bill McKinney).

E há o mestre de cerimônias, o apresentador, Doc Lynch – interpretado pelo excelente Scatman Crothers, o negrão careca de boca grande e dentes enormes como sua simpatia cativante, que teve um papel inesquecível em O Iluminado/The Shining, de Stanley Kubrick.

Bronco Billy não vê o que faz como um trabalho, mas uma missão, um Evangelho

Ao longo da narrativa, vamos conhecendo alguns detalhes do passado desse bando de gente improvável, um tanto desajustada, um tanto à margem do mundo. Alguns já tiveram problemas com a lei, outros com a cachaça. São como que personagens parecem saídos do Exército Brancaleone do filme de Mario Monicelli – assim uma mistura de Exército Brancaleone com a Caravana Rolidei do espetacular Bye, Bye, Brasil de Cacá Diegues.

Aliás, de uma maneira geral, Bronco Billy faz lembrar Bye, Bye, Brasil. Ele poderia perfeitamente se chamar Bye, Bye, Wild West.

zzbronco3O tal Bronco Billy, o personagem, é uma figuraça. Todos ali são figuraças, mas Bronco Billy é o mais fascinante. É um sujeito determinado, resoluto, decidido. Está convencido de que tem uma grande missão neste mundo de Deus e o diabo: a de alegrar as crianças do interior de seu país com seu show, ao mesmo tempo em que mantém vivas as tradições do Velho Oeste, tão caras ao espírito americano.

O circo, o espetáculo, as apresentações, aquilo não é propriamente um trabalho – é uma missão, um Evangelho a ser propagado.

Dinheiro, propriamente, os espetáculos não rendem. O que entra na bilheteria é usado para a subsistência, a sobrevivência. E Bronco Billy se enfurece quando, lá pelas tantas, Doc Lynch, em nome de toda a turma, sugere que seria bom se todos recebessem parte dos salários dos quais não viam o cheiro havia uns seis meses. Como assim, dinheiro?

De repente aparece na história Antoinette Lily. Aí tudo piora

Bronco Billy é um ser que acredita, um believer, um otimista, a força de vontade, a determinação em forma de gente. Às crianças, pede  que façam direito suas orações diariamente, e sempre obedeçam aos pais.

E não abre mão de fazer apresentações gratuitas em orfanatos e hospitais.

Todos os membros do grupo têm admiração e respeito imensos pelo seu líder, seu chefe, seu guia. Alguns consideram que ele salvou suas vidas. E, entre todos eles, há um belo clima de companheirismo, de solidariedade – nunca de competição.

O filme todo é um pouco como o personagem que lhe dá o título: bem intencionadíssimo, believer, otimista – mas tanto, tanto, que chega a ponto de roçar no piegas, no sentimentalismo, na ingenuidade.

Se fosse só isso, não haveria problema algum. O problema maior do filme, me pareceu nesta revisão, é a personagem feminina que aparece de repente na história, Antoinette Lily, e a atriz que a interpreta, Sondra Locke.

Os caminhos de Bronco Billy e Antoinette Lily se cruzam numa das pequeninas cidades perdidas no interiorzão de Iowa (ou seria Idaho? whatever – dá mais ou menos na mesma). Billy vai a uma repartição pública para pegar uma autorização para montar a tenda, o circo. Miss Lily está lá naquele mesmo momento para obter uma licença para se casar. Billy observa as pernas da moça e gosta do que vê.

Saberemos com o tempo que Miss Lily é a herdeira de uma fortuna gigantesca deixada pelo pai, um milionário de Nova York. No testamento, o pai havia estipulado que, para ela herdar tudo, teria que se casar antes de completar 30 anos – ou então tudo iria para a segunda esposa dele, Irene (Beverlee McKinsey).

E então Miss Lily resolveu se casar com (o melhor seria dizer contra) John Arlington (Geoffrey Lewis), um velho conhecido, que está precisando desesperadamente de dinheiro.

Um casamento de pura conveniência. Certo, isso existe mesmo. Mas o espectador seguramente se perguntará: precisava ser exatamente com aquele babaca, aquele idiota? Sim, porque o tal John Arlington é um idiota, um paspalho – e o ator que o interpreta, o tal Geoffrey Lewis, exagera demais na caricatura da caricatura da caricatura.

Sondra Locke era a sra. Clint Eastwood na época. Fizeram seis filmes juntos

Tudo, no casal de Nova York que resolveu (o espectador nunca vai saber por que) se casar nos cafundós do interior de um estado do outro lado do país, é caricato, exageradamente caricato.

zzbronco8Dá um pouco de vergonha ver Sondra Locke naquela caricatura.

Aliás, a atriz foi indicada para o Framboesa de Ouro de pior atriz do ano.

Acontece que Sondra Locke era, naquela época, a sra. Clint Eastwood.

Bem, ela não foi a sra. Clint Eastwood de papel passado. Clint é um homem de muitos filmes, muitas mulheres e muitos filhos. Esposas, assim, no papel, foram só duas. Filhos, teve oito, de seis mulheres diferentes. Com Sondra Locke, viveu de 1975 a 1989. Não tiveram filhos, mas fizeram seis filmes juntos: Josey Wales – O Fora da Lei (1976), Rota Suicida (1977), Doido para Brigar… Louco para Amar (1978), Punhos de Aço – Um Lutador de Rua (1980), Bronco Billy (1980) e Impacto Fulminante (1983).

Depois do fim do casamento com Clint Eastwood, a carreira de Sondra Locke se apagou.

“Se, como diretor, eu jamais quis dizer alguma, você encontra o que quis dizer em Bronco Billy.”

Todos os filmes de e muitos com Clint Eastwood são produzidos pela Malpaso Company, a empresa criada por ele. Bronco Billy, no entanto, é uma exceção – não tem o nome Malpaso nos créditos. Isso se deve ao fato de que, na época, o diretor estava se divorciando de Maggie Johnson, que até então era sócia da companhia. Para evitar que a ex-mulher ficasse com parte dos lucros do filme, a produção coube a uma empresa criada por um colega de Clint na Malpaso, Robert Daley.

Não que o filme tenha sido um grande sucesso na bilheteria. Não foi. Feito com orçamento pequeno – para um filme de Clint Eastwood –, rendeu cinco vezes o que custou. Pouco, segundo o diretor.

zzbronco7Várias canções country aparecem na gostosa trilha sonora, cantadas por grandes nomes do gênero na época, como Merle Haggard, e mais Steve dorff e Snuff Garrett. Como se sabe, não é propriamente o estilo mais querido do diretor, um sujeito que sempre teve ligações afetivas fortes com o jazz. Mas, versátil e seguro de si, Clint gravou para a trilha sonora um dueto com Merle Haggard, “Barroom Buddies”. E convidou o próprio cantor para aparecer tocando e cantando numa sequência em que a trupe toda vai para um bar de uma das cidadezinhas em que se apresentam – e onde, como é inevitável, há uma grande pancadaria envolvendo literalmente todos os bebuns presentes ao local.

Merle Haggard saiu-se bem em sua participação no filme. No meio da briga, o bar sendo literalmente quebrado, ele diz ao microfone: “Vamos fazer um rápido intervalo e já voltamos”.

Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4 ao filme: “Agradável fábula sobre um herói caubói que dirige um espetáculo sobre o Oeste Selvagem e a mimada herdeira que se une ao seu grupo para escapar da realidade. O personagem de rica-porcaria de Locke é um tanto difícil de aguentar, mas nem ela, nem algumas subtramas supérfluas tira o charme deste filme”.

Às vezes Maltin acerta na mosca. É bem isso aí.

Há indicações de que Clint Eastwood tem especial apreço por esse filme singelo, puro como água de uma fonte das montanhas de Montana. Ele já afirmou que é um dos seus favoritos. E, a uma publicação francesa (que o IMDb não identifica, nem especifica a época), ele disse: “É um tema antiquado, provavelmente antiquado demais, já que o filme não deu certo como esperávamos. Mas se, como diretor, eu jamais quis dizer alguma, você encontra o que quis dizer em Bronco Billy.”

zzbronco9Uma frase de efeito, uma boutade, uma provocação. O realizador diria muitas coisas graves, sérias, importantes, nos diversos excepcionais filmes que realizaria em especial a partir de Os Imperdoáveis (1992). Só para dar uns poucos exemplos, criticou a corrupção que vem com o poder, em Poder Absoluto (1997), A Troca (2008) e J. Edgar (2011); defendeu o direito à eutanásia, em Menina de Ouro (2004); atacou a pena de morte, em Crime Verdadeiro (1999) e Dívida de Sangue (2002); bateu de frente em todo tipo de racismo e xenofobia em Gran Torino (2008) e Invictus (2009). E, em praticamente todos eles, talvez para expiar suas próprias culpas, insistiu na tecla de que pai que presta é pai presente, próximo dos filhos.

A verdade é que a declaração de amor por Bronco Billy pode ser (e é) uma frase de efeito, um exagero, mas deve ser absolutamente autêntica. É um artista que gosta de coisas simples, sem luxos, sem muitas glórias – como seus personagens mambembes, brancaleônicos, mas boa gente, de coração grande, deste filme sentimental.

Grande Clint Eastwood.

Anotação em agosto de 2014

Bronco Billy

De Clint Eastwood, EUA, 1980

Com Clint Eastwood (Bronco Billy), Sondra Locke (Antoinette Lily), Geoffrey Lewis (John Arlington), Sam Bottoms (Leonard James), Scatman Crothers (Doc Lynch), Bill McKinney (Lefty LeBow), Dan Vadis (Chief Big Eagle), Sierra Pecheur (Lorraine Running Water), Tanya Russell (Doris Duke), William Prince (Edgar Lipton), Walter Barnes (xerife Dix), Beverlee McKinsey (Irene Lily), Woodrow Parfrey (Dr. Canterbury)

Argumento e roteiro Dennis Hackin

Fotografia David Worth

Música Snuff Garrett

Montagem Ferris Webster e Joel Cox

Produção Warner Bros. e Second Street Films. DVD Warner.

Cor, 119 min

R, **1/2

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  2. […] episódio de Spielberg se passa em uma casa de repouso, um asilo de velhinhos. O maravilhoso Scatman Crothers, que fez o inesquecível empregado do hotel que recebe o personagem interpretado por Jack Nicholson […]

  3. […] de Clint Eastwood, ele também um dos sujeitos mais absolutamente apaixonados pelas Americana: Bronco Billy (1980), uma comedinha road movie que é uma declaração de absoluta paixão pelo Velho Oeste e […]

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