Bonequinha de Luxo / Breakfast at Tiffany’s

zztiffany1

Nota: ★☆☆☆

Breakfast at Tiffany’s, no Brasil Bonequinha de Luxo é um dos filmes mais adorados da história. É um cult, um clássico. Teve 5 indicações ao Oscar, levou 2: no total, foram 15 prêmios, fora outras 8 indicações. Está nos livros 500 Must-See Movies e 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer. Os guias de filme são pródigos em elogios.

Reúne um monte de grandes nomes. Audrey Hepburn, para começar, é claro. O grande Blake Edwards, diretor por quem tenho o maior respeito. Truman Capote, o autor da noveleta que deu origem ao filme. Henry Mancini, o autor de belíssimas trilhas sonoras, que musicou diversos filmes de Blake Edwards. Johnny Mercer, o extraordinário letrista de tantos clássicos da Grande Música Americana, autor da letra da canção “Moon River”, aquela maravilha. George Axelrod, o autor do roteiro, escritor e roteirista de primeiro time, autor da peça teatral que resultou em O Pecado Mora ao Lado, entre várias obras importantes.

“Filme charmoso”, “detalhes datados não diminuem a comédia fina”

zztiffany2Vamos às opiniões dos outros. Começo pelo sempre sintético Leonard Maltin, que dá 3.5 estrelas em 4: “Filme charmoso a partir da história de Trumam Capote, com Hepburn como Holly Golightly, garota de cidade pequena que fica chique em Nova York. Detalhes datados não diminuem a comédia fina e o romance. Roteiro de George Axelrod. Vencedor do Oscar de trilha sonora (Henry Mancini) e canção, ‘Moon River’ (Mancini e Johnny Mercer).”

O CineBooks’ Motion Picture Guide Review deu 4 estrelas em 5: “A novela de Truman Capote ganha vida gloriosamente nas telas com Audrey Hepburn saltitando através do filme no papel da sempre charmosa Holly Golightly, que insiste em viver do seu jeito, com um espírito indomável, mas mostrando uma vulnerabilidade que captura o coração do espectador.”

E depois: “(George) Peppard está crível e discreto como o jovem escritor (uma versão pouco disfarçada do próprio Capote) que se torna amigo de Holly Golightly. Patricia Neal como a ‘patrocinadora’ do autor foi bem escolhida. Martin Balsam como o agente de Holly Golightly oferece uma significativa visão da personalidade de sua cliente pelo meio do filme quando a descreve: ‘Ela é falsa, está certo, mas uma falsa real’. A participação de Mickey Rooney como um fotógrafo japonês adiciona uma incongruência desnecessária aos procedimentos. Com este filme, um novo tipo de mulher faz sua primeira aparição significativa na tela: Hepburn interpreta uma precursora da mulher liberada que iria aparecer em filmes do final dos anos 60.”

Essa última afirmação é uma arrematada asneira. E isso não é minha opinião, não – é apenas a verdade dos fatos. Muitas mulheres liberadas já haviam sido retratadas no cinema americano antes de 1961, o ano de lançamento de Breakfast at Tiffany’s. Basta lembrar as diversas mulheres fortes, independentes, que trabalham fora e ganham a vida interpretadas por Katharine Hepburn: advogada em A Costela de Adão (1949), professora e desportista em A Mulher Absoluta (1952), jornalista da área internacional em A Mulher do Dia (1942), para citar só três.

zztiffany3Ou da figurinista bem sucedida, rica, interpretada por Lauren Bacall em Teu Nome é Mulher (1957). Ou da mulher que fica rica no ramo alimentício, interpretada por Claudette Colbert em Imitação da Vida (versão de 1934), ou a que fica rica no ramo de roupas, interpretada por Lana Turner na refilmagem de Imitação da Vida (1959). Ou da também rica figurinista feita por Barbarba Stanwyck em Chamas Que Não se Apagam (1956).

Ou da mulher que cria uma rede de restaurantes interpretada por Joan Crawford em Mildred Pierce (1945).

A lista poderia continuar por diversos parágrafos. Chamar Holly Golightly de “precursora da mulher liberada”, mais ainda que uma cretinice, é um absurdo erro que demonstra ignorância, desconhecimento.

E além do mais, Holly Golightly vive do que os homens pagam em dinheiro a ela por sua beleza. Uma versão bem light, bem edulcorada de garota de programa. Mulher liberada uma ova.

Mas vamos em frente.

“Um dos dramas românticos mais deliciosos e inesquecíveis”

Eis o que diz o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer: “Truman Capote, autor do romance que inspirou Bonequinha de Luxo, imaginou Marilyn Monroe interpretando o papel da protagonista, a festeira Holly Golightly, mas é difícil imaginar alguém que tivesse se adequado tão bem ao papel quanto Audrey Hepburn. Na abertura do filme, diante da Tiffany’s, a famosa joalheria de Manhattan, a atriz nunca esteve tão encantadora e luminosa.

“Na história de Capote, Holly é nitidamente uma garota de programa. Como o filme de Blake Edwards foi feito em 1961, quando assuntos como esse davam dor de cabeça aos censores, a Holly de Hepburn é retratada como uma moça boêmia que sobrevive de presentinhos de admiradores. No mesmo edifício onde reside vive o escritor Paul (George Peppard), que luta para demonstrar seu talento e também se mantém graças à ajuda de uma rica benfeitora (Patricia Neal), com quem tem um caso. O equilíbrio delicado dos relacionamentos dos dois personagens é posto em cheque quando Paul se apaixona por sua vizinha linda e um tanto exasperante.

zztiffany4“Com o cabelo puxado para trás, chiquetérrima em um vestido preto, portando uma elegante piteira, Audrey Hepburn incorporou uma imagem inesquecível que não esmaeceu com a passagem do tempo. Acrescente a isso a música marcante de Henry Mancini e um punhado de momentos clássicos (Hepburn cantando ‘Moon River’ e procurando seu querido gato pelas ruas de Nova York durante um temporal), e o resultado é um dos dramas românticos mais deliciosos e inesquecíveis produzidos em Hollywood.”

O livo 500 Must-See Films diz: “Holly Golightly não agradecerá se você se referir às suas origens no Texas – não desde que ela foi para Nova York e encontrou maneiras de permitir a homens agradecidos que financiem sua existência glamourosa. Sempre que Holly fica triste, ela vai até a Tiffany’s – a única joalheria que vale a pena observar. Seu novo vizinho, Paul (Peppard), não a julga: ele mesmo tem sua própria amiga rica, 2-E (Neal). Pouco a pouco, Holly e Paul vão ficando íntimos, mas qualquer tipo de relação ‘real’ a deixa aterrorizada. Ela não quer possuir ou ser possuída por ninguém.”

Um filme idiota, com situações que não se sustentam ou são ridículas

Pois bem. Agora vou dar minha opinião. Ao revê-lo agora, achei Bonequinha de Luxo um filme absolutamente idiota. E com uma leve pitada de racismo.

Claro: Audrey está linda, maravilhosa, deslumbrante, elegantérrima, graciosa. “Moon River” é uma beleza – e toda a trilha de Henry Mancini é perfeita.

Mas é uma história boba, com situações que ora não se sustentam (como as primeiras vezes em que Holly e Paul se encontram, por exemplo), ora são simplesmente ridículas (o japonês caricatural interpretado por Mickey Rooney, toda a sequência da festinha, em especial o personagem de Martin Balsam beijando uma mulher de pé dentro do chuveiro).

zztiffany5E a personagem central, Holly Golightly, se a gente pensar um pouquinho, é bem pior do que “um tanto exasparente”, como diz o livro 1001 Filmes: é uma garota chata, desmioladinha, leviana, deslumbrada com luxo e riqueza. Linda, sem dúvida, mas com uma cabecinha com a profundidade de um pires.

Pode ser um defeito meu, uma idiossincrasia imbecil, mas não consigo ter qualquer simpatia ou admiração por uma personagem cuja maior aspiração na vida é observar jóias.

A questão, provavelmente, tem a ver com as adaptações que o roteirista George Axelrod teve que fazer na trama original de Truman Capote para não desagradar ao censores do Hays Office. Ficou absolutamente falsa a figura da moça festeira que vai com ricaços a restaurantes caros e elegantes e ganha gorjeta de US$ 50 cada vez que vai ao toalete – em troca de nada.

Detalhinho mínimo de espectador cricri: Holly ouvir lições de Português de Portugal preparando-se para a viagem ao Brasil é bastante ridículo.

O detalhe do racismo, que não é nada desprezível, aparece duas vezes. A primeira, na tal ridícula festa no apartamento – um enxerto de comédia escrachada, pastelão, no meio de um drama –, quando Holly se refere ao tal brasileiro milionário, José da Silva Pereira, como dark – escuro. (Aliás, o brasileiro Pereira é interpretado por José-Luis de Villalonga, natural de Madri.)

Bem mais adiante, quando a narrativa já se aproxima do fim, Holly Golightly, certa de que está indo para o Brasil casar-se com o milionário, se sai com a seguinte frase:

“Daqui a muitos, muitos anos, vou voltar. Eu e os meus nove moleques brasileiros. Eles serão escuros, como José, é claro. Mas terão olhos verdes lindos e brilhantes. Vou trazê-los de volta, sim, porque eles precisam ver isto aqui. Eu amo Nova York.”

zztiffany7Comentei sobre essa frase no Facebook, e dois amigos me contestaram. Um deles, o Luís Octávio de Lima, argumentou que a tradução de dark por escuros é que tornou a frase racista. Outro, Carlos Marchi, disse que chamar os moleques de escuros ou pretos ou mulatos não é racismo.

De fato não é. Simplesmente dizer que um negro é negro ou um mulato é mulato não é racismo algum. Mas no contexto em que Holly fala a frase há uma nítida indicação racista. Ela está se lamentado do fato de que seus filhos serão escuros. E a tradução aí de dark é escuros mesmo, porque se ela quisesse dizer morenos – significando pessoas de cabelo negro -, teria usado brunette.

Não é uma questão do politicamente correto, de forma alguma. Tenho nojo profundo da submissão ao politicamente correto. O filme faz referência à cor de pele de uma maneira evidentemente racista.

E também não é uma questão de que o filme tenha ficado datado, tenha envelhecido mal, como disse outro amigo, Melchíades Cunha Júnior. Há centenas, milhares de grandes filmes muito anteriores a Bonequinha de Luxo que permanecem maravilhosos.

Sei que é uma opinião danada de polêmica, mas eu digo que Bonequinha de Luxo sempre foi uma porcaria. Ele nos enganou a todos  por causa do charme absoluto de Audrey Hepburn.

O eventual leitor discorda? Pois lanço a ele o desafio: veja o filme de novo.

Anotação em junho de 2014

Bonequinha de Luxo/Breakfast at Tiffany’s

De Blake Edwards, EUA, 1961

Com Audrey Hepburn (Holly Golightly), George Peppard (Paul Varjak), Patricia Neal (2-E), Buddy Ebsen (Doc Golightly), Martin Balsam (O.J. Berman), Mickey Rooney (Mr. Yunioshi), José-Luis de Villalonga (Jose da Silva Pereira), John McGiver (o funcionário da Tiffany’s), Stanley Adams (Rusty Trawler), Alan Reed (Sally Tomato)

Roteiro George Axelrod

Baseado na novela Breakfast at Tiffany’s, de Truman Capote

Fotografia Franz Planer

Música Henry Mancini

Canção “Moon River” por Henry Mancini-Johnny Mercer

Montagem Howard Smith

Figurinos de Audrey Hepburn por Hubert de Givenchy; figurinos de Patricia Neal por Pauline Trigere; supervisão de figurino Edith Head

Produção Paramount. DVD Paramount.

Cor, 115 min

*

12 Comentários