Banzé no Oeste / Blazing Saddles

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Nota: ★★★☆

Quando revi O Jovem Frankenstein, uns meses atrás, fiquei impressionado como o filme é bobo. É engraçadíssimo, delicioso, mas é muito bobo: tem um monte de piadas que parecem coisa de menino ginasiano.

Vi agora Banzé no Oeste/Blazing Saddles, que Mel Brooks fez no mesmo ano de O Jovem Frankenstein, 1974, com o mesmo Gene Wilder e a mesma Madeline Khan no elenco. Por algum motivo, eu tinha perdido Banzé no Oeste na época do lançamento, e nunca tinha visto até agora. Pois bem: comparado a Banzé no Oeste, O Jovem Frankenstein é um filme de humor finíssimo!

Mel Brooks abusa, mas abusa muito, demais da conta, das besteiras, das piadas ginasianas, óbvias, grosseiras. A coisa do pau grande – uma das piadas recorrentes em O Jovem Frankenstein – está aqui também, é claro. Há umas cinco repetições da piada de algum homem chamar o outro de veado – meu, como é velho, e como é ginasiano, esse tipo de piada!

zzbanzé00As duas únicas personagens femininas que aparecem com alguma importância no filme são objetos sexuais, simplesmente. Uma é a secretária do governador (interpretado, com todo o exagero a que tem direito e mais um pouco, pelo próprio Mel Brooks), que despacha com ele usando um baita decote que expõe todo o amplo peitanzil. Em alguns dos despachos com a secretária gostosona, o governador está só de cueca, sem calça.

E a outra é Lili Von Shtupp, uma dançarina de cabaré, femme fatale das brabas, por quem todos os homens se derretem – o papel da ótima Madeline Kahn, a atriz fetiche de Mel Brooks. (Volto a falar em Madeline Kahn depois.) Lili Von Shtupp é uma gozação escrachada de Marlene Dietrich, e está sempre com as coxonas à mostra, com meias provocantes, como as que a diva usou em O Anjo Azul.

Pau grande, veadagem, decotão, coxas da heroina à mostra o tempo todo. Isso para não falar da escatologia explícita. É: não se pode acusar Mel Brooks de exagerar na finesse.

Um dos primeiros filmes de sucesso a fazer gozação com o western

Nada do que foi dito aí acima é para indicar que o filme é ruim. São apenas observações. Como tudo o que Mel Brooks fez, o filme é divertido, tem momentos engraçadíssimos. Mas não é só. É também um dos primeiros filmes americanos de grande sucesso a gozar o western, um gênero respeitabilíssimo, até então sempre incensado, com devoção fiel do público.

zzbanzé2E tem mais: Banzé no Oeste aborda de frente a questão do racismo. Aborda de forma escrachada, safada, brincalhona – o jeito Mel Brooks de ver o mundo. Mas aborda de frente, bate forte na ferida grave da sociedade americana.

Se Mel Brooks fez piada com o nazismo – em sua estréia na direção, Primavera para Hitler (1967), que depois rendeu uma peça de teatro e mais um filme, Os Produtores (2005) –, por que não poderia fazer com o racismo?

O cara pode não ter assim grande finesse, mas coragem para enfrentar temas polêmicos ele tem de sobra.

Interessante: eu tinha a impressão de que a filmografia de Mel Brooks é extensa. Vejo agora que não é, não. Como diretor, fez apenas 12 filmes, entre 1967, o ano de Primavera para Hitler, e 1995, o ano de Drácula – Morto Mas Feliz.

Após Primavera para Hitler vieram Banzé na Rússia, de 1970 (ele é filho de judeus russos que emigraram para os Estados Unidos), Banzé no Oeste e O Jovem Frankenstein, os dois de 1974, como já foi dito. Em 1976, fez Silent Movie, que, como diz o título original, imitava os filmes da era do cinema mudo – no Brasil, teve o título de A Última Loucura de Mel Brooks. Em 1977 fez Alta Ansiedade, uma gozação dos filmes de Alfred Hitchcock. Em 1987 fez S.O.S – Tem um Louco Solto no Espaço, uma gozação da primeira trilogia Guerra nas Estrelas.

Drácula – Morto Mas Feliz é, como indica o título, uma gozação dos filmes de terror. O conde vampiro é interpretado por Leslie Nielsen, que, como o próprio Mel Brooks já havia feito, se especializaria em filmes que são pastiches de outros filmes ou gêneros, tipo Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu.

Mel Brooks trabalhou muito mais como ator do que como diretor – sua filmografia como ator tem 45 títulos, entre filmes e séries de TV. Como roteirista, são 37 títulos.

Um filme cheio de referência a outros filmes e a gente do cinema

Leonard Maltin deu ao filme 3.5 estrelas em 4: “O primeiro filme de sucesso de Brooks é uma vibrante imitação de western, com (Cleavon) Little como um improvável xerife, (Harvey) Korman como o vilão Hedley Lamarr e (Madeline) Khan como uma cantora à la Dietrich. Nenhum dos filmes posteriores de Brooks suplanta este aqui em termos de provocar gargalhadas. Canção título cantada por Frankie Laine.”

zzbanzé3Bom detalhe, esse, lembrado por Leonard Maltin: nos créditos iniciais, Frankie Laine canta a canção que tem o título original do filme, Blazing Saddles – literalmente, selas em chama –, composta pelo próprio Brooks. Frankie Laine (1913-2007), desconhecido das novas gerações, foi um cantor, compositor e ator de grande sucesso, com uma carreira que se estendeu por 75 anos. Vendeu disco feito água. Uma de suas especialidades era cantar canções feitas para westerns: Galante e Sanguinário/3:10 To Yuma, Sem Lei e Sem Alma/Gunfight at the O.K. Corral (ambos de 1957). Não é Frankie Laine que canta a canção tema de Matar ou Morrer/High Noon – aquela que diz “Do not forsake, oh my Darling, on this wedding day”, e sim Tex Ritter. Mas Laine também gravou a canção, que foi um tremendo sucesso na voz dele, e não na de Tex Ritter.

Como diz Maltin, Harvey Korman interpreta o grande vilão da história, Hedley Lamarr. O nome do personagem, obviamente, foi bolado para permitir uma piada que se repete diversas vezes ao longo dos 93 minutos: os demais personagens chamam o bandidão de Hedy Lamarr – o nome, é claro, da atriz austríaca que protagonizou as primeiras cenas de nu frontal da história do cinema comercial em Êxtase (1933) e depois se radicou em Hollywood. O bandidão toda vez tem que corrigir o interlocutor: “Meu nome é Hedley!”

Banzé no Oeste é deliciosamente cheio, mas cheio, repleto de referências a filmes, a pessoas do cinema. Por exemplo: o pistoleiro bêbado interpretado por Gene Wilder é uma espécie de cópia do personagem de Dean Martin no classicão Onde Começa o Inferno/Rio Bravo (1959), do mestre Howard Hawks.

O filme “não tem nada de limpeza e classe, e sua estrutura é uma total bagunça”

Roger Ebert foi ainda mais generoso que Maltin, e tascou 4 estrelas, a cotação máxima, para Blazing Saddles. O texto que escreveu é um pouco mais curto que o seu padrão, mas, como sempre, é preciso e precioso:

“Há pessoas que podem se sair com qualquer coisa – dizer qualquer coisa, fazer qualquer coisa – e as pessoas vão deixar que elas façam. Outras pessoas tentam uma piada levemente suja e fazem pesar um silêncio total numa festa. Mel Brooks não é apenas um membro do primeiro grupo, e sim o seu presidente vitalício. Nos seus melhores momentos, sua comédia opera em áreas tão distantes do bom gosto que (para usar sua própria expressão) se eleva para baixo da vulgaridade.

Blazing Saddles é assim. É uma loucura de um filme que faz tudo para nos manter rindo, exceto bater em nossas cabeças com uma galinha de borracha. Na maior parte do tempo, consegue. É um filme voltado para a audiência: não tem nada de limpeza e classe, e sua estrutura é uma total bagunça. Mas é claro! Qual é o problema se Alex Karris derruba um cavalo com um soco na mandíbula?

zzbanzé7“O filme é, entre outras coisas, um western cômico. A trama, que é bastante frágil, duvidosa, envolve alguns especuladores imobiliários que precisam fazer passar uma ferrovia por Ridge Rock, e decidem expulsar os moradores. A última coisa que eles querem é lei e ordem, e então os vilões nomeiam um xerife negro (Cleavon Little), imaginando que os moradores da cidade vão se revoltar contra ele. Bem, eles quase se revoltam, mas o xerife, cujo nome, claro, é Black Bart, os conquista, com a ajuda de um grande atirador bêbado. Enquanto isso… Mas por que eu estou dizendo enquanto isso? Enquanto isso, seis dezenas de outras coisas acontecem. Os moradores decidem permanecer e enfrentar os vilões, embora, como diz o pastor, ‘nossas mulheres tenham sido estouradas e nosso gado, estuprado’. Bart rejeita os avanços de uma matadora de homens enviada para dar cabo dele (Madeline Kahn como Marlene Dietrich—Lili von Shtupp).”

Madeline Kahn, atriz de grande talento, teve papéis importantes nos anos 70

Ainda bem que Roger Ebert faz, neste parágrafo logo acima, uma sinopse da história. Eu teria imensa dificuldade para tentar sintetizar a trama absolutamente maluca – coisa que o grande crítico fez com brilho.

Ele só cometeu um errinho. Não é bem que o herói, o xerife Bart, rejeite os avanços da eliminadora de homens. Ele aceita os avanços – e a conquista. A femme fatale que veio para matá-lo se apaixona por ele e por seu pau grandão – exatamente como a personagem da mesma Madeline Khan se apaixona pelo Monstro de pau grande em O Jovem Frankenstein.

Ebert termina seu texto dizendo que Brooks fez questão de não fazer com que Blazing Saddles terminasse devagar, e então providenciou uma desinibidíssima fantasia hollywoodiana que inclui uma homenagem a O Picolino/Top Hat (1935), o musical clássico com Fred Astaire e Ginger Rogers, uma sequência passada no Graumann’s Chinese Theater, uma das salas de cinema mais famosas do mundo, uma sequência de pastelão com bolo sendo jogado na cara de todo mundo e, para encerrar, um pôr-do-sol no Velho Oeste.

zzbanzé9Madeline Kahn. Faço questão de falar um pouco de Madeline Kahn. Quando começou a carreira, no início dos anos 1970, parecia que Madeline Kahn seria uma grande estrela, uma estrela de primeira grandeza. Apesar de não ser propriamente bela, esbanjava talento. Fez três filmes com Peter Bogdanovich, na época incensado como um grande realizador (mais tarde, ele cairia um tanto em desgraça entre seus pares, apesar do seu talento): Essa Pequena é uma Parada/What’s Up, Doc? (1972), Lua de Papel (1973) e Amor, Eterno Amor/At Long Last Love (1975). Com Mel Brooks, fez, além deste Banzé no Oeste e O Jovem Frankenstein, também Alta Ansiedade (1977) e A História do Mundo- Parte I (1981). Dirigida por seu colega Gene Wilder, estrelou O Irmão mais Esperto de Sherlock Holmes (1975).

Teve duas indicações ao Oscar de melhor atriz coadjuvante – por este Banzé no Oeste e Lua de Papel.

Depois de participar de todos esses filmes feitos por diretores de prestígio, no entanto, Madeline Kahn se dedicou mais à TV – participou de várias séries. Para o cinema, emprestou a voz a personagens de desenhos animados, como Fievel – Um Conto Americano (1986) e Vida de Inseto (1998). Morreria em 1999, cedo demais – tinha apenas 57 anos.

Foi o western de maior sucesso nos anos 70

O livro Great Hollywood Westerns, de Ted Sennett – uma obra que, obviamente, bem ao contrário do filme de Mel Brooks, leva o gênero extremamente a sério, aponta que, na virada dos anos 60 para os 70, começaram a surgir filmes que faziam piada das convenções do western clássico, como Uma Cidade contra o Xerife/Support your Local Sheriff (1969) e Latigo, o Pistoleiro/Support Your Local Gunfighter (1971) – ambos estrelados por James Garner.

“Mel Brooks trouxe sua irreverência e seu humor de judeu russo para o gênero com Blazing Saddles (1974), o western de maior sucesso na década. Numa fileira sem parada de gags visuais e verbais escandalosas e em geral hilariantemente de mau gosto, Brooks parodiou as conhecidas tradições do western, concentrando-se num negro engenhoso (Cleavon Little), que, com a ajuda de um ex-pistoleiro (Gene Wilder), consegue eliminar os elementos corruptos em uma cidade do Oeste. O filme incluía imitações burlescas e estapafúrdias de personagens típicos do western: uma cantora de cabaré parecida com a Marlene Dietrich de Destry Rides Again (Madeline Kahn), o caubói tosco, pouco inteligente (Alex Karras), os moradores ‘respeitáveis’, e outros.”

 De repente, no meio de um deserto no Velho Oeste, Count Basie e sua orquestra!

Madeline Kahn não foi a única indicada ao Oscar por Banzé no Oeste. A canção título concorreu a uma estatueta, e também a montagem. Não levou nenhum dos prêmios.

zzbanzé8A página de Trivia – informações, curiosidades, detalhes – do IMDb sobre o filme conta que, quando Mel Brooks mostrou pela primeira vez Blazing Saddles para os executivos da Warner Bros., ninguém riu ao longo de todo o filme. Em seguida, no entanto, houve uma apresentação para os funcionários do estúdio – e esses gargalharam do começo ao fim.

Outros tópicos:

* Mel Brooks teve o cuidado de não contar para Frankie Laine que o filme seria uma comédia, com medo de que o cantor não concordasse em gravar uma canção para um western cômico. A princípio, o diretor publicou um anúncio procurando para um cantor com a voz parecida com a de Frankie Laine. Para sua surpresa, o próprio Laine respondeu ao anúncio e gravou a canção título.

* A coisa da escatologia ocupa vários dos tópicos da página de Trivia do IMDb. Vou me poupar – e poupar o eventual leitor – de detalhes sobre o tema.

* A atriz Hedy Lamarr foi à Justiça por causa do uso de seu nome no filme. (Parece que Hedy Lamarr adorava ir à Justiça por qualquer motivo.) Acabou fazendo um acordo com a produção, e seu nome foi mantido.

* Na sequência bem no final do filme, em que o personagem de Harvey Korman compra uma entrada para o Grauman’s Chinese Theater, é possível ler, num pôster próximo, as palavras Black Bart. Este era o título inicialmente pensado para o filme – Negro Bart. Foi só quando as filmagens já estavam bem avançadas que o título Blazing Saddles ocorreu a Mel Brooks.

* O diretor faz dois papéis no filme. Além do governador taradão William J. Lepetomane, que aparece só em umas três sequências, Brooks interpreta também um chefe índio. Esse cacique fala em yiddish!

* O grande Count Basie tem uma participação especialíssima no filme. Ele aparece apenas em uma rápida sequência, como líder de uma banda de jazz no meio do deserto do Velho Oeste, ao som de “April in Paris”.

Uma orquestra de jazz no meio do deserto do Velho Oeste. Só Mel Brooks mesmo.

Anotação em setembro de 2014

Banzé no Oeste/Blazing Saddles

De Mel Brooks, EUA, 1974

Com Cleavon Little (Bart), Gene Wilder (Jim), Slim Pickens (Taggart), Harvey Korman (Hedley Lamarr), Madeline Kahn (Lili Von Shtupp), Mel Brooks (governador William J. Lepetomane / chefe índio), Burton Gilliam (Lyle), Alex Karras  (Mongo), David Huddleston (Olson Johnson), Liam Dunn (Reverendo Johnson), John Hillerman (Howard Johnson), George Furth (Van Johnson)

Roteiro Mel Brooks, Norman Steinberg, Andrew Bergman, Richard Pryor e Alan Uger

Baseado em história de Andrew Bergman

Fotografia Joseph F. Biroc

Música John Morris

Montagem Danford B. Greene e John C. Howard

Produção Crossbow Productions.

Cor, 93 min

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3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Os Comancheros / The Comancheros em 24 setembro 2015 às 4:46 pm

    […] Lee Marvin deste aqui e de Liberty Valance goza a figura arquetipal do pistoleiro, ou, pior ainda, Banzé no Oeste/Blazing Saddles (1974), desse Mel Brooks que não respeita coisa […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Êxtase / Ekstase em 10 Maio 2016 às 2:35 pm

    […] íntimos que ela não havia autorizado; depois processaria Mel Brooks, por ele ter criado, em Banzé no Oeste, um personagem chamado Hedley Lamarr, e iria à Justiça também contra uma empresa de […]

  3. […] numa parede, escornados depois de bebedeira das grandes. Quase uma década depois, em 1974, com Banzé no Oeste/Blazing Saddles, o iconoclasta-mór Mel Brooks avacalhou de vez com o faroeste, para o pavor dos milhões de fãs […]

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