Atrás da Porta / The Door

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Nota: ★★½☆

István Szabó, o grande diretor de tantos filmes importantes, não realizava nenhum desde 2006, quando fez Roknok, um drama político sobre corrupção. Antes desse, havia feito em 2004 Adorável Júlia/Being Julia, co-produção Canadá-EUA-Hungria-Inglaterra, com um elenco de grandes atores internacionais – Annette Benning, Michael Gambon, Jeremy Irons.

Este The Door, no Brasil Atrás da Porta, foi lançado em 2012, seis anos depois de seu filme anterior.

Szabó é um realizador que fica sempre entre a Hungria e o mundo. É o mais internacionalmente aclamado dos realizadores húngaros; já obteve diversos prêmios, inclusive o Globo de Ouro, o Bafta, e nos três mais importantes festivais de cinema do mundo, os de Berlim, Cannes e Veneza.

Fascinantemente, Szabó sempre manteve as ligações com sua terra.

Tenho profunda admiração por quem mantém ligações com sua terra.

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Cineastas de todos os cantos do mundo foram para Hollywood, e é por isso que Hollywood é Hollywood. Foi o lugar que atraiu gente interessada em fazer cinema dos mais diversos países, a partir dos anos 1910, início dos 20, e continua atraindo talentos estrangeiros até hoje. Muitos se radicaram lá para sempre. Outros – como, para citar só alguns, Luc Besson, Walter Salles, Alfonso Cuarón, Bruno Barreto, Jean-Pierre Jeunet – fazem alguns filmes lá, mas continuam produzindo em seus países natais.

Szabó já teve filmes co-produzidos pelos Estados Unidos, como Encontro com Vênus (1991), com Glenn Close, e outros feitos na Europa Ocidental, como Mephisto e Coronel Redl. Mas sempre volta para a Hungria.

Atrás da Porta é uma co-produção Hungria-Alemanha, com duas grandes, fabulosas atrizes, a inglesa filha de russos Helen Mirren e a alemã Martina Gedeck. Toda a ação se passa em um bairro de Budapeste, nos anos 1960, e todos os demais atores são húngaros, mas Szabó resolveu fazer o filme em inglês. Em parte, muito provavelmente, para ter aceitação mais fácil no mercado internacional; mas em parte, imagino, para não ter que dublar a voz personalíssima da gigante Helen Mirren.

Posso estar errado, mas tenho quase certeza (não consegui confirmar isso) que a voz de Martina Gedeck é também da grande atriz, que já trabalhou com diretores de diferentes nacionalidades, como Robert De Niro (O Bom Pastor, 2006), Francis Girot (Un Ami Parfait, 2006), Guillaume Nicloux (A Religiosa, 2013), Bille August (Trem Noturno para Lisboa, 2013) – além, é claro, de ter atuado em grandes filmes do cinema de país natal, como Simplesmente Martha (2001), A Vida dos Outros (2006), O Grupo Baader-Meinhof (2008).

A história de uma relação de duas mulheres, ao longo de muito tempo

Atrás da Porta conta a história da relação entre duas mulheres, ao longo de vários anos: Magda (o papel de Martina Gedeck), uma intelectual, escritora, ex-professora, casada com um escritor e tradutor, e Emerenc, uma mulher bem mais velha, mais pobre, criada no interior (o papel de Helen Mirren).

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Magda e o marido Tibor (Károly Eperjes) têm uma vida bastante confortável, em termos materiais, numa casa ampla, talvez ampla até demais, que, aparentemente (não se diz isso explicitamente), havia sido de sua mãe; antes de se mudarem para essa casa, moravam num apartamento bem menor, e Magda dava conta dos trabalhos da casa. Mas, agora – quando a ação do filme começa –, na casa muito grande, não conseguirá fazer tudo.

E então Magda pede a ajuda de Emerenc, que mora ali bem perto, do outro lado da rua, mas numa casinha humilde, e que fica com a porta permanentemente fechada.

Emerenc a princípio recusa, em seguida aceita trabalhar para Magda.

Mas a relação entre as duas é extremamente conflituosa, problemática, instável – basicamente porque Emerenc é uma pessoa de comportamento estranho, insólito, imprevisível.

Tem um passado misterioso – e guarda muitos mistérios também no presente, no momento da ação, os anos 60, como já foi dito.

Em muitos momentos, a empregada tratará a patroa como se ela, empregada, fosse uma rainha, e a patroa, uma súdita humilde.

É de fato uma relação extremamente difícil de o espectador compreender.

O caráter, a personalidade de Emerenc, tudo nela é estranho, esquisito, peculiar, exótico.

Há muitos momentos em que ela parece uma bruxa, um ser com poderes mágicos.

O filme se baseia em um livro autobiográfico de Magda Szabó

Ver essas duas atrizes sensacionais se digladiando é, sem dúvida, um fino prazer. Mas confesso que a relação entre as duas é tão insólita que várias vezes me peguei pensando, ao longo do filme, o que raios o grande István Szabó quis nos dizer ao contar essa história tão estranha. É uma fábula? Uma parábola? Qual é, afinal, a moral da história?

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A superioridade da trabalhadora braçal, da mulher do povo, sobre a intelectual, burguesa? “Mais fortes são os poderes do povo”? Mas era 1960, a Hungria era comunista, e o camarada Stálin zelava cuidadosamente para que não houvesse privilégios burgueses nos países periféricos da URSS.

Aliás, há no filme referências constantes à Segunda Guerra Mundial, à perseguição aos judeus. Há muito mais referências ao período em que os nazistas dominaram a Hungria, até 1945, do que à realidade da época em que se passa a ação, quando o país estava sob o jugo soviético.

Os créditos do filme esclarecem que o roteiro – de autoria de István Szabó e Andrea Vészits – se baseia em um livro de Magda Szabó. Isso me fez imaginar que o realizador talvez tivesse querido apenas levar para as telas uma história escrita e talvez até vivida por essa parente.

Fiquei pensando nisso depois que o filme terminou e antes de fazer uma pesquisinha na internet: a história é tão insólita que provavelmente não é uma parábola, uma fábula, uma coisa simbólica – deve ter acontecido na realidade, o livro deve ser autobiográfico!

Não há parentesco qualquer entre a escritora Magda Szabó (1917-2007) e o cineasta István Szabó (nascido em Budapeste em 1938). Mas o livro A Porta, publicado em 1987, é de fato autobiográfico, segundo se informa na internet.

Magda Szabó, como a personagem Magda do livro e do filme, havia sido professora; foi casada com Tibor Szobotka, tradutor e escritor, como o marido Tibor do livro e do filme. O livro, assim como o filme, relata a difícil relação entre a escritora Magda e sua empregada, uma mulher de comportamento totalmente esquisito.

Mas há coisas que continuaram me parecendo bastante estranhas, depois que li um pouco sobre Magda Szabó. A escritora chegou a receber um prêmio literário, o Baumgarten, em 1949 – mas o prêmio foi retirado imediatamente pelas autoridades comunistas, por motivos políticos. A autora passou a ser considerada não politicamente correta – e, naquele mesmo ano, seria demitida de seu cargo no Ministério da Educação.

No filme, Magda recebe um prêmio literário dado pelo governo – mas o prêmio não é retirado. Não se menciona em momento algum que a escritora fosse mal vista pelo regime.

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Um filme estranho. Mas tem muitas qualidades, merece ser visto

É preciso registrar que Atrás da Porta tem um visual absolutamente suntuoso. A fotografia, assinada por Elemér Ragályi, é extraordinária. As sequências de flashback, com as lembranças de Emerenc durante a Segunda Guerra, em um preto-e-branco expressionista, são de rara beleza visual.

A trilha sonora também é maravilhosa.

E, repito, ver os duelos verbais entre Martina Gedeck e Helen Mirren é uma maravilha, para deixar qualquer um que gosta de cinema encantado.

É um filme estranho, este. Mas que merece ser visto.

Anotação em janeiro de 2014

Atrás da Porta/The Door

De István Szabó, Hungria-Alemanha, 2012

Com Helen Mirren (Emerenc), Martina Gedeck (Magda)

e Károly Eperjes (Tibor), Gábor Koncz (o coronel), Enikö Börcsök (Sutu), Ági Szirtes (Polett), Erika Marozsán (Évike Grossmann)

Roteiro István Szabó e Andrea Vészits

Baseado na novela de Magda Szabó

Fotografia Elemér Ragályi

Montagem Réka Lemhényi

Produção FilmArt Kft, Intuit Pictures, Bankside Films, ARD Degeto Film. DVD Califórnia Filmes.

Cor e P&B, 97 min

**1/2

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