Adeus, Lênin! / Good Bye Lenin!

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Nota: ★★★★

Adeus, Lênin! é uma obra-prima. É um dos melhores filmes feitos nos anos 2000.

É daqueles filmes perfeitos, em que tudo se ajusta, tudo dá certo, não sobra nada, não falta nada. A sacada genial a partir da qual se estrutura a trama. Um belíssimo desenvolvimento de toda a narrativa. Personagens interessantes, bem construídos, tornados ainda mais atraentes por belas interpretações de todos os atores.

Sacadinhas inteligentes, criativóis aqui e ali – na dose certa, sem perturbar a narrativa, tornando-a apenas mais divertida, mais ágil.

Uma união perfeita, um entrelaçamento rico e raro da Grande História, um momento fundamental da Grande História, e a vida pessoal.

Um sábio equilíbrio, dificílimo de se conseguir, entre a amargura e a graça. Entre o global e o íntimo.

Um filme político que passa a anos-luz do simplismo, do esquemático, do maniqueísmo.

E, quase ao final da narrativa, uma das sequências mais belas que o cinema já criou, de uma beleza plástica impressionante, quando o título do filme se materializa diante dos olhos mesmerizados do espectador.

Um texto poético, sério, profundo, doce e amargo, elegante

zzlenin3Tinha visto apenas uma vez, na época do lançamento, na Sala 1 do então Espaço Unibanco de Cinema. O filme estreou em São Paulo em 25/12/2003 – o ano de seu lançamento na Europa –, e vimos em janeiro de 2004. Naquela época, não anotava sobre todos os filmes que via. Sobre Adeus, Lênin!, anotei a ficha técnica básica, dei 4 estrelas e escrevi no meu doc Filmes2004: “O primeiro grande filme visto em 2004, um dos grandes dos últimos tempos”.

Rever o filme agora, dez anos depois da primeira e única vez, foi uma experiência impressionante, emocionante. Fiquei com a sensação de que gostei ainda mais agora, de que vi ainda mais qualidades nele do que antes. Cada nova seqüência me surpreendia pela inteligência fina, aguda, e pela forma maravilhosa com que cada detalhe foi realizado.

O texto…

Todo o filme é narrado pela voz em off do protagonista, Alex (o papel de Daniel Brühl). E o texto que ele fala, meu Deus do céu e também da terra, que maravilha!

É um texto que – como diversas outras coisas no filme – consegue um equilíbrio perfeito. É poético, é sério, é profundo, é doce, é amargo, chega a roçar no pretensioso, mas não ultrapassa a barreira, equilibra-se soberbamente no fio da navalha.

Tem a elegância – para citar uma coisa moderníssima – do bailado de Yulia Lipnitskaya, essa garotinha russa que aos 15 anos de idade já fez história, já entrou para a História.

Que coisa, a História. Yulia Lipnitskaya nasceu em 1998, quase uma década depois que ruíram o Muro de Berlim e em seguida o Império Soviético. Quase uma década, portanto, após os fatos históricos mostrados em Adeus, Lênin!, que se interpenetram nas vidas pessoais de Alex e sua família.

Na TV, um momento histórico para a Alemanha Comunista. Na cozinha, a Stasi

Mas não quero me perder. Falava do texto do filme. É impressionante como é poético sem ser babaca, como é sério sem ser sisudo, como tem toques de humor sem beirar o deboche, e como muitas vezes é grandioso sem cair na grandiloqüência.

Após os créditos iniciais ao som do primeiro dos diversos temas compostos para a trilha por Yann Tiersen, o compositor e multi-instrumentista genial de Amélie Poulain, Adeus, Lênin! abre com imagens de filmes caseiros: um letreiro informa a data, verão de 1978, e vemos um garoto e uma garota aí na faixa dos 11, 13 anos, brincando, filmados pelo pai. São Alex (Nico Ledermüller) e sua irmã dois anos mais velha, Ariane (Jelena Kratz).

Em seguida, vemos imagens de TV, em preto-e-branco e pouquíssima definição, que mostram o lançamento de mais uma nave espacial soviética, uma das muitas Soyuz. A voz em off de Alex-Daniel Brühl começa a narrar a história (vai narrar o tempo todo, até o final):

– “Em 26 de agosto de 1978, nós nos unimos à elite. O camarada Sigmund Jähn, da República Democrática Alemã, foi o primeiro alemão no espaço. Nesse dia, nossa família começava a se desintegrar.”

Na sala de seu apartamento, os garotos Alex e Ariane vêem o momento hisórico na televisão, enquanto, na cozinha, dois homens – certamente agentes da Stasi, a polícia política – interrogam a mãe, Christiane (Katrin Saß, extraordinária atriz): “É a terceira viagem de seu marido a um país capitalista.”

Querem saber o que o pai de Alex e Ariane foi fazer, com quem se encontra do outro lado, se ele fala em fugir.

O garoto Alex tenta tampar os ouvidos, não prestar atenção à conversa, fixar-se nas imagens do momento histórico que a TV mostra.

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A voz de Alex jovem adulto prossegue: – “Enquanto Sigmund Jähn representava bravamente nosso país no espaço, meu pai estava fora de órbita, por causa de uma inimiga da classe trabalhadora do lado occidental capitalista. Ele nunca mais voltou. Minha mãe ficou tão deprimida que parou de falar. Não falava nem com a gente, nem com ninguém.”

Vemos Christiane em estado catatônico, depois corredores de um hospital. A mãe longe, os meninos ficam na casa de tios, acompanhando pela TV a aventura do primeiro cosmonauta alemão.

Cosmonauta. Os mais jovens talvez não saibam disso: os homens que viajavam ao espaço nas naves soviéticas eram cosmonautas, diferentemente de seus colegas-rivais do Ocidente, que eram astronautas. Quando a maravilhosa narrativa de Adeus, Lênin! está chegando mais para o fim, Alex falará dessa diferença de nomenclatura, numa conversa com duas crianças nascidas e criadas do outro lado do Muro, Nessa conversa, amarga, triste, emocionante, Alex dirá às duas crianças que é de outro país – embora ele seja da mesma cidade que os garotos, e naquele momento exato o país que já havia um só e se dividira em dois, antagônicos, inimigos, estava voltando a ser um só.

No dia dos 40 anos da RDA, a mãe comunista ferrenha vê o filho sendo preso

– “Depois de oito semanas”, prossegue a narração de Alex, relatando os fatos daquele ano de 1978, “mamãe voltou para casa. Estava diferente, de volta à vida. Nunca mais falamos de meu pai. A partir de então, nossa mãe estava casada com nossa pátria socialista. Como nesse relacionamento não havia sexo, restava-lhe muita energia para nós, crianças, e o dia-a-dia sob o regime socialista.”º

E então há um corte no tempo, e estamos em 1989, precisamente no dia 7 de outubro de 1989, o dia do 40º aniversário da RDA, República Democrática Alemã (Deutsche Demokratische Republik – DDR, em contraposição à ocidental República Federal da Alemanha, ou Bundesrepublik Deutschland).

Há parada militar, festa oficial. Os tanques desfilam na grande avenida diante do prédio de apartamento onde mora a família Kerner, agora acrescida de uma filhinha bebê da mãe solteira Ariane (que, adulta, é interpretada por Maria Simon).

Alex, agora ali na faixa dos 22 anos (e agora interpretado por Daniel Brühl, na época com apenas 25 anos e carinha de 18), trabalha numa empesa de conserto de televisores, é um tanto inquieto e está a fim de arranjar uma namorada.

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Na noite daquela data de festa nacional (ou seria semi-nacional, já que era a metade de uma nação?), mãe comunista ferrenha e filho muito jovem têm programas diferentes. Christiane, professora com serviços à pátria comunista reconhecidos, pretende ir a uma festividade oficial. Alex está em outra, como mostram as imagens e a narração de sua voz em off:

– “Naquela noite de 7 de outubro de 1989, centenas de pessoas se reuniram e fizeram uma passeata pelo direito de andar sem interferência do Muro. Nada de violência. Liberdade de imprensa.”

A polícia chega para dispersar a passeata – e chega com tudo.

O táxi em que está Christiane se vê diante da passeata. Ela desce do carro, no momento exato em que a polícia desce o cacete nos manifestantes.

A sequência é extraordinariamente bem realizada, de uma beleza impressionante.

Christiane, a comunisa ferrenha, vê o filho sendo preso. Alex a vê – e Christiane cai no chão, no momento em que os policiais jogam o rapaz que grita que aquela é sua mãe dentro de um caminhão já cheio de manifestantes presos.

Estamos aí com 15 minutos de filme.

Quando a mãe sai do coma, tudo, absolutamente tudo tinha mudado

Christiane tinha tido um ataque cardíaco grave, e entra em coma. Ficará no hospital em coma por oito meses – oito meses de rápidas, fabulosas mudanças históricas como pouquíssimas outras vezes a humanidade presenciou. O Muro de Berlim cai, os berlinenses voltam a poder circular pelos dois lados em que a cidade havia sido dividida, o ocidental capitalista e o oriental comunista.

Muda tudo, absolutamente tudo – e aproxima-se celeremente o dia da reunificação oficial das duas Alemanhas.

Quando tudo já está absolutamente mudado, e a poucas semanas da reunificação oficial, Christiane acorda do coma.

O diálogo entre o médico e Alex, na presença de Ariane, é extraordinário, impressionante, antológico.

Médico: – “Vocês devem protegê-la contra qualquer tipo de excitação. E é qualquer tipo, sr. Kerner.

Alex: – “Qualquer tipo de excitação.”

Médico: – “Ameaçaria a vida dela.”

Alex (mostrando ao médico um jornal com a manchete “Boa sorte, Alemanha. Sim à Reunificação”): – “E isto aqui? O senhor não chamaria isso de excitação?”

Chutar cachorro morto é fácil. Adeus, Lênin! Passa bem longe disso

O que virá a seguir é profundamente cômico, engraçado, hilariante. E também profundamente triste, chocante, patético.

zzlenin7O equilíbrio que o diretor Wolfgang Becker e o co-roteirista Bernd Lichtenberg (com a colaboração no roteiro, não creditada, de mais três pessoas, Achim von Borries, Hendrik Handloegten e Christoph Silber) conseguem obter entre o cômico e o trágico, entre o hilariante e o patético, é algo absolutamente extraordinário.

É algo extremamente difícil de se obter. E Adeus, Lênin! obtém esse equilíbrio dificílimo com uma competência que é de fazer o espectador querer aplaudir de pé, como na ópera.

Adeus, Lênin!, é bom lembrar sempre, é de 2003. Foi feito, portanto, 13 anos depois da reunificação. É quase a idade da russinha Yulia Lipnitskaya. O comunismo – assim como a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, assim como a Deutsche Demokratische Republik – já estava morto e enterrado. (Com exceção das exceções excrescentes de sempre, Coréia do Norte, Cuba e partidos de alguns países atrasadíssimos, parados no tempo, de regiões remotas do planeta.)

Quando Adeus, Lênin! foi feito e lançado, o comunismo era cachorro morto – e chutar cachorro morto é facílimo.

Adeus, Lênin não chuta o cachorro morto. De forma alguma.

E isso foi uma das coisas que mais me impressionaram ao rever o filme agora.

Foi a isso que me referi, lá em cima, quando disse que este é um filme político que passa a anos-luz do simplismo, do esquemático, do maniqueísmo.

Um tom melancólico, uma certa tristeza com o fato de que o sonho não se realizou

Ao rever agora este filme genial, me lembrei de Queridas Amigas, que o diretor István Szabó lançou em 1992, sobre a sua Hungria natal logo após a queda do comunismo, no momento da passagem de volta para o capitalismo. Quando voltou a seu país para fazer Queridas Amigas, ele já havia adquirido fama e respeito internacionais com Mephisto, de 1981, Coronel Redl, de 1985, e Encontro com Vênus, de 1991 – todos os três grandes co-produções internacionais. Ao contrário desses três, Queridas Amigas não é um grande afresco – é um pequeno retrato, sobre a amizade de duas mulheres que vivem no seu dia-a-dia a passagem de um mundo para outro.

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Ao contrário do que seria de se esperar, não se comemora com fanfarras o fim do regime totalitário, o fim dos grilhões, a volta à liberdade plena. O filme mostra a perplexidade das pessoas comuns diante da mudança radical de tudo à sua volta – e tem até mesmo um tom melancólico com a perda do valor da solidariedade entre as pessoas, o sonho que não se conseguiu realizar.

Um belíssimo diálogo me pareceu resumir a visão de Szabó sobre aquele momento de profunda mudança. Uma das amigas, a querida Böbe do título original, pergunta à outra, a doce Emma, o que ela quer da vida, e ela diz: “Uma sociedade fraterna, que aprecie o que eu faço”. E Böbe responde: “Isso não vale mais nada. O que vale agora é o dinheiro e as coisas materiais que você possui”.

Adeus, Lênin! até faz o espectador rir da exposição das diferenças entre os dois lados do Muro que ruía.

Mas não bate no cachorro morto.

Pelo menos foi o que vi, o que senti.

Para mim, Adeus, Lênin!, assim como Queridas Amigas, tem, ao fim e ao cabo, um tom melancólico, porque não se conseguiu enfim realizar, com o comunismo, o sonho de uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais solidária.

O sonho de uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais solidária. O sonho não é ruim. Muito antes ao contrário: é um sonho maravilhoso.

Provou-se que não era daquele jeito que poderíamos atingir esse sonho. Está mais que provado; não há, a rigor, o que discutir quanto a isso. Não era daquele jeito. Daquele jeito, o que se obteve foram ditaduras, algumas terrivelmente assassinas, todas elas horrendas, que mantiveram castas sociais privilegiadas e extirparam as liberdades tão básicas e necessárias quanto o pão de cada dia e ar que exigimos 13 vezes por minuto, para citar o belo verso de um poeta comunista.

O fim de um sonho – é o que me parece dizer este filme magnífico – não é algo para ser comemorado como um gol de nosso time, de nossa seleção.

Muito ao contrário. É algo muito, muito, muito triste.

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Anotação em fevereiro de 2014

Adeus, Lênin!/Good Bye Lenin!

De Wolfgang Becker, Alemanha, 2003

Com Daniel Brühl (Alex Kerner), Katrin Saß (Christiane Kerner), Chulpan Khamatova (Lara), Maria Simon (Ariane Kerner), Florian Lukas (Denis Domaschke), Alexander Beyer (Rainer), Burghart Klaußner (Robert Kerner), Michael Gwisdek (Klapprath), Christine Schorn (Frau Schäfer), Jürgen Holtz (Herr Ganske), Stefan Walz (Sigmund Jähn), Nico Ledermüller (Alex aos 11 anos), Jelena Kratz (Ariane aos 13 anos)

Roteiro Bernd Lichtenberg e Wolfgang Becker

Com a colaboração (não creditada) de Achim von Borries, Hendrik Handloegten e Christoph Silber

Fotografia Martin Kukula

Música Yann Tiersen

Montagem Peter R. Adam

No DVD. Produção X-Filme Creative Pool, Westdeutscher Rundfunk. DVD LK-Tel.

Cor, 121 min.

R, ****

3 Comentários para “Adeus, Lênin! / Good Bye Lenin!”

  1. O filme é maravilhoso. Mas não percebo a amargura q vc destaca. Antes, sinto uma suavidade melancólica, por vezes hilariante –
    a cena do telejornal – e, sim, uma crítica ao
    regime agonizante com uma certa angústia sobre o q virá. Há ainda a brutal separação familiar,talvez retratando a separação imposta aos alemães e a sensação de estranheza entre os dois lados. A cada espiada nesse filme, descobrimos novos enfoques daquela inconcebível situação.

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