À Procura do Amor / Enough Said

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Nota: ★★★★

Nicole Holofcener é uma realizadora que aborda sempre os mesmos temas. E faz belos filmes. Na minha opinião, cada vez melhores.

Dei uma olhadinha nas minhas próprias anotações, antes de começar a escrever sobre o novo filme da autora-diretora, À Procura do Amor/Enough Said, de 2013, e me surpreendi. Sobre Amigas com Dinheiro, de 2006, escrevi: “Mais um, entre tantos e tantos, daqueles filmes independentes americanos que focalizam as vidas de um grupo de pessoas comuns, em que nada de muito extraordinário acontece”.

zzprocura0Sobre Sentimento de Culpa/Please Give, de 2010, anotei: “Uma pequenina jóia do cinema independente americano. Um sensível, cuidadoso retrato de um grupo de pessoas absolutamente comuns, gente como a gente, feito com simpatia pelas pequenezas de que o ser humano é capaz, e com excelentes, brilhantes interpretações.”

Exatamente a mesma avaliação vale para este À Procura do Amor. Mudaria apenas uma coisinha. Diria: uma preciosa jóia, em vez de pequenina.

O adjetivo “pequenina” não procurava desmerecer Please Give. De forma alguma. Era uma coisa carinhosa – e um indicativo de que achei o filme simples, direto, despretensioso. Não um afresco, mas um pequeno retrato. Não uma sinfonia, mas uma peça de câmara.

À Procura do Amor também é assim – simples, direto, despretensioso, não um afresco, e sim um pequeno retrto, não uma sinfonia, e sim uma peça de câmara. Mas a impressão que se tem é de que Nicole Holofcener está se tornando uma ourives cada vez mais experiente, mais perfeita.

Sua jóia mais recente é ainda mais resplandecente.

A protagonista, Eva, é divorciada, e sua vida não é um mar de rosas

É um filme sobre a segunda chance, a busca pela segunda chance, e, em especial, sobre erros que volta e meia cometemos, julgamentos errados que fazemos sobre as pessoas, muitas vezes influenciados pela opinião dos outros.  Fala sobre pessoas que já foram casadas no passado, e agora estão solteiras. Fala, portanto, sobre adultos – gente aí no que se costuma chamar de meia idade, na faixa dos 40 e muitos ou 50 e tantos.

Há uma personagem central, mas na verdade a história fala de um grupo de pessoas. (Volto a isso mais tarde.) A protagonista é Eva (Julia Louis-Dreyfus), uma massagista profissional; divorciou-se faz algum tempo do primeiro marido, Peter (Toby Huss), que agora está em seu segundo casamento, com Fran (Kathleen Perkins). Não tem boas lembranças do ex – não consegue atualmente imaginar como foi possível ter sido casada com ele.

A filha deles, Ellen (Tracey Fairaway, na foto abaixo), está aí por volta dos 18 anos, mora com a mãe, vê o pai sempre, mas está para ir para a universidade, em Nova York, do outro lado do país – o filme não diz explicitamente, mas toda a ação se passa em Los Angeles.

O dia-a-dia de Eva não é um mar de rosas. Um de seus clientes tem mau hálito. Outra fala sem parar. Outro, um garotão, mora numa casa à qual se chega depois de subir uns 30 degraus – e Eva tem que carregar por todos eles sua gigantesca, pesada mala, onde fica a maca em que os pacientes se deitam para ser massageados. O rapaz jamais a ajuda.

zzprocura6Eva teme a vida na casa que ficará vazia quando a filha for embora para o outro lado do país.

Como todos os 8 bilhões de pessoas que vivem neste Planeta, Eva, é claro, gostaria de ter um relacionamento afetivo – mas, como boa parte dos 8 bilhões, não tem tido muito sucesso.

A grande amiga de Eva é Sarah (o papel de Toni Collette). Sarah é casada com Will (Ben Falcone); seus filhos são mais jovens, ainda não chegaram à aborrescência. O casamento não vai lá muito bem, mas Sarah e Will não pensam em separação – vão levando o casamento que não vai muito bem.

No iniciozinho da narrativa, Sarah e Will carregam Eva para uma festa na casa de um conhecido deles – quem sabe a mulher solitária encontra alguém lá?

Na festa, Eva conhece duas pessoas. Uma é uma mulher belíssima, bem vestidíssima, que se define como poeta – Marianne, o papel de Catherine Keener (na foto abaixo), atriz que trabalhou também nos dois filmes anteriores da realizadora. Marianne, uma mulher narcisista, umbigocêntrica, se tornará cliente e até um tanto amiga de Eva.

O outro é um sujeito grandalhão, gordão, uma figura enorme. Chama-se Albert, e é interpretado pelo excelente James Gandolfini, o ator que ficou absolutamente famoso na série The Sopranos.

Quando Eva conhece Albert, Will, o amigo dela, revela o que não era para ser revelado: “Eva disse que não há ninguém aqui nesta festa por quem ela tenha atração”. Ao que Albert responde: “Eu também não sinto atração por ninguém que está aqui”.

Eva é pequenina, mignonzinha. Albert é grandalhão, gordão

Eva é uma mulher pequenina. Mignonzinha, muito magrinha. Julia-Louise Dreyfus, a atriz que faz a protagonista, tem 1,61 metro. Estava, no ano de lançamento do filme, com 52 anos, mas tinha a aparência de uma jovem senhora aí de uns 30 e poucos.

zzprocura8Albert é grande. Imenso. James Gandolfini estava com 51 anos, mas parecia um tanto mais velho que Eva- Julia Louis-Dreyfus.

Um sujeito grandalhão, gordo, não é a imagem do príncipe encantado. Mas, quando saem juntos pela primeira vez, Eva se diverte imensamente: Albert é bom astral, divertido.

Saem juntos de novo. E de novo. Começa uma coisa legal entre eles. A groovy thing going on, babe, como dizia Paul Simon.

O grande acontecimento da trama, o turning point, o momento decisivo acontece lá pela metade dos rápidos 92 minutos do filme.

Acho um absurdo contar o ponto decisivo da história.

A história foi criada para que o espectador se surpreendesse com a revelação do fato, lá pela metade do filme.

Ô diacho! Se eu conto aqui o momento decisivo, eu estrago o prazer de quem vai ver o filme! É o spoiler perfeito – quer dizer, o pior que pode haver!

No entanto, o trailer do filme conta o turning point. A sinopse da caixinha do DVD entrega o spoiler. Todas as sinopses do filme entregam o spoiler.

Acho isso uma total loucura.

Não que seja um filme de suspense. É uma comédia romântica com toques sérios, e comédia romântica, mesmo com toques sérios, é necessariamente previsível, e o turning point é previsível. Sem dúvida alguma.

Mas eu acho muito doido contar o que Nicole Holofcener demora meio filme para contar.

Então, ficamos assim. Todo mundo sabe o que vai acontecer lá pela metade do filme. O trailer contou, as sinopses contaram – mas eu não vou mencionar. Posso estar sendo rígido demais, mas sou cada vez mais contra spoilers.

Dois bons atores, em interpretações maravilhosas

A trama do filme é muito gostosa, a construção dos personagens é excelente. É um belo argumento, um belo roteiro. Mas, sobretudo, o que transforma À Procura de Amor num ótimo filme são as intepretações.

zzprocura7Essa moça Nicole Holofcener é uma grande diretora de atores. E os atores que ela escolheu para interpretar essa bela história sobre a segunda tentativa são soberbos.

James Gandolfini é um ator extraordinário.

Ganhou um Globo de Ouro, mais 18 prêmios, fora 35 indicações – muitas delas por sua interpretação como Tony Soprano. Meu amigo Elói me emprestou uma caixa imensa com uns 80 episódios de The Sopranos; vi o primeiro deles, e decidi não gastar meu tempo tão curto com aquilo. Já vi mais filmes sobre Máfia e mafiosos do que cabe na minha vida. Mas deu para ver o que todo mundo sempre disse: a interpretação de Gandolfini como Tony Soprano é soberba.

Para mim, James Gandolfini é um ator de brilho imenso por pelo menos dois filmes: Corações Perdidos/Welcome to the Rileys, e este aqui.

Morreria apenas um ano após o lançamento de À Procura do Amor. Tinha ridículos 51 anos de idade.

Já Julia Louis-Dreyfus… Jamais tinha ouvido falar nessa moça. Ou, se algum tinha ouvido, já havia me esquecido, o que dá no mesmo.

Enquanto víamos o filme, eu me perguntava como é possível que eu não conhecesse essa atriz. Afinal, não é uma garotinha que começou agora.

Julia Elizabeth Scarlett Louis-Dreyfus nasceu em Nova York em 1961. Começou a carreira em 1986, e trabalha basicamente em séries para a TV. Participou de todas as temporadas da série Seinfeld, entre 1990 e 1998. Esteve no Saturday Night Live, em Curb Your Enthusiasm, e, recentemente, foi a personagem central da série Veep, em que faz a personagem central, a vice-presidente dos Estados Unidos do título, uma mulher bem atrapalhada, trapalhona.

zzprocura5Tá explicado por que não me lembrava dela – embora a gente tenha visto os primeiros episódios de Veep.

Trabalhou pouco no cinema – mas trabalhou em dois filmes de Woody Allen! Está em Hannah e Suas Irmãs (1986), que revi recentemente, e Desconstruindo Harry (1997). Que estranho eu nunca ter prestado atenção a ela antes…

De uma certa maneira, a carreira de Julia tem alguma ligação com Woody Allen, além do fato de ela ter tido pequenos papéis nos dois filmes dele: tanto Seinfeld quanto Curb Your Enthusiasm, séries em que ela trabalhou, foram escritas ou co-escritas por Larry David, que tem um tipo de humor semelhante ao de Allen. Não é à toa que Allen o escalou para fazer o papel central de Tudo Pode Dar Certo/Whatever Works (2009).

A autora-diretora cria suas histórias com base em experiências dela ou de seus amigos

Julia Louis-Dreyfus está muito bem no papel central de À Procura do Amor. Na verdade, o papel parece ter sido escrito especialmente por ela. É uma mulher bonita, tem seu charme – mas não é, de forma alguma, uma beleza deslumbrante, de fechar o comércio. É, como Sandra Bullock, por exemplo, aquele tipo que os americanos chamam de girl next door. Uma pessoa um tanto comum, parecida com a vizinha de qualquer espectador.

Exatamente como essa simpática Eva. Gente como a gente, ordinary people – uma boa pessoa, mas capaz, como todo mundo, de cometer enganos, erros, um deles, pelo menos, bem sério.

zzprocura4A autora e diretora Nicole Holofcener diz e repete, nas entrevistas dos pequenos especiais que acompanham o filme no DVD, que cria suas histórias e seus personagens com base em experiências dela própria e de seus amigos. E, quando a escolha dos atores é fechada, muitas vezes reescreve situações e diálogos para que eles se ajustem a cada um dos atores.

Um espectador mais exigente, ou mais mal humorado, poderia dizer que Julia Louis-Dreyfus beira a canastrice, que exagera nas caretas. De fato, em diversas sequências ela abusa das caretas – mas as pessoas às vezes abusam das caretas na vida real. A mim, a atriz não pareceu canastrona – parece uma pessoa real, de carne, osso, sonhos, desejos, frustrações, arrependimentos, como somos todos.

O talento da realizadora é mesmo o de contar histórias sobre um grupo de pessoas

Nicole Holofcener e os produtores tiveram muita sorte: o encontro entre o grandalhão James Gandolfini e mignonzinha Julia Louis-Dreyfus funcionou, deu certo. Teve a química correta, como se dizia antigamente. As interpretações dos dois, os diálogos, as situações todas que surgem dão ao filme um grande encanto.

Nas entrevistas que aparecem no DVD, a diretora diz que o produtor Anthony Bregman pediu que ela escrevesse um filme sobre uma pessoa. “Escrever sobre grupos é mais fácil e divertido para mim”, diz ela. “Tinha medo de fazer um filme sobre uma pessoa.” Ela acha que conseguiu.

Hum… Sim, o centro da história é Eva. Ela é a protagonista, sem dúvida. Mas À Procura do Amor é um filme sobre um grupo de pessoas. Sobre Albert, Marianne, o casal Sarah-Will, as garotas Tess, Ellen e Chloe (Tavi Gevinson), a melhor amiga de Ellen – até sobre o ex de Eva, Peter, e sua nova mulher, embora eles apareçam pouco.

Parece que não tem jeito: o talento de Nicole Holofcener está em saber falar de um grupo de pessoas. Como já havia feito em Amigas com Dinheiro e Sentimento de Culpa.

Uma realizadora de talento, um filme delicioso.

Anotação em abril de 2014

À Procura do Amor/Enough Said

De Nicole Holofcener, EUA, 2013.

Com Julia Louis-Dreyfus (Eva), James Gandolfini (Albert),

e Catherine Keener (Marianne), Toni Collette (Sarah), Ben Falcone (Will),

Eve Hewson (Tess, a filha de Albert), Tavi Gevinson (Chloe, a amiga de Ellen), Tracey Fairaway (Ellen, a filha de Eva), Toby Huss (Peter, o ex de Eva), Kathleen Perkins (Fran, a atual de Peter)

Argumento e roteiro Nicole Holofcener

Fotografia Xavier Grobet

Música Marcelo Zarvos

Montagem Robert Frazen

Produção Fox Searchlight Pictures, Likely Story. DVD 20th Century Fox.

Cor, 92 min.

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