A Mulher que Soube Amar / Alice Adams

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Nota: ½☆☆☆

Nem todo classicão é bom – nem mesmo os incensados pela crítica ao longo das décadas. Alice Adams, de 1935, dirigido por George Stevens com Katharine Hepburn, por exemplo. Grande diretor, atriz extraordinária. No entanto, o filme é um horror. Um pavor. Um abacaxi absolutamente azedo.

Meu Deus do céu e também da Terra, o que é aquilo?

É bobo. É idiota. É imbecil a não mais poder.

Não me lembrava de ter visto o filme antes. Vi agora com Dona Lúcia, minha sogra, que nasceu um ano antes de o filme ser lançado. A gente se entreolhava, e não conseguia acreditar em tanta imbecilidade.

Eu entendia que o filme era um melodramão. Fizemos algumas paradas, e, durante uma delas, Dona Lúcia leu a sinopse na caixinha do DVD em que se diz que é uma comédia.

Como assim, uma comédia, se a gente não consegue dar sequer um sorriso?

zzalice2Quando o filme – que se arrasta por 99 minutos que parecem muito mais compridos do que os 201 de Assim Caminha a Humanidad/Giant, do mesmo realizador – chega quase ao final, e se dá o jantar canhestro, ridículo, horroroso, oferecido ao ricaço Arthur (o papel de um Fred MacMurray jovem como não me lembrava de tê-lo visto jamais) na casa da protagonista, a Alice Adams do título original, senti uma profunda vergonha por ter escolhido exatamente aquilo ali para ver com a sogra. Me senti culpado por mostrar a ela um tamanho horror.

Talvez até possa ser de fato engraçada essa tal sequência do jantar – mas eu não conseguia ver graça alguma. Em vez de rir, senti asco; achei tudo forçado, ilógico, grotesco, horroroso. Senti vergonha pelos personagens, pelos atores.

Pode ter sido simplesmente erro meu, por achar que o filme era um drama social.

A família Adams do filme é mais aterrorizante que aquela outra família Adams

A ação se passa numa cidadezinha interiorana, bem pequenina e bem interiorana, de algum Estado bem pequeno e bem interioriano dos Estados Unidos. Não se diz em que época estamos, mas tudo indica que é nos dias de hoje, ou seja, da época em que o filme foi feito. Sabemos que o filme é de 1935, e sabemos que em 1935 os Estados Unidos estavam afundados no maior pântano da história do capitalismo, o fundo do fundo da Grande Depressão.

zzalice3O filme, no entanto, não faz referência alguma à Grande Depressão.

A família Adams…

E me ocorre agora que a família Adams que o filme retrata é bem mais horrorosa do que a outra família Adams, aquela dos filmes de terror cômico, de terrir.

A família Adams não vai muito bem. O pai, Mr. Adams (Fred Stone), está doente; o filme não se dá ao trabalho de dizer qual é a doença de Mr.  Adams, mas o fato é que ele fica sentado na cama. Trabalha numa grande loja da pequena cidade, que pertence a um tal Mr. Lamb (Charley Grapewin), e está de licença médica.

A senhora Adams (Ann Shoemaker) é uma pentelha absoluta, uma bruxa: reclama do marido doente 25 horas por dia, diz que ele é uma porcaria de um cara que se sujeita a um emprego ruim. Xinga diversas vezes o marido por ele não ser ambicioso. Por não ser rico. Culpa o marido pela desgraça que é o fato de a filha não ter dinheiro para comprar vestidos novos.

Alice Adams (o papel de uma Katharine Hepburn lindérrima, na flor dos seus 28 anos) é a alegria do pai – e não gosta que a mãe o espezinhe. Por isso, num primeiro momento, parece uma pessoa simpática.

Mas o que vem a seguir mostra que Alice Adams é uma bocó absoluta. Revela-se uma perfeita pessoa pequena, bastante parecida com a mãe: tudo que quer na vida é aparência, futilidade: ir a festas, dançar com homens bonitões, e de preferência ricos.

Uma alpinista social!

Alice Adams não estuda, não trabalha, não lê, não se esforça para nada, não faz absolutamente nada útil, construtivo, interessante. É uma bocó, uma alpinista social bocó. Ah, sim: e ela mente. Mente compulsivamente.

Como é possível gostar de um personagem destes? Como é possível ter simpatia por aquele poço de rasura, de futilidade, de vazio?

Como alguém poderia se interessar por uma moça tão vazia, tola?

Como o diretor é George Stevens, o perfeccionista George Stevens que faria filmes grandiosos como Um Lugar ao Sol, baseado no espetacular romance de Theodore Dreiser Uma Tragédia Americana, mais Shane, mais Giant, entre tantos outros, tive esperança de que depois de algum tempo houvesse uma reviravolta. Comentei com Dona Lúcia: bem, pode ser que aconteça algo grave, que faça essa moça tonta aprender uma grande lição.

zzalice4Mas que nada! Qual o quê! Alice Adams permanece tão fútil, tola, rasa, vazia, quanto se mostra no baile do início da narrativa, na casa dos milionários Palmer.

É no baile dos milionários Palmer que Alice fica conhecendo o ricaço Arthur Russell-Fred MacMurray.

Todos na cidade comentam que Arthur vai se casar com Mildred Palmer (Evelyn Venable), assumir os negócios do sogro e herdar a fortuna.

Mas Arthur se engraça é por Alice Adams.

Me pergunto: por que diabos alguém se engraçaria por Alice Adams? Tudo bem, é linda – mas é vazia, tola, fútil, rasa, oca!

O título brasileiro, A Mulher Que Soube Amar, é um total despropósito

Há títulos brasileiros absolutamente ridículos. Já falei isso aqui mil vezes. Mas o título brasileiro de Alice Adams é um despropósito. Por que A Mulher Que Soube Amar?

Alice Adams não tem nada a ver com saber amar. Ela não sabe amar, ela não sabe coisa alguma, a não ser contar mentiras e tentar parecer o que não é!

O problema muito provavelmente deve ser meu, e não do filme. Não sintonizei com ele, não entrei no clima, não entendi sua proposta. Isso acontece, é claro.

Aconteceu também com Dona Lúcia. Mas o problema deve seguramente ser nosso, e não do filme.

Tanto Leonard Maltin quanto Pauline Kael tecem loas ao filme

Portanto, vamos a outras opiniões.

zzalice5Leonard Maltin dá 3.5 estrelas: “Excelente Americana passado em cidade pequena, com alpinista social finalmente encontrando o amor na pessoa do despretensioso MacMurray. A novela de Booth Tarkington vencedora do Prêmio Pulitzer vira uma ótimo filme, embora não totalmente plausível. Roteiro de Dorothy Yost, Mortimer Offner e Jane Murfin. Filmado antes em 1923, com Florence Vidor.”

Pauline Kael, a língua mais ferina do Leste (e também do Oeste), sempre disposta a arrasar os filmes, tratou bem de Alice Adams:

“Katharine Hepburn, com sua angularidade jovem e bela e aquele sotaque de universitária rica ligeiramente absurdo, interpreta de maneira soberba a ávida e desesperada arrivista social provinciana de Booth Tarkington. Sua Alice é uma das poucas heroínas cinematográficas americanas autênticas. George Stevens dirigiu com um senso tão refinado de detalhe e ambientação que a atmosfera de ranhetice familiar provinciana está dolorosamente exata e engraçada. Alice é amaldicionada com uma mãe pedante (Ann Shoemaker), um pai infantil (Fred Stone) e um irmão vulgar (Frank Albertson). O filme só é amaldiçoado por um falso final feliz. Alice consegue o que as companhias cinematográficas consideraram um príncipe encantado adequado para – Fred MacMurray, como um jovem rico. Mesmo com essa falha, é um clássico, e Hepburn faz uma de suas duas ou três melhores interpretações – só rivalizada, talvez, com seu trabalho em Mulherzinhas e Longa Jornada Noite Adentro.”

O filme foi sucesso de público e reergueu a carreira de Kate Hepburn

O filme teve duas indicações ao Oscar, nas categorias de melhor filme e melhor atriz. Katharine Hepburn perdeu para Bette Davis em Perigosa/Dangerous. A própria Bette Davis, no entanto, disse em mais de uma ocasião, segundo o IMDb, que o prêmio deveria ter sido dado a Katharine.

Diz o livro The RKO Story:

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“Depois do desastroso Spitfire (A Mística), o respeitável porém financeiramente desapontador Little Minister (Sangue Cigano) e o desanimador Break of Hearts (Corações em Ruínas), Katharine Hepburn precisava desesperadamente de um veículo para revitalizar sua sorte minguante. Ele o obteve em Alice Adams, o filme que também deu a George Steves o status de diretor de primeira linha. A Alice de Booth Tarkington, a adorável garota da cidade pequena esnobada pela sociedade por causa da falta de dinheiro e de ambição do pai, era uma personagem apropriado para os talentos da atriz, e Hepburn a interpretou com uma mistura comovente de idealismo ilusório e frustração agoniada. O treino de Stevens para a comédia é evidente na melhor sequência do filme, em que a família Adams convida o namorado de Alice, de boa família, Fred MacMurray (emprestado pela Paramount) para um jantar que se degenera em uma das mais hilariantes e, ao mesmo tempo, dilacerantes fiascos na história do cinema americano. Um final feliz falsificado (…) foi a única nota falsa na produção de Pandro S. Berman. (…) O filme foi um sucesso e levou Hepburn de volta (temporariamente) às boas graças do público.”

“A adorável garota.” “Uma das sequências mais hilariantes da História do cinema americano.”

É. Definitivamente, eu não consegui me sintonizar com Alice Adams.

Kate Hepburn está maravilhosa, é claro. Mesmo fazendo personagem tão repugnante

É importante, de qualquer forma, o registro – feito tanto pelo livro sobre os filmes da RKO quanto na crítica de Pauline Kael – de que os produtores exigiram, como era muito comum no cinema de Hollywood dos anos 30 e 40, que se criasse um final feliz.

zzalice8E então se providenciou um happy ending para a história de Alice Adams. O livro, pelo que se vê nos alfarrábios, tem um final bem diferente – e, na minha opinião, mais lúcido, mais correto moralmente.

Resta então, apenas, registrar que, nos anos seguintes, a segunda metade dos anos 30, vários filmes de Kate voltaram a ser fracassos de bilheteria, a ponto de a atriz ser tachada pelos exibidores como box-office poison – veneno na bilheteria. Seria apenas com The Philadelphia Story, de 1940, no Brasil Núpcias de Escândalo, que ela voltaria a ter um gigantesco sucesso de bilheteria.

Katharine, é claro, está maravilhosa como sempre em Alice Adams. Mesmo fazendo uma personagem tão repugnante.

Anotação em outubro de 2013

A Mulher que Soube Amar/Alice Adams

De George Stevens, EUA, 1935

Com Katharine Hepburn (Alice Adams)

e Fred MacMurray (Arthur Russell), Fred Stone (Mr. Adams), Evelyn Venable (Mildred Palmer), Frank Albertson (Walter Adams), Ann Shoemaker (Mrs. Adams), Charley Grapewin (Mr. Lamb), Grady Sutton (Frank Dowling), Hedda Hopper (Mrs. Palmer), Jonathan Hale (Mr. Palmer), Janet McLeod (Henrietta Lamb), Hattie McDaniel (Malena)

Roteiro Dorothy Yost, Mortimer Offner e Jane Murfin

Baseado no livro de Booth Tarkington

Fotografia Robert De Grasse

Música Roy Webb

Produção Pandro S. Berman, RKO. DVD Warner Bros.

P&B, 99 min

½

Um Comentário

  1. Senhorita
    Postado em 8 janeiro 2014 às 2:30 pm | Permalink

    Quando falam tão mal assim de um filme, eu fico louca de vontade de assistir kkk…

3 Trackbacks

  1. […] cabeça, uma sentença. O livro citado no parágrafo acima diz que Alice Adams (no Brasil, A Mulher Que Soube Amar) é um drama pesado sublime. O filme é em geral considerado uma comédia – e, na minha […]

  2. […] E aí, sim, vemos, depois de cinco minutos de filme, o casal mil do cinema de Hollywood – Spencer Tracy e Katharine Hepburn. […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Reinado do Crime / Borderline em 28 agosto 2016 às 1:48 am

    […] dando uma olhada para ver o que o Now tem no gênero Clássicos, vi os nomes de Claire Trevor e Fred MacMurray, e resolvi […]

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