Willie Boy / Tell Them Willie Boy is Here

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Nota: ★★½☆

É bastante estranho ver hoje Willie Boy, no original Tell Them Willie Boy is Here, quatro décadas depois de seu lançamento, sem saber do contexto em que foi feito e da polêmica que despertou.

O filme é de 1969, e naquela época os westerns já haviam deixado bem para trás a antiga noção de que índio bom é índio morto. John Ford já havia feito seu pedido de perdão aos índios em Crepúsculo de uma Raça/Cheyenne Autumn, em 1964, e em 1970 Arthur Penn faria seu belíssimo (e violentíssimo) panfleto pró-índios, Pequeno Grande Homem/Little Big Man.

E o diretor Abraham Polonsky é respeitadíssimo, tanto por sua obra quanto por suas convicções: é um homem de esquerda, entrou na lista negra do macarthismo.

Portanto, seria mesmo de se esperar um panfletaço pró-índio deste seu western.

Disso eu sabia, quando me sentei para ver Tell Them Willie Boy is Here.

No entanto, durante boa parte do filme, fiquei com uma estranha sensação de que as coisas não estavam sendo ditas com todas as letras. Nos primeiros 15, 20 minutos, o sentimento era até mesmo de que o filme parecia ser a continuação de um outro que eu não havia visto. Parecia que o diretor Polonsky – ele também autor do roteiro – dava de barato que o espectador conhecia bem aqueles personagens, e então não era necessário apresentá-los direitinho, mostrar suas características, explicar a situação.

Em suma: o filme me pareceu, em boa parte, um tanto sutil demais.

Ao ler agora alguns comentários sobre ele, vi que ele é acusado por alguns críticos exatamente do contrário: de ser explícito demais, de ser óbvio demais.

Alguns críticos. Porque há, no sentido inverso, quem defenda ardorosamente o filme.

Foi, na época, uma obra que levantou polêmica.

O Oeste com estradas de ferro, automóveis, telefone – o crepúsculo do velho Oeste

Mas é necessário fazer uma sinopse, ou, como eu gosto, um relato do que se vê no início da narrativa.

zzwillie2Começa com um letreiro, um pequeno texto – que, pleonasticamente, é também lido por uma voz feminina: “No verão de 1909, um membro da mais antiga minoria americana, um índio paiute chamado Willie Boy, tornou-se o centro de um evento histórico extraordinário. O que se segue é o que aconteceu nos desertos da Califórnia.”

Vemos um trem atravessando uma enormidade sem fim, e do trem em movimento no meio do nada salta um índio, vestido como branco – calça, camisa de manga comprida, gravata, paletó. Presume-se que seja o Willie Boy do título, e, naturalmente, é ele mesmo. É interpretado por Robert Blake, um ator que fez dezenas de filmes a partir de 1940 mas apenas em 1967 havia tido um papel de protagonista, como um dos dois assassinos de A Sangue Frio, de Richard Brooks, a excelente transposição para o cinema da obra-prima de Truman Capote.

Willie Boy sabe bem onde está – depois de andar um tanto, chega a uma pequena estrada de terra, por onde passa um carro, um automóvel, um veículo de quatro rodas, que levanta uma poeira danada na cara do caminhante.

O Oeste com grandes estradas de ferro, com automóveis, com telefone (que será citado logo depois, na narrativa). O Oeste no crepúsculo do Velho Oeste, já no início do século XX. O Oeste outonal. Tenho especial admiração por filmes que mostram isso.

Atrás do automóvel vem uma charrete. Seu condutor reconhece Willie Boy, pára para que ele suba. Pergunta se ele também está indo para a festa na reserva, e Willie Boy diz que sim. Pergunta se é verdade que ele trabalhou como capataz numa fazenda em Nevada, cuja dona era uma mulher, e Willie Boy diz que sim. O homem pergunta então por que Willie Boy não continuou lá, por que resolveu voltar, e a resposta é:

– “O marido dela voltou.”

Uma placa avisa que eles estão entrando na Reserva Morongo, e que o superintendente da reserva é E. Arnald, Indian Bureau, U.S.A.

Não se sabe por que o pai da moça proíbe o namoro dela

Aparentemente, todos ali reunidos na festa da reserva conhecem Willie Boy. É um sujeito famoso – jamais vai se explicar por quê.

zzwillie4No meio das dezenas e dezenas e dezenas de pessoas na festa, destaca-se sobremaneira uma mulher com um vestido comprido imaculadamente branco, de cabelos absolutamente negros, pele muito escura. É Katharine Ross, um dos mais belos rostos que já apareceram numa tela de cinema, aqui maquiada para parecer índia. Dois anos antes, em 1967, ela havia encantado uma geração inteira como a filha de Mrs. Robinson, Elaine Robinson, em A Primeira Noite de Um Homem/The Graduate, e naquele mesmo ano de 1969 voltaria a encantar o mundo como Etta Place, a namorada do Sundance Kid-Robert Redford, mas que também dava bola para Butch Cassidy-Paul Newman.

Veremos que Willie Boy e Lola (esse é o nome da índia belíssima de morrer) são apaixonados um pelo outro há muito tempo, mas, por um motivo que não será revelado hora alguma, a família dela proíbe terminantemente o namoro.

Os dois ficam juntos por um rapidíssimo momento: ao vê-los, o pai zangado da moça, ladeado pelos filhos, vai ao encontro de Willie Boy. Ele tem tempo apenas de dizer que vai esperá-la no pomar de Calvert à meia-noite. Já está se distanciando dela quando o pai de Lola o chama.

O pai de Lola: – “Eu já avisei você antes. Vou matar você. Você não acredita em mim?”

Willie Boy: – “Acredito, Mike. Da outra vez fugi com ela. Agora estou pedindo a você.”

O pai de Lola: – “Não consigo ouvir você.”

Willie Boy: – “Você deveria ouvir.”

E em seguida vai embora.

Às escondidas, o xerife e a doutora têm um caso. Uma relação de sexo e ódio

E então ficamos conhecendo dois outros personagens importantes da história. Um deles é o xerife do condado, Christopher Cooper, que os amigos chamam de Coop – o papel de Robert Redford. Outra é Liz Arnold (interpretada por Susan Clark), ou, por extenso, conforme ela recitará numa determinada cena, “Elizabeth Arnold A.B. Radcliffe, antropóloga e médica formada pela Johns Hopkins”.

A legenda da cópia que vi (gravada do Telecine Cult) sequer se dá ao luxo de transcrever o nome Johns Hopkins, mas seria importante fazê-lo, porque a Johns Hopkins não é uma universidade qualquer. Fundada em 1875, em Baltimore, é uma das mais respeitadas dos Estados Unidos.

A dra. Elizabeth Arnold, mulher formada em respeitada universidade do Leste, é a superintendente daquela reserva indígena, e é mandona pacas. Dá ordens ao xerife Coop como se ele fosse empregado dela. Manda que ele expulse uns homens brancos que estão vendendo bebida alcoólica para os seus índios. Assim mesmo: ela fala como se os índios fossem de sua propriedade: “meus índios”.

Na sequência imediatamente anterior, tínhamos visto Willie Boy, logo depois do áspero diálogo com o ex-quase-futuro sogro, comprar uma garrafa de uísque dos tais brancos.

Na noite daquele mesmo dia, enquanto Lola vai se encontrar com Willie Boy no pomar de Calvert, veremos que, na maciota, às escondidas de todos, o xerife Coop come a doutora do Leste – algo que, pelo jeito, vem fazendo há tempos.

Têm uma relação de sexo e ódio, uma coisa quase sado-masoquista, o xerife e a doutora. Naquela noite, depois da trepada, discutem. Ela o insulta, diz que ele não consegue sequer ser um matador de índios como o pai – ao que ele replica rapidamente dizendo que seu pai não tem nada a ver com coisa alguma. E acrescenta que, afinal de contas, ela poderia simplesmente dizer não para ele.

A doutora (expressão de ódio e desprezo no rosto e na voz): – “Como eu poderia resistir a você? Você é bruto, grosseiro, violento, como um lobo numa jaula. Eu uso você como você me usa. Se você não fosse um xerife bobo numa cidade suja, saberia disso.”

O xerife (enfurecido): – “Quem você pensa que é?”

E é aí que ela responde, cheia de empáfia: – “Eu sou a dra. Elizabeth Arnold A.B. Radcliffe, antrópologa e médica formada pela Johns Hopkins. Quem é você?”

O presidente americano está em visita exatamente àquela região

As seqüências do casal de branco naquela noite vão se alternando com as do casal de índios. Conforme Willie Boy havia pedido, a lindíssima Lola vai ao encontro dele. Quando estão trepando, ao ar livre, chegam o pai dela com os filhos. Willie Boy é rápido, tira do pai dela a espingarda e dá um tiro à queima-roupa – um tiro fatal.

zzwillie5Embora eu tenha me alongado no relato, estamos aí com apenas uns 20 minutos de filme. Praticamente todo o resto da narrativa será ocupado pela perseguição de um grupo grande de homens liderados primeiro pelo xerife Coop, depois por Ray Calvert (Barry Sullivan), um homem importante do local, aos fugitivos Willy Boy e Lola.

Será mencionado várias vezes que o presidente dos Estados Unidos, William Howard Taft, estaria, naqueles dias, em visita àquela região específica da Califórnia. Seria a primeira vez que San Bernardino, a maior cidade daquela região, receberia a visita de um presidente.

Vagamente, bem en passant, o filme mostrará que, entre o grande número de jornalistas do Leste presentes na região para cobrir a visita presidencial, surgiria o boato de que Willie Boy estaria liderando uma rebelião de índios, e que o presidente Taft correria o risco de ser vítima de um atentado.

Isso é mostrado, repito, de maneira bastante vaga, en passant. Na verdade, o filme (pelo menos na minha opinião) não mostra, de forma alguma, o que promete na frase inicial – “Willie Boy tornou-se o centro de um evento histórico extraordinário”.

O primeiro filme de Polonsky após 21 anos impedido de trabalhar

Abraham Polonsky (1910-1999) baseou seu roteiro no livro de um autor chamado Harry Lawton, Willie Boy: A Desert Manhunt, que, por sua vez, reproduz fielmente uma história real. Willie Boy existiu mesmo, assim como existiu o boato de que ele estaria liderando uma revolta de índios. Existiu o boato – mas era apenas um boato, sem um pingo de verdade.

Dá para dizer com bastante segurança que boa parte da importância que se deu ao filme nos Estados Unidos deve-se ao fato de que ele foi o primeiro dirigido por Polonsky desde A Força do Mal/Force of Evil, de 1948.

Era o retorno à direção, após 21 anos, de um realizador que havia sido impedido de trabalhar pela furiosa paranóia anticomunista, a caça às bruxas promovida pelo senador Joseph McCarthy.

Formado em Direito pela prestigiosa universidade de Columbia, Polonsky foi jornalista e autor de textos para o rádio. Seu primeiro trabalho notável no cinema foi o roteiro de Corpo e Alma/Body and Soul, que Robert Rossen dirigiu em 1947, com o então grande galã John Garfield. O trabalho foi muito bem recebido, e Polonsky teve então a oportunidade de dirigir um outro filme estrelado por John Garfield, Force of Evil, um drama sobre gângster com comentários sobre a sociedade que se tornou cult.

Depois de escrever o roteiro de outro drama social, Ambição de Mulher/I can get it for you wholesale, com Susan Hayward, de 1951, ele foi colocado na lista negra, e portanto impedido de continuar trabalhando. Sustentou-se – como diversos outros roteiristas – escrevendo roteiros para a TV, assinados por testas-de-ferro.

Apenas em 1968 conseguiu voltar a assinar um trabalho no cinema – o roteiro de Madigan, um elogiado policial com Henry Fonda e Richard Widmark.

E no ano seguinte escreveria e dirigiria Tell Them Willie Boy is here.

“Polonsky se esforça para contar sua história sem enfeites”

Como já foi dito, a crítica se dividiu. Houve loas e cacete.

zzwillie3Leonard Maltin fica no meio termo; dá 3 estrelas em 4 e sentencia: “Caçada humana massiva pelo índio que matou em legítima defesa finge ser mais importante do que é, mas é tão bem realizado que os sermões podem ser deixados de lado. Fotografado com muita atmosfera por Conrad Hall. Primeiro filme do incluído na lista negra Polonsky desde Force of Evil, de 21 anos antes.

Já Roger Ebert caiu de amores pelo filme, ao qual deu 3.5 estrelas em 4. Ebert, um crítico que gosta de ver filmes, ao contrário de muitos (talvez a maioria), escreve comentários longos, só não mais longos do que os meus. Aí vão alguns trechos.

Tell Them Willie Boy is Here é a reconstituição simples, direta, quase árida, de um evento ocorrido em 1909. É sobre Willie Boy, um índio paiute cuja luta pessoal por liberdade foi elevada pela imprensa a uma revolta indígena contra o presidente William Howard Taft. É também sobre o racismo dos brancos e o orgulho dos índios, e não é, de forma alguma, um western comum. Ele marcou a volta à carreira de diretor de Polonsky, interrompida 21 anos antes (…)”

“Polonsky se esforça para contar sua história sem enfeites. É sobre como Willie Boy (Robert Black) volta à reserva para casar com a moça que  ama, Lola (Katharine Ross). Mas o pai dela proíbe que os dois se vejam. Numa confrontação, Willie Boy mata o pai em legítima defesa e então foge com Lola. Os índios aceitam o evento como ‘casamento por captura’, forçado a Willie Boy porque, como ele diz a Lola, ‘Eu pedi por você da maneira do homem branco, e cansei de pedir’. Mas Lola é a favorita da superintendente da reserva (Susan Clark), uma perfeita bostoniana que desejava que ela se tornasse professora. Por causa da insistência da superintendente, o xerife (Robert Redford) reúne um bando armado para ir atrás do casal.

“Quase todo o filme trata da caçada, que acontece enquanto o presidente Taft está visitando a área. (…)

zzwillie6“O filme tem um ritmo mais vagaroso do que seria de se esperar num western, mas é que este não é propriamente um western, mas um estudo de personalidade. Não há muitas cenas de ação e tiroteios; este é essencialmente um ensaio sobre os estereótipos pelos quais os homens brancos tentaram justificar o roubo das terras e da independência dos índios. Tell Them Willie Boy is Here funciona poderosamente nesse nível, e é impossível vê-lo sem pensar que esse mesmo tipo de exploração continua existindo hoje.”

Dame Pauline Kael ataca o filme com a fúria com que a Cavalaria matava índios

Pauline Kael, a primeira-dama da crítica americana, que tem sempre uma frase irônica, sarcástica, mesmo para os filmes que admira, caiu matando. O ímpeto com que Dame Kael ataca o filme só tem igual no ímpeto com que, na imensa maioria dos westerns feitos até meados dos anos 1950, a Cavalaria matava aqueles selvagens sujos que insistiam em ficar nas terras que os brancos chegavam para ocupar.

A crítica dela ao filme está na edição brasileira de seu livro 5001 Nights at the Movies, que aqui saiu, com seleção, edição e tradução de Sérgio Augusto, como 1001 Noites no Cinema. Transcrevo:

“Ideologia a cavalo. O roteirista e diretor Abraham Polonsky pegou uma história de western sobre um índio, Willie (Robert Blake), que em 1909 mata outro índio, pai de sua namorada (Katharine Ross), e enxertou-lhe muito marxismo e freudianismo esquemáticos, existencialismo de guerrilha Nova Esquerda e auto-ódio americano dos anos 60, de tal modo que cada maldita frase do diálogo se torna ‘significativa’. Não há uma personagem que não assuma posições e represente várias forças políticas, e o xerife (Robert Redford) se chama Coop para que seus atos simbolizem a covardia e fracasso finais das figuras de herói tipo Gary Cooper. A médica (Susan Clark), superintendente da reserva, é uma liberal protetora dos índios – a vilã suprema. Com vergonha de sua sexualidade (como todas as liberais), diz frases para Redford como ‘Uso você do jeito que você me usa’. (A maioria das mulheres na plateia irá provavelmente pensar – que sorte a sua.)

“O filme é medido de maneira solene, e sua cor é ‘dessaturada’ por paisagens estéreis, empoeiradas. Diz que, como o negro (o fingimento com com os índios não é mantido por muito tempo) não pode confiar em nenhum branco, e não pode haver reconciliação de raças, ele deve tentar destruir tudo. É o único meio que tem para fazer os brancos saberem que esteve aqui. Uma idéia estranha, porque não haveria mais ninguém por perto para se lembrar dele. Não é provável que este filme seja muito satisfatório, a não ser para os negros kamikazes e os brancos masoquistas.”

Uau!

zzwillie7Dame Kael, quando ficava furiosa… Sai de baixo!

E, ao final de seu comentário no livro original, ela ainda convida quem quiser uma discussão mais extensa para ler seu livro Deeper into Movies. Esse convite não é feito a torto e a direito. Parece que ela só faz isso com os filmes que ama de paixão ou detesta com fúria.

Para mim, é um filme com defeitos, mas também com belas qualidades

Mais calmo, moderado, Ted Sennett, autor do belíssimo livro Great Hollywood Westerns, define o filme como “pesadamente didático e insistente em seus temas e efeitos”, e chama o caso da doutora com o xerife de “subtrama inconvincente”. Apesar disso, o livro traz duas fotos do filme, o mesmo número de fotos que mereceu Pequeno Grande Homem, ante quatro de Crepúsculo de uma Raça – o que, creio, é um indicativo de sua importância dentro da história do gênero.

Este texto já está longo demais, e, depois das opiniões diferentes de quatro autores, deveria terminar por aqui. Mas sou teimoso, quase tanto quanto Willie Boy e o xerife Cooper, e então quero dar meus pitacos.

Não achei Willie Boy um grande filme – nem uma porcaria. É importante, sem dúvida alguma. Tem boas qualidades: as atuações são excelentes, a música de Dave Grusin funciona muito bem, a fotografia é esplêndida – e enfrentar as duras questões do massacre dos índios e do racismo que persistia ao final da primeira década do então novo século é ponto extremamente positivo, sem dúvida alguma.

zzwillie9Não me pareceu tão exageradamente ideológico, pesadadamente didático. Até porque Willie Boy não é mostrado como um herói, de forma alguma. Não é, nem de longe, um filme maniqueísta – nem todo índio é bom, nem todo branco é racista, safado, filho da puta.

A figura do xerife Cooper me pareceu, ao contrário do que seria de se esperar num filme tido como ideológico e didático, extremamente bem construída. É um personagem de muitas facetas. Não gosta de ficar se metendo na vida dos índios, mas não é racista. Tem vergonha do fato de seu pai ter sido um matador de índios. Tem respeito por Willie Boy, pela sua coragem, tenacidade, habilidade – mas entende que tem que cumprir seu dever. Ao final, fará questão de dar uma chance a ele. Isso fica extraordinariamente claro.

No entanto, apesar de ter várias qualidades, o filme, na minha opinião, também tem seus defeitos. Um deles – que tentei expressar no início deste interminável comentário – é dar de barato que o espectador sabe muito bem de todo o contexto em que a história se inclui. Não explicita a questão de que o episódio acabou dando origem a um boato envolvendo uma suposta (e fictícia) rebelião indígena contra o presidente Taft. Deixa um monte de questões no ar: por que afinal a família de Lola rejeita Willie Boy? Por que afinal Willie Boy é tão conhecido e respeitado (ou amado, ou odiado) por todas as pessoas das redondezas? Por que afinal a doutora e o xerife mantêm aquela relação angustiante, sufocante? Por que Lola é tão indecisa – o que, afinal, ela queria da vida?

Uma no cravo, outra na ferradura. Agora, mais uma no cravo.

Para mim (e não vi menção a isso em nenhum dos doutos comentários que li sobre o filme), o que, ao fim e ao cabo, este Willie Boy de Polonsky mostra – através dos destinos que Lola e o próprio Willie Boy e também Lola escolhem para suas vidas – é que eles já não sentiam que havia lugar para eles naquela terra que havia sido de seus antepassados por milhares de anos.

Willie Boy e Lola perceberam que não cabiam mais no mundo. Poderiam talvez escolher o modo de vida dos brancos – ter um rancho em Nevada, como diz Lola, ou ela mesma ser professora, como queria a doutora. Ou poderiam talvez escolher o modo de vida dos índios, em alguma reserva mais afastada. Mas não sentiam que pertenciam mais a nenhum dos dois universos. Tinham caído no limbo. Não havia mais espaço para eles.

Prós e contras colocados, acho que a verdade dos fatos é que quem gosta de cinema deveria ver ou rever Tell Them Willie Boy is Here.

Anotação em dezembro de 2012

Willie Boy/Tell Them Willie Boy is Here

De Abraham Polonsky, EUA, 1969

Com Robert Blake (Willie Boy), Robert Redford (Christopher Cooper). Katharine Ross (Lola)

e Susan Clark (Liz Arnold), Barry Sullivan (Ray Calvert), John Vernon (Hacker), Charles Aidman (Benby), Charles McGraw (Frank Wilson), Shelly Novack (Finney), Robert Lipton (Newcombe), Lloyd Gough (Dexter)

Roteiro Abraham Polonsky

Baseado no livro Willie Boy: A Desert Manhunt, de Harry Lawton

Fotografia Conrad Hall

Música Dave Grusin

Montagem Melvin Shapiro

Figurinos Edith Head

Produção Universal

Cor, 96 min.

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