Uma Vida Iluminada / Everything is Illuminated

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Nota: ★★★☆

Primeiro e até agora único filme dirigido pelo ator Liev Schreiber este Everything is Illuminated, no Brasil reduzido para Uma Vida Iluminada, é bastante interessante. O tema de fundo é o Holocausto, o Shoah, mas o tom é leve, bem humorado, brincalhão, quase farsesco.

Conta a história de um rapaz, Jonathan (o papel de Elijah Wood), nova-iorquino, judeu, um fanático colecionador de coisas que pertenceram a pessoas de sua família. Desde quando era um garotinho, e perdeu seu avô, Safran (Stepán Samudovský), Jonathan pega objetos, guarda-os em saquinhos plásticos, etiqueta-os, e pendura-os em uma grande parede de sua casa. Quando o avô morreu, Jonathan encontrou numa gaveta do criado-mudo uma espécie de broche – um vidro, ou cristal, com um gafanhoto dentro.

Quando Jonathan é um jovem adulto – os dias em que a ação principal se passa, os tempos atuais, anos 2000 –, sua avó (Jana Hrabetová) entrega para ele uma foto muito antiga e um cordão com a estrela judaica. “Seu avô gostaria que você ficasse com isso”, diz ela.

Jonathan examina cuidadosamente a foto, em que aparece um casal. O homem, então jovem, é Safran, seu avô. Atrás da foto, com a letra do avô, está escrito: “Augustine e eu – 1940 – Trachimbrod”.

Jonathan pergunta para a avó quem é Augustine, de quem ele, colecionador de coisas da família, jamais ouvira falar. Mas é tarde: naquele exato momento, a avó passa desta para melhor.

Como se a morte da avó fosse a coisa mais natural e esperada do mundo, Jonathan pega, de um copo no criado-mudo ao lado dela, a dentadura; coloca num saquinho plástico, etiqueta-o e coloca o saquinho na sua parede-memorial.

Colecionar a dentadura da avó recém-morta deve ser algum tipo de piada de humor judeu.

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A história é narrada por um garotão russo de Odessa, uma figuraça

Todo o filme é cheio de piadas assim. Há muitas piadas gozando judeus, neste filme feito por um judeu, sobre judeus, cujo tema de fundo é o assassinato de milhões de judeus pelos nazistas.

Há piadas de todas as formas. Há um bando de piadas politicamente incorretas – que maravilha!

Não é preciso que o espectador seja muito atento para perceber que o nome do personagem central, Jonathan Safran Foer, é o nome do autor do livro em que o filme se baseia. O nome do autor aparece com toda clareza nos créditos iniciais – sim, porque, embora seja de 2005, Everything is Illuminated tem créditos iniciais, como se fazia antigamente e hoje em dia praticamente não se faz mais.

Os créditos iniciais dizem que Liev Schreiber foi o autor do roteiro e o diretor. O que é fascinante. Schreiber, ator de talento e prestígio, mais de 60 filmes no currículo, fez aqui sua estréia como roteirista e como diretor. Demonstra grande talento.

Se o personagem tem o mesmo nome do autor do livro que deu origem ao filme, seria de se supor que a história fosse autobiográfica. Seria a lógica.

No entanto, quem narra a história de Jonathan Safran Foer, o protagonista, não é ele mesmo, e sim Alexander Perchov III, mais conhecido como Alex. Alex – maravilhosamente interpretado por Eugene Hutz, na foto abaixo – é um russo da cidade ucraniana de Odessa, garotão aí de uns 23 a 25 anos, um tipo malandrão, bem humorado, que se veste de maneira esportiva e desengonçada, tem o cabelo topetudo e desgrenhado, adora dançar, adora os Estados Unidos, adora a música e os filmes americanos. É apaixonado por Embalos de Sábado à Noite e por Michael Jackson.

zziluminado5Alex é, em quase tudo, o oposto de Jonathan.

Jonathan se veste sempre de terno. Seu cabelo é sempre cuidadosamente penteado. Nunca sorri: é sério, sisudo, Filho do Tempo, como diz do garotinho personagem de Judas, O Obscuro seu autor, Thomas Hardy.

Um filme cheio de piadas politicamente incorretas

Quando o filme começa, vemos Jonathan, diante do túmulo do avô – a lápide diz “Safran Froer – 1921-1989”, e depois o seguimos pelo metrô. Mas o que ouvimos é a voz em off do ator que faz o papel de Alex.

O avô de Alex (Boris Leskin) havia criado, muitos anos antes, um serviço de atendimento a judeus que viajavam à Ucrânia em busca de informações sobre seus antepassados, ou simplesmente para visitar os locais em que eles haviam vivido.

O pai de Alex (Oleksandr Choroshko) havia herdado o negócio do pai. E esperava transmiti-lo para o filho.

A voz em off de Alex nos conta essa história, primeiro enquanto vemos as imagens de Jonathan em Nova York, e depois quando vemos imagens do próprio Alex e sua família em Odessa.

Foi assim que Alex ficou conhecendo Jonathan: após a morte de sua avó, o rapaz viajou para a Ucrânia, para saber mais sobre o passado de seu avô, e tentar descobrir quem era Augustine, que aparecia na foto ao lado de Safran em Trachimbrod.

No filme baseado em livro de Jonathan Safran Foer em que o protagonista tem o nome do autor, quem escreve a história da visita de Jonathan à terra de seu avô é esse Alex, jovem malandrão de Odessa que sempre havia achado que os judeus têm merda na cabeça. Até conhecer o colecionador Jonathan.

A coisa de achar que judeu tem merda na cabeça é dita pela voz em off de Alex bem no início do filme. Com todas as letras.

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Um avô cego que dirige carro, um pai que bate no filho adulto, um cão chamdo Sammy Davis Jr. Jr.

A forma com que o filme mostra Alex e toda a sua família beira a mais aberta farsa. É uma gozação esculachada, escancarada. Alex fala num inglês cheio de palavras pouco usuais, tem um jeito de sonso, de meio bocó – embora seja, na verdade, bastante esperto.

O pai de Alex dá socos na cara dele quando ele fala alguma bobagem.

O avô, então, é uma figura cômica. Diz ter ficado cego, depois de perder a mulher – e tem até um cão guia, que ganhou de Alex o nome de Sammy Davis Jr. Jr. Até o cão é doido. Quanto ao avô, está sempre de péssimo humor, e não gosta absolutamente nada de judeus – embora tenha vivido ganhando dinheiro de judeus que levava em turnês pelo interior da Ucrânia.

Alex, o avô e Sammy Davis Jr. Jr. se incumbirão de levar Jonathan para sua excursão em busca de uma cidade, Trachimbrod, que não está nos mapas e de cujo nome ninguém parece ter ouvido falar.

O avô cego vai dirigir o carro, com Alex na cadeira do carona. E Jonathan, que tem sério problema de fobia de cães, será obrigado a compartilhar o banco de trás do carro velhíssimo com Sammy Davis Jr. Jr.

O filme trafega na fina linha entre o cômico e o grotesco com uma segurança espantosa

O tom, repito, é sempre bem humorado. Um tom cômico, esculachado, escrachado, politicamente incorretíssimo, beirando a farsa aberta. Às vezes parece beirar também o realismo fantástico.

Novato, neófito, inexperiente tanto em escrever roteiros quanto em dirigir, Liev Schreiber demonstra grande talento, repito. Seu filme não desafina – trafega nessa fina linha que separa o cômico do grotesco com uma segurança espantosa.

Não me ocorreu isto enquanto via o filme, mas sim dois dias depois (ao contrário do que normalmente acontece, não fiz a anotação imediatamente após ter visto o filme): o tom deste All is Illuminated faz lembrar o de Trem da Vida (1998), o fascinante, maravilhoso filme do romeno radicado na França Radu Mihaileanu, também sobre o Holocausto.

É sempre arriscado fazer esse tipo de afirmação, mas eu poderia jurar que Liev Schreiber viu e reviu Trem da Vida, antes de fazer seu filme de estréia como roteirista e diretor.

O autor do livro de fato fez uma viagem à Ucrânia, assim como o protagonista

zziluminado6E aí? Seria All is Illuminated uma história autobiográfica – embora narrada por um ucraniano, e não por um judeu americano?

Jonathan Safran Foer nasceu em Washington, em 1977. O livro Everything is Illuminated é de 2002 – entre o lançamento do livro e o do filme passaram-se portanto apenas três anos. Em 2005 ele lançou Extremely Loud and Incredibly Close, que seria transformado em elogiado filme em 2011. Atualmente, segundo a Wikepedia, ele ensina escrita criativa na New York University; também segundo a enciclopédia da era da internet, seus trabalhos dividem público e crítica – há os que amam, há os que detestam.

E, sim, ele de fato visitou a Ucrânia em 2001.

Everything is Illuminated ganhou o National Jewish Book Award e o Guardian First Book Award.

O quanto há de ficção e o quanto há de realidade da vida de seus antepassados na história, não tenho idéia. Mas houve, de fato, um massacre de judeus em um lugarejo ucraniano chamado Trachimbrod (como é grafado no filme), ou Trochenbrod (como é grafado na Wikipedia em inglês).

Um excelente trabalho de escolha de atores. E uma trilha sonora sensacional

Nomes, grafias.

zziluminado8Não dá para saber por que raios os exibidores brasileiros resolveram reduzir a afirmação genérica, planetária, do título original, Tudo é Iluminado, para Uma Vida Iluminada. Cabeça de titulador de filmes tem mais mistérios que toda a física quântica; é uma caixinha de surpresas mais surpreendente do que o futebol.

Aliás, de quem seria a única vida iluminada a que se refere o título brasileiro? Certamente não a de Jonathan, nem a de Alex. Seria talvez a de Lista, que só aparece na história depois dos 30 minutos do segundo tempo?

Que beleza, que imponente a figura de Laryssa Lauret (na foto), a atriz escolhida para fazer Lista. Vejo que Laryssa Lauret é polonesa, nascida em 1939 – exatamente o ano em que os nazistas invadiram a Polônia e começou a Segunda Guerra Mundial. Tem apenas cinco títulos no currículo – e dois deles são séries de TV.

E esse garoto Eugene Hutz, que faz o malandrão meio bocó meio espertalhão Alex, e rouba todas as cenas em que aparece? O que que é aquilo, siô?

É ucraniano mesmo. Nasceu em 1972 na então República Socialista da Ucrânia, uma das muitas repúblicas da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Segundo o IMDb, foi líder de uma banda de música cigano-punk.

Cigano-punk! Acho que essa categoria musical nem o Carlos Bêla conhece!

(Ledo engano meu. Ao ouvir de mim a expressão cigano-punk, Carlos respondeu: “cigano-punk? já até imagino quem seja: você tá falando do Eugene Hütz, cantor do Gogol Bordello, que participou do filme Everything Is Illuminated? adoro essa banda.” O bicho é fogo.)

Sua filmografia é curtíssima: apenas quatro títulos, um deles um curta-metragem.

Liev Schreiber mostrou diversas faces de talento em seu filme de estréia como diretor. Uma delas é dirigir bem os atores. Outra é ter contado com uma direção de casting de excepcional qualidade. A diretora de cast é Avy Kaufman, uma mulher que trabalha nuns cinco filmes por ano no mínimo. Fez um trabalho esplendoroso. As figuras que ela encontrou são sensacionais.

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E, para encerrar, a trilha sonora.

É uma absoluta maravilha, a trilha sonora – não apenas as composições originais, escritas para o filme por Paul Cantelon, mas em especial as canções escolhidas como músicas incidentais. Imagino que sejam músicas folk e pop da Ucrânia mesmo. São sensacionais, gostosíssimas; muitas são canções alegres, bem humoradas, que servem perfeitamente para dar o tom do filme.

Deveria dirigir mais filmes, o bom ator Liev Schreiber. E, neste ano de 2013, está em pré-produção sua segunda realização, Sydney Unplugged. É para anotar e ver assim que chegar aqui.

Anotação em fevereiro de 2013

Uma Vida Iluminada/Everything is Illuminated

De Liev Schreiber, EUA, 2005.

Com Elijah Wood (Jonathan Safran Foer), Eugene Hutz (Alex), Boris Leskin (o avô de Alex),

e Laryssa Lauret (Lista), Tereza Veselková (Augustine), Oleksandr Choroshko (Alexander Perchov pai), Zuzana Hodkova (a mãe de Alex), Stepán Samudovský (Safran, o avô de Jonathan), Jana Hrabetová (a avó de Jonathan), Ljubomir Dezera (Jonathan garotinho), Jonathan Safran Foer (gari no cemitério)

Fotografia Matthew Libatique

Música Paul Cantelon

Montagem Andrew Marcus e Craig McKay

Casting Avy Kaufman

Produção Warner Independent Pictures, Telegraph Films, Big Beach Films, Stillking Films. DVD Warner.

Cor, 106 min

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Um Comentário

  1. Postado em 8 maio 2013 às 1:13 am | Permalink

    o filme eu ainda não vi. gostaria muito. mas a trilha sonora é maravilhosa mesmo.
    hahah obrigado pela citação.
    Gogol Bordello, aliás, não só ainda existe como está lançando disco novo mês que vem e recentemente fez shows no Brasil.
    esse Eugene, inclusive, morou por aqui algum tempo.
    abração!

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