Um Doce Olhar / Bal

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Nota: ★★☆☆

Um Doce Olhar, do realizador turco Semih Kaplanoglu, ganhou o Urso de Ouro e o Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Berlim de 2010, ano em que foi lançado. Ganhou outros seis prêmios e teve mais seis indicações.

Mas não é um filme que agradou apenas aos jurados de festivais e aos críticos. No IMDb, por exemplo, há diversos textos de pessoas comuns, como eu ou o eventual leitor, com loas e mais loas ao filme.

É uma daquelas obras que mostram o mundo através dos olhos de uma criança. O protagonista, Yusuf (Bora Altas), tem aí entre sete e dez anos – o filme não explicita, e não sou muito bom para cravar a idade de crianças.

zzbal2Filho único, Yusuf vive com o pai, Yakup (Erdal Besikçioglu), e a mãe, Zehra (Tülin Özen), numa região bem remota da Turquia – um lugar montanhoso, de montanhas altas, belíssimas, de uma vegetação exuberante, com árvores frondosas.

Yakup vive basicamente do mel que recolhe das colméias de abelhas no alto das árvores – Bal, o título original do filme, é a palavra turca para mel. Não é uma vida fácil, de forma alguma, até porque, nos últimos tempos, está mais difícil encontrar as colméias, que estão cada vez mais raras, e exigem que Yakup faça caminhadas mais e mais longas.

Mas, se a vida é dura, difícil, pelo menos a família não passa por necessidades básicas. A casa em que vivem, encarapitada num morro, é ampla e tem todos os confortos básicos. São pobres – mas estão muito longe da miséria.

Um garotinho que só se comunica com o mundo através do pai

Yusuf tem que caminhar um bocado até a escola rural em que estuda.

Em casa, junto do pai, Yusuf lê o que está escrito na folhinha – lê a data e as informações que a folhinha traz sobre aquele dia: tantos anos de tal fato histórico, tantos anos de outro fato histórico.

Lê bem, com segurança.

Na escola, no entanto, é absolutamente incapaz de ler sequer o título de uma das historinhas do livro-cartilha. Gagueja, tartamudeia, fica tenso, nervoso, não consegue passar do título. Os colegas riem dele, o professor tem que mandar a turma ficar em silêncio.

Com o pai, Yusuf conversa normalmente.

Quando o pai não está presente, ele gagueja.

Confesso que não consegui compreender essa estranha síndrome.

A relação é toda com o pai. Com a mãe, Yusuf estabelece pouco contato.

Zehra demonstra preocupação com o filho. Pergunta ao marido o que eles podem fazer – mas o pai parece não ver problema no comportamento de Yusuf.

Numa determinada ocasião, Zehra levará Yusuf a um imã, para que o religioso o abençoe.

A bênção e a fé do imã, no entanto, não modificam em nada o comportamento do garotinho.

Ele só se comunica com o mundo através do pai.

O pai está escalando uma árvore muito alta; o galho que o segura começa a quebrar      

O espectador fica sabendo antes do filho Yusuf e da esposa Zehra sobre o destino de Yakup.

zzbal6O filme abre com Yakup.

A câmara está parada, fixa, sobre um tripé, certamente. Não importa muito para o espectador onde repousa a câmara – o fato é que a primeira tomada de Bal é de uma câmara que está parada, fixa, no meio de uma floresta.

A primeira tomada do filme leva uns 3, talvez 4 minutos.

A câmara está lá, fixa, paradona. É o anti-cinema, de vez que kinema, no grego – a palavra que deu origem ao cinema tal qual o conhecemos desde o finalzinho do século XIX -, significa movimento.

O homem, que depois saberemos que é Yakup, é que se movimenta.

Traz um burro, que carrega seus instrumentos. Anda no meio das árvores, olha, observa.

Depois de andar pra lá e pra cá (saindo, inclusive, do quadro de visão da câmara, que permanece fixa, paradona, anti-kinema, anti-movimento), ele se decide a laçar um galho de uma determinada árvore.

Joga o laço num galho da árvore escolhida.

E em seguida vai escalando a árvore, puxando-se pela corda, batendo os pés na árvore.

Vai escalando a árvore.

Aí acontece um ruído.

O galho que Yakup laçou começa a quebrar. O peso de Yakup é maior do que o galho pode suportar.

Depois de uns 3, talvez 4 minutos, há um corte.

A segunda tomada do filme, um close-up, mostra Yakup na horizontal.

Corta, e o filme nos apresenta uma terceira tomada, um plano geral: Yakup, ao contrário do que poderíamos ter pensado ao ver a segunda tomada, não está caído no chão.

Não. Está em posição horizontal em relação ao solo, perpendicular em relação à altíssima árvore. Ainda não caiu. Pode ser – quem sabe? – que não caia. Pode ser que, se cair, não morra. Mas, se cair, daquela altura, provavelmente morrerá.

Na abertura, uma sequência de grande impacto

E em seguida veremos Yakup conversando com seu filho.

Yusuf aproxima-se da folhinha, e lê o que está escrito lá com uma absoluta firmeza.

zzbal3E então começa propriamente a narrativa.

Não há absolutamente nenhuma lei que proíba neguinho de mexer com a cronologia, ao narrar uma história. Neguinho pode contar sua história do jeito que quiser – de trás pra frente, em zigue-zague. Como tudo é permitido, permite-se até mesmo que neguinho conte história seguindo os fatos cronológicos. Nem mesmo isso é proibido.

Depois que Resnais e Bergman misturaram sonhos e realidade, passado e futuro, então, tudo é permitido.

Inclusive – e por que não? –  vermos antes de tudo um fato que vai acontecer no meio da história a ser contada. Isso é até bastante comum no cinema hoje.

E as tomadas iniciais do filme são de grande impacto.

Uma sequência belíssima com o garotinho e sua mãe

A fotografia de Bal é extraordinária.

É de uma absurda beleza o que o diretor de fotografia consegue para extrair a luz do sol sobre o verde daquelas montanhas turcas.

O garotinho Bora Altas é um estupor como Yusuf.

zzbal5Há, de fato, uma outra sequência linda. Já faz alguns dias que Yakup saiu à procura de colméias; tinha avisado que ficaria fora um ou dois dias, mas está demorando, e Zehra, sua mulher, se preocupa. O espectador já sabe, desde a primeira sequência, que houve um gravíssimo acidente com Yakup.

Estão sentados à mesa Zehra e o garotinho Yusuf. Perto de Yusuf há um copo de leite. Já havíamos visto que Yusuf detesta leite. Mas a mãe está preocupada, triste, angustiada – e então Yusuf toma o copo de leite de um fôlego só, para agradá-la. Fica olhando para o rosto da mãe, à espera de reconhecimento de seu gesto de carinho – mas Zehra nem viu, percebeu, absorta que está temendo que algo tenha acontecido ao marido.

É um belo, belíssimo momento do filme.

Bal é o terceiro filme de uma trilogia com o personagem Yusuf

Agora, o que é mesmo que este filme muito bem realizado quis dizer?

Não tenho a mínima idéia.

Uma pequena criatura que só fala com os outros através do pai. Se não tem o pai presente, não fala, não se comunica.

What the fuck será que o diretor Semih Kaplanoglu quis dizer, meu Deus do céu e também da terra?

Seguramente é um problema meu. Não tenho capacidade de compreender o que o diretor Semih Kaplanoglu explicou tão bem para o júri da Berlinale 2010, e para tantos espectadores que adoraram o filme.

Vejo no IMDb que Bal é o terceiro filme de uma trilogia de Semih Kaplanoglu sobre o personagem Yusuf.

No filme de 2007, Yumurta, Yussuf, então um poeta, volta à sua cidade natal.

No segundo filme da trilogia, Süt, Yusuf não conseguiu passar no vestibular para a universidade.

Legal.

Na minha opinião, este filme é de uma chatice atroz. Mas tudo bem: minha opinião não vale nem uma moeda de três guaranis furados.

Anotação em abril de 2013      

Um Doce Olhar/Bal

De Semih Kaplanoglu, Turquia-Alemanha-França, 2010

Com Bora Altas (Yusuf), Erdal Besikçioglu (Yakup), Tülin Özen (Zehra)

Roteiro Semih Kaplanoglu e Orçun Köksal

Fotografia Baris Ozbicer

No DVD. Produção Kaplan Film Production, Heimatfilm, Eurimages. DVD Paris Filmes.

Cor, 103 min.

**

2 Comentários para “Um Doce Olhar / Bal”

  1. Sergio, você sempre acertando na opinião. Um Doce Olhar é o típico filme chato de festival, todo lento e contemplativo. Não tem um objetivo. Diz-se como um filme sobre o amor incondicional. Até é, mas de uma maneira chata.

    Só não é horroroso devido à excelente escolha do Bora Altaş para interpretar o protagonista Yussuf. Ele é ótimo, tem um olhar cativante, é doce. Daí talvez venha o nome traduzido em português, pois mais uma vez os brasileiros decidiram ignorar o Mel da tradução literal de Bal.

  2. O bom do 50 Anos de Filmes, é que além de excelentes textos e ótimas dicas, nos livra de frias como este filme. Não tenho paciência pra esse tipo de película, ainda mais quando não diz a que veio.
    Engraçado que sempre achei mesmo que você quase sempre passa meio longe de acertar a idade das crianças nos filmes. hehe Acho que não precisa cravar, mas no geral você lhes dá anos a mais. =D

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