Toy Story e Toy Story 2

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Nota: ★★★★

A única questão é a seguinte: por que a gente não tinha visto Toy Story antes?

Toy Story é de 1995, e Toy Story 2, de 1999. Em 2010 foi lançado o número 3, e já se tem como certo de que haverá o número 4.

Ainda não vimos o número 3. Mas não dá mesmo para entender por que até agora não tínhamos visto os dois primeiros, já que gostamos de todos os gêneros de filmes, e Mary em especial adora animação.

Além de estar atrasada em mais de uma década, esta anotação aqui não trará informação nova alguma. Tudo o que era para ser dito sobre Toy Story já foi exaustivamente dito.

Só faço a anotação por dever de ofício; porque, depois de velho, inventei de ter um site sobre filmes, e me comprometi comigo mesmo a botar posts novos a cada dois dias, e então não quero e/ou não posso perder a oportunidade de fazer um post sobre os dois filmes que acabei de ver, um em seguida do outro.

Os criadores dos filmes partiram de uma sacada genial, uma beleza de idéia     

Então repito o que todo mundo já disse: Toy Story e Toy Story 2 são filmes esplêndidos, extraordinários, não apenas porque tenham sido inovadores em termos de técnica de animação, não porque tenham aberto novos caminhos para a animação, mas, basicamente, principalmente, porque contam uma bela história.

zztoy2As pessoas não estão interessadas em técnica, em detalhes de qual foi o processo usado para fazer tal e tal cena. O que importa é a história, e a forma com que ela é contada.

Os criadores de Toy Story inventaram uma história belíssima. (Quatro pessoas assinam a história original: John Lasseter, Pete Docter, Ash Brannon e Andrew Stanton. John Lasseter, que assina a direção dos dois filmes, é o chefe do departamento de criação da Pixar, o estúdio que revolucionou o cinema de animação americano.)

Partiram de uma sacada genial: bolaram que os brinquedos têm vida própria, são pessoinhas. Enquanto os humanos estão com eles, são apenas brinquedos, coisas inanimadas. Assim que os humanos os deixam sós, eles podem assumir suas vidas: pensam, agem, interagem. São exatamente como as pessoas. Têm lugar para líderes – e Woody, o caubói, é o líder do grupo, até porque ele é o brinquedo preferido do garotinho Andy. Entre eles há lugar para os sentimentos, as sensações, que nem entre os humanos. Às vezes uns têm inveja dos outros; às vezes deixam de acreditar nas boas intenções dos outros.

Isso é o que torna Toy Story genial – a sacada, a base da trama, e o bom desenrolar da trama.

Woody (que fala pela voz de Tom Hanks) é um simpático bonequinho de pano. Tem o respeito do resto dos muitos brinquedos de Andy. Mas o garoto faz aniversário, e ganha de presente um homem do espaço, Buzz Lightyear (com a voz de Tim Allen). Buzz Lightyear é todo moderno, cheio de botões e luzinhas. Andy rapidamente perde o posto de preferido de Andy – e o lugar de vice-predileto o deixa enfurecido, dominado pela inveja do recém-chegado.

E, para piorar a situação, Buzz Lightyear tem um problema sério: ele acredita ser de fato um homem do espaço. Woody tenta explicar que ele é apenas um brinquedo, mas Buzz mantém firme a crença de que é um ser superior.

No momento em que se introduz uma novidade técnica, a arte de contar histórias perde um tanto

A extraordinária forma com que se conta a história é importantíssima, sim. Todo a galera envolvida na criação de animação teve que rever seus conceitos a partir do momento em que os magos da Pixar fizeram o filme – mas isso é secundário. O principal, o importante, o que torna Toy Story 1 e 2 filmes geniais é que eles partem de uma beleza de idéia, e têm uma beleza de história para contar.

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Repito: a imensa maior parte das pessoas não está interessada na técnica, em que tipo de computador se usou, se foi 2D ou 3D. Presta atenção a isso o povo do métier. As pessoas estão interessadas em uma boa história bem contada.

Claro que há muita gente que se interessa pelos aspectos técnicos dos filmes. Que fica tentando entender como tal e tal efeito visual foi conseguido. Não sou desse tipo. Vejo filmes hoje há mais do que os 50 anos que dão o nome deste site, mas nunca me interessei por essas coisas técnicas – em especial quando dizem respeito a efeitos especiais.

As tecnicalidades, ah, elas que se danem.

Outro dia, zapeando, dei com um documentário sobre Robert McKee. O cara é tido como um professor de roteiristas; escreveu um livro chamado Story: Substance, Structure, Style, And The Principles Of Screenwriting, que, segundo o IMDb, é tido como o melhor livro sobre a arte de escrever roteiros. Charlie Kaufman, reverenciado como um dos mais inventivos roteiristas do cinema nas últimas décadas, teria se inspirado nele para compor o personagem interpretado por Brian Cox no filme Adaptação – uma história bem doidona sobre roteiristas de cinema.

Pois esse Robert McKee apresentou uma teoria fascinante: cada vez que há um avanço tecnológico no cinema, a arte de contar história perde. Naquele momento, fica mais clichê, mais óbvia.

Que absoluta maravilha essa sacada.

Se a gente for ver, é isso mesmo.

O cinema, assim como as demais artes, muitas vezes é mais surpreendente que a vida.

Quando os irmãos Lumière mostraram pela primeira vez para um público pagante as imagens de um trem que se aproximava da estação de La Ciotat, em 1896, muitos espectadores se espantaram, e deixaram seus assentos, achando que o trem sairia da tela e avançaria sobre eles.

Quando o cinema mostrou pelas primeiras vezes ações paralelas – dois acontecimentos ocorrendo simultaneamente –, os espectadores não compreenderam direito.

Quando o cinema mexeu com a cronologia, os espectadores se espantaram.

Quando o cinema misturou fatos reais com lembranças dos personagens, imaginação, sonhos, os espectadores se espantaram.

Inovação formal com bela história – não poderia haver nada melhor

Tanto o cinema pode inovar quanto voltar atrás.

zztoy5Esses exemplos que citei acima são de mexidas na estrutura narrativa.

Na verdade, Robert McKee falava de outra coisa (tem a ver com os exemplos que dei, mas são outra coisa).

Na forma da narrativa, inova-se.

Quando se mexe na tecnologia, volta-se atrás.

McKee cita a passagem do mudo para o falado. Quando passou a falar, o cinema mostrou histórias mais simples, para que o espectador se acostumasse à novidade.

Quando inventaram o CinemaScope, a tela larga, hoje chamada widescreen, de novo a narrativa, o jeito de contar história perdeu, porque a preocupação maior era com o visual. E então fizeram-se vários filmes sobre históricas bíblicas – visual beleza, poucas idéias.

Agora há pouco, nestes anos 2000, ficou um bando de gente embasbacada com o 3D, aquela coisa que não deu certo nos anos 50.

E toma filme bocó de aventura com múmias e a extraordinária falta de talento artístico do bonitão Brendan Fraser.

A teoria de Robert McKee é uma beleza. Inovação formal = queda da qualidade na forma de contar história.

E, então, para fechar a argumentação: o espectador está mais interessado em ver uma imagem em 3D ou acompanhar uma história interessante, inteligente, bem contada?

Aí, como se diria na atual gramática do nóis pega os peixe, vareia.

Claro, há quem prefira uma bela imagem de uma perseguição de carro em 3D.

Há também, graças ao bom Deus, quem prefira uma boa história.

O que Toy Story fez foi juntar uma extraordinária capacitação técnica a uma bela história bem contada.

Aí é o que a gente pediu a Deus. Ou, para quem não acredita em Deus, o que a gente pediu aos irmãos Lumière e a D.H. Griffith.

Cada um dos dois filmes recebeu 19 prêmios

Algumas informações saborosas e/ou interessantes sobre Toy Story:

zztoy4* O Toy Story inicial, de 1995, custou US$ 30 milhões, e rendeu US$ 361 milhões. Nos Estados Unidos, foi o filme de maior bilheteria no ano do lançamento. O 2 custou US$ 90 milhões, e rendeu US$ 485 milhões.

* O primeiro teve 19 prêmios e 16 indicações (três delas ao Oscar). O segundo teve 19 prêmios e 21 indicações (uma delas ao Oscar, o de melhor canção para  “When she loved me”, de Randy Newman).

* O primeiro filme é cheio de piadinhas internas, de referências a pessoas da Pixar envolvidas na produção. Por exemplo, a empresa contratada para fazer a mudança da família do garoto Andy se chama Eggman Movers, numa referência ao nome do diretor de arte Ralph Eggleston. Quando Buzz está tentando consertar sua nave espacial, aparecem as letras B e Z – uma referência a B.Z. Petroff, um dos membros da equipe. O rapaz que faz as entregas do Pizza Planet pergunta no posto de gasolina como chegar ao West Cutting Boulevard – que é o nome da rua em que se localiza a Pixar em Richmond, na Califórnia.

* O rosto de Buzz Lightyear é bem parecido com o do próprio diretor John Lasseter.

* Os produtores sondaram Billy Crystal para fazer a voz de Buzz Lightyear, e o ator recusou. Depois de ver o filme, ele disse que esse foi o maior equívoco de sua carreira.

* Toy Story 1 foi o primeiro filme de animação a ser indicado ao Oscar de melhor roteiro.

Merecia mesmo.

“O alvorecer de uma nova era do cinema de animação”; “Um marco”

Roger Ebert deu 3.5 estrelas em 4 ao primeiro Toy Story. Fez um longo texto (os textos de Ebert são em geral bem longos), que termina assim:

“Vendo Toy Story, senti a mesma alegria que tive ao ver Who Framed Roger Rabbit (no Brasil, Uma Cilada para Roger Rabbit). Os dois filmes desmontam o universo do visual do cinema e o reconstroem, permitindo que o vejamos de uma maneira nova. Toy Story não é tão inventivo em sua trama ou tão inteligente quanto Rabbit ou algumas animações da Disney como A Bela e a Fera; é um filme sobre amigos transplantado para um novo terreno. Seus melhores prazeres são para os olhos. Mas que prazeres! Vendo o filme, eu me senti diante do alvorecer de uma nova era do cinema de animação, que pega o melhor dos desenhos animados e da realidade, criando um mundo entre os dois, em que o espaço não só se curva como estala, crepita e estoura.”

zztoy9Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4 para o primeiro dos dois Toy Story: “Filme de animação inteligente, com visual incrível, produzido inteiramente em computadores. Uma trama de gente grande mascarada como um filme para crianças, esta história de amizade, volubilidade e a necessidade de aceitação apresenta um colorido grupo de personagens liderado por Woody e seu rival Buzz Lightyear. A ‘atuação’ dos dois protagonistas – suas expressões faciais e a linguagem corporal – é tão boa quanto qualquer coisa já vista nos desenhos animados convencionais. Apresentado pela Disney, o filme foi produzido pelo inovador Pixar Studio. O diretor Lasseter recebeu um Oscar especial por esse marco do cinema de animação.”

As indicações de Toy Story ao Oscar foram de roteiro original, trilha sonora e canção – as duas últimas de autoria do grande Randy Newman. A canção indicada foi “You’ve got a friend in me”. O filme não levou nenhum dos três prêmios, mas a Academia inventou o Oscar especial para John Lasseter “pelo desenvolvimento e inspirada aplicação de técnicas que tornaram possível o primeiro filme de longa-metragem animado por computação”.

Para Toy Story 2, Leonard Maltin deu 3.5 estrelas em 4. Diz que é uma das poucas continuações que conseguem se manter tão boa quanto o original – se não melhor. Uma história inteligente e atraente sobre como o boneco caubói Woody cai nas mãos de um inescrupuloso negociante de brinquedos. Mostra a relação entre os brinquedos e seus donos de uma forma hábil que fala ao coração, com grandes piadas, uma canção deliciosa, “When she loved me”, de Randy Newman (cantada por Sarah MacLachlan), e um visual espetacular criado pela equipe de animação por computador da Pixar.

Uma história sobre amizade, companheirismo, lealdade, para toda a família

“Uma trama de gente grande mascarada como um filme para crianças”, escreveu Maltin.

Hum… Concordo com ele, mas apenas em parte.

zztoy7Dias atrás Mary e eu tínhamos visto Up – Altas Aventuras, outra animação de visual caprichadíssimo da Pixar. Achamos que Up não é, de forma algum, um filme para crianças; é para jovens, jovens dos 13 aos 85 anos.

Já sobre Toy Story discordamos; Mary acha que também não é para crianças, e sim para jovens, da adolescência para cima. Na minha opinião, crianças também devem gostar do filme, mesmo sem entender todas as nuances da trama, dos relacionamentos entre os personagens. Porque, afinal de contas, o que se vê na tela são brinquedos, e as crianças a partir dos, sei lá, 5, 6 anos, vão rir com as peripécias dos brinquedos.

O fantástico de Toy Story, para mim, é que é de fato um filme para toda a família. As crianças gostarão de um jeito, os adolescentes de outro, os adultos, de outro.

Sim, é uma história sobre amizade, companheirismo, lealdade, solidariedade. Uma bela história.

Anotação em junho de 2013

Toy Story

De John Lasseter, EUA, 1995.

Com as vozes de Tom Hanks (Woody), Tim Allen (Buzz Lightyear), Don Rickles (Mr. Potato Head), Jim Varney (Slinky Dog), Wallace Shawn (Rex), John Ratzenberger (Hamm), Annie Potts (Bo Peep), John Morris (Andy), Erik von Detten (Sid)

Roteiro Joss Whedon e Andrew Stanton & Joel Cohen & Alec Sokolow

Baseado em história de John Lasseter, Pete Docter, Andrew Stanton & Joe Ranft

Música Randy Newman

Montagem Robert Gordon e Lee Unkrich

Direção de arte Ralph Eggleston

Produção Pixar Animation Studios, Walt Disney Pictures. DVD Buena Vista

Cor, 81 min

****

Toy Story 2

De John Lasseter, EUA, 1999.

Com as vozes de Tom Hanks (Woody), Tim Allen (Buzz Lightyear), Jessie (Joan Cusack), Stinky Pete, o garimpeiro (Kelsey Grammer), Don Rickles (Mr. Potato Head), Jim Varney (Slinky Dog), Wallace Shawn (Rex), John Ratzenberger (Hamm), Annie Potts (Bo Peep), John Morris (Andy), Wayne Knight (Al, o colecionador)

Co-direção Ash Brannon e Lee Unkrich

Roteiro Andrew Stanton & Rita Hsiao & Doug Chamberlin & Chris Webb

Baseado em história de John Lasseter, Pete Docter, Ash Brannon e Andrew Stanton

Música Randy Newman

Fotografia Sharon Calahan

Montagem Edie Bleiman, David Ian Salter e Lee Unkrich

Direção de arte William Cone e Jim Pearson

Produção Pixar Animation Studios, Walt Disney Pictures. DVD Buena Vista

Cor, 92 min

****

5 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 24 agosto 2013 às 10:20 pm | Permalink

    Trilogia PERFEITA. Quatro milhões de estrelas para os três.
    Ao infinito e além!!!

  2. Patrícia Pantoni
    Postado em 26 agosto 2013 às 11:35 am | Permalink

    Das animações que vi (e olha que vi muitas, pois faço questão de levar meu filho ao cinema a [quase] todos os lançamentos do gênero] esta trilogia é, sem sombra de dúvida a que mais me encanta! vale muito ver!
    abraço, Sérgio

  3. Fernando
    Postado em 27 agosto 2013 às 10:25 pm | Permalink

    Concordo com o comentário da “Senhorita”, todas as estrelas possíveis para o terceiro filme, que proporciona uma mistura de sentimentos como poucos. Se não me engano, foi uma das poucas animações na história a concorrer ao Oscar. Não demore muito para assisti-lo.

  4. Rafael
    Postado em 28 agosto 2013 às 6:47 am | Permalink

    Sergio,

    os três filmes são espetaculares, padrão Pixar de qualidade! Mas acho que Wall-E talvez ainda seja meu favorito… ou não, não tenho certeza.

    Não que tenha alguma importância, mas só como curiosidade, o site de metacrítica rotten tomatoes classifica Toy Story 2 como “o melhor de todos os tempos” em termos de críticas positivas: 161 críticas em jornais, revistas e blogs, todas positivas. http://www.rottentomatoes.com/top/bestofrt/

    E sobre a tecnologia no cinema, como diz o ditado: “If you can’t make it good, make it 3D”.

    Abc!

  5. Jussara
    Postado em 31 agosto 2013 às 9:28 pm | Permalink

    Concordo com você: na prática eu vejo que as crianças amam essas animações, mesmo as muito pequenas, abaixo de 5 anos (meu sobrinho mais novo fez 5 este ano, e com uns 2, 3 anos ele já adorava Toy Story. Vi o mesmo fenômeno ocorrer com outras crianças conhecidas na mesma idade). Os brinquedos venderam muito, principalmente os do Woody e Buzz, e acho que vendem até hoje.
    É como você falou: elas não entendem todas as nuances, mas o fato de serem brinquedos que falam e se movem deve fasciná-las de alguma maneira. No geral, crianças adoram animações, e costumam ficar vidradas até nas ruins, o que não é o caso de Toy Story.

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Divertida Mente / Inside Out em 7 Março 2016 às 5:31 pm

    […] de uma idéia sensacional, uma sacada brilhante. Como Toy Story, por exemplo: os protagonistas da história são os brinquedos da criança, com emoções, […]

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