Sublime Renúncia / Max et les Ferrailleurs

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Nota: ★★★☆

Max et les Ferrailleurs, no Brasil Sublime Renúncia, que Claude Sautet lançou em 1971, é um filme perturbador, desconcertante. E fascinante, encantador.

O cerne do cinema de Claude Sautet, creio, são as relações humanas, a forma com que as pessoas se relacionam com as outras. As relações entre marido e mulher, entre amantes, companheiros de trabalho, amigos.

Enquanto fazia o parágrafo acima, me peguei pensando que Eremildo, o Idiota, o personagem criado pelo jornalista Elio Gaspari, poderia questionar: ora, mas todos os filmes de todos os realizadores não são exatamente sobre as relações humanas?

Certo, Eremildo. A rigor, todos os filmes – assim como todos os romances, as peças de teatro – deveriam ser sobre as relações humanas. Mas não é o que acontece na realidade. De cada dez filmes que o cinemão comercial tem lançado, ultimamente, só uns dois tratam de seres humanos comuns; os demais tratam das aventuras de de super-heróis, super-homens, ou então assassinos.

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Já os filmes de Sautet tratam especificamente de relações humanas. São pessoais, têm uma assinatura, uma marca específica que os distingue dos demais. Os títulos dos dois filmes feitos logo após este Max et les Ferraillerurs indicam bem isso: César et Rosalie (1972). Vincent, François, Paul… et les Autres (1974).

Os dois títulos mostram bem que o realizador está tratando especificamente, basicamente, de relações entre pessoas.

Quando vi César e Rosalie, em 2011, quase 40 anos depois que o filme havia sido lançado, escrevi que ele poderia perfeitamente ter tido o título de César, Rosalie et David, ou talvez César, Rosalie, David et les Autres.

Um drama pesado, denso, noir, que termina em tragédia

De uma maneira apressada, Max et les Ferrailleurs poderia ser definido como um filme sobre o policial e a puta. Le flic et la putain. É uma dupla que fascina a imaginação tanto de escritores quanto de leitores, realizadores e sua audiência.

Nos romances noir, que deram origem aos filmes idem, há, volta e meia, o encontro entre o detetive e a puta.

Max et le Ferrailleurs tem sim, um toque de noir, embora o noir seja uma invenção americana – mas uma invenção americana que os franceses adoram.

As primeiras tomadas do filme são tão escuras – um escritório de policial desarranjado, bagunçado, com fumaça espessa de cigarro, que mais parece de um detetive particular como os dos romances de Raymond Chandler e Dashiell Hammet – que Mary comentou: “É um noir colorido?”

Em boa parte, é, sim, um noir em cores às vezes (poucas, é verdade) tão sombrias que parece um filme em preto-e-branco como os noir originais.

E, sim: há momentos no filme que me fizeram lembrar de Irma La Douce, a comédia de Billy Wilder de 1963 sobre o caso de amor entre um policial e uma puta na Alegre Paris. Mas não há nada mais distante que Irma La Douce de Max et les Ferraileurs. Aquele é uma comédia escrachada mas no fundo triste, que termina em farsa. Este é um drama pesado, que termina em tragédia.

E a Paris do filme de Sautet não é alegre, de forma alguma.

Atenção: a seguir há informações que, a rigor, são spoilers

Max (uma atuação magistral de Michel Piccoli) é um inspetor da polícia parisiense bastante respeitado por seu chefe, o comissário sem nome interpretado por George Wilson. Ele obteve de um informante a dica de que uma conhecida quadrilha iria assaltar um determinado banco, num determinado dia. Mas, naquele dia, outro banco é assaltado. Levam 80 milhões de francos, matam um caixa, ferem outro.

Os assaltantes haviam percebido que o inspetor Max tinha tido a informação sobre a ação, obtida daquele informante; então mataram o informante e roubaram outro banco.

Max se sente culpado, enganado, feito de trouxa.

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O filme não pára para nos expor as teorias, mas nos informa, concisamente, que não adiantava, para a polícia francesa, àquela época, saber da existência das quadrilhas. Para que os membros das quadrilhas fossem pegos e condenados, seria necessário o flagrante, no momento do crime.

O inspetor Max – o filme nos mostra isso devagar, só abrindo todas as informações quando a ação já passou da metade – tem uma obsessão pela prisão de bandidos das grandes quadrilhas.

Por mero acaso, por evento fortuito, Max reencontra um velho conhecido dos tempos em que prestou serviço militar, Abel (Bernard Fresson, à direita na foto acima). Sem saber que o antigo companheiro era agora um policial, Abel se abre para ele, conta o que faz: é um bandidinho pequeno, ladrão de carros, vendedor de partes de carros desmontados. (O ferrailleur do título original é ferro-velho, e designa também as pessoas que trabalham nos ferro-velhos.)

Abel vivia com Lily, uma jovem alemã, prostituta, que fazia o trottoir na região de Étoile – o papel de Romy Schneider.

Louco, obcecado, Max bota em ação um plano maluco, irracional, de, através de Lily, transmitir a Abel a vontade de passar da bandidagem pequena para a grande, para um assalto a banco.

Dentro da cabeça louca, obcecada de Max, se um grupo de assaltantes a banco fosse preso em flagrante e aí então condenado, outras quadrilhas seriam desestimuladas a praticar assaltos.

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O roteiro tenta explicar a obsessão de Max por prender bandidos

Max et les Ferrailleurs se baseia, conforme nos dizem os créditos iniciais, no romance de Claude Néron. O roteiro é assinado por Jean-Loup Debadie, pelo autor Claude Néron e pelo próprio Sautet.

Muito mais firme do que eu, Mary, aí pelo meio do filme, sentenciou que a história era inverossímil.

Momentos depois, como se atendendo à grita de Mary, o filme tenta nos dar uma explicação racional para a obsessão de Max contra as quadrilhas, o crime organizado. Ele havia sido, no passado, um juiz de instrução, em Lille; tinha tido a possibilidade de mandar para a prisão uma quadrilha, mas, por uma questiúncula legal, uma brecha da lei, não tinha podido condenar os ladrões. E então, insatisfeito com as incapacidades da Lei, tinha virado policial. Para, de novo, se defrontar com leis que eram lenientes com os criminosos.

Daí seu plano maluco – ou inverossímil – de levar o pequeno bandido Abel a executar um assalto a banco e aí prender a quadrilha no momento do delito.

Dos 14 filmes de Sautet, seis têm Romy Schneider

Lily-Romy Schneider só aparece na tela quando o filme está exatamente com 30 minutos – mas a partir do momento em que ela aparece, tudo muda.

O cerne do filme é a relação entre o policial e a puta.

Max, é claro, não revela sua identidade de flic para a putain. Pega-a na rua, como se fosse um freguês. No hotel para onde ela o leva, no entanto, Max não quer saber de sexo.

(Eis aí um outro ponto em comum com um trecho de Irma La Douce, embora isso não tenha importância alguma.)

Diz que quer apenas conversar, estar ao lado de uma mulher bonita.

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Mulher bonita é pouco.

Romy Schneider está esplendorosamente, absurdamente, chocantemente, loucamente bela, em Max et les Ferrailleurs. Romy Schneider é belíssima em todos os filmes que fez na vida, desde os tempos da trilogia Sissi (1955 a 1957), Monpti , um Amor em Paris (1957), Senhoritas em Uniforme (1958), até os últimos, no início dos anos 1980. Entre o começo de sua carreira, na Alemanha, e o fim que chegou cedo demais, Romy Schneider trabalhou com diversos dos maiores realizadores de seu tempo: Luchino Visconti, Orson Welles, Henri-Georges Clouzot, Otto Preminger, mais René Clément, Joseph Losey. E, é claro, Claude Sautet.

Sautet é daquele tipo de realizador ourives, de poucas porém bem feitíssimas obras. Entre 1956 e 1995 – 39 anos, portanto –, dirigiu apenas 14 longa-metragens. Desses 14, seis têm Romy Schneider.

É difícil fazer uma afirmação tão categórica quanto esta, mas creio que Romy Schneider nunca esteve tão estonteatemente bela quanto em Max et les Ferrailleurs.

Ela aparece fortemente maquiada, para o trabalho nas ruas. É estonteante. Aparece maquiada para parecer que está sem maquiagem. É estonteante.

Num dos encontros de Max com Lily, ele a fotografa, enquanto ela toma um banho de banheira.

Outro diretor talvez quisesse mostrar o corpo da atriz esplendorosa. Claude Sautet mostra Romy Schneider na banheira com o cuidado extremo de um pudico padre de aldeia.

Concentra-se na beleza do rosto esplêndido.

As fotos que o inspetor Max faz da mulher esplêndida aparecerão depois em grandes ampliações, num encontro seguinte. São detalhes do rosto inigualável de Romy Schneider.

Estaria Sautet citando Blow Up, que Michelangelo Antonioni havia feito cinco anos antes? Não sei – não importa. Sautet estava fazendo a elegia da sua musa.

Um homem que finge ser o que não é e uma mulher que ele sabe muito bem o que é

O inspetor Max tem diante de si num quarto de hotel de putaria aquela beleza toda, e diz a ela que quer apenas conversar, estar ao lado de uma mulher bonita. No primeiro encontro, paga a ela uma pequena fortuna, várias vezes mais do que ela cobrava.

zzmax6Dinheiro não é problema para ele; Max vem de família rica, dona de vinhedos, fabricante de vinhos; recebe excelente participação nos lucros da empresa familiar.

E então ele aluga um belo apartamento apenas para seus encontros com Lily.

Como se constrói a relação entre um homem que finge ser o que não é e uma mulher que ele sabe muito bem o que é?

Lily se espanta com aquele sujeito que gasta com ela pequenas fortunas a cada encontro, mas sequer encosta nela. Espanta-se, assombra-se – mas por que não continuar, se o pagamento é tão régio? Faz perguntas frequentes a ele, quer saber quem ele é, como é sua vida – tenta entender o enigma posto à sua frente. Max responde aos questionamentos dela com respostas vagas e curtas – é divorciado, sem filhos, sua vida é o trabalho no banco.

O que Max quer é passar para Lily a idéia de que é fácil assaltar um banco.

Mary tem razão: é uma trama de fato beirando o inverossímil – ou caindo totalmente na inverossimilhança. Mesmo com as tentativas que se faz para explicar a obsessão de Max pela prisão de um grupo de assaltantes. Mas com aqueles dois atores, Michel Piccoli e Romy Schneider, com a direção segura de Sautet, a história não crível resulta num filme fascinante.

Adaptar título de filme estrangeiro é uma ciência complicada

Um detalhinho sobre o título brasileiro.

zzmax8Tá certo que se fosse lançado aqui como Max e os Homens do Ferro-Velho o filme não atrairia muita gente. Mas Sublime Renúncia também é duro, não? Parece título de um daqueles melodramas dos anos 40, com Bette Davis ou Joan Crawford. (Nada contra os melodramas dos anos 40, nem contra as duas grandes atrizes – muito ao contrário. É só uma constatação.)

Recentemente, a Lume Filmes lançou Max et les Ferrailleurs em DVD – com o título de O Estranho Caso do Inspetor Max.

Fiquei curioso para saber como os distribuidores de outros países se saíram.

Ah! O Estranho Caso do Inspetor Max, usado pela Lume, foi o título do filme em Portugal.

Na Alemanha, foi Das Mädchen und der Kommissar. A Moça e o Comissário. Nada mal. O filme é exatamente sobre isso.

Diz o IMDb que o título em inglês foi Max and the Junkmen, de junk, lixo. Diz também o IMDb que na Argentina foi simplesmente

El Inspector Max. Simples, direto – pouco atraente.

Adaptar título é uma ciência complicadérrima.

Créditos iniciais de visual forte, surpreendente. E uma trilha sonora espetacular

Dois outros detalhes, mais importantes que a questão do título.

Os créditos iniciais me surpreenderam pelo visual ousado, um tanto inusitado para um filme de um realizador sóbrio, elegante, clássico, pouco afeito a fogos de artifício.

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A abertura do filme vem em cores fortíssimas, uma coisa um tanto psicodélica. Não que seja feio, de mau gosto – não, nada disso. É marcante, forte, impactante. Parece uma influência dos créditos iniciais de Saul Bass, o mestre do design de aberturas do cinema americano nos anos 50 e 60.

O segundo ponto é a música. A trilha sonora é de autoria do colaborador de Sautet em praticamente todos os seus filmes, o compositor Philippe Sarde. E é brilhante. É difícil esquecer o tema principal, depois que o filme acaba.

Sautet é mestre em retratar um grupo de amigos e como se formam as relações entre eles

Em seu verbete sobre o filme, o Guide des Films de Jean Tulard detalha toda a história, e revela até mesmo o final – que, aliás, é totalmente inesperado, e brilhante. Depois, como sempre, faz a análise:

“Mais do que uma carga contra a polícia, este filme expõe um caso de paranóia. Max é tomado de uma idéia fixa, e Piccoli traduz perfeitamente a rigidez, a estreiteza de seu personagem. Mas onde a arte de Sautet domina é na pintura dos marginais de Nanterre, nos encontros em torno de uma garrafa de bebida, no seu retrato de uma prostituta livre e sincera, magnificamente interpretada por Romy Schneider.”

Tem toda razão o Guide. A forma com que o filme apresenta para o espectador o grupo de pequenos bandidos do grupo do pobre Abel é simplesmente espetacular. É o terreno em que Claude Sautet é mestre – o retrato de um grupo de amigos, e como se formam as relações entre eles.

Dá vontade de rever o filme, tão logo ele acaba. Dá vontade de ver e/ou rever todos os filmes desse grande realizador.

Anotação em agosto de 2013

Sublime Renúncia/Max et les Ferrailleurs

De Claude Sautet, França-Itália, 1971

Com Michel Piccoli (Max), Romy Schneider (Julia Anna Ackermann, Lily),

e Georges Wilson (o comissário), Bernard Fresson (Abel Maresco), François Périer (Rosinsky), Boby Lapointe (Lui), Michel Creton (Robert), Henri-Jacques Huet (Dromedário), Jacques Canselier (Jean-Jean), Alain Grellier (Guy)

Roteiro Jean-Loup Dabadie, Claude Néron e Claude Sautet

Baseado na novela de Claude Néron

Fotografia René Mathelin

Música Philippe sarde

Montagem Jacqueline Thiédot

Produção Fida Cinematografica, Lira Films, Sonocam. DVD Lume Filmes.

Cor, 112 min

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3 Trackbacks

  1. […] Duperey (na foto acima) interpreta a mãe; o veteraníssimo Michel Piccoli (87 anos em 2012, o ano de lançamento do filme), faz o pai de […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Eu, Anna / I, Anna em 17 agosto 2014 às 8:59 pm

    […] Além de jovem e estreante, Barbaby Southcombe é ambicioso, pretensioso: ele diz que quis fazer em Eu, Anna, um film noir que se passa nos dias de hoje mas que parecesse atemporal, e suas influências foram os filmes franceses dos anos 70 e 80, Jean-Pierre Melville, Claude Sautet. […]

  3. […] que mais me impressiona em As Coisas da Vida, esta maravilha de Claude Sautet de 1970, é a absoluta simplicidade da trama. E como, com esse fiapinho de história, mais uma […]

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