Seis Graus de Separação / Six Degrees of Separation

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Nota: ★★½☆

Não é um daqueles filmes de que é fácil gostar, este Seis Graus de Separação, que o australiano Fred Schepisi fez nos Estados Unidos em 1993. Baseia-se em uma peça de teatro nova-iorquina, sobre gente muito rica do lugar mais rico de Manhattan, o umbigo do capitalismo. Parece uma inside joke, uma piada interna, uma piada contada na festa da firma, que só o pessoal da firma entende.

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Seis Graus de Separação, me pareceu, é muito inside joke nova-iorquina para nova-iorquinos. E é um filme todo feito de ironia, uma ironia corrosiva, cortante, venenosa. Se fosse líquido, e jogassem um pouco dela no passeio da Quinta, ou da Madison, ou da Lexington, faria um furo fenomenal no cimento.

Não é fácil gostar de um filme que mostra seus personagens como imbecis, babacas, emproados, cegados pela sua riqueza, pela empáfia de saber que são os happy few, os muito muito bem de vida no umbigo do mundo, do capitalismo.

Mary, por exemplo, não gostou nada.

Uma obra que tem profundo desprezo por seus personagens

Lembro de ter lido uma vez uma crítica de alguém – se não me engano um americano – a um dos filmes em que Woody Allen batia feio na classe média alta de Manhattan, acho que na sua fase especialmente amarga de final dos 80, início dos 90, antes que ele conseguisse ficar livre de Mia Farrow e voltasse a fazer comédias escrachadas, alegres. A crítica dizia uma coisa do tipo: mas se ele odeia tanto aquelas pessoas, aquele meio, se sente tanto desprezo por aquela gente, por que insiste em fazer filmes sobre ela?

Acho que Woody Allen pode fazer o que ele bem entender. Mas o fato é que, alguns anos após ter voltado a fazer filmes de fato engraçados, ele deixou de lado a classe média alta de Manhattan, e foi falar de outras pessoas e outros lugares.

Se não estou completamente enganado, John Guare, o autor da peça teatral Seis Degraus de Separação e também do roteiro do filme dirigido por Fred Schepisi tinha tanto desprezo por seus personagens quanto Woody Allen naquela sua fase especialmente amarga.

A esta altura, é bom ir aos alfarrábios para ver se não estou falando asneira.

Hum… Poucos guias que tenho falam do filme. Os que falam nem contradizem minhas impressões expressas aí acima – nem corroboram com elas.

Baseia-se em incidente real e figuras da sociedade fazem participações especiais

zzsix0Leonard Maltin dá 3 estrelas em 4: “Elegante, alargada adaptação do sucesso dos palcos de John Guare sobre um bem apessoado vigarista (interpretado por um Will Smith jovenzinho demais) que convence ricos e crédulos nova-iorquinos de que é filho de Sidney Poitier. Com ótimas atuações, o filme flui bem nos primeiros dois atos, antes que a sátira dê lugar a tragédia de apertar o peito. A principal virtude são as tomadas em widescreen com que Schepisi filma Nova York, tanto em ambientes fechados quando ao ar livre. (…) Baseado em um incidente real. Muitas figuras da sociedade de Nova York aparecem em participações especiais.”

Meus comentários sobre o comentário de Maltin: bem, não há propriamente tragédia de apertar o peito. As tomadas em tela larga são de fato maravilhosas – e é bom lembrar que a direção de arte é da maga Patrizia von Brandenstein, aquela senhora que, como o Rei Midas, transforma tudo o que toca em ouro.

E aí tem o detalhe de que quase todas as paredes do apartamento milionário do casal de protogonistas, Flan e Ouise Kittredge (interpretados por Donald Sutherland e a sempre maravilhosa Stockard Channing), negociantes de obras de arte… estão cobertas por veludo vermelho!

Veludo vermelho!

zzsix3As paredes do apartamento milionário debruçado sobre o Central Park, um dos endereços mais caros do mundo, ocupado por um casal que se tem em conta como rico, fino e chique, são vermelhas!

Patrizia von Brandenstein não faria isso à toa: as paredes vermelhas mostram que os Kittredge têm a mesma fineza elegante da Graceland, a mansão de Elvis Presley, uma das coisas mais kitsch, cafona, boko-moko, mais ridiculamente novo-riquismo que há no planeta.

Agora, a informação de que a história se baseia em um incidente real – ainda que o incidente real tenha sido bastante retocado, floreado – é sensacional. E que muitas figuras da sociedade de Nova York aparecem em partipações especiais, então, é fantástico, é fabuloso. Pois se o filme goza aquele povo até mesmo por sua tonta, ridícula vontade de participar como figurantes de uma improvável versão cinematográfica do musical Cats!

Isso é que é vestir a carapuça sem compreender coisa alguma sobre a carapuça que se está vestindo.

Um retrato cheio de exageros; os jovens são mostrados como imbecis

Na sua crítica no respeitabilíssimo All Movie, Derek Armstrong faz, me parece, interessantes observações. Diz ele:

Six Degrees of Separation, adaptado por John Guare de sua própria peça de sucesso, é um estudo fascinante da culpa entre os ricos ociosos e a forma com que um vigarista talentoso consegue manipular a vulnerabilidade liberal deles para seus próprios fins. É uma história com ritmo inteligente, estruturada de maneira única, contada a maior parte como aperitivos em festas. (…) Will Smith, na época mais conhecido por suas aventuras em The Fresh Prince of Bel-Air (no Brasil Um Maluco no Pedaço) é uma revelação no papel difícil de que a maioria das pessoas não o acharia capaz.”

Mais adiante, ele diz que Stockard Channing – indicada para o Oscar de melhor atriz por sua atuação – “também está brilhante como a socialite que foi rejeitada pelos próprios filhos, e então procura um filho adotivo no personagem Paul, interpretado por Smith”.

zzsix4O retrato que o filme faz dos jovens, dos filhos do casal central e de seus amigos, é extremamente carregado nas tintas. É o exagero do exagero do exagero. Estudam todos em Harvard – mas são tão idiotas, tão imbecis, tão tronchos, que não passariam no vestibular sequer da Universidade Municipal de São José do Pito Acesso, se houvesse essa cidade cujo nome foi inventado pelo meu irmão Arnaldo.

Se os ricos pais já são uns pamonhas, os ricos filhos, então, são perfeitos débeis mentais. Tanto, mas tanto, mas tanto, que, nesse detalhe, o filme deixou Mary enfurecida – coisa rara. “Se eu fosse de Harvard, processava os autores”, disse ela, furiosa.

No All Movie, Derek Armstrong concorda com Mary: “O tom cômico leve de Fred Schepisi às vezes passeia perto de extremos, particularmente na rebelião dos jovens, histérica e injustificada, contra seus pais”.

Acho necessário registrar que seis graus de separação é aquela teoria que, como diz a Wikipédia, originou-se a partir de um estudo científico segundo o qual, no mundo inteiro, são necessários no máximo seis laços de amizade e/ou outro qualquer para que duas pessoas estejam ligadas. Um exemplo: Fernanda Montenegro tem dois graus de separação de Kevin Bacon: ela atuou em O Amor nos Tempos do Cólera com Benjamin Bratt, que atuou com Kevin Bacon em O Lenhador. Entre Fernanda Montenegro e Carmem Miranda, a distância é de 2 porque a grande dama brasileira atuou em Mãos Sangrentas com Heloisa Helena, que por sua vez atuou em Alô, Alô, Carnaval com a cantora e atriz.

Euzinho, para dizer bem a verdade, jamais consegui entender direito essa teoria. Talvez porque eu seja tão burro quanto os filhos dos ricos mostrados em Seis Graus de Separação.

É um filme corajoso, insolente, provocativo

Talvez eu tenha exagerado na coisa de dizer que é um filme que fala muito especificamente de uma situação local, muito inside joke. Mas não creio ter exagerado na coisa de que é uma sátira violenta demais contra aquela upper crust nova-iorquina.

Os fundamentalistas do politicamente correto certamente não terão aprovado o filme. Retratar o vigarista como sendo negro… Ó audácia, ó brancos racistas filhos da mãe! Como assim, num filme que só tem brancos, botar o único negro como vigarista?

zzzzzzwillTodo fundamentalismo é idiota. O personagem interpretado por Will Smith (com brilhantismo, aliás) é vigarista, de fato. Mas é também o personagem mais inteligente de toda a história. É inteligente, bem dotado, bonito, sedutor, estupidamente habilidoso.

Ao contrário da cara-metade, achei este Seis Graus de Separação – do qual jamais tinha ouvido falar antes – inteligente, engraçado. Ele pisa fundo na ironia, faz um retrato pavoroso dos ricos nova-iorquinos. Não é, de fato, um filme fácil de ser gostado. Mas é corajoso, insolente, provocativo, corrosivo.

Por falar de um tipo específico de sociedade, por exagerar na ironia, por ser virulento demais contra as pessoas apegadas à exibição de riqueza, pode espantar muita gente. Mas, na minha opinião, até mesmo exatamente por isso, é um bom filme.

Anotação em dezembro de 2012

Seis Graus de Separação/Six Degrees of Separation

De Fred Schepisi, EUA, 1993

Com Stockard Channing (Ouisa Kittredge), Donald Sutherland (Flan Kittredge), Will Smith (Paul)

e Ian McKellen (Geoffrey), Mary Beth Hurt (Kitty), Bruce Davison (Larkin), Richard Masur (Dr. Fine), Anthony Michael Hall (Trent Conway), Heather Graham (Elizabeth), Eric Thal (Rick)

Roteiro John Guare

Baseado na peça teatral de sua autoria

Fotografia Ian Baker

Música Jerry Goldsmith

Montagem Peter Honess

Direção de arte Patrizia von Brandenstein

Produção Metro-Goldwyn-Mayer, Maiden Movies, New Regency Pictures. DVD FlashStar.

Cor, 111 min

**1/2

5 Comentários

  1. mario silva
    Postado em 2 abril 2013 às 10:07 pm | Permalink

    Sergio,

    Vi esse filme na TV paga há cerca de
    18 anos. Achei a história interessante mas todas as pessoas desagradáveis. Não tenho vontade de rever. Gostei de Donald Sutherland.O episódio retratado foi real, com um rapaz que se apresentou como filho de Sidney Poitier e deu golpes em vários ricaços(as) que se pretendiam liberais. Acabou preso.
    Um abraço do
    Mário

  2. Postado em 24 abril 2013 às 12:36 am | Permalink

    Questionado sobre a descoberta das pílulas perto do corpo, o porta-voz policial limitou-se a dizer que “a investigação segue em andamento”. O ator, que ficou famoso em 2000 com o filme “O Patriota”, dirigido e protagonizado por Mel Gibson, tinha contratado uma massagista esta tarde. Quando ela chegou à sua casa, a empregada encontrou o ator inconsciente em seu quarto, indicaram os veículos de comunicação.

  3. Jussara
    Postado em 27 maio 2013 às 11:45 pm | Permalink

    Ouço falar desse filme desde a minha adolescência, sabia o básico sobre ele, mas agora (re)lendo seu texto não sei se iria gostar de assistir. Me pareceu um tipo de filme chato, cansativo.

    Também nunca consegui entender essa teoria dos 6 graus de sepração, que a mim parece maluca e nonsense. Acho que eu também sou tão burra quanto os filhos dos ricos do filme. rsrs

  4. Heitor
    Postado em 25 maio 2014 às 11:12 pm | Permalink

    Nosso amigo Paulo Francis gostava, ou gostou, muito desse. E você consegue entender a teoria sim. Diz uma ruivinha linda de morrer aí. Julia Petit. Que tal? Está ao alcance do débil mental aqui, que sou? Nunquinha. Mas quem trabalha com ela no site Petiscos? Paula Roschel. Quem? Paula Roschel, com quem eu já dividi casa em Londres. Somos amigos? Deus me livre e guarde! Mas que eu conheço a figura, eu conheço…

  5. AKWolff
    Postado em 12 agosto 2015 às 1:37 am | Permalink

    Sim… o filme é baseado em uma história real, e o nome do personagem de Will Smith é David Hampton, e a história se passa nos anos 80. Realmente é difícil de gostar deste filme, mas de fato ele tem seu valor.

6 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Interiores / Interiors em 3 agosto 2014 às 2:36 am

    […] (Mary Beth Hurt, à esquerda na foto), a preferida do pai, que na juventude havia sido incensada como inteligente, […]

  2. […] diretor, Fred Schepisi, é australiano de Melbourne. O ator, Clive Owen, é inglês de Coventry, e a atriz, Juliette […]

  3. […] e para isso conta com a ajuda de um amigo de longa data, Billy Whistler (o papel de um Donald Sutherland de cabelos compridíssimos). Billy comparece sempre aos leilões realizados por Oldman, e, conforme […]

  4. Por 50 Anos de Filmes » Blow-up em 10 dezembro 2016 às 5:52 pm

    […] à moda daquela história de Seis Graus de Separação (1993): David Hemmings conseguiu a proeza de trabalhar, num intervalo de apenas dois anos, ao lado […]

  5. […] Jones), está ouvindo no seu carro “Promised Land”, com Elvis Presley. O agente novato, Jay (Will Smith), diz: – “Você sabe que Elvis morreu, certo?” E o veterano Kay retruca: – “Não, […]

  6. […] em Harry e Sally faz lembrar bastante o casal formado aqui por Julie e Arthur Siegel (os papéis de Stockard Channing e Richard Masur). Nos dois casos, são os amigos mais próximos do casal […]

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