Roubando Vidas / Taking Lives

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Nota: ★★½☆

Roubando Vidas/Taking Lives, lançado em 2004, é um thriller bem razoável. Quem gosta do gênero não terá do que reclamar.

Praticamente toda a ação se passa no Canadá de fala francesa, na província de Quebec. Achei que era uma co-produção Estados Unidos-Canadá, mas, surpreendentemente, é uma co-produção Estados Unidos-Austrália.

É um filme sobre um serial killer que começa mostrando para o espectador como ele começou sua carreira de crimes.

Um letreiro nos informa logo de cara que estamos em St. Jovite, Canadá. Um adolescente, cabelos longos, está na rodoviária da cidade. Mostra-se um tanto agitado, inseguro. Compra uma passagem, entra em um ônibus. No meio da viagem, um outro rapaz, mais ou menos da mesma idade, pede para se sentar na poltrona ao lado dele – no lugar onde estava, havia um velho roncando alto.

Começam a conversar.

zztaking2No meio da estrada, o ônibus pára, o motorista avisa que houve um problema no motor, vai verificar. O rapaz que se sentou ao lado do outro diz que numa outra viagem aconteceu algo semelhante e levaram várias horas para consertar o ônibus.

Perto do lugar onde o ônibus parou há uma loja de carros usados. Os dois rapazes vão até lá. O dono só aceita pagamento em dinheiro, e o cabeludo tem dinheiro vivo.

Prosseguem a viagem no carro recém-comprado. De repente, um pneu dianteiro sai da roda. O segundo rapaz se dispõe a trocar o pneu. O cabeludo nota que os dois têm a mesma altura. A estrada é pouco movimentada. Um carro vem vindo lá de longe. O cabeludo joga o outro para o meio da estrada, o carro que vinha em alta velocidade o atinge, fica desgovernado, roda, capota, explode.

O rapaz pega a carteira do outro, que está agonizante, mas ainda vivo. Bota no bolso dele a sua própria carteira. E termina de assassinar o pobre coitado com uma pedrada na cabeça.

Tudo isso é mostrado em alguns poucos minutos, uns cinco, seis.  Começam então os créditos iniciais.

O visual é caprichadíssimo. Enquanto vão rolando os créditos – que anunciam no elenco Angelina Jolie, Ethan Hawke, Kiefer Sutherland (nessa ordem) e ainda a grande dama Gena Rowlands, mais o francês Jean-Hugues Anglade –, vamos vendo notícias de jornais sobre mortes violentas em crimes jamais solucionados. O primeiro deles, que fala da morte de um rapaz atropelado numa estrada, é de 1983. Vão surgindo notícias de outros crimes, em 1987, 1992.

Num barco, uma senhora revê o filho que acreditava morto há 19 anos

Quando terminam os créditos iniciais, um outro letreiro informa: Montreal, Canadá, nos dias de hoje. O filme é de 2004, e os dias de hoje são provavelmente os de 2002 ou 2003. Vemos um grande barco no Rio St. Lawrence. Uma senhora – o papel de Gena Rowlands – sai esbaforida do barco e procura um policial. Diz que acaba de ver o seu filho naquele barco. O policial pergunta qual é o problema, e a senhora – Mrs. Asher – diz que seu filho morreu 19 anos antes (o que dá exatamente 1983). Quer dizer – explica –, ela achava que ele havia morrido. Mas uma mãe sempre reconhece um filho, e os dois se viram, ela o reconheceu e tem certeza de que ele também a reconheceu.

O garoto que havia assassinado o colega de viagem em 1983 chama-se Martin Asher. Naquelas breves seqüênciais iniciais, é interpretado por  Paul Dano (na foto acima).

O diretor D. J. Caruso mostra-se estiloso. Abusa de close-ups dos olhos de Angelina

zztaking4Um corpo é encontrado durante os trabalhos de remoção de terra para o início de uma construção. Mais um corpo, mais um morto na região em torno de Montreal, e então o delegado Leclair (Tchéky Karyo) pede a ajuda do FBI americano. Especificamente, da agente especial Illeana Scott, com quem já havia trabalhado antes em outro caso. Apesar de jovem (é o papel de Angelina Jolie), Illeana é uma experiente policial, especializada em traçar o perfil de assassinos.

Uma dupla de policiais está a cargo do caso desse novo homem assassinado encontrado por uma escavadeira. Um, Duval (o papel de Jean-Hugues Anglade) é mais velho, encara com naturalidade a chegada de uma agente do FBI para ajudar. O outro, Paquette (Olivier Martinez), é mais jovem, esquentadão, acha um absurdo ter que pedir ajuda a uma estrangeira, e ainda mais do FBI. Vai implicar com Illeana ao longo de toda a narrativa.

A primeira tomada em que a agente especial Illeana Scott aparece na tela é surpreendente. Os policiais Duval e Paquete a encontram deitada exatamente no lugar em que o corpo do homem morto foi encontrado. A câmara percorre longamente todo o corpo de Illeana-Anjelina Jolie, com um super hiper big close-up dos lábios carnudões, dos olhos daquele imenso azul.

O diretor D. J. Caruso – de Tudo por Dinheiro/Two for the Money (2005) e Paranóia/Disturbia (2007) – mostra-se estiloso. Vai focalizar os belíssimos olhos de Anjelina Jolie várias vezes, em super hiper big close-ups. Usará belos movimentos de câmara, close-ups em pequenos detalhes.

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A agente do FBI começa a se interessar pelo rapaz que diz ter testemunhado o crime

A polícia encontra um homem que se diz testemunha do mais recente crime. Chama-se James Costa (o papel de Ethan Hawke, na foto acima); foi encontrado pela polícia sujo de sangue, junto do corpo de um homem que acabava de ser assassinado. Interrogado, diz que viu um homem atacando o outro; o criminoso fugiu ao ser flagrado, e então ele tentou fazer respiração boca a boca no homem atacado.

Illeana assiste a parte do interrogatório atrás daqueles vidros que só permitem a visão para um dos lados. Depois pede para ela mesma continuar o interrogatório. Ela entra na sala, faz perguntas. Sai de lá convencida de que o tal James Costa não está mentindo.

Mais ainda: a agente crê que o assassino passará agora a procurar a testemunha, esse James Costa – que é um negociante de quadros, um marchand, e chega a fazer um retrato falado do assassino que viu ou diz ter visto.

Resolvem usar James Costa como uma armadilha para atrair o assassino.

Mais ainda: Illeana começa a se interessar pelo rapaz.

Isso que relatei acontece nos primeiros 30 minutos do filme. Ainda haverá muito chão, muita água para passar sob a ponte, muitas surpresas.

Há muito exagero, mas também belas sequências. É thriller correto

Há, sem dúvida, muito exagero. O assassino serial é perfeito demais, inteligente demais, safo demais. Haverá uma eterna perseguição de carros – por que será, meu Deus do céu e também da terra, que os espectadores americanos gostam tanto de perseguição de carro?

zztaking7Mas há também uma fantástica sequência de perseguição a pé nas ruas de Montreal, abarrotadas de gente por causa de um festival de jazz. É uma beleza de sequência, muitíssimo bem realizada.

Um luxo: a trilha sonora é de Philip Glass. O grande Philip Glass criou trechos que aumentam a sensação de terror do espectador diante da história sangrenta, inquietante. É uma beleza de trilha.

O roteiro escrito por Jon Bokenkamp se baseia numa novela homônima de Michael Pye; o livro Taking Lives foi lançado em 1999, e, segundo a Wikipedia, o filme é uma adaptação bem livre da novela, ou seja, não há grande fidelidade ao original.

Segundo o IMDb, três roteiristas – Nicholas Kazan, Hillary Seitz e David Ayer – trabalharam em revisões do roteiro feito por Jon Bokenkamp.

Um detalhinho interessante: Marie-Josée Croze, ótima atriz, canadense de nascimento, com trabalhos tanto no Canadá quanto na França (como o belo Je l’aimais, Diário Perdido, O Escafandro e a Borboleta), faz uma pontinha, como uma médica. Nem reparei que era ela. Só vi seu nome no elenco ao copiar o cast of characters do IMDb. Não consegui compreender por que ela topou fazer isso.

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Vejo que a resenha do respeitabilíssimo AllMovie desce a lenha no filme sem dó nem piedade. Diz, entre outras coisas, que é tudo um amontoado de clichês e que é uma pena ver a grande Gena Rowlands (na foto acima) perder tempo participando dessa porcaria.

Estaríamos Mary e eu em um dia mais condescendente, quando vimos o filme? Pode ser. O fato é que achei que é um thriller que tem tudo para agradar a quem gosta de thrillers sobre assassinos seriais. Nada de excepcional, marcante, mas correto.

Anotação em junho de 2013

Roubando Vidas/Taking Lives

De D. J. Caruso, EUA-Austrália, 2004

Com Angelina Jolie (Illeana Scott), Ethan Hawke (James Costa),

e Gena Rowlands (sra. Asher), Olivier Martinez (Paquette), Tchéky Karyo (Leclair), Jean-Hugues Anglade (Duval), Kiefer Sutherland (Hart), Paul Dano (Martin Asher jovem), Marie-Josée Croze (médica)

Roteiro Jon Bokenkamp

Baseado em livro de Michael Pye

Fotografia Amir Mokri

Música Philip Glass

Montagem Anne V. Coates

Produção Warner Bros. e Village Roadshow Pictures.

Cor, 103 min

**1/2

5 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 15 agosto 2013 às 6:49 pm | Permalink

    Também gosto do filme, embora um tanto exagerado,o vilão é super-inteligente, super-diabólico mas muito bem interpretado por Ethan Hawke. A Angelina Jolie também está bem, nestes tempos ainda fazia uns trabalhos razoáveis, depois desistiu.

  2. Ivan
    Postado em 16 agosto 2013 às 12:39 pm | Permalink

    Este filme já passou várias vezes em um dos Telecines, não lembro qual. E , nessas vezes eu não quis ver, me recusei mesmo.
    Uma vez vi um trailer de um filme com a Angelina onde ela distribuía socos e pontapés , enchia de porrada um monte de marmanjos , verdadeiros ” armários ” , tudo isso com aqueles 4 gravetos em forma de mãos e pés. Acho que foi o tal de “Salt” e teve também ” O Procurado “. Não dá prá ver isso, ela não tem o tipo.
    Com certeza este filme não é o mesmo caso mas é que fiquei ressabiado.
    Lendo teu texto e tendo tua indicação, que é maior referência que se pode ter , vou procurar na locadora e se não encontrar, procuro online ou espero passar outra vez na TV.
    Um abraço !!

  3. Carla
    Postado em 22 agosto 2013 às 1:06 pm | Permalink

    Considero este filme correto; não entusiasma, mas também não é irritante. E tem uma qualidade para esta fã: é um filme feito para Angelina Jolie brilhar.

  4. Jussara
    Postado em 8 setembro 2013 às 1:27 am | Permalink

    O filme tem muitos clichês sim, mas tem momentos eletrizantes, de bastante adrenalina; a sequência de perseguição a pé nas ruas, que você cita, é o melhor, junto com o Olivier Martinez e a trilha sonora (incluindo a música do U2 que abre e fecha o filme).

    Spoiler:

    Na cena de sexo entre Illeana e James, na hora em que estão na cama e ela olha para as fotos, pensei que ela fosse ter um insight e matar a charada. Pois eu descobri na hora em que o carro capotou, ele “surtou” e atirou no personagem do Kiefer. A partir daí meio que perdi o interesse, mas continuei assistindo por causa do Martinez (e que inglês preguiçoso o dele, hein?!).

    Engraçado que esse filme é do mesmo ano de Antes do Pôr-do-Sol, mas aqui o Ethan Hawke parece mais jovem.

    Se você não tivesse falado eu jamais iria saber que a Marie-Josée Croze é aquela mulher de cabelo curto e preto que aparece no necrotério (tampouco imaginei que a personagem era médica). Também não entendi como ela aceitou fazer isso. Deve ter sido por diversão.

    Gena Rowlands fez tanta plástica que teve uma hora em que cheguei a pensar que o personagem era o Kiefer Sutherland disfarçado, tipo o Robin Williams em Uma Babá Quase Perfeita.

    Ri da frase do Ivan que diz que as mãos e pés da Jolie parecem gravetos. E olha que nesses filmes que ele cita acho que ela ainda não estava anoréxica como está hoje.

  5. Jussara
    Postado em 8 setembro 2013 às 2:59 pm | Permalink

    Uma coisa que esqueci de falar foi que fiquei com a impressão de que o Paquette era meio a fim da Illena. Ele implicava demais com ela, e depois a procurou no hotel, mas ela estava com o outro… Isso me fez lembrar de dizer que achei o roteiro simplista e cheio de falhas, umas sequências e cenas bobas e desnecessárias e outras que deixam indagações no ar, fios soltos. O filme tem mérito mais pelo suspense e clima pesado que consegue criar, graças em boa parte à música, do que ao roteiro e às atuações.

Um Trackback

  1. […] Isso posto, é preciso tirar o chapéu para Angelina Jolie. […]

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