Polissia / Polisse

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Nota: ★★★★

Polissia é um filme tão bom, tão extraordinariamente bem realizado, quanto duro, pesado, amargo, desconcertante, apavorante. Trata de abusos contra crianças, em especial abusos sexuais. Pais e avós pedófilos, crianças estupradas, abusadas, mães que maltratam filhos, em pleno século XXI, em plena Cidade Luz, a capital de um países mais civilizados do mundo.

E não doura a pílula. De forma alguma. Muito ao contrário: mostra tudo às claras, explicitamente, nua e cruamente.

Pior ainda: o filme nos avisa, de cara, que é inspirado em histórias reais.

Polissia enfia um facão no peito do espectador e vai remexendo. Sem dó, sem piedade.

Sem dó, sem piedade, tanto no conteúdo quanto na forma. A câmara, muitas vezes de mão, é nervosa; abusa-se dos close-ups. A montagem é acelerada. Todo o ritmo da narrativa é acelerado – em especial na primeira metade dos 127 minutos de duração.

Mostra-se o dia-a-dia de um grande grupo de policiais da BPM, Brigade de Protection des Mineurs. São diversos policiais, atendendo a diversos casos de abusos, e o roteiro mistura o trabalho cotidiano deles e suas vidas pessoais.

É literalmente de tirar o fôlego. É porrada atrás de porrada no espectador. Facão no peito, e torce, e retorce.

Uma mulher jovem, bela, talentosa, com uma visão tão absolutamente dura da vida

zzpolisse00E é espantoso, absolutamente espantoso, ver que este filme terrível (e terrivelmente bem feito), que mostra uma realidade duríssima de forma tão crua, às vezes até cruel, é obra de uma mulher. Uma jovem de aparência frágil, magrinha, fininha, de belos olhos azuis e longos cabelos castanhos, de nome estranho: Maïwenn. Maïwenn Le Besco de nascimento, apenas Maïwenn como nome artístico. Tinha apenas 35 anos em 2011, o ano do lançamento de Polissia, co-escrito, dirigido e também estrelado por ela.

Como é possível tanto talento, e uma visão tão absolutamente dura da vida, numa pessoa tão jovem?

Confesso que não me lembrava de ter ouvido falar nela, embora tenha 31 filmes como atriz em seu currículo, e este Polissia seja seu quarto filme como realizadora. Começou muito cedo a carreira: a mãe fez de tudo para transformá-la em atriz ainda na infância, segundo diz o IMDb – o que talvez seja também uma espécie de abuso de menor.

Em 1981, com apenas cinco anos de idade, portanto, teve um pequenino papel em L’année prochaine… si tout va bien, uma comédia com Isabelle Adjani, e em 1983 teve novo papel pequeno em outro filme com La Adjani, desta vez um drama policial, Verão Assassino/L’Été Meutrier.

Aos 18 anos, teve papel pequeno em O Profissional/Léon, de Luc Besson – o filme que revelou o talento e a beleza de Natalie Portman, então uma garotinha de 13 anos. Besson e a jovem atriz que nos créditos aparecia com o apelido infantil de Ouin-Ouin se apaixonaram, casaram-se, tiveram uma filha, Shanna Besson. Separam-se em 1993.

Maïwenn estreou na direção com 2004 com um curta de título bilíngue, I’m an actrice. Em 2006 fez seu primeiro longa, Pardonnez-moi, e em 2009, o segundo, Le Bal des Actrices.

Três dos atores do filme de 2009 estão também neste Polissia: Karin Viard, Marina Foïs e Joey Starr. Todos os três interpretam policiais da BPM, a brigada de proteção de menores da polícia parisiense.

O filme abre com uma garotinha abusada e duas garotinhas de pai afetuoso

O filme começa com um diálogo entre uma policial, Chrys (Karole Rocher), e uma garotinha, Dolores (Malonn Lévana, na foto abaixo). Chrys é jeitosa, deixa a garotinha à vontade, e o interrogatório mais parece uma conversa de uma tia com uma menina. Dolores é firme nas afirmações: ela diz que seu pai arranhou sem bumbum.

zzpolisse0Corta, e vemos um diálogo entre um pai e suas duas filhinhas gêmeas, aí de uns sete anos, a mesma idade da menina abusada da sequência anterior. Falam em italiano; ele se chama Francesco, e é interpretado por Riccardo Scamarcio. Veremos depois que Francesco é casado com Melissa (o papel da diretora Maïwenn), uma jovem fotógrafa; são classe média alta, têm vida confortável em termos materiais, mas sem afeto. Melissa mora num apartamento, Riccardo em outro, do outro lado da rua.

Uma garotinha abusada pelo pai, duas garotinhas que têm um pai afetuoso, presente, atento. Um Grand Canyon que separa a sorte de uma garotinha de duas outras garotinhas de sua idade.

Esse abismo mostrado, aí surgem os créditos iniciais, enquanto um coral infantil canta uma musiquinha alegre, uma canção para crianças.

E em seguida, diversas seqüências rápidas nos mostram uns dez, doze policiais da BPM, em ação, prendendo ou interrogando suspeitos, e conversando entre eles, no refeitório da própria brigada.

A diretora Maïwenn não facilita de forma alguma a vida do espectador. Aqueles dez, doze personagens nos são apresentados sem qualquer introdução; ficamos um bom tempo sem saber o nome de cada um deles.

zzpolisse2Todos serão importantes na trama. A narrativa, no entanto, vai se concentrar mais em Nadine (Karin Viard), Iris (Marina Foïs) e Fred (Joey Starr).

Fred está, como diversos de seus colegas, enfrentando problemas com a mulher. Vai acabar passando uns dias fora, dormindo na casa de um colega, para dar um tempo no casamento. Eventualmente, acabará se envolvendo com Melissa, a fotógrafa mais rica, que passará uma temporada com os policiais da Brigada fazendo fotos para um livro a ser lançado pelo Ministério da Justiça.

Nadine também está com problemas conjugais. Descobriu que o marido tem uma amante; é muito apaixonada por ele, mas sua grande amiga e parceira no trabalho Iris a incentiva a se divorciar.

Iris é compulsivamente dedicada ao trabalho, e também enfrenta drama conjugal. Não quer saber de sexo – mente para os colegas que se exercita para se manter magra, mas na verdade é uma anoréxica, que vomita tudo o que come.

Um perfeito equilíbrio entre o que acontece no trabalho e na vida pessoal dos policiais

Dramas em casa, dramas no trabalho. Uma vida duríssima.

É impossível, ao se ver este Polissia, não lembrar do Law & Order – Special Victims Unit, o seriado americano de grande sucesso (e grande competência) que já está na 15ª temporada. A Unidade de Vítimas Especiais da polícia de Nova York trata de crimes sexuais, todos eles – abuso de crianças inclusive, mas também estupros de adultas. A Brigade de Protection des Mineurs de Paris é especializada em todo tipo de violência contra os menores – mas, apesar dessas diferenças, são grandes os pontos comuns às duas unidades policiais.

A série da TV americana também aborda as vidas pessoais dos policiais, seus dramas familiares. Em algumas temporadas, vai mais fundo nisso – em outras, concentra-se menos nas vidas pessoais e muito mais nos crimes em si.

O filme francês consegue, a meu ver, um perfeito equilíbrio entre as vidas pessoais dos policiais e os crimes que eles investigam. Os dois aspectos são mostrados amplamente, sem que um se sobressaia – é tudo um conjunto único.

Exatamente como o detetive Elliot Stabler (Christopher Meloni), alguns policiais da BPM são violentos, ou são tomados pela violência em alguns momentos, quando se defrontam com criminosos especialmente abjetos, nojentos. (Na foto abaixo, Marina Foïs e Karin Viard.)

zzpolisse3Como os detetives da série SVU, os policiais franceses são trabalhadores sérios, dedicados – e, como não poderia deixar de ser, profundamente infelizes, estressados.

Todos os policiais da BPM mostrados no filme são infelizes, cansados, estressados, nervosos, à beira de um ataque, e suas vidas pessoais são conturbadas – como poderia ser diferente, se o trabalho deles é mexer nessa mar de merda, nessa coisa absurda, insensata, que é o abuso contra crianças?

Como proteger menores que não querem ser protegidos?

Polissia não deixa pedra sobre pedra.

A filhinha de um casal muito rico, Monsieur e Madame de la Faublaise (ela, interpretada, numa participação especial, pela ótima Sandrine Kiberlain, na foto abaixo) e ele por Louis-Do de Lencquesaing), dá a entender à mãe que o pai anda fazendo com ela coisas estranhas. Madame começa a observar melhor a forma com que o marido trata a filhinha e, mais tarde, embora extremamente constrangida, vai à BPM fazer a denúncia.

Ao ser interrogado pelos policiais, Monsieur de la Faublaise se demonstra um crápula absolutamente tranquilo, sabedor de sua impunidade. Uma espécie assim de Lula, de Delúbio (“o mensalão vai virar piada de salão”), de Sarney (um homem diferente dos demais, segundo o ex-presidente popular).

Os policiais apertam.

Vem ordem de cima para que Monsieur de la Faublaise seja tratado como um homem diferente dos demais.

zzpolisse9Na França, o país da liberté égalité fraternité, como em outros cantos menos desenvolvidos do planeta, alguns homens são mais livres e mais iguais que os outros, graças à fraternidade dos poderosos.

Um muçulmano rico, importante, senta-se na delegacia com a mesma presunção de impunidade que Monsieur de la Faublaise. Tem diversas mulheres, e é acusado de abuso de menor, mas, impávido, diz que segue as palavras do Corão, e que a polícia francesa não tem o direito de ir contra suas convicções religiosas e suas práticas que seguem a religião. Tem o azar de que entre seus interrogadores está uma descendente de árabes, Nora (Naidra Ayadi, num desempenho extraordinário entre tantos desempenhos extraordinários deste filme). Nora começa a falar em árabe com o sujeito, e berra para ele o óbvio, que não se pode usar o Corão para justificar atos criminosos.

Uma jovem de ascendência muçulmana é levada para interrogatório por ter colocado fotos sensuais dela mesma na internet. Tem 15 ou 16 anos de idade. Questionada, reage brava aos policiais; diz que eles estão por fora, que as coisas mudaram, que as meninas de 15 e 16 anos dão, chupam, fazem o que bem entendem.

zzpolisse8Como proteger menores que não querem se proteger?

Outra garota é interrogada. Foi forçada a chupar três garotos para que eles devolvessem seu celular. Bem, a rigor – vai-se descobrindo no interrogatório – ela não foi propriamente forçada. Os rapazes disseram que devolveriam o celular dela caso ela os chupasse, e aí ela chupou.

Os policiais se entreolham, como se não estivessem acreditando naquilo. E então – fazer o quê? Mesmo policiais abnegados e expostos aos piores horrores da sociedade são seres humanos – e eles começam a rir da depoente.

E o que fazer quando uma criança linda, um garotinho com cara de anjo, diz para a policial que gosta do homem que abusa dele?

Quase na metade, o filme muda de ritmo, fica menos acelerado

Quando a narrativa está quase chegando à metade – estamos com uns 55 minutos dos 127 de duração –, o grupo de policiais vai à um bar-boate encher a cara, tentar aliviar um pouco a tensão do dia-a-dia terrível, massacrante. Dançam, cantam.

É uma sequência bastante longa, em um filme que até então tinha tido apenas sequências rápidas, um ritmo ágil, acelerado, nervoso.

Nesse ponto, a diretor Maïwenn muda o ritmo do filme – ou pelo menos tive essa impressão. Voltará a haver sequências rápidas, sim, mas o ritmo, a partir daí, vai ficar bem menos acelerado.

É também nessa longa seqüência do bar-boate que acontece uma transformação da fotógrafa Melissa, exatamente a personagem interpretada pela diretora Maïwenn.

zzpolisse6Até ali, Melissa era uma pessoa bastante tímida no meio daqueles policiais secos, endurecidos pela vida, com quem passara a conviver todos os dias. Usa grandes óculos, e tem o cabelo sempre preso.

Fred, o policial negro, a chama para dançar. Tira seus óculos. Solta seus cabelos – e os cabelos dela são longos, negros e longos. Na pista de dança no meio daquele bando de policiais que bebem e dançam e cantam para fugir por um breve momento de sua vida dura, de merda, Melissa-Maïwenn aparece pela primeira vez um pouco mais solta, e bem mais bela, do que antes.

O filme não aponta soluções. Até porque será que há soluções?

Polissia, no original Polisse, em vez de Polícia, ou Police. A sacada, obviamente, remete a crianças ainda iletradas, ou que ainda não dominam a ortografia. Uma bela sacada.

Polissia teve a honra de participar da mostra competitiva de Cannes. Participar já é uma honra, mas a obra ainda ganhou lá o Prêmio do Júri de melhor filme. Teve nada menos que 13 indicações ao César, o Oscar francês, inclusive nas principais categorias, de filme, direção, roteiro original, atriz (para Karin Viard e Marina Foïs) e atriz e ator coadjuvante (para Nicolas Duvauchelle, Joey Starr, Frédéric Pierrot e Karole Rocher).

Levou os César de melhor montagem (e a montagem do filme de fato é extraordinária) e de melhor atriz coadjuvante para Naidra Ayadi, a que faz a policial de origem árabe).

A página do AlloCine, o belo site sobre cinema francês, traz a seguinte advertência: “Algumas cenas, falas ou imagens podem ferir a sensibilidade dos espectadores”.

É bem verdade.

zzpolisse5A vida tem coisas que ferem a sensibilidade das pessoas. Polissia mostra isso de uma forma brutal – e artisticamente brilhante.

O filme não aponta soluções – até porque não há solução para coisas como a violência urbana, a violência dentro dos lares.

Polissia é daquele tipo de filme que mostra que a humanidade foi uma invenção que não deu certo.

A humanidade, segundo o filme, não tem solução.

Como pode (perdão por repetir isso) uma moça tão jovem, tão bela, tão talentosa, ter essa visão do mundo?

A gente pode até não concordar com ela. Mas é forçado a admitir: ela tem talento de sobra.

Anotação em maio de 2013     

Polissia/Polisse

De Maïwenn, França, 2011

Com Karin Viard (Nadine), Marina Foïs (Iris), Joey Starr (Fred), Nicolas Duvauchelle (Mathieu), Maïwenn (Melissa), Riccardo Scamarcio (Francesco), Karole Rocher (Chrys), Emmanuelle Bercot (Sue Ellen), Frédéric Pierrot (Baloo), Arnaud Henriet (Bamako), Naidra Ayadi (Nora), Jérémie Elkaïm (Gabriel), Wladimir Yordanoff (Beauchard), Laurent Bateau (Hervé, o marido de Nadine), Carole Franck (Céline), Anne Suarez (Alice), Sandrine Kiberlain (Madame de la Faublaise), Louis-Do de Lencquesaing (Monsieur de la Faublaise)

Argumento e roteiro Maïwenn e Emmanuelle Bercot

Fotografia Pierre Aïm

Musica Stephen Warbeck

Montahem Laure Gardette

Produção Wild Bunch, Les Productions du Trésor, arte France Cinéma, Mars Films, Chaocorp. DVD Vinny Filmes.

Cor, 127 min

**** 

2 Comentários

  1. Ivan
    Postado em 19 julho 2013 às 12:43 pm | Permalink

    Acabei de assistir no You Tube (não sei se é junto ou separado,maiúsculo ou minúsculo)um trailer de 2:30 deste filme.
    Tem a cena da policial com a menina e entre outras cenas tem também a das policiais conversando / interrogando a mãe de dois meninos sôbre o porquê de um ser mais calmo que o outro. A resposta dela é de se ficar literalmente com a mesma expressão que as policiais ficaram
    Neste trailer dá para se ter uma pequena idéia de tudo o que seja este filme.
    Dá prá sentir que é mesmo tudo o que dizes no início deste teu texto. Cenas que chocam.
    Imagine o filme inteiro.
    Vou tentar encontrá-lo.
    Um abraço !!

  2. Danilo Vicente
    Postado em 3 agosto 2013 às 1:23 am | Permalink

    Sérgio, acabo de assistir por sua indicação aqui no site. O filme é demais! Duro, certeiro, sem respiro. Você escreveu tudo sobre o longa. Obrigado pela dica!

3 Trackbacks

  1. […] a protagonista da história, interpretada por Sandrine Kiberlain, e ela se apresenta para os espectadores. O monólogo inicial é delicioso: – “Meu nome é […]

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