Poder Absoluto / Absolute Power

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Nota: ★★★½

Poder Absoluto, de 1997, é mais uma das diversas comprovações de que Clint Eastwood é um dos melhores realizadores em atuação nas últimas décadas. Revê-lo foi um grande prazer: é um filmaço.

Clint Eastwood é um artista fascinante. Ele consegue dar um toque pessoal em tudo o que faz – mesmo não sendo o autor dos roteiros, mesmo trabalhando com histórias adaptadas de romances, como é o caso deste filme aqui. O toque pessoal de Clint Eastwood aparece nítido mesmo em filmes que ele não dirige, e apenas atua como ator, como o recente Curvas da Vida/Trouble with the Curve, de Robert Lorenz (2012).

O roteiro de Poder Absoluto é de William Goldman, novelista, dramaturgo, autor de livros de não-ficção e um dos roteiristas mais respeitados do cinema americano. Ganhou nove prêmios, inclusive dois Oscars, pelos roteiros de Todos os Homens do Presidente (1976) e Butch Cassidy (1970), e teve outras 14 indicações.

Goldman fez a adaptação para o cinema do primeiro romance de David Baldacci; depois dele, o autor escreveria umas duas dezenas de livros, inclusive histórias infantis.

A trama é absolutamente fascinante: um veterano ladrão de jóias, Luther Whitney (o papel do próprio Clint), invade a mansão de um bilionário; já encheu um grande saco com jóias caríssimas e pacotes de dinheiro vivo, quando, sem querer, e sem ser notado, assiste a um crime bárbaro.

Esses fatos se dão bem no início da narrativa, e o que vem a seguir é uma sensacional trama policial e política.

Mas, entremeada a essa trama, vemos uma também a fascinante história da relação conturbada de um pai abnegado com a filha que o renega.

Relação pai-filho é uma marca registrada de Clint Eastwood.

Uma bela jovem aparece na primeira seqüência, e só nela. É filha do homem

Há relação pai-filha já na primeira seqüência do filme.

zzabsolute2Luther Whitney-Clint Eastwood está em um belíssimo museu. Observa os maravilhosos quadros, magníficas obras de arte, enquanto desenha em bloco apropriado, profissional, os detalhes dos olhos e das mãos de um dos quadros expostos.

Uma bela jovem – obviamente uma estudante de arte – se aproxima dele. Luther está sentado numa cadeira, e a moça, de pé, pode observar o que o senhor idoso está desenhando. (Senhor idoso… Clint estava com 67 anos em 1997; era um jovem, comparado com o Clint que vemos em Curvas da Vida, de 2012.)

A moça pede ver os desenhos dele. E faz uma observação:

– “O senhor trabalha com as mãos, não?”

Luther olha para ela, sorrindo.

Corta, e vemos Luther entrando em um bar. A estudante de arte não voltará a aparecer no filme.

O detalhe é que a moça que aparece naquelas quatro ou cinco tomadas chama-se Alison Eastwood; é uma dos sete filhos de Clint, de cinco diferentes casamentos.

No mesmo ano de 1997, em seu filme seguinte, Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal, Clint Eastwood daria a Alison um papel importante – e ela se sairia extremamente bem. Até canta uma das canções de Johnny Mercer apresentadas no filme – e canta muito bem.

Sem ser visto, o ladrão assiste, como que de camarote, ao crime bárbaro

Na segunda sequência do filme, no bar, o dono – obviamente um velho e bom amigo de Luther – diz a ele que sua vida seguramente seria bem mais fácil se ele soubesse como manejar um aparelho de videocassete. Dá para perceber que Luther pede ao amigo que grave um determinado programa para ele.

Pode parecer um detalhinho bobo, mas não é: a coisa do programa gravado na fita de vídeo que Luther entrega ao amigo terá importância na trama.

E em seguida Luther chega à sua casa. Pega a chave no vaso de planta na pequena varanda – é uma casa simples, de classe média bem média, do que parece um conjunto habitacional, várias casas idênticas numa quadra inteira – e entra. Há quadros e desenhos nas paredes.

À noite, Luther senta-se à mesa para jantar seu jantar solitário. Bebe um vinhozinho e desenha em seu bloco profissional de folhas grandes. Perto da mesa há uma foto de um jovem Luther com uma garotinha no colo.

Isso tudo é mostrado em seqüências curtas. Estamos com 4 minutos e tanto de filme quando Luther pára seu carro próximo a uma gigantesca mansão. Todas as luzes estão apagadas; é óbvio que o ladrão de jóias sabe que não há ninguém ali naquele momento; é óbvio que ele pesquisou muito, preparou muito bem o que fará a seguir, porque sabe perfeitamente a localização de tudo: o sistema de alarme – que desligará –, e o aposento em que ficam as jóias, o cofre.

Dura sete minutos a seqüência em que Luther entra na casa, chega ao aposento visado e reúne o fabuloso produto do roubo em um grande saco.

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O aposento é uma espécie de closet – mas um closet imenso, já que aquela é uma mansão imensa. No meio do closet há uma grande cadeira de couro. E o closet dá para um gigantesco quarto de dormir; entre os dois há uma porta com um daqueles vidros de duas faces. Quem está no quarto vê um espelho; quem está dentro do closet pode observar todo o quarto.

Luther está para sair, levando o saco com uma incontável fortuna, quando ouve ruídos, vozes que se aproximam do quarto.

Volta para dentro do closet, fecha a porta de vidro/espelho.

Entram no quarto um homem e uma mulher. Estamos com 12 minutos de filme. Seguem-se 8 minutos de brilhante cinema – mas de cenas estarrecedoras.

O homem (interpretado por Gene Hackman) é bem mais velho que a mulher, uma jovem aí na faixa dos 30 anos (interpretada por Melora Hardin, os dois na foto acima).

Percebe-se que ela é a dona da casa – e ele, obviamente, não é o marido dela.

Estão bêbados.

Enquanto a mulher sai do quarto por um momento, provavelmente para ir ao banheiro da suíte, o homem se aproxima do que para ele é o espelho. Dentro do closet, Luther tenta se esconder, chega-se para trás na grande cadeira de couro – e aí tem a clara certeza de que o homem que ele vê bem de perto está se vendo no espelho.

Luther, ladrão de jóias veteraníssimo, expert, um dos melhores do país, conforme veremos depois, será, contra sua vontade, um voyeur.

E o que ele vê não é exatamente as preliminares de uma boa trepada.

O bêbado fica violento. Acha que a mulher gosta de um sexo da pesada. Ele a agride, ela revida.

O que acontece no quarto é interrompido algumas vezes para que a câmara mostre em close-up o rosto espantado, chocado, apatetado de Luther.

A violência entre o casal cresce.

Estamos com exatos 20 minutos de filme quando a moça é morta.

O homem é um figurão, tem dois guarda-costas muitíssimo bem treinados, de terno preto.

Só quando o filme está com 43 minutos, no entanto, o espectador saberá exatamente quem é aquele figurão.

As pessoas deveriam ter mais cuidado para não apresentar spoilers

E aí volto a um tema que tem sido freqüente nestes comentários aqui.

As pessoas deveriam ser mais cuidadosas com os spoilers.

zzabsolute4No mínimo, no mínimo, é preciso avisar ao eventual leitor de um texto – uma resenha, uma crítica, um comentário, em especial numa sinopse – que se vai dar uma informação que é spoiler.

A sinopse do IMDb, por exemplo, tem 11 palavras. Apenas 71 caracteres, incluindo os espaços – e entrega o que o roteiro preciso de William Goldman só revela quando o filme está com 43 minutos.

A sinopse na capa de trás do DVD lançado pela Warner também faz a revelação, no primeiro de seus dois parágrafos.

Um absurdo.

O mais fascinante, neste belo filme policial e político, é a relação pai-filha

A trama policial de Poder Absoluto é de fato muito, muito boa. Há alguns furos, na minha opinião, mas falar sobre eles seria dar spoiler, coisa que tento ao máximo evitar.

A denúncia sobre o excesso de poder (“todo poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente”) é muitíssimo bem feita.

Mas, para mim, o mais fascinante de tudo, neste belo filme policial e político, é a relação pai-filha.

Kate (o papel de Laura Linney, ótima atriz sempre) foi criada longe do pai. Cresceu com o pai na cadeia. Luther não aparecia em sua vida. A mãe havia morrido, Luther dizia ter se aposentado da carreira de ladrão de jóias depois que saiu da prisão, mas, adulta, tendo virado promotora, Kate rejeitava totalmente o pai.

Na primeira seqüência em que ela aparece, está correndo em um belo parque, nos arredores de Washington – a ação se passa na capital dos Estados Unidos e cercanias. Luther vai até lá, tentar conversar com a filha, dizer que está pensando em se mudar para longe, mas ela o repele.

– “Você sabe o que é a ser a única criança no primeiro ano que tem que falar sobre o dia de visita?”

E então Luther responde a frase doída como espremer o dedo no umbral da porta: – “Você é a única família que eu tenho.”

(Uma vez, quando minha filha era bem pequenininha, uns cinco, seis anos, sei lá, sem querer – é óbvio – apertei um dedinho dela no umbral da porta do quarto. Foi tão forte que ela se lembra disso até hoje. Mas doeu em mim tanto quanto nela: foi uma das dores físicas mais fortes que já senti na vida.)

E aí Kate aperta a porta no dedo do pai: – “Luther, você não me tem.”

Clint prova que dá para fazer uma seqüência de ação antológica – sem qualquer apelação

Não há porta – de cofre, de casa – que Luther, segundo o FBI um dos mais exímios ladrões de jóias do país, não saiba abrir. Luther de vez em quando visita a casa da filha quando ela não está. Observa o conteúdo da geladeira, e fala alto sozinho que sua filha precisaria fazer refeições mais balanceadas.

zzabsolute7Frank Seth (o sempre bom, corretíssimo Ed Harris), o policial de Washington encarregado de investigar o assassinato da mulher na mansão do biliardário, Christy Sullivan, chega rapidamente a Luther.

As evidências na cena do crime são extremamente confusas: houve um roubo de jóias, precedido do desligamento do sistema de segurança; há sinais de que, antes de ser baleada, a vítima sofreu tentativa de asfixiação; há mostras de que o ladrão sentou-se à cadeira do closet das jóias, embora não haja digitais dele; mas, se o ladrão estava no closet, por que as balas que mataram Christy vieram do outro lado do quarto, do lado da porta de entrada? E mais: como o ladrão conseguiu fazer aquela limpeza tão absolutamente competente do carpete do quarto?

As evidências na cena do crime são confusas, mas um ladrão havia conseguido desligar o sistema de segurança, o alarme, e tinha conseguido abrir o cofre sem danificá-lo. Com base nessas informações, o FBI havia dito ao detetive Frank Seth que seus registros mostravam que apenas seis ladrões teriam sido capazes daquele roubo, e o único deles que mora na região de Washington, D.C., é Luther Whitney.

Então o detetive chega a Luther, e à filha dele, a promotora Kate Whitney. Experiente, persuasivo, Seth Frank consegue convencer Kate a marcar um encontro com o pai, num lugar público, um café com mesas externas, na rua.

A sequência em que toda a polícia de Washington, mais um assassino profissional contratado pelo viúvo da vítima, o biliardário Walter Sullivan (E.G. Marshall), mais um dos seguranças do figurão que estava com a vítima no momento em que ela foi assassinada, esperam pela chegada de Luther Whitney ao encontro com a filha no café é um brilho. É a prova de que é possível fazer uma sequência de ação antológica sem apelar para a violência em excesso, as câmaras que entortam, a montagem rapidíssima à la videoclips da MTV, as eternas perseguições de carros.

Ele se expõe a tiros de três diferentes fontes. E explica por quê: “Minha filha queria me ver”

Horas mais tarde, na noite daquele dia do encontro programado no café, o detetive Seth Frank acompanha Kate ao apartamento dela. Garante que ela ficará a salvo de qualquer tentativa de alguém chegar perto dela: policiais estarão vigiando o prédio.

zzabsolute6Insinua-se que entre eles – o detetive que investiga o assassinato de Christie Sullivan e o assalto à mansão dele, e a jovem bem sucedida promotora filha do principal suspeito – poderá, talvez, quem sabe, surgir uma ligação, um caso.

Kate pergunta se o detetive quer beber alguma coisa, e em seguida explica que só tem a oferecer água. Aí então Kate abre a geladeira – e vê um monte de comida de boa qualidade que ela seguramente não havia encontrado. Kate ri. O detetive não entende o motivo, mas Kate ri.

Depois que o detetive vai embora, tendo dito três vezes que mora sozinho, Kate conversa com o pai, que estava ali, sem ser percebido.

A filha: – “Por que você veio?”

O pai: – “Eu não poderia deixar minha filha pensando que sou um assassino.”

A filha: – “Não, quero dizer por que você foi ao café hoje à tarde? Você deve ter suspeitado de alguma coisa, ou então não teria vindo preparado.”

O pai, que havia se exposto aos tiros de três diferentes fontes: – “Minha filha queria me ver.”

Uma das piores coisas que podem acontecer a uma pessoa é ser um pai ausente

A sensação que dá é de que Clint Eastwood, a pessoa, o homem, deve ter sido – ou no mínimo se sentido – um pai ausente para todos, ou alguns, dos sete filhos que fez. (Mas também, ô meu, por que raios fazer tantos filhos?)

O fato é que, a cada filme que faz, seja como realizador, seja apenas como ator, ele como que pede perdão aos filhos por ter sido um pai ausente.

E passa para o espectador a mensagem de quem sabe muito bem o que está falando: seja próximo de seus filhos; esteja perto deles.

Para mim, muito mais do que um filme policial e político (e ele é um excelente filme policial e político), Poder Absoluto é uma obra de arte que traz esse alerta aos pais: pais, sejam amigos de seus filhos, sejam próximos deles, porque uma das piores coisas que podem acontecer a uma pessoa é ser um pai ausente.

Ser pai ausente é crime.

Aleluia, Clint!

Anotação em agosto de 2013

Poder Absoluto/Absolute Power

De Clint Eastwood, EUA, 1997.

Com Clint Eastwood (Luther Whitney), Gene Hackman (Alan Richmond), Ed Harris (Seth Frank), Laura Linney (Kate Whitney), Judy Davis (Gloria Russell), Scott Glenn (Bill Burton), Dennis Haysbert (Tim Collin), E.G. Marshall (Walter Sullivan), Melora Hardin (Christy Sullivan), Richard Jenkins (Michael McCarty), Kenneth Welsh (Sandy Lord), Penny Johnson (Laura Simon)

Roteiro William Goldman

Baseado no romance homônimo de David Baldacci

Fotografia Jack N. Green

Música Lennie Niehaus

Montagem Joel Cox

Produção Castle Rock Entertainment, Malpaso Productions. DVD Warner.

Cor, 121 min

R, ***1/2

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