Paz, Amor e Muito Mais / Peace, Love & Misunderstanding

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Nota: ★★½☆

O filme é de 2011, a ação se passa na época atual, os 2010, mas o paz & amor do título é isso mesmo: remete aos hippies, aos anos 1960, o auge do flower power, o alvorecer da Era de Aquário, a contracultura.

O título original, Peace, Love & Misunderstanding, é, obviamente, um jogo de palavras com o bordão do hippismo, do flower power: peace, love and understanding; bem mais feliz que o título escolhido pelos exibidores brasileiros, é paz, amor & desentendimentos. (Se quisessem entrar no jogo de palavras, os exibidores daqui poderiam ter optado talvez por Paz, Amor e Outros Bichos. Ou Outros Grilos.)

O diretor é o veterano, experiente, eclético australiano Bruce Beresford, que já passou por praticamente todos os gêneros que existem, realizador, entre tantos outros, de Conduzindo Miss Daisy (1989), Risco Duplo (1999) e O Último Dançarino de Mao (2009). É garantia de uma narrativa tranqüila, firme, sem invencionices.

Para o papel fundamental da velha e eterna hippie Grace, conseguiram atrair Jane Fonda, então na glória de seus 74 anos estupendamente bem vividos.

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Lady Jane já assumiu várias personas na vida, de jovenzinha linda em comedinhas românticas no início dos anos 60 (Até os Fortes Vacilam, 1960, Um Domingo em Nova York, 1963, Descalços no Parque, 1967), de sex symbol em fantasia futurística dirigida por seu então marido Roger Vadim (Barbarella, 1968), de instrutora de fitness em vídeos sobre aeróbica ou coisa parecida, nos anos 80, de ex-atriz tornada esposa de magnata da TV.

Nunca foi propriamente hippie, mas, na época do flower power, que foi também a época da contestação de praticamente todos os valores estabelecidos, ela assustou milhões de conterrâneos conservadores que a chamaram de Hanói Jane por seu apoio explícito ao inimigo, o regime comunista de Ho Chi Min que acabaria derrotando o Exército mais poderoso que já houve na História. No finalzinho dos anos 60 e ao longo dos 70 e início dos 80, disputando com a colega inglesa Vanessa Redgrave o título de estrela da esquerda, fez diversos filmes de contestação mais leve ou mais forte ao Establishment (A Noite dos Desesperados, 1969, Adivinhe Quem Vem para Roubar, 1977, Julia, 1977, Amargo Regresso, 1978, A Sindrome da China (1979), O Cavaleiro Elétrico (1979), Como Eliminar Seu Chefe (1980).

Uma comunidade de velhinhos ripongas, como se o tempo tivesse parado

Grace, a personagem de Jane Fonda neste Paz, Amor, congelou-se numa cápsula do tempo: mantém, nos Estados Unidos dos anos 2010, o mesmo estilo de vida de quando era jovem e participou, com mais meio milhão de malucos-beleza, da orgia de Woodstock. Deu à luz sua única filha enquanto Jimi Hendrix incendiava o palco com sua guitarra em brasa. Deu mais que chuchu na cerca, teve mais amantes do que Liz Taylor teve maridos, fumou mais maconha do que Humphrey Bogart fumou nicotina.

Em Woodstock pariu, em Woodstock ficou. A pequenina cidade do interior do Estado de Nova York, cercada de idílica paisagem rural, ao mesmo tempo não muito distante da maior metrópole do país e a anos-luz de distância do espírito de Manhattan, o umbigo do capitalismo, acabou atraindo – é o que mostra o filme, e deve ser verdade – levas de velhos hippies. Uma grande comunidade de velhinhos ripongas vive lá, como se o tempo desmentisse Cazuza e tivesse de fato parado. E naquela comunidade Grace é uma espécie de princesa, embora não coroada. Todos a conhecem, a respeitam – até porque sempre foi linda, e continua linda aos 74 anos, teve casos com grandes músicos que todos adoram, cultiva e é fornecedora regular de maconha para a rapaziada, ou melhor, a velharada.

A filha única da hippie Grace é uma advogada bem sucedida em Manhattan

Os hippies dos anos 60 costumavam ser filhos de pais caretas.

zzpeace4O conflito de gerações parece inerente a boa parte da sociedade, e então os filhos dos hippies costumam ser caretas.

Diane (Catherine Keener), a filha única de Grace, é um caso típico.

O filme começa com Diane – e é um bom começo. Diane – uma advogada bem sucedida em uma grande firma de Manhattan – está preparando a mesa para o jantar um tanto formal em que ela e o marido Mark (Kyle MacLachlan), ele também um advogado bem sucedido, receberão casais de amigos. Está falando sobre os vinhos, e Mark a interrompe:

– “Diane, eu quero o divórcio.”

A câmara mostra o rosto de Diane-Catherine Keener em close-up. A reação dela é sensacional:

– “Timing perfeito, Mark. Obrigado.”

E então o casal que acabou de definir que vai se desfazer recebe os casais de amigos para o jantar um tanto formal. A sala de jantar está bastante escura. Conversam sobre teatro – Arthur Miller, Bernard Shaw, Eugene O’Neil.

E aqui dou um stop na descrição deste iniciozinho de filme para uma rápida digressão.

Em 1967, dois anos antes de Woodstock e já no auge do flower power, da contracultura, o jovem Paul Simon compôs uma canção extraordinariamente bela, “The Dangling Conversation”, que fala de uma relação que começa a se desgastar com o tempo, e em que o casal não conversa mais sobre coisas pessoais, que digam respeito a si mesmos, e sim sobre os temas das conversas de todas as pessoas estudadas, intelectualizadas – ela lê Emily Dickinson, ele lê Robert Frost, e discutem se vale a pena fazer análise, se o teatro de fato morreu.

(Apesar da imensa perda da beleza original, lá vai um trecho do poema que Paul Simon escreveu aos ridículos 26 anos de idade: “E apontamos nosso lugar com marcadores de livros que medem o que perdemos. Como um poema escrito pobremente, somos versos fora de ritmo, estrofes sem rimas, em tempo sincopado. Perdidos na conversa pendente e nos suspiros artificiais que são as fronteiras de nossas vidas.”)

Não dá para garantir, é claro, mas eu apostaria que os roteiristas Christine Mengert e Joseph Muszynksi e o diretor Beresford tinham em mente “The Dangling Conversation” quando fizeram essa tristíssima sequência, numa sala pouco iluminada de um apartamento rico na ilhota que é o umbigo do capitalismo, da concorrência feroz entre as pessoas.

Por falar em Paul Simon…

Na primeira seqüência em que aparece, Grace está cantando “Scarborough Fair”, a canção folclórica das Ilhas Britânicas que Simon & Garfunkel gravaram no terceiro dos cinco únicos álbuns de estúdio que fizeram na vida, e cujo título – Parsley, Sage, Rosemary and Thyme reproduz um verso dessa música. (“The Dangling Conversation” está exatamente nesse disco.) É a própria Jane Fonda que canta o verso parsley, sage, rosemary and thyme – salsa, sálvia, alecrim, e tomilho -, enquanto mexe em vasos de plantas.

Um choque cultural entre o mundo dos terninhos escuros e o das saionas multicoloridas

Na manhã seguinte ao anúncio do marido sobre o divórcio, Diane bota malas e os dois filhos dentro de seu carro, e deixa Manhattan em direção ao que chamam de Up State, o interiorzão do Estado de Nova York, ao Norte. Vai passar alguns dias com Grace, a mãe que ela não vê faz 20 anos, que seus dois filhos já grandinhos jamais viram.

zzpeace8A mais velha, Zoe (Elizabeth Olsen), já está na faculdade – não se diz de quê. Tem uns 18 anos. É estudiosa, aplicada, e, como a imensa maioria dos jovens de sua época e posição social, é natureba, vegetariana, anti-drogas. O mais novo, Jake (Nat Wolff), tem aí uns 15, talvez 16, e filma tudo o que vê pela frente com sua camarazinha digital. Zoe caçoa que ele é Spielberg, e Jake reclama que preferiria ser chamado de Werner Herzog. Muito mais chique.

O filme ainda não chegou aos cinco minutos quando aqueles urbanóides empedernidos desembarcam na casa de Grace, no meio de um sítio, em que as galinhas caminham sem temor algum pela cozinha, pelas poltronas da sala.

O que virá a seguir é, de uma certa maneira, o relato de um choque cultural, o embate de duas visões de mundo, representadas por Diane, a yuppie, versus Grace, a riponga. A metrópole da concorrência versus o idílico campo. Os ambientes escuros do apartamento chique versus a luminosidade rural. Os elegantes terninhos escuros versus as saionas multicoloridas. O apoio às intervenções militares americanas em países distantes versus os protestos contra a guerra, que continuam existindo, como se os norte-vietnamitas do general Vo Nguyen Giap e os vietcongs estivessem ainda preparando a ofensiva do Tet. O apego à lei e à ordem e o desprezo pelas drogas versus o enfumaçado mundo doidão.

Um choque cultural mostrado não como um sério estudo antropológico, mas como uma inofensiva comedinha romântica.

Foi uma felicidade reunir neste filme essas ótimas atrizes de gerações diferentes

Em diversos momentos do filme, me peguei pensando que ali há muito de simplismo, de reducionismo, de simplificação rasteira, de exagerada ingenuidade.

Mary, por ser mais inteligente, mais esperta, ou talvez por não ter a obrigação de escrever sobre os filmes que vê, curtiu bem mais do que eu.

zzpeace7Não que não tenha me divertido. Me diverti, sim. O filme tem diversos momentos simpáticos, gostosos, encantadores mesmo – em especial para quem, como eu e toda a minha geração, afinal de contas sonhou.

Os produtores e o diretor Bruce Beresford conseguiram uma combinação maravilhosa ao juntar essas três grandes atrizes e belas mulheres de gerações tão diferentes, Jane Fonda, Catherine Keener e Elizabeth Olsen.

Dá para perceber claramente que Lady Jane, ex-Hanói Jane, se divertiu à beça interpretando a riponga que se recusa a ver o tempo passar. Está linda, maravilhosa, cabelão imenso, saionas rodadas. Lá pelas tantas, numa reunião de mulheres à luz da lua, conta que fez um threesome – o que a gente na época chamava de ménage à trois – com Leonard Cohen. E alguém brinca: mas com quem ele não fez?

Nunca tinha visto Catherine Keener tão linda quanto neste filme. Mary concordou quando eu disse isso, e observou melhor: ela vai ficando mais bela a cada seqüência. Quanto mais tempo longe de Manhattan, mais bela sua personagem fica.

Gosto bastante de Catherine Keener. Da geração logo posterior à minha (ela é de 1959), ela tem na filmografia filmes belos e/ou importantes, como O Preço de uma Escolha (1996), Quero Ser John Malkovich (1999), Capote (2005), Um Crime Americano (2007), Na Natureza Selvagem (2007), O Solista (2009), Sentimento de Culpa (2010), Confiar (2010), para citar só alguns.

Catherine Keener está uma gracinha na sequência – mezzo boboca, mezzo emocionante – em que ela e o hippão Jude (Jeffrey Dean Morgan, na foto acima) fazem um dueto em “The Weight”, de Robbie Robertson, que Denis Hopper incluiu na trilha sonora de Easy Rider, de 1969.

E a garota Elizabeth Olsen…

zzpeace9Há muitas jovens atrizes que esbanjam talento. Elizabeth Olsen é uma das que esbanjam mais. Nascida em 1989, estava portanto com 22 aninhos quando fez este filme. É linda, e tem talento de sobra. Tem tudo para ser uma das atrizes mais brilhantes das próximas décadas, se não acontecer uma grande tragédia.

Repito o que anotei quando vi Martha Marcy May Marlene, também de 2011: A jovem Elizabeth Olsen, que interpreta a protagonista, é uma força da natureza. Nunca a tinha visto, mas já a admiro desde sempre.

O IMDb informa que Elizabeth Chase Olsen, nascida na Califórnia em 1989, é a irmã caçula de Mary-Kate Olsen e Ashley Olsen, também atrizes. Trabalhou no teatro quando criança e apareceu em várias das produções estreladas por suas irmãs. Ao contrário de seu personagem, que depois do colegial se perdeu e não voltou a uma sala de aula, graduou-se na Tisch School of the Arts da New York University e participou da Atlantic Theater Company.

Em 2011, quando estava portanto com 22 anos, foi a atriz principal de dois filmes: Martha Marcy May Marlene e A Casa Silenciosa/Silent House, um filme de terror dirigido por Chris Kentis e Laura Lau. Entre 2012 e 2013, participou de cinco filmes, fora outros três que estão ainda em produção.

Vixe Maria: já ganhou oito prêmios e teve outras 15 indicações.

Só por reunir essas três atrizes Peace, Love & Misunterstandings já vale a pena.

Não é um grande filme, nem pretende ser. É gostoso, simpático, divertido, brincalhão. E ainda por cima defende o que é certo na vida.

Anotação em outubro de 2013

Paz, Amor e Muito Mais/Peace, Love & Misunderstanding

De Bruce Beresford, EUA, 2011.

Com Jane Fonda (Grace), Catherine Keener (Diane), Elizabeth Olsen (Zoe), Nat Wolff (Jake), Chace Crawford (Cole), Jeffrey Dean Morgan (Jude), Kyle MacLachlan (Mark), Rosanna Arquette (Darcy), Joseph Dunn (Richard)

Roteiro Christine Mengert e Joseph Muszynksi

Fotografia André Fleuren

Música Spencer David Hutchings

Montagem John David Allen

Produção BCDF Pictures. DVD Imagem Filmes.

Cor, 96 min

**1/2

Um Comentário

  1. Jussara
    Postado em 31 dezembro 2013 às 5:49 pm | Permalink

    Assim como a Mary eu também curti bastante o filme, e adorei a personagem da Elizabeth Olsen. Acho que eu nunca tinha visto nada com ela, nem sabia que as gêmeas tinham uma irmã também atriz. Ela está ótima, uma das melhores atuações do filme, mas na minha opinião não é linda (tem um rosto bonito e harmônico, mas não é uma beleza estonteante, apesar de ser muito mais bonita que as irmãs, que queimaram a imagem de tanto aparecerem na mídia); lindo é o Jeffrey Dean Morgan, hehehe.
    Gostei muito do personagem dela, acho que me identifiquei, por ter mais ou menos os mesmos pensamentos quando tinha aquela idade (não que eu tenha mudado muito, já que a essência permanece) e, definitivamente, não tenho nem nunca tive vocação para ser hippie.
    A Catherine Keener está mesmo muito bonita, e aparentando menos idade do que tem. Engraçado que em 2010, no filme “Confiar”, ela aparentava mais idade e menos beleza.
    Acho tristes acontecimentos como o da história, onde mãe e filha (ou pai e filhos) ficam anos sem se ver, por coisas que poderiam ter sido resolvidas de outra forma. E acho admirável a capacidade que algumas pessoas têm de perdoar e acolher.
    Os atores estão todos bem, incluindo os que fazem personagens secundários.
    Como você disse, é um filme simpático e divertido, e ainda tem uma cena do Jeffrey Dean Morgan tomando banho de rio como veio ao mundo. Pra que mais?

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  1. […] jovem, simpático, que mora na gelada Minnesota. (A voz da mãe é de Diane Lane; a do pai, de Kyle MacLachlan.) Os pais dedicam bom tempo a brincar com Riley, o que dará a ela muitas memórias alegres. Desde […]

  2. […] humor – e não é que eu, absurdamente, loucamente, não reconheci que a voz da narradora é de Jane Fonda? Morro de vergonha ao confessar isso, mas estou velho demais para tentar esconder […]

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