Paris-Manhattan

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Nota: ★★☆☆

Em Sonhos de um Sedutor/Play it Again, Sam, de 1972, o protagonista, interpretado por Woody Allen, conversa com seu maior ídolo,  Humphrey Bogart. O protagonista é um crítico de cinema, e sua mulher acaba de deixá-lo. Um Bogey imaginário (interpretado por Jerry Lacy) dá conselhos ao rapaz.

Em Paris-Manhattan, a protagonista, Alice (interpretado pela bela Alice Taglioni), conversa com seu maior ídolo, Woody Allen. Ao contrário do que acontecia em Sonhos de um Sedutor, em que outro ator imita a voz de Bogey (que já estava morto quando o filme foi feito), aqui quem faz a voz é o próprio Woody Allen. E (creio que posso dizer isso; não chega a ser um spoiler) ele próprio aparecerá em cena, fazendo, claro, o papel de si mesmo.

Ter Woody Allen interpretando a si mesmo é, sem dúvida alguma, um grande trunfo que a jovem diretora e roteirista Sophie Lellouche teve em seu primeiro longa-metragem, lançado em 2012. Antes, ela havia dirigido apenas um curta, Dieu, que la nature est bien faite!, de 1999.

zzparis2O grande Allen é respeitadíssimo, incensadíssimo na França. Talvez tenha mais prestígio na França, um país que adora o cinema desde que os irmãos Lumière fizeram a primeira apresentação de um filme para um público pagante em toda a história, em 1895, do que em seu próprio país.

E ele não seria louco de recusar uma homenagem dessas, mesmo vinda de uma diretora estreante.

Além de ter como protagonista a bela Alice Taglioni, tem no elenco o ótimo Patrick Bruel, que, como tantos no cinema francês, é dublê de ator e cantor. (Um excelente cantor, diga-se de passagem.)

Então temos aí uma receita que dificilmente daria errado: uma comedinha romântica ambientada na gloriosa Paris, com uma bela atriz e um ator de respeito, que rende homenagem a um dos maiores cineastas da história e conta com a participação do próprio.

Infelizmente, Paris-Manhattan foi para mim uma decepção.

Não que seja uma porcaria. Não é um abacaxi, não, de forma alguma. Tem algum charme, tem bons momentos, tem graça, é simpático, agradável. Mas é fraquinho. Às vezes até bobinho. E a responsável por isso não é a diretora Sophie Lellouche, que é bem boa; é a autora e roteirista Sophie Lellouche.

O ponto fraco de Paris-Manhattan, me parece, é a trama, a história, o roteiro.

Uma moça bela, atraente, mas que não foi feliz no amor

Alice viu seu primeiro Woody Allán aos 15 anos – e apaixonou-se. Passou a ver todos, todos os anos. Pregou no seu quarto um imenso pôster – uma foto do gênio quando jovem, ali pelo início dos anos 1970, exatamente da época de Sonhos de um Sedutor. É com a foto dele que ela conversa – e ele responde com a voz dele mesmo em off.

zzparis3Alice é de uma família de classe média alta. A rigor, para os nossos padrões, para qualquer padrão, é de uma família rica. Mora com os pais numa belíssima, ampla casa – algo que em Paris só os ricos têm.

No início do filme, vemos Alice bem jovem, depois há saltos no tempo e na maior parte da ação ela está nos meados dos 30 anos de idade. (Alice Taglioni, de 1976, estava com 35 em 2011, quando o filme foi rodado.)

Desde bem jovem, Alice era uma moça um tanto diferente do padrão. (Claro – ou então não teria Woody Allen como seu maior ídolo!). Por exemplo: não ligava muito para roupas, nem tinha grande prazer em frequentar festas.

Apesar de tão jovem, sua grande paixão musical – exatamente como Woody Allen – era o jazz e a Grande Música Americana. Adorava Cole Porter. Os créditos iniciais do filme, lindos, a câmara passando pelos objetos do quarto de Alice, têm ao fundo Ella Fitzgerald cantando “Bewitched, Bothered And Bewildered”, de Richard Rodgers-Lorenz Hart.

Embora muito bela, não era feliz no amor. Quinze anos antes dos dias de hoje, da época em que se passa a maior parte da ação, tinha conhecido um rapaz interessante, Pierre (Louis-Do de Lencquesaing), que, como ela, gostava de jazz e Cole Porter. Mas Pierre, ao ver a irmã de Alice, Hélène (Marine Delterme), se derreteu. Casaram-se, Pierre e Hélène, e estão juntos até os dias de hoje, com uma filha aborrescente e problemática, como são tantos aborrescentes).

Temos então que nos dias de hoje Alice, com aquela beleza toda, é uma moça solteira, sem namorados, sem casos, sem coisa alguma. Seu companheiro e confidente é Woody Allen.

De repente entram dois homens na vida da moça. Um, Vincent (Yannick Soulier), é bonitão, charmoso. O outro, Victor (o papel de Patrick Bruel), embora não propriamente feio, parece não ter charme algum.

Isso posto, a autora e roteirista Sophie Lellouch perdeu-se toda, coitadinha.

A protagonista diz que Woody Allen namorou a irmã da mulher

A média das críticas ao filme nos jornais e revistas francesas, segundo o site AlloCiné, foi de 2 estrelas em 5. Na opinião dos espectadores – gente como a gente, o eventual leitor e eu, que simplesmente gostamos de filmes – que deram nota no site enciclopédico sobre o cinema francês, a média foi de 2.5.

zzparis5O AlloCiné, uma espécie assim de IMDb especializado em cinema francês, traz diversas informações sobre o filme. A ver.

Alice! Interessante: ao ver o filme, achei absolutamente normal que a protagonista se chamasse Alice, o mesmo prenome da atriz que a interpreta. É uma tradição do cinema francês, isso de o personagem ter o mesmo prenome do ator e/ou atriz.

Mas não havia me ocorrido, enquanto víamos o filme, que Alice é um nome que tem tudo a ver com Woody Allen. Claro: Alice, no Brasil Simplesmente Alice, de 1990, o antepenúltimo filme da fase Mia Farrow.

Aliás, por falar em Mia Farrow: bem no início de Paris-Manhattan, Alice se refere ao fato de que Woody Allen comeu a irmã da mulher. Voltamos para checar se tínhamos lido mal as legendas e ouvido mal as palavras, mas não, ela realmente fala na mulher da irmã. Não consegui entender isso, porque Woody Allen jamais comeu irmã alguma de Mia Farrow. Comeu, isso, sim, a enteada dela, Soon-Yi Previn. A imprensa de fofocas do mundo inteiro transformou isso num escândalo – ah, o tarado comeu a própria filha, a filha de sua própria mulher! Incesto! Absurdo!

Não é nada disso.

Soon-Yi Previn, como seu sobrenome indica, foi adotada pelo casal Mia Farrow-Andre Previn. A moça não tem nada de sangue de Mia, e foi adotada por Mia num casamento anterior. O fato de Woody Allen ter se apaixonado pela filha de criação de sua mulher, adotada num casamento anterior, não tem absolutamente nada de incestuoso, de escandaloso.

Apenas acontece que são demais os perigos desta vida – inclusive o de o marido de uma bruxa se apaixonar pela filha adotiva dela de um casamento anterior dela.

Woody Allen continua casado com Soon-Yi Previn desde 1997. São 16 anos de casamento. É o casamento/ligação mais longo de Allen – mais longo do que o que foi com Harlene Susan Rosen (seis anos), Louise Lasser (quatro anos), Diane Keaton, Mia Farrow.

Sei bem que me perdi aqui nesta anotação, mas prossigo.

Uma das coisas mais belas que o cinema já fez, na minha opinião, é a seqüência em que Diane Keaton canta na noite de Ano Novo em A Era do Rádio, de 1987, a época em Woody Allen estava junto com Mia Farrow.

Havia-se passado um período de oito anos desde que a colaboração Allen-Keaton havia terminado. O realizador chamou sua ex-mulher para uma bela, extraordinária participação especial em seu filme. É emocionante, é lindíssimo. Uma das coisas melhores que há na vida é admirar, respeitar, honrar a ex-mulher.

Mia Farrow, tadinha, dedica-se a desonrar o ex-marido. E, portanto, a si própria.

“Ele fala de tudo de que é feita a vida, o amor, a morte”

Perdão, eventual leitor, pela digressão, mas há bolas que, quando quicam na nossa frente, é impossível não chutar.

zzparis6A jovem diretora Sophie Lellouche, em entrevista transcrita no AlloCiné, diz o seguinte:

“O universo dele é excepcionalmente rico. Alice encontra nele a integridade que ele confere a seus personagens. Sua obra é tão densa que eu poderia procurar ali a filosofia necessária a Alice. Enquanto escrevia o roteiro, me nutri de seu espírito, suas frases. Ele fala de tudo de que é feita a vida, o amor, a morte, seu relacionamento com Deus, tudo evoluindo de um filme ao outro, oferecendo a cada vez pontos de vista diferentes. Cada um de seus filmes revela um pouco mais de sua humanidade.”

Já disse e repeti nestas minhas anotações que Woody Allen tem absolutos admiradores e absolutos detratores. As pessoas não ficam indiferentes a Woody Allen: há os que o amam, e os que o detestam – profundamente. Me lembro de meu amigo Gabriel Manzano, ainda nos tempos da revista Afinal, dizendo que Woody Allen era o cineasta mais superestimado do mundo; e da minha sobrinha Andrea, que diz, sempre com ponto de exclamação: “Eu odeio Woody Allen!”

Pois bem. Para mim, woody-allen-fanático desde sempre, tanto quanto a personagem Alice, tanto quanto parece ser a jovem Sophie Lellouche, a verdade dos fatos é que ele mereceria uma homenagem melhor do que esta comedinha simpática, mas bobinha.

Anotação em outubro de 2013

Paris-Manhattan

De Sophie Lellouche, França, 2012

Com Alice Taglioni (Alice), Patrick Bruel (Victor), Marine Delterme (Hélène), Louis-Do de Lencquesaing (Pierre), Michel Aumont (o pai), Marie-Christine Adam  (Nicole, a mãe), Yannick Soulier (Vincent),  Margaux Châtelier (Laura)

Argumento e roteiro Sophie Lellouche

Fotografia Laurent Machuel

Música Jean-Michel Bernard

Montagem Monica Coleman

Produção Vendôme Production, France 2 Cinéma, SND, Canal+, Ciné+. DVD Europa Filmes.

Cor, 77 min

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Um Trackback

  1. […] gosta de ser admirada, é segura de si. Casada com um advogado que ficou muito rico, Philippe (Patrick Bruel), é extremamente vaidosa, umbigo do mundo, e não dá a mínima para o filho, um garoto aí de uns […]

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