O Embaixador / The Ambassador

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Nota: ★☆☆☆

O Embaixador é um filme curioso e, de certa maneira, até mesmo fascinante. É uma grande porcaria – mas muito bem intencionado. Me parece um dos abacaxis mais bem intencionados do cinema, e, da mesma maneira, entre os filmes bem intencionados, um dos maiores abacaxis.

Também me parece obscuro, bem pouco conhecido, embora tenha três atores importantes – Robert Mitchum, Ellen Burstyn e Rock Hudson –, e seja dirigido por J. Lee Thompson, realizador irregular mas autor de alguns filmes muito bons, como Os Canhões de Navarone (1961) e Círculo do Medo (1962), para citar apenas dois.

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Produção de 1984, foi lançado agora em DVD no Brasil pela FlashStar; estava na locadora como lançamento, novidade, e então me aventurei. (Vejo que, na verdade, ele já havia sido lançado aqui na época VHS, pela América. Mas nunca tinha ouvido falar dele.)

Confesso que tive vontade de desistir algumas vezes – mas é tudo tão bem intencionado que fui em frente. Confesso também que estou curiosíssimo para saber o que dizem dele os guias.

Antes de ir aos alfarrábios, no entanto, transcrevo o texto que aparece em letreiros no início da narrativa. O texto dá o tom do que virá em seguida.

“O Oriente Médio é uma panela de pressão, pronta para explodir. Uma mistura de conflitos entre facções religiosas e políticas. Israel, com uma população de 4 milhões de habitantes, é cercado por oito países árabes com uma população de 80 milhões de habitantes.

“Um grupo conhecido como OLP prometeu nunca reconhecer o direito de existência de Israel e continuar lutando até que um território palestino seja reconhecido. Mais recentemente, houve sinais de que a OLP está desejando conversações de paz com os israelenses.

“Um grupo dissidente da OLP baseado na Síria, a Saika, o mais extremista de todos os grupos terroristas existentes na região, espalha o terror entre israelenses e árabes, a fim de impedir qualquer possibilidade de negociações de paz.

“Dentro de Israel há dois principais pontos de vista conflitantes. Os moderados, que estão prontos a sentar à mesa com a OLP, e os extremistas de direita, que se recusam a aceitar um Estado Palestino na região.

“O Mossad é a agência de inteligência do Estado de Israel e protege a posição oficial do governo israelense. No meio deste ardente conflito surge um americano – O EMBAIXADOR.”

(Assim, em caixa alta.)

Os créditos iniciais mostram que é uma produção de The Cannon Group, a Golan-Globus Productions, de Menahem Golan e Yoram Globus.

Uma introdução didática, uma clara tentativa de esclarecer os mal informados

Um texto de abertura longo, com um tom claramente didático, certo? E didático para principiantes. Dá a nítida impressão que se parte do pressuposto de que boa parte dos esperados espectadores, americanos médios, não têm sequer as informações básicas a respeito dos conflitos do Oriente Médio.

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Até aí, tudo bem – não deve haver dúvida sobre isso.

Qualquer outra análise desse texto de abertura do filme a partir daí poderá ser motivo de polêmica, porque tudo, absolutamente tudo que diz respeito a Israel e árabes é problemático, é polêmico.

Por exemplo, a frase “Israel, com uma população de 4 milhões de habitantes, é cercado por oito países árabes com uma população de 80 milhões de habitantes”. A rigor, a rigor, ela é (ou era, com os números de 1984) justa, exata, a mais pura expressão da verdade. Mas os pró-árabes poderão dizer que ela é tendenciosa ao mostrar Israel como um pequenino David diante de gigantesco Golias, e ao esconder o fato de que Israel é uma nação mais rica, mais poderosa e mais bem armada do que as oito nações árabes que o rodeiam.

Digo isso apenas para acentuar que tudo, ali, é complexo. As paixões são acirradas demais.

Mas o fato é que só alguém pró-árabe e radicalmente anti-Israel poderia reclamar da afirmação “Dentro de Israel há dois principais pontos de vista conflitantes. Os moderados, que estão prontos a sentar à mesa com a OLP, e os extremistas de direita, que se recusam a aceitar um Estado Palestino na região”.

Um filme feito por judeus que não é, de forma alguma, anti-árabe

E então vou um passo adiante.

Produzido por uma empresa de dois judeus, a Golan-Globus Productions, com dinheiro americano, O Embaixador não é, de maneira alguma, um filme pró-Israel e anti-árabe. Muitíssimo antes ao contrário: é um filme bem intencionado, que pretende mostrar que dos dois lados há radicais que lutam para impedir qualquer tentativa de paz, de convivência com alguma harmonia.

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Mais ainda: O Embaixador é tão bem intencionado que acredita na possibilidade de que um dia haja paz.

É tão esperançoso quanto “Jerusalem”, a extraordinária canção de Steve Earle que Joan Baez canta com aquela voz dela que é sinônimo de esperança, e que diz

“ I believe that one fine day all the children of Abraham

Will lay down their swords forever in Jerusalem”

Três guias elogiam o filme

Em intenção, O Embaixador é tão bom quanto Ó Jerusalém, de Élie Chouraqui, co-produção de vários países europeus, EUA e Israel, ou Lemmon Tree e A Noiva Síria, os dois do israelense Eran Riklis.

A questão é que de boas intenções o inferno dos filmes ruins está cheio. E O Embaixador é um filme bastante ruim, na minha opinião – apesar de bem intencionado.

Mas já dei muita opinião. A ver outras opiniões, agora.

O Videobook 2001 – publicação preciosa que deixou de ser editada – diz o seguinte: “Embaixador americano em Israel é vítima de um esquema de chantagem que ameaça seu casamento, sua carreira e a paz no Oriente Médio. Baseado em romance de Elmore Leonard, também filmado em 1986 como Nenhum Passo em Falso”.

Hummm…

Leonard Maltin gostou. Deu 3 estrelas em 4: “Inteligente, interessante thriller sobre embaixador americano Mitchum, sua mulher adúltera Burstyn, e suas tentativas para mediar pacificamente a crise Israel-Palestina. Baseado no romance de Elmore Leonard 52 Pick-Up, e refeito apenas dois anos depois sob aquele mesmo título. Último filme de Hudson.”

Hummm…

O guia de Steven H. Scheuer também dá 3 estrelas em 4: “Filme de suspense razoavelmente complexo sobre um embaixador americano que tem que enfrentar as chamas do conflito Israel-Palestina e ao mesmo tempo as atividades extra-curriculares da sua esposa. Atuações inteligentes e hábil mistura de temas políticos e emoções.”

Hummm…

O guia de Mick Martin & Marsha Porter dá 3.5 estrelas em 5: “O Embaixador confronta o conflito árabes-israelenses com uma cabeça aberta e um ponto de vista otimista. Robert Mitchum interpreta o controvertido embaixador americano em Israel que tenta ajudar na questão palestina em meio a críticas de todas as facções. Rock Hudson (em seu último papel para a tela grande) faz o oficial de segurança que salva a vida do embaixador. Classificado como R (de restricted) por causa da violência, linguagem profana, sexo e nudez.”

(Esse guia sempre, ou quase sempre, traz a classificação etária dos filmes com os temas que justificam tal categoria.)

Não há verbete sobre o filme no gigantesco Guide des Films de Jean Tulard, nem no competente Guia da Nova Cultural que infelizmente deixou de ser republicado.

É. Fiquei sozinho na minha afirmação de que o filme é uma porcaria. Não me consola o fato de o guia da Time Out dizer que J. Lee Thompson dirige o filme com “uma singular falta de estilo” e que trata como bobagem todos os temas políticos importantes, porque esse guia da Time Out é absolutamente mal humorado, chato de galocha.

Tudo indica que a trama é apenas ligeiramente inspirada no livro de Elmore Leonard

Um registro sobre a questão de o roteiro ser baseado no livro 52 Pick-Up, de Elmore Leonard, citado em mais de um guia.

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Me parece que justamente o guia da Time Out é que é mais plausível. Diz que o roteiro se inspira na história de Leonard.

De fato, como dizem o Videobook e o guia de Leonard Maltin, em 1986 foi lançado o filme 52 Pick-Up, no Brasil Nenhum Passo em Falso; foi dirigido por John Frankenheimer, e tinha no elenco Roy Scheider e Ann-Margret. Mas a história desse filme tem pouquíssimo a ver com a deste O Embaixador. Em Nenhum Passo em Falso, um industrial de Los Angeles, cuja mulher está concorrendo a uma vaga na Câmara de Vereadores, tem sua vida virada ao avesso quando chantagistas ameaçam divulgar um vídeo em que ele aparece com sua jovem amante.

O guia da Time Out é escrito por gente que parece detestar todos os filmes, mas me parece que ele está corretíssimo ao dizer que a trama de O Embaixador foi apenas inspirada na história de Elmore Leonard. No filme de J. Lee Thompson, há um vídeo, há uma chantagem – mas as semelhanças param por aí.

Atores mal dirigidos, uma trama cheia de subtramas, cenas de nudez um tanto apelativas

Bem. Posso até tentar ser rápido, mas tenho que tentar justificar meus adjetivos abacaxi e porcaria.

Os atores estão todos mal dirigidos. Os mais experientes – os três astros já citados, mais o inglês Donald Pleasence, que faz um ministro do gabinete israelense – têm um desempenho sem qualquer esforço, maquinalmente, como que apenas cumprindo tabela. Robert Mitchum sempre teve um jeitão non chalance, de quem não está nem aí, e então não assusta muito. Ellen Burstyn é tão boa que mesmo cumprindo tabela não chega a ser ruim. Mas Rock Hudson me pareceu ter um dos piores desempenhos de sua carreira de grandes papéis. OK, é possível que já fosse efeito da doença – ele morreria no ano seguinte ao do lançamento do filme.

De qualquer maneira, um elenco mal dirigido é um indício forte de resultado final ruim.

Também parece estranho que os produtores tenham preferido inventar um grupo extremista muçulmano – o tal Saika –, quando o que não falta é grupo extremista muçulmano. Mas a rigor isso é de menos; eles devem ter tido razões políticas para não usar um nome real, como Hezbollah ou Hamas, muito provavelmente medo de retaliação, ataques.

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A trama começa complicada, com diversas subtramas. Há o embaixador Peter Hacker e seu amigo e chefe de segurança Frank Stevenson (os papéis de Mitchum e Hudson), e seu encontro inicial com palestinos da OLP sob as vistas dos extremistas do tal grupo Saika e depois sob o fogo do Mossad; há o romance tórrido entre a mulher do embaixador, Alex (o papel de Ellen Burstyn), e o árabe comerciante de antiguidades Mustapha Hashimi (Fabio Testi), que depois vai se revelar um figurão da OLP; há os sempre presentes espiões do Mossad seguindo todos os personagens; há um misterioso agente não se sabe bem de onde que chega a Israel e faz negócios com figuras mal encaradas (só mais para o fim saberemos que o homem é da KGB).

A sensação que se tem é de que todas as pessoas em Tel Aviv e Jerusalém espionam ou são espionadas.

Me pareceu uma apelação gratuita as cenas de sexo entre a embaixatriz Alex e o árabe Hashimi. E me pareceu absolutamente fora de propósito e de lógica que a câmara escondida que filma as trepadas dos dois seja capaz de se deslocar de um lugar para outro, de fazer close-ups e depois planos americanos.

(Sim, é uma atitude corajosa de Ellen Burstyn aparecer em cenas de sexo bem quente com o corpo à mostra. Mas Ellen Burstyn é extraordinária sempre; não precisava disso.)

Aí então, depois de tanta complexidade, de tantas tramas e subtramas, tudo fica muito simples, basta chamar às falas um punhado de jovens árabes e jovens israelenses para que tudo dê certo; só falta eles todos saírem cantando “Give Peace a Chance” e “Imagine” – as velas acesas estão lá.

Give peace a chance – mas, na hora de torturar os bandidos para fazê-los confessar, o personagem de Rock Hudson sorri de sadismo puro.

A trilha sonora amplifica a sensação de filme ruim, menor. Acordes fortes para dizer ao espectador: cuidado, aí vem coisa.

Apesar do que dizem todos os guias, não retiro o porcaria e o abacaxi. Essa é minha opinião.

Porcaria, abacaxi – mas muito bem intencionado. Muito bem intencionado – mas porcaria, abacaxi.

Anotação em novembro de 2012

O Embaixador/The Ambassador

De J. Lee Thompson, EUA, 1984

Com Robert Mitchum (Peter Hacker), Ellen Burstyn (Alex Hacker), Rock Hudson (Frank Stevenson), Fabio Testi (Mustapha Hashimi), Donald Pleasence (ministroi Eretz), Heli Goldenberg (Rachel), Michal Bat-Adam (Tova), Ori Levy (Abe), Uri Gavriel (Assad)

Roteiro Max Jack

Inspirado na novela 52 Pick-Up, de Elmore Leonard

Fotografia Adam Greenberg

Música Dov Seltzer

Montagem Mark Goldblatt

Produção Menahem Golan, Yoram Globus, Isaac Kol, The Cannon Group, Golan-Globus. DVD FlashStar.

Cor, 97 min. Há uma versão com 90 min.

*

 

Um Comentário

  1. Senhorita
    Postado em 11 Janeiro 2013 às 8:59 pm | Permalink

    Alegria ver o Robert Mitchum por aqui =)

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Joe Kidd em 17 outubro 2015 às 5:55 pm

    […] filmes, com roteiro de outros autores, como, só para citar alguns, Hombre (1967), de Martin Ritt, O Embaixador/The Ambassador (1984), de J. Lee Thompson, O Nome do Jogo/Get Shorty (1995), de Barry Sonnenfeld, e Jackie Brown […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » A Convocação / The Calling em 24 novembro 2015 às 1:19 am

    […] – não é boa. E ela não se dá bem com a mãe, Emily (interpretada pela sempre maravilhosa Ellen Burstyn), que tenta de tudo para ajudá-la mas é sempre mal […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Paixão / Passion em 28 Maio 2016 às 9:26 pm

    […] beleza foi Cape Fear que Martin Scorsese fez em 1991 a partir do Cape Fear de J. Lee Thompson de 1962. (O original no Brasil se chamou Círculo do Medo e a refilmagem, Cabo do Medo.) Daria para […]

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