O Amor é Tudo que Você Precisa / Den skaldede frisør

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Nota: ★★★☆

O Amor é Tudo que Você Precisa (sic) deixa o espectador encantado, fascinado, apaixonado, desde as primeiras maravilhosas sequências.

Hum… Acho que, na frase acima, o lead, o início do texto, tentei generalizar algo pessoal. A frase correta é:

O Amor é Tudo que Você Precisa (sic) me deixou encantado, fascinado, apaixonado, desde as primeiras maravilhosas sequências. (O motivo do sic, claro, é o erro de regência verbal do título dado no Brasil.)

Permaneci encantado, fascinado, apaixonado, ao longo de todos os 116 minutos de duração do filme.

Enquanto via o filme, não conseguia deixar de me lembrar – embora vagamente – de que houve muitas críticas ruins a ele.

Não costumo ler críticas de filmes antes de vê-los, mas é impossível deixar de ver no mínimo os títulos, os olhinhos, as linhas finas.

Pensei também, enquanto via o filme, que a dinamarquesa Susanne Bier é um dos grandes realizadores do cinema atual.

Uma mulher que tratou do câncer, um homem emocionalmente travado

O Amor é Tudo que Você Precisa é uma comédia romântica. Na verdade, tem um pé muito firme no drama – mas o tom principal é de comédia romântica.

zzamor2Comédia romântica, sabemos bem, é o anti-suspense. Por definição, é coisa previsível: nas comédias românticas, há problemas, desencontros, imprevistos, mas tudo no final acaba bem.

Os cartazes do filme mostram um casal se beijando. Ele é Pierce Brosnan – a mulher, uma loura de cabelos longos, nós, brasileiros, não conhecemos, mas o fato é que os cartazes mostram o que o filme não esconde, mas demora muito a mostrar. Os cartazes já seriam spoilers, se o filme não fosse uma comédia romântica.

Ida (interpretada por Trine Dyrholm, na foto, uma atriz de beleza forte, nada convencional, com fulgurantes olhos claros do tamanho de jabuticabas) aparece pela primeira vez na tela diante de sua médica. A quimioterapia terminou, informa a doutora; com mais alguns exames, Ida poderá ser declarada livre da doença. A médica (Stina Ekblad), com uma clareza nórdica, sugere que Ida faça então uma cirurgia de reconstrução do seio que havia sido retirado. Ida (e a atriz Trine Dyrholm conquista o coração do espectador naquela primeira sequência em que aparece) diz que não é necessário; o maridão, Leif (Kim Bodnia), fica feliz, desde que ela continue fazendo o doce de que ele gosta especialmente.

Ida – o espectador verá em seguida – é o que Mary costuma chamar de mulher porreta. Mulher forte, firme, pra cima, guerreira, enfrentadora de adversidades.

Está casada desde sempre com Leif, que é um pequeno empresário; vivem numa casa confortável, classe média. Ida trabalha como cabeleireira.

E então conhecemos Philip, o papel de Pierce Brosnan.

Philip é um executivo bem sucedido, muito, muito rico. Tem uma grande empresa que exporta frutas e vegetais para diversos países. Veremos muito rapidamente que ele perdeu a mulher muito cedo, e desde então dedicou-se apenas ao trabalho, refugiou-se no trabalho; fez a opção de se fechar ao mundo, como o narrador da canção “I’m a rock”, de Paul Simon – uma pedra não sente dor. Jurou para si mesmo que não voltaria a ter qualquer envolvimento emocional.

A vida, como as comédias românticas, é previsível, mas ainda assim surpreendente

O filme nos mostra cenas de Ida e Philip na nórdica Copenhagen entremeadas a imagens de uma beleza descomunal da ensolarada, romântica, tesante Itália.

zzamor3Na Itália do Sul, ali por Nápoles, perto da ilha de Capri, estão os noivos Patrick (Sebastian Jessen) e Astrid (Molly Blixt Egelind).

Vão se casar daí a alguns dias. Chegam para ocupar a belíssima villa do pai do noivo, abandonada fazia muitos anos.

Metem-se à tarefa de melhorar a villa abandonada: pintam as paredes, lavam tudo.

O garoto Patrick tem dois bons amigos italianos, que vão ajudar o jovem casal em todas as tarefas, Alessandro (Ciro Petrone) e Marco (Marco D’Amore).

Nas comédias românticas não há suspense, e é claro que o noivo Patrick é filho do milionário Philip, e Astrid é filha da cabeleireira Ida.

Um homem que perdeu a mulher muito cedo, fechou-se ao mundo, virou um workaholic bruto, brutal. Que se recusa a ter um novo relacionamento.

Uma mulher que talvez tenha vencido o câncer – mas só talvez, faltam outros exames. E que, ao chegar em casa, carregando compras da mercearia, dá de cara com o marido comendo uma garotinha, Thilde (Christiane Schaumburg-Müller, na foto abaixo), a contadora da empresa dele.

(Um homem que trai sua mulher que enfrenta um câncer me remete a uma história real muito próxima. Horror dos horrores.)

O espectador está cansado de saber, desde as primeiras sequências, que haverá um encontro de Ida e Philip.

O espectador está cansado de saber, desde que o filme está aí com uns 10 minutos, que a relação dos jovens noivos filhos de Ida e Philip, os belos Patrick e Astrid, não é tão bela quanto parece.

Susanne Bier nos apresenta uma história que tem muita coisa previsível, mas ainda assim é surpreendente.

A vida, assim como as comédias românticas, é extremamente previsível, mas ainda assim surpreendente. E, segundo Susanne Bier, é bastante complicada, e dolorosa.

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“Seria muito difícil fazer um filme sem esperança”

Susanne Bier costuma abordar sempre os mesmos temas em seus filmes sempre ótimos, sejam eles feitos na sua Dinamarca natal, sejam feitos nos Estados Unidos, o maior país produtor e consumidor de filmes. Acima, além da geografia, a realizadora nórdica fala sempre sobre os mesmos temas – família, morte, perda –, e sempre de forma séria, profunda, adulta. Neste seu filme de 2012, resolveu usar um tom suave, de comédia, que não havia em suas obras anteriores – mas continuou falando sobre temas importantes de forma séria, profunda, adulta.

Vale a pena lembrar:

Depois do Casamento, co-produção Dinamarca-Suécia, fala sobre família, obrigações sociais, o dever da solidariedade, e mostra com a força de um panfleto a absurda injustiça de coexistirem milionários e miseráveis. Jacob, um médico dinamarquês, administra na Índia um centro de auxílio a crianças pobres e órfãs; viaja para o país natal, após muitos anos, para se encontrar com Jorgen, um milionário disposto a doar uma fortuna para seu trabalho social. Jorgen o convida para o casamento da filha – e, lá, Jacob descobre que a mulher de Jorgen, Christian, é a mulher com quem ele havia sido casado, cerca de 18 anos atrás. Haverá outras várias – e marcantes –descobertas.

Coisas Que Perdemos Pelo Caminho/Things We Lost in the Fire, uma co-produção EUA-Inglaterra, de 2007, conta a história do encontro de duas pessoas que estão vivendo momentos terrivelmente angustiantes, tristes, difíceis: ela, Audrey (Halle Berry), acaba de perder o marido, assassinado com um tiro quando tentava impedir que um homem continuasse batendo na própria mulher, na rua, em Seattle; ele, Jerry (Benício Del Toro), está tentando deixar o vício de heroína; era o melhor amigo do marido de Audrey, Brian (David Duchovny), mas ela nunca gostou dele.

Em um Mundo Melhor volta a alternar sequências na rica, desenvolvida Dinamarca e em um país miserável, desta vez na África. O filme expõe, com imenso talento e crueza, a constatação de que vivemos no pior dos mundos. De que acabamos criando, cada um de nós, o pior dos mundos – seja num dos países mais ricos do planeta, seja num dos mais miseráveis. Não é, no entanto, uma mensagem cínica, absolutamente desesperançada, que o filme apresenta. Ao contrário – no meio da insanidade, da absoluta loucura, Em um Mundo Melhor mostra réstias de esperança: há pessoas que resistem, que se recusam a compactuar com o descalabro, a espiral de violência, a Lei do Talião.

zzamor6Na época em que lançou Coisas Que Perdemos Pelo Caminho, Susanne Bier afirmou em entrevista: “Para mim, como diretora, a esperança é a coisa mais importante. Seria muito difícil fazer um filme sem esperança. Não que eu não saiba que o mundo pode ser cruel, mas não vejo por que jogar isso na cara da platéia.”

Não é um filme cor-de-rosa, mas é alegre – até nas músicas incidentais

Este seu filme de 2012 é o mais esperançoso dos que já vi da realizadora. Não que seja cor-de-rosa, de forma alguma. Bem ao contrário. Afinal de contas, Ida, a protagonista, está ainda lutando contra a doença quando descobre a infidelidade do marido. Philip amarga durante anos e anos a perda da mulher, e para sobreviver se obriga a virar uma pedra sem sentimentos. Convive-se com pessoas abertamente desprezíveis: Leif, o marido, é um calhorda; a garota Thilde, amante de Leif, é uma babaca.

Mais: Benedikte (Paprika Steen, bela atriz e bela mulher, que já trabalhou em três filmes da realizadora), a cunhada de Philip, irmã de sua falecida mulher, é também uma pessoa menor, um caráter precário – é péssima mãe da filha problemática. E o jovem Patrick, o filho de Philip, é inseguro, indeciso, não se conhece.

Apesar de tudo isso, no entanto, este é um filme que tem um tom bem humorado.

O bom humor está presente até na trilha sonora. Ouvimos a gravação deliciosa, nonchalant, de “That’s amore”, que faz rimas fantásticas como “tarantela” e “lucky fella”, e ainda de “Tintarella di luna”, com Mina, que Celly Campello gravou para os brotinhos de 1960 como “Banho de lua”.

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Uma diretora que sabe como usar bem os extreme close-ups

Neste Den skaldede frisør, Susanne Bier volta a usar bastante os primeiríssimos planos. Há realizadores que abusam dos close-ups sem qualquer necessidade. A realizadora dinamarquesa sabe usá-los com maestria. Nas entrevistas para divulgar Coisas que Perdemos Pelo Caminho, ela disse o seguinte: “Sempre fui obcecada com primeiríssimos planos (ela fala extreme close-ups). Para mim, são como planos gerais, são quase como uma paisagem. Uma parte do rosto do personagem quase vira uma abstração. Gosto disso porque significa que você se atém apenas à emoção. Você não fica necessariamente com a parte física de um rosto, mas com os sentimentos, e eu acho isso uma ferramenta de extrema importância em termos de descrever o estado mental de alguém.”

Den skaldede frisør, o título original do filme em dinamarquês, significa, segundo o IMDb, a cabeleireira careca. Ida perdeu todo o cabelo com a químio, e os longos cabelos louros com que a vemos são uma peruca.

Talvez por considerar A Cabeleireira Careca um título forte demais, agressivo, violento, os exibidores americanos tenham preferido o beatle e doce All You Need is Love. Os exibidores brasileiros foram na cola do título em inglês, mas, infelizmente, nestes tempos de “nóis pega os peixe”, cometeram um cruel crime contra a língua pátria. Aula de regência verbal é tudo de que eles precisam.

Há críticas virulentas ao filme. Cada cabeça, uma sentença

Depois de escrever a anotação acima, fui procurar as páginas do Estadão e do Globo com as críticas sobre o filme, e não achei. Numa busca pela internet, dei com opiniões assim:

“É estranho ver tamanha falta de sensibilidade e bom gosto vindo de uma diretora que geralmente é sinônimo de qualidade. (…) É verdadeiramente uma pena que talentosos e experientes cineastas como Bier e seu roteirista Jensen fiquem presos a um filme formulaico como esse, sem conseguir emanar nem uma pequena faísca de seus trabalhos anteriores.”

O autor do texto citado define a personagem de Ida como “uma boboca apagada que só sabe rir”, “uma pessoa desinteressante de forma geral, e a definição da palavra ordinária”.

zzamor9Já Cássio Starling Castro, na Folha de S. Paulo, escreve: “O título original, A Cabeleireira Careca, anuncia um tratamento mais cômico que dramático das dificuldades existenciais da protagonista, Ida. No papel, a atriz Trine Dyrholm nunca se deixa dominar pela ênfase melodramática e projeta uma mistura instável de sofrimento, força, confiança e amorosidade que fazem de Ida uma personagem difícil de resistir.”

Uma boboca apagada que só sabe rir, como diz uma crítica na internet? Ou uma personagem difícil de resistir, uma mulher forte, firme, pra cima, guerreira, enfrentadora de adversidades?

Convido o eventual leitor a ver o filme e decidir.

Anotação em setembro de 2013

O Amor é Tudo que Você Precisa / Den skaldede frisør

De Susanne Bier, Dinamarca-Suécia-Itália-França-Alemanha, 2012.

Com Trine Dyrholm (Ida), Pierce Brosnan (Philip),

e Sebastian Jessen (Patrick), Molly Blixt Egelind (Astrid), Kim Bodnia (Leif), Christiane Schaumburg-Müller (Thilde), Paprika Steen (Benedikte), Micky Skeel Hansen (Kenneth), Frederikke Thomassen (Alexandra), Ciro Petrone (Alessandro), Marco D’Amore (Marco), Stina Ekblad (a médica)

Roteiro Anders Thomas Jensen

Argumento Susanne Bier e Anders Thomas Jensen

Fotografia Morten Søborg

Música Johan Söderqvist

Montagem Pernille Bech Christensen e Morten Egholm

Produção Zentropa Productions, Film i Väst, Lumière & Company, Teodora Film, Slot Machine, Liberator Productions. DVD Serendip Filmes.

Cor, 116 min

***

Título em Portugal: Só Precisamos de Amor. Título nos EUA, Itália, Alemanha: Love is all you need.

3 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 8 Janeiro 2014 às 10:53 pm | Permalink

    Não sei se foi pq assisti sem muita expectativa, mas gostei bastante do filme. E pela primeira vez achei que o Pierce Brosnan atuou bem, tenho um pouco de implicância com ele. Também achei que ele envelheceu bem pra caramba, nem desconfiava que ele já estivesse na casa dos 60, e pelo visto, sem plásticas. Ao menos nesse filme ele está charmosão.

    Não sei como alguém pode chamar a personagem Ida de “boboca apagada que só sabe rir”; acho que boboca é quem escreveu isso, não é mesmo?

    A história é meio previsível, como você falou, e sobre o Patrick a gente percebe que há alguma coisa mal resolvida logo no começo. Só acho meio forçado o casamento do filho de um ricaço com a filha de uma trabalhadora comum, que ganha pouco. No meu mundo ricos só casam com ricos, mas enfim, é filme e é uma comédia romântica.

    Fiquei um pouco chocada com a idade da atriz que faz a Ida; acho que ela aparenta mais idade do que tem, e pensei que o papel e a peruca tivessem contribuído pra isso, mas olhei umas fotos dela no Google Imagens e ela aparenta mais idade em outras fotos também. De duas uma: ou fumou/fuma muito ou tem uma genética ruim. Enfim, just saying.

    Dos filmes que vi da Susanne Bier, esse é o que considero mais “fraco”, mas por se tratar de uma comédia romântica (ainda que com um pé no drama) achei acima da média, até por ter personagens mais críveis: jovem com sexualidade mal resolvida, mulher batalhadora passando por doença barra pesada, marido calhorda e ogro, amante do marido com inteligência e caráter reduzidos, etc.

  2. Dininha Torres Luize
    Postado em 9 Fevereiro 2016 às 9:15 pm | Permalink

    Oi, Sérgio!

    Amei tua crítica sobre o filme! Não sou muito chegada às comédias românticas, mas essa me cativou; aliás, nos cativou! Assistimos eu e minha filha Verônica. A fotografia é maravilhosa, a protagonista é extremamente competente na sua interpretação e seus olhos imensos falam mais do que mil palavras e a direção é tão precisa quanto um bisturi; nenhuma cena sobra e nada deixa de ser dito ou explorado. E quanto às críticas negativas… Acredito que algumas pessoas esqueceram que uma das funções do cinema é divertir!

  3. Cristina
    Postado em 26 Maio 2016 às 9:56 pm | Permalink

    Adorei seu comentário! Amei o filme, a fotografia,o cenário… td.

3 Trackbacks

  1. […] pastor Dan Day (o papel de Pierce Brosnan) é um desses fenômenos de marketing religioso, que nós brasileiros conhecemos tão bem. Possui […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Serena em 3 Março 2016 às 3:16 pm

    […] fiquei me perguntando por que raios a dinamarquesa Susanne Bier se dedicou a esse filme, por que resolveu usar seu grande talento para fazer um filme que qualquer […]

  3. […] filmes dela, como os dois já citados aqui, Depois do Casamento e Em um Mundo Melhor, e mais O Amor é Tudo que Você Precisa (2012) e Irmãos/ Brødre (2004), que os americanos refilmariam em 2009 como Entre […]

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