O Amante da Rainha / En kongelig affære

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Nota: ★★★☆

O Amante da Rainha é um filme muito bom, extremamente bem realizado em todos os quesitos. E é fascinante graças à sua trama, riquíssima, uma mistura assim de um pouco de conto de fadas com muito de tragédia shakespeariana. Entrelaça um novelesco triângulo amoroso com o retrato de um país, a Dinamarca no final do século XVII.

É um enredo que parece saído da cabeça de um escritor de imaginação exacerbada – e, no entanto, O Amante da Rainha se baseia em fatos e personagens reais.

“A gente não sabe nada.” Mary costuma repetir essa frase sempre que vemos filmes baseados em fatos históricos. A frase se aplica com perfeição à história da rainha Caroline Mathilde, do rei Christian VII e de Johann Friedrich Struensee, através da qual o filme mostra muito da história da Dinamarca naquele período – tudo absolutamente desconhecido por Mary, por mim e, dá para assegurar, para a imensa maioria, se não a totalidade dos brasileiros de alguma cultura e estudo.

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A jovem nobre inglesa se casa com um rei excêntrico, desvairado, que beira a loucura

Letreiros tentam dar um pouco do contexto para o espectador, na abertura do filme:

“Europa, final do século XVIII. A nobreza domina por opressão, apoiada por forças religiosas. Mas os ventos de mudança estão soprando. Por todo o continente, intelectuais e livre-pensadores exigem reformas e liberdade para o povo. É a era do Iluminismo.”

Não é exatamente o final do século XVIII – é meados da segunda metade. Nas primeiras sequências, vemos uma bela mulher escrevendo uma carta; é 1775.

Ela escreve: “Meus queridos filhos, vocês não me conhecem, mas eu sou sua mãe. Talvez jamais tenham me perdoado. Talvez me odeiem. Espero que não. Agora sei que nunca mais os verei; por isso escrevo contando a verdade, antes que seja tarde.”

Um novo letreiro informa: 1766 – nove anos antes. Caroline Mathilde (interpretada por Alicia Vikander) é uma jovem nobre inglesa, que já está casada com o rei Christian VII da Dinamarca, embora ainda não tenham se visto.

As sequências na Inglaterra são poucas e bem rápidas, enquanto a voz em off da atriz Alicia Vikander prossegue lendo a carta que Caroline Mathilde está escrevendo aos filhos. Com uns 5 minutos de filme, a jovem está chegando à Dinamarca para assumir o trono de rainha.

O rei Christian VII (interpretado por Mikkel Boe Følsgaard) que o filme apresenta é um tipo excêntrico, às vezes desvairado, beirando a loucura. Recebe a rainha no meio da estrada rumo a Copenhagen; passam o resto da viagem sentados um em frente ao outro na carruagem, sem trocar uma palavra. Ao chegar ao castelo, o rei que com a rainha era silencioso faz uma festa imensa para seu cachorro. Tem trejeitos – o espectador fica com a sensação de que ele é um veadaço. Depois se verá que não, ele não é homossexual – é quase louco, doido, insano.

A primeira noite nos aposentos da jovem rainha é um espetáculo do mais puro terror.

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A Dinamarca era a rigor uma ditadura, com rígida censura à imprensa e aos livros

Com maestria, o roteiro (assinado por Rasmus Heisterberg e Nikolaj Arcel, com base em novela histórica de Bodil Steensen-Leth) traça bem rapidamente para o espectador o retrato da corte dinamarquesa.

O pai de Christian havia morrido quando o príncipe era bem jovem; havia se casado de novo, e tinha tido um outro filho com a segunda mulher. A rainha madrasta Juliane Marie (Trine Dyrholm) despreza o jovem rei, e está disposta todo tipo de intriga para entregar o trono ao seu filho.

O país é governado na prática por um conselho de ministros, chefiado por J. H. E. Bernstoff (Bent Mejding). Bernstoff, a rigor, é um ditador, que não presta contas a ninguém e não tem qualquer respeito pelo rei, a quem considera um débil mental, um louco.

E o ditador e seus ministros governam o país com mão de ferro. Há servidão, e os donos dos servos – a nobreza – podem acoitá-los ou até matá-los. O governo tem o apoio total de uma Igreja profundamente retrógada.

Há rígida censura à imprensa e às publicações. A jovem rainha perguntará à sua dama de companhia, Louise (Laura Bro), pelos livros que havia trazido da Inglaterra, e Louise informa que eles estão sendo examinados; muitos provavelmente serão enviados de volta para a Inglaterra, por terem sido censurados na Dinamarca.

Por influência de seu médico, o rei passa a adotar medidas liberalizantes

O acaso faz com que o rei Christian escolha para ser seu médico particular um homem letrado, conhecedor da obra dos iluministas franceses, fã de Voltaire – um alemão chamado Johann Friedrich Struensee (interpretado por Mads Mikkelsen, um sujeito grande, de figura imponente, bela estampa).

zzrainha5Struensee conquista Christian de forma acachapante. Percebe que o rei é absolutamente inseguro – e faz com que ele passe a sentir mais confiante em si mesmo.

Christian começa a se impor perante o conselho de ministros. Seguindo as propostas, as instruções de Struensee, vai obrigando o conselho a adotar medidas liberalizantes.

O país começa a mudar – para o bem geral do povo e pavor dos nobres.

E Struensee conquista a rainha.

A pobre moça terá então, pela primeira vez desde sua chegada à Dinamarca, alguns meses de grande felicidade.

Imaginamos a Dinamarca rica, moderna, e o filme mostra um país atrasado, injusto

É muito impressionante como este filme dinamarquês (em co-produção com Suécia e República Checa, mas essencialmente dinamarquês) pinta a Dinamarca da metade do século XVIII como um país atrasado, pobre, com a população miserável, as ruas infestadas por ratos, sujas, imundas. Um país de imensa injustiça, de censura rigorosa.

É muito estranho, porque todos nós sempre tivemos da Dinamarca a imagem contrária, de um país moderno, avançado, liberal, estável, um dos mais desenvolvidos do mundo, assim como os demais nórdicos, Suécia, Noruega e Finlândia.

Nos letreiros finais, antes dos créditos – ao som de uma música extraordinária, assinada a quatro mãos por Cyrille Aufort e Gabriel Yared –, é dito que foi depois da morte da infeliz, trágica rainha Caroline Mathilde (e por inspiração dela e das idéias de seu amante) que o país começou a deixar para trás aquele passado de trevas quase medievais.

O verbete sobre Christian VII da Dinamarca (1749-1808) na Britannica confirma quase tudo o que o filme mostra – um indício forte de que o romance histórico e o filme foram bastante fiéis à verdade dos fatos. Diz que o rei era “mentalmente incompetente”, que assumiu o trono em 1766, e casou-se com Carolina Mathilde, que era filha de Frederick, o príncipe de Gales. Fala do médico Johann Friedrich Struensee, de sua importância durante parte do reinado de Christian VII e do fato de que ele foi amante da rainha.

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Uma trágica história de amor, uma competente lição de História

O Amante da Rainha teve em inglês o título de A Royal Affair. Não é difícil perceber que o título em inglês é a tradução literal do dinamarquês En kongelig affære.

Como A Royal Affair, o filme foi escolhido pela Dinamarca para representar o país na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro – e obteve a indicação. Concorreu com o chileno No, o canadense War witch, o norueguês Kon-tiki e Amor, de Michael Haneke, indicado pela Áustria, que acabaria levando a estatueta.

O filme ganhou 18 prêmios e teve 26 outras indicações, além do Oscar. No Festival de Berlim, levou os Ursos de Prata de roteiro e ator para Mikkel Boe Følsgaard, o fantástico ator que interpreta o rei Christian VII.

Entre as indicações, teve as de melhor filme estrangeiro tanto no Globo de Ouro quanto no César, o Oscar francês.

Foi apenas o quarto filme dirigido pelo jovem Nikolaj Arcel, nascido em Copenhagen em 1972. Arcel escreveu o roteiro de duas dezenas de títulos – é um dos roteiristas de Os Homens que Não Amavam as Mulheres, o excelente filme sueco baseado no primeiro livro da trilogia Millennium, de Stieg Larsson.

Alicia Vikander, a jovem e belíssima atriz que faz a infeliz rainha, é sueca de Gotemburgo, onde nasceu em 1988. Credo: tinha apenas 24 anos quando fez o filme. Mas já tem 19 títulos na filmografia, inclusive o mais recente Anna Karenina, o de 2012, dirigido por Joe Wright, com Keira Knightley no papel título.

Um belo filme, uma fascinante e trágica história de amor, uma competente aula de História.

Anotação em agosto de 2013

O Amante da Rainha/En kongelig affære

De Nikolaj Arcel, Dinamarca-Suécia-República Checa, 2012

Com Alicia Vikander (Caroline Mathilde), Mads Mikkelsen (Johann Friedrich Struensee), Mikkel Boe Følsgaard (Christian VII), Trine Dyrholm (Rainha Mãe Juliane Marie), David Dencik (Ove Høegh-Guldberg), Thomas W. Gabrielsson (Schack Carl Rantzau), Cyron Melville (Enevold Brandt), Bent Mejding (J. H. E. Bernstoff), Laura Bro (Louise von Plessen, a dama de companhia), Harriet Walter (Augusta, princesa de Gales)

Roteiro Rasmus Heisterberg e Nikolaj Arcel

Baseado na novela Prinsesse af blodet, de Bodil Steensen-Leth

Fotografia Rasmus Videbaek

Música Cyrille Aufort e Gabriel Yared

Montagem Kasper Leick e Mikkel E.G. Nielsen

Produção Zentropa Entertainments, DR TV, Trollhättan Film AB, Film i Väst, Sveriges Television (SVT), Sirena Film. DVD Paramount.

Cor, 137 min

***

2 Comentários

  1. Ivan
    Postado em 19 novembro 2013 às 10:14 am | Permalink

    Se eu não estiver enganado vi este filme no fim de dezembro, ano passado ou começo de janeiro, deste. Neste período poucos filmes esqueci de datar. Também não lembro se disse algo sôbre ele prá voce.
    Gostei muito. Ótimo filme. Achei muito bem feito, gostei dos atores.
    O amor … o poder do amor.
    Aquele rei além de como voce disse, ser desvairado, louco, era também um fanfarrão, infantil, facilmente manipulável e que não estava nem aí, para o povo.
    O tal do Poder. O diabo do Poder.
    Querer tê-lo e usá-lo da pior forma. Como ele transforma as pesoas.
    Sei pouquíssimo sôbre o assunto mas aquela época, Sergio, não foi a do iluminismo?
    Tenho visto recentemente filmes europeus muito bons.
    Outro filme que gostei muito com este ator o Mads Mikkelsen foi ” A Caça ” de 2012 de Thomas Vinterberg.
    ” Anna Karenina ” que eu vi, Sergio, foi o de 1997 de Bernard Rose com Sophie Marceau e Sean Bean. Gostei muito mesmo.
    Interessante que antes eu tinha começado a assistir o de 2012 com a Keira. Não sei o que houve mas não desceu, parei de assistir.
    E olha que eu gosto muito da Keira …
    Vi também estes dias:
    “Frances Ha” – 2013 – Noah Baumbach – EUA.
    “O Amante” ( L’amant )( The lover ) – Jean-Jacques Annaud – 1992 – ( no Brasil ).Obs: a voz que narra a história é a da grande Jeanne Moreau.
    ” Uma Armadilha para Cinderela ” – (Trap For Cinderella)2013 – Iain Softley – Reino Unido e Irlanda Norte.
    ” A Solidão dos Números Primos ” – ( La Solitudine dei Numeri Primi – 2010 – Saverio Costanzo- Italia.
    Um abraço !!

  2. Ivan
    Postado em 20 novembro 2013 às 11:36 am | Permalink

    Era prá ter feito isto ontém mas esqueci.
    E hoje , vendo minhas anotações e outras pastas foi que percebi.
    Sôbre o poder, existe uma frase de Sófocles que diz:

    ” O poder revela o homem ” .

    Um abraço e um ótimo dia !!

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Rosa Morena em 24 março 2016 às 10:00 pm

    […] com os rumos que a carreira foi tomando. Viajou para o Brasil para rever um grande amigo, Jakob (David Dencik, à direita na foto acima), um dinamarquês que se casou com uma brasileira, Tereza (o papel de […]

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