Ninotchka

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Nota: ★★★★

Rever Ninotchka é um dos grandes prazeres da vida de quem gosta de filmes.

É muito impressionante como Ninotchka é engraçado. É uma boa piada atrás da outra. Os diálogos são inteligentes, argutos, espertos – e hilariantes. Bem, afinal, foram escritos Charles Brackett, Billy Wilder e Walter Reisch.

A beleza de Greta Garbo resplandece. Deve ser um dos filmes em que ela está mais bela.

Prestei atenção ao tempo. Garbo surge na tela aos 19 minutos. Meu Deus do céu e também da terra, como a tela se ilumina!

Os 19 minutos passam muito depressa, é tudo maravilhoso. Mas quando ela surge melhora ainda mais.

Aos 48 minutos, exatamente aos 48 minutos (chequei no reloginho do aparelho), Garbo ri.

Não tinha dado um único sorriso, nem mesmo um pequeno esgar. É aquela coisa séria, seriíssima, com dois is e acento no segundo, sisuda, marcial, bolchevique, soviética.

zzgarbo2Aos 48 minutos, Garbo ri. E ri abertamente. Gargalha.

É um momento glorioso.

“Garbo talks!”, diziam os cartazes de seu primeiro filme sonoro. “Garbo laughs!”, diziam os cartazes, o trailer original de Ninotchka. “Garbo ri, e todo o mundo ri com ela”, diz ainda o trailer.

É possível ver Ninotchka e se divertir com ele sem considerações sociológicas, políticas?

Fiquei aqui pensando um bom tempinho, entre o final do filme e agora, quando começo esta anotação: seria possível separar Ninotchka da política? Seria possível ver Ninotchka apenas como uma boa comédia que brinca com um determinado assunto – o comunismo –, assim como as comédias italianas dos anos 60 brincavam com o ciúme exacerbado, a virgindade das mulheres, o perigo do chifre nos homens? Assim como filmes Gaiola das Loucas brincam com a homossexualidade? Assim como Quanto Mais Quente Melhor brinca como a coisa do travestismo?

Esquecer completamente qualquer tipo de politicamente correto? Ver o filme e rir das piadas, assim sem compromisso, inocentemente, sem considerações sociológicas, políticas, filosóficas?

Realmente não sei dizer.

Pelas minhas anotações, tinha visto o filme em 1982 e depois em 2005. Não fiz qualquer anotação nessas épocas. Em 1982, um período conturbado, fazia pouquíssimas anotações sobre os filmes; não consigo me lembrar qual teria sido minha reação diante de Ninotchka naquela época, mas devem ter sido sensações contraditórias, porque naquele tempo eu era fervoroso simpatizante do comunismo, e não gostava, de forma alguma, de filmes “reacionários”. Por outro lado, sempre gostei de cinema – e como não gostar de Ninotchka?

Em 2005 não anotei nada, a não ser os dados básicos da ficha técnica, data e a cotação – 4 estrelas, cotação máxima.

Na época do filme, boa parte da intelectualidade americana flertava com o comunismo

Ninotchka é de 1939. Apenas 22 anos, portanto, depois da Revolução Comunista. O ano em que começou a Segunda Guerra Mundial – tanto que o filme abre com um letreiro, uma espécie de preâmbulo, que é quase um pedido de desculpas por estar fazendo comédia quando o mundo está iniciando uma Grande Guerra:

“Este filme acontece em Paris naqueles maravilhosos dias em que uma sirene era uma morena e não um alarme… E se um francês desligasse a luz, não era por causa de um ataque aéreo.”

(A siren was a brunette. A tradução perde um tanto aí: siren é a palavra tanto para sirene quanto para sereia. Sirene em português também é sereia, mas a gente não costuma usar a palavra nessa acepção.)

Em 1939, boa parte da intelectualidade americana, dos roteiristas e diretores de cinema, flertava com o comunismo, com os ideais de uma sociedade mais justa, igualitária. Imagino que muitos críticos tenham massacrado o filme na época por considerá-lo “reacionário”, “contra-revolucionário”, “propaganda capitalista”.

Três funcionários soviéticos chegam a Paris para vender um conjunto de jóias

zzgarbo3Então, à alegre Paris de antes da guerra chegam três enviados da Câmara Russa de Comércio: Ironoff, Buljanoff e Kopalski (interpretados, respectivamente, por Sig Rumann, Felix Bressart e Alexander Granach). Sua missão é vender pelo melhor preço possível um fabuloso conjunto de jóias que havia pertencido à grã-duquesa Swana (Ina Claire), então uma das muitas nobres russas refugiadas no Ocidente após a Revolução. Na fuga apressada – subentende-se – a grã-duquesa havia deixado as jóias para trás, e elas foram confiscadas em nome do povo.

Após alguma hesitação, os três funcionários do governo soviético cedem à tentação de se hospedar em um hotel carésimo. Como apenas a suíte real do hotel tinha um cofre grande o suficiente para guardar a mala com as jóias, os funcionários ficaram com ela – apesar do temor que despertam neles seu chefe, o comissário Razinin (Bela Lugosi, o ator de tantos filmes de terror), e a possibilidade de Razinin os enviar para uma temporada na Sibéria.

Acontece que outro nobre russo refugiado, o conde Rakonin (Gregory Gaye), na sociedade capitalista sendo obrigado a trabalhar como garçom exatamente naquele hotel, ouve a conversa dos três funcionários, e corre para contar à própria grã-duquesa que suas jóias estão em Paris.

No momento em que a informação é dada à grã-duquesa, ela está em companhia de seu namorado, um francês, o conde Leon D’Algout (o papel de Melvyn Douglas). O conde Leon diz à grã-duquesa que vai cuidar para que as jóias sejam devolvidas a ela. E vai ao hotel apresentar-se aos funcionários Ironoff, Buljanoff e Kopalski. Para melhor conversarem sobre o caso, o parisiense sugere um bom almoço, ali mesmo na suíte real, regado a muita champagne e com a companhia de mocinhas vendedoras de cigarro e portadoras de sainhas acima dos joelhos e coxinhas grossas. (A moda das mulheres anoréxicas ainda estava muito longe.)

Com seus três enviados demorando muito em Paris e sem solução à vista, o comissário Razinin manda um agente especial para assumir o caso. Um agente especial de sua absoluta confiança, a camarada Yakushova, ou, para os poucos íntimos, Ninotchka.

Aos 19 minutos de Ninotchka, surge na tela Ninotchka-Greta Garbo.

Um diálogo hilariante. Logo em seguida, outra fala também hilariante – mas pesado

A camarada Yakushova desce do trem em Paris carregando duas malas. Os trapalhões Ironoff, Buljanoff e Kopalski se surpreendem – naturalmente, esperavam um homem.

zzgarbo4Fazem mesuras, tentam de todas as formas agradar à camarada agente especial, superior a eles. Chamam o carregador de bagagem.

Camarada Yakushova: – “Por que você deveria carregar a bagagem de outras pessoas?”

Carregador: – “Bem, esse é meu trabalho, Madame.”

Camarada Yakushova: – “Isso não é trabalho. É injustiça social.”

Camarada carregador: – “Depende da gorjeta.”

O pobre espectador ainda está rindo dessa piada e já vem outra – esta bem pesada.

Um dos três funcionários pergunta como está Moscou.

Camarada Yakushova: – “O último julgamento em massa foi um grande sucesso. Haverá menos russos, mas melhores.”

Aqui vão alguns dos diálogos extraordinários do filme. Dá vontade de reproduzir todos

Não é necessário acrescentar mais nada sobre a trama desta deliciosa comédia político-romântica, ou romântico-guerra-fria, embora a guerra fria só fosse começar seis anos mais tarde, em 1945, no momento em que os nobres, heroicos soviéticos entraram na Alemanha derrotada pelo lado direito do mapa e os decadentes capitalistas americanos, franceses e ingleses, pelo lado esquerdo.

Mas alguns dos maravilhosos, deliciosos, sensacionais diálogos, simplesmente não dá para não transcrever.

Camarada Yakushova, ao entrar na suíte real do hotel chiquetérrimo (os três funcionários, por medo da Sibéria, haviam se transferido para um quartinho barato): – “Quanto custa isso?”

Iranoff: – “2.000 francos.”

Camarada Yakushova: – “Por semana?”

Iranoff: – “Por dia.”

Camarada Yakushova: – “Sabe quanto custa uma vaca, camarada Iranoff? 2.000 francos. Se eu ficar aqui uma semana, vai custar sete vacas ao povo russo. (Ela tira o chapéu operário. O espectador vê pela primeira vez os cabelos de Ninotchka-Greta Garbo.) Quem sou eu para custar 7 vacas do povo russo?”

E, instantes depois, ao abrir a mala e tirar de lá uma foto de Lênin num porta-retratos: – “Tenho vergonha de pôr uma foto de Lênin num quarto destes.”

***

Piada interna, sobre a própria Garbo, que, em Grand Hotel, de 1932, sete anos antes, havia dito várias vezes a frase que acompanharia a estrela pelo resto da vida: “I want to be alone”.

Iranoff: – “Do you want to be alone, comrade?”

Camarada Yakushova: – “No.”

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***

Ninotchka sai do hotel com um mapa de Paris; pretende inspecionar os serviços públicos da cidade. Na calçada entre as duas pistas da avenida, fica por absoluto acaso ao lado do conde Leon D’Algout, que chegava para visitar os três funcionários no hotel e, evidentemente, não sabia que aquela beldade era justamente a agente especial enviada por Moscou para assumir a transação a respeito das jóias.

Leon: – “Perdão. A senhora é uma exploradora?”

Ninotchka: “Não. Estou procurando pela Torre Eiffel.

Leon: – “Meu Deus, aquela coisa se perdeu de novo? Ah, a senhora está interessada em uma vista?”

Ninotchka: – “Estou interessada pela Torre Eiffel de um ponto de vista técnico.”

Leon: – “Técnico? Não, não, creio que eu não poderia ser de muita ajuda sob esse ângulo. Sabe? Um parisiense só vai à torre em momentos de desespero, para pular.”

Ninotchka: – “Quanto tempo se leva para pousar?”

Leon: – “Que coisa! Da última vez que pulei, esqueci de cronometrar.”

***

O absolutamente improvável encontro entre a rígida oficial soviética e o conde parisiense de vida alegre prossegue, já que, afinal de contas, esta é uma comédia romântica, e eles são a mocinha e o mocinho.

zzgarbo6Ninotchka: – “Nós não temos homens como você no meu país.”

Leon: – “Obrigado.”

Ninotchka: – “É por isso que acredito no futuro do meu país.”

Ninotchka, um pouco depois: – “Como material de estudo, você pode não ser mau, mas você é o produto desafortunado de uma cultura condenada. Sinto pena por você.”

E um pouco mais tarde:

Ninotchka: – “O que você tem feito pela humanidade?”

A tradução faz perder bastante, porque a palavra é mankind, e Leon vai responder com o jogo de palavras womankind.

Leon: – “Não muito pela humanidade… Pelas mulheres, meu currículo não é tão sombrio.”

***

E, depois que Ninotchka, criada em fazenda russa à base de leite de cabra, experimenta champagne e assusta o maître do restaurante chiquérrimo fazendo proselitismo comunista para os empregados:

Ninotchcka: – “Vamos formar o nosso próprio partido.”

Leon: – “Amantes do mundo, uni-vos!”

Os diálogos são de Billy Wilder, Charles Brackett. Aí se explica por que são geniais

A página do IMDb com citações do filme traz  nada menos que 32 trechos de diálogos desse naipe.

Todos os diálogos de Ninotchka são maravilhosos. É impressionante o talento dos roteiristas Billy Wilder, Charles Brackett e Walter Reisch. O nome deste último não me diz nada. Billy Wilder – seguramente o melhor aprendiz de Ernst Lubitsch, o realizador dono do toque mágico – formou com Charles Brackett uma dupla lendária. Escreveram juntos os roteiros de 14 filmes, entre 1938 e 1951, a maioria deles grandes filmes. Escreveram para Ernst Lubitsch (A Oitava Esposa de Barba-Azul, Ninotchka), para Mitchel Leisen (Levanta-te, Meu Amor!, A Porta de Ouro), para Howard Hawks (Bola de Fogo).

zzgarbo7Bola de Fogo, aquela absoluta obra-prima do mestre Hawks, é de 1941, dois anos após Ninotchka. No ano seguinte, o próprio Billy Wilder estrearia na direção em Hollywood, com A Incrível Suzana/The Major and the Minor. A parceria entre o europeu que começou a carreira em Viena e o americano do interior do Estado de Nova York continuaria assinando os roteiros de diversos grandes filmes dirigidos por Wilder, até Crepúsculo dos Deuses/Sunset Boulevard.

Wilder era homem de trabalho em conjunto. Depois da parceria com Brackett, estabeleceria uma nova, com I.A.L. Diamond, com quem escreveria, entre 1957 e 1972, o roteiro de diversos outros grandes filmes, inclusive Amor na Tarde, Quanto Mais Quente Melhor, Se Meu Apartamento Falasse, Irma La Douce, Beije-me, Idiota, Uma Loura por um Milhão, A Vida Íntima de Sherlock Holmes, Avanti!… Amantes à Italiana e A Primeira Página.

Greta Garbo só ganharia um Oscar honorário – assim como Chaplin, Welles, Hitch

Embora Greta Garbo ainda fosse, em 1939, sem dúvida alguma a maior estrela do cinema americano, e Ernst Lubitsch fosse um realizador respeitadíssimo, Ninotchka teve apenas 4 indicações ao Oscar: melhor filme, melhor história original, melhor roteiro e melhor atriz. Não levou nenhum dos prêmios a que foi indicado.

Concorriam com Ninotchka ao Oscar de melhor filme …E o Vento Levou, Vitória Amarga/Dark Victory, de Edmund Golding, Adeus, Mr. Chips, de Sam Wood, A Mulher faz o Homem/Mr. Smith Goes to Washington, de Frank Capra, Duas Vidas/Love Affair, de Leo McCarey, Carícia Fatal /Of Mice and Men, de Lewis Milestone, No Tempo das Diligências/Stagecoach, de John Fortd, O Mágico de Oz, de Victor Fleming, e O Morro dos Ventos Uivantes/Wuthering Heights, de William Wyler. Merece um tostão furado – ou talvez uma estátua em praça pública – quem disser que não sabe qual deles ganhou.

Concorriam com a superstar sueca de voz mais grave que um pecado mortal Bette Davis por Vitória Amarga, Irene Dunne por Duas Vidas, Greer Garson por Adeus, Mr. Chips, e Vivien Leigh por …E o Vento Levou. Os mais jovens talvez não se lembrem, mas os nomes menos conhecidos hoje dessa lista aí, Irene Dunne e Greer Garson, eram então estrelas de primeira grandeza.

zzgarbo8Mas era o ano de … E o Vento Levou, a maior superprodução até então feita por Hollywood, e que durante várias décadas seria o filme de maior bilheteria da história. Levou sete estatuetas, inclusive a de melhor atriz. A inglesa Vivien Leigh, sra. Laurence Olivier, a rigor já havia garantido a estatueta ao ser escolhida para o papel de Scarlett O’Hara.

Faço esse registro porque somos todos fascinados pelo Oscar – embora saibamos todos que é uma coisa menor.

Bem, e já que somos todos fascinados pelo Oscar, é bom registrar também que Greta Garbo jamais conseguiu ficar sozinha com aquela estatuazinha de um homem careca e desprovido de falo. A deusa sueca foi indicada quatro vezes ao Oscar; a indicação por Ninotchka foi a quarta. Antes, havia sido indicada duas vezes no mesmo ano, 1930, por Romance e Anna Christie, e em 1938 por A Dama das Camélias.

A mesma vetusta Academia que jamais deu um prêmio de melhor direção a Charlie Chaplin, Alfred Hitchcock e Orson Welles daria a Greta Garbo um prêmio de consolação (como aliás fez com os três realizadores citados aí). Na cerimônia de 1955, deram a ela um Oscar honorário “por suas inesquecíveis atuações na tela”. A deusa não estava lá para receber a estatueta, que, por ser honorária, não é igual àquela que conhecemos, a do careca sem o aparelhinho. Estava, então, vivendo em Nova York, absolutamente reclusa – sozinha, como havia pedido várias vezes em Grand Hotel. Havia abandonado Hollywood em 1941, aos 36 anos de idade.

La Garbo escolheu o caminho da canção de Neil Young – melhor explodir do que enferrujar. Bobona. Poderia perfeitamente ter optado pela canção, muito mais bela, de James Taylor: nunca desista, nunca diminua o ritmo, nunca fique velho, nunca morra jovem.

Lubitsch queria Cary Grant no papel do mocinho

O que me fez querer rever mais uma vez Ninotchka, passando-o na frente da lista de uns mil títulos que um site de filmes deveria ter para poder ser considerado um site de filmes, foi uma menção feita a ele por Manuel S. Fonseca, em um de seus maravilhosos artigos que tenho a honra de republicar no 50 Anos de Textos. Manuel escreveu, naquele estilo dele que eu gostaria de ter, se um dia soubesse escrever tão bem: “Gostava de ter visto Cary Grant ao lado de Greta Garbo, a empedernida comunista de Ninotchka. Era o que Lubitsch mais queria e os produtores não deixaram. A história ideológica do século XX seria outra: Garbo e a cara de pau do comunismo teriam sorrido mais cedo.”

Não sabia disso. Não sabia que Lubitsch gostaria de ter tido Cary Grant como o conde parisiense mulherengo e vão, no sentido mais duro da palavra vão – inútil, sem valor, fútil, à toa, conforme mostra meu Dicionário Unesp do Português Contemporâneo.

zzgarbo9Melvyn Douglas, que a Metro escolheu para interpretar o vão, o frívolo conde, é um grande ator. Está muito bem em Ninotchka. (E, de resto, quem não fica bem num filme dirigido por Ernst Lubitsch?) Mas sem dúvida Cary Grant teria sido mais engraçado ainda. São da mesma geração, o americano Melvyn Douglas, de 1901, e o inglês que passou para a história com o nome de Cary Grant, de 1904. Mas a verdade – foi o que me pareceu, revendo o filme agora – é que Melvyn Douglas parece um tanto mais velho do que Cary Grant parecia em 1939. Douglas era mais senhor, Grant era mais jovial – e, se me permitem a afirmação meus colegas corintianos, sem querer entender nela nenhuma veadagem, mais belo.

O que pensariam de Greta Garbo os adolescentes de hoje ?

Fiquei imaginando, ao rever Ninotchka agora, o que algum jovem pensaria do filme.

Não apresentei Ninotchka à minha filha (foi um dos meus erros na criação dela); muito provavelmente não terei a oportunidade de apresentar Ninotchka à minha neta. E fiquei pensando: se Fernanda tivesse visto comigo o filme quando estava com, digamos, 15 anos, será que ela teria admitido que aquele pedaço inexpugnável de rocha bolchevique que era Ninotchka se derretesse tanto diante de um Melvyn Douglas?

Mais ainda: o que pensariam hoje os adolescentes de Greta Garbo? Seriam eles capazes de entender que aquela figura foi a atriz mais popular, mais adorada, mais endeusada, da geração de seus tetravós?

Acostumados às Lindsay Lohans da vida, ou, na melhor das hipóteses, às Jennifer Lawrence, teriam os adolescentes de hoje a capacidade de se apaixonar por Greta Garbo como seus tetravós, seus bisavós, seus avós?

zzgarbo99Muito estranhos são os caminhos dos textos: eles parecem adquirir vida própria. Eu tinha pensado em fazer a anotação sobre Ninotchka privilegiando a opinião dos outros e reunindo um monte de informações objetivas sobre o filme. Copiei o que dizem Leonard Maltin, Pauline Kael, o guia CineBooks. Pretendia depois ir aos outros diversos alfarrábios.

Pensava em tentar ver se era possível separar a comédia das referências ao comunismo, às ideologias.

Aí me esqueci de tudo isso e fiquei falando sem parar feito mendigo em dia de chuva.

O lado bom foi que passei ao largo das discussões políticas. O lado ruim (para o eventual leitor) é que o texto ficou só em cima das minhas opiniões, sensações.

Atenção: aqui entram alguns spoilers. Quem não viu o filme poderia pular para o último intertítulo

Bem, Leonard Maltin, o autor dos guias de filmes mais vendidos no mundo, dá 3.5 estrelas em 4 para o filme, diz que no meio de tantos gracejos sociológicos envelhecidos, uma Garbo leve e alegre ainda brilha.

Dame Pauline Kael – que não é menor, vã, fútil, inútil, a ponto de dar estrelinhas para as obras que comenta – lembra os anúncios da época que diziam “Garbo Laughs”, registra uma lenda aparentemente verdadeira de que, quando finalmente foram filmar a sequência em que Garbo gargalha, não saía som algum da garganta dela, e que a gargalhada que ouvimos foi produzida por outra pessoa, e faz uma assertiva sócio-antropológico-política, conforme a tradução de Sérgio Augusto para a edição brasileira de 1001 Noites no Cinema: “Dirigida por Ernst Lubitsch, esta comédia leve e satírica tem a despreocupação e a sofisticação que foram sua marca registrada – mas também revela que desta vez a marca o carimbou demais. Há uma certa obviedade; sentimos que estamos sendo tapeados. E há um cinismo zombeteiro embutido no roteiro: os russos não fogem pela liberdade, mas por produtos de consumo.”

Hum… Ouso discordar de Dame Kael. Não é apenas pelo consumismo que alguns russos do filme fogem da Pátria Mãe do Socialismo e do Homem Novo e da Nova Sociedade Mais Digna é Justa.

As terríveis, pesadas, duríssimas sequências passadas em Moscou mostram perfeitamente o clima opressivo, claustrofóbico que caracteriza os regimes totalitários, a falta de liberdade, de espaço para respirar – e não apenas a falta de produtos de consumo.

zzgarbonovoMas tudo bem. Tudo o que não queria fazer, nesta anotação sobre Ninotchka, seria discutir a sério sobre comunismo – até porque o filme discutia sobre comunismo, com um humor maravilhoso, 22 anos depois da Revolução Russa, e hoje já faz mais de duas décadas que o comunismo ruiu feito um castelo de cartas em todas as partes do mundo, com exceção das exceções costumeiras, os grotões do Universo – Coréia do Norte, Brasil, Bolívia, Cuba, Venezuela –, e então não tem sentido algum em ficar chutando cachorro morto.

Greta Garbo era da matéria de que são feitos os sonhos

Se eu pudesse apresentar Ninotchka a Marina, quando Marina estivesse aí com a idade que Fernanda tinha quando eu a fazia ver um Polanski engraçado, um Hitchcock fascinante, um Spielberg bem humorado, mas também um David Lean sério pra cacete, deveria dizer a ela que aquela atriz que aos 48 minutos gargalha pela primeira vez – em seu 26º filme – era, na sua época, a maior estrela que existia no cinema mundial.

Talvez eu pudesse tentar incutir nela aquela noção que muita gente não tem: a de que o mundo não começou no dia em que cada um de nós nasceu. De que as coisas foram diferentes do que são hoje, e, se Deus quiser e se todos os santos ajudarem e se nada atrapalhar, serão diferentes amanhã.

E que, no tempo em que a mãe do seu avô era jovem, Greta Garbo era uma espécie assim do que era o Falcão Maltês do filme de estréia de John Huston: a matéria de que são feitos os sonhos.

Anotação em setembro de 2013. Postado no dia em que Marina fez 6 meses.

Ninotchka

De Ernst Lubitsch, EUA, 1939

Com Greta Garbo (Lena Yakushova, Ninotchka), Melvyn Douglas (conde Leon D’Algout),

e Ina Claire (grã-duquesa Swana), Sig Rumann (Ironoff), Felix Bressart (Buljanoff), Alexander Granach (Kopalski), Bela Lugosi (comissário Razinin), Gregory Gaye (conde Alexis Rakonin), Richard Carle (Gaston, o mordomo), Edwin Maxwell (Mercier, o joalheiro), Rolfe Sedan (o gerente do hotel), George Tobias (o oficial do consulado russo)

Roteiro Charles Brackett, Billy Wilder e Walter Reisch

Baseado em uma história de Melchior Lengyel

Fotografia William H. Daniels

Música Werner R. Heymann

Montagem Gene Ruggiero

Produção Ernst Lubitsch, MGM. DVD Warner Bros.

P&B, 110 min

R, **** 

3 Comentários

  1. mario silva
    Postado em 22 outubro 2013 às 4:11 pm | Permalink

    Um filme delicioso e inesquecível. Todos estão ótimos no filme,que contrapõe, admiravelmente, a pseuda austeridade comunista – que inexistia para os nababos da Nomenklatura (elite dirigente)- com a elegante futilidade de Paris – que, ao contrário, constitui-se na mais importante e próspera indústria francesa.
    Vale recordar a refilmagem de Ninotchka, como
    musical (Meias de Seda), igualmente delicioso, com Fred Astaire e Cyd Charisse, e
    com Peter Lorre como um impagável comissário,
    dançando inclusive.

  2. Luana
    Postado em 29 outubro 2014 às 8:27 pm | Permalink

    Brasil país comunista, é piada né?

  3. Miguel
    Postado em 20 agosto 2015 às 10:08 am | Permalink

    Que comédia tão inteligente e divertida, mordaz ao estilo de Wilder. Garbo não está com um penteado muito favorecido mas ainda assim o seu rosto é belo! Douglas está muot bem, divertido e charmoso. Atuações competentes, embora eu acho Garbo pouco natural por vezes. Contudo, o seu papel não é natural. Ela está optima, de qq forma, como atriz e sobretudo como estrela. Mais bela que a maravilhosa Ingrid, mas sem a luz da sueca de Casablanca. Há alguém com mais luz que Ingrid em filmes a preto e branco? Um filme de qualidade, que faz parte do ano em que o cinema realizou obras-primas como se fossem retiradas de um terreno fértil

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Textos » Deus nos dê valentes inimigos em 5 janeiro 2014 às 7:07 pm

    […] 1939, Lubitsch e Billy Wil­der pedi­ram a Cary Grant que fosse o par de Greta Garbo em Ninot­chka. Leva­ram sopa e temos […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Anjo / Angel em 26 abril 2016 às 6:43 pm

    […] é interessante isso, porque Angel veio apenas dois anos antes de Ninotchka, talvez o maior sucesso do grande realizador, e os dois filmes têm alguns importantes pontos em […]

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