Little Dorrit

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Nota: ★★★½

Charles Dickens publicou Little Dorrit em capítulos semanais entre dezembro de 1855 e junho de 1857. Em livro, o romance forma uma cartapácio – como em geral são as obras do escritor – de quase 800 páginas.

Há tantos personagens quanto em Guerra e Paz de Liev Tolstói, a Trilogia Millennium de Stieg Larsson, uma novela de Janete Clair ou Glória Perez. E tantas subtramas quanto neles. São uns 30 personagens, e um emaranhado, uma gigantesca teia de aranha de histórias desses personagens que se cruzam e intercruzam umas com as outras.

Com toda certeza essas subtramas não couberam nas três primeiras versões de Little Dorrit para a tela. A primeira foi em 1913, feita nos Estados Unidos. A segunda, de 1920, foi feita na Inglaterra de Dickens. A terceira, de 1934, Klein Dorrit, na Alemanha entre guerras.

zzdorrit2Em 1988 veio a quarta adaptação, também inglesa, um catatau de 357 minutos com roteiro e direção de Christine Edzard, com Derek Jacobi no papel de Arthur Clennam, Sarah Pickering como Little Dorrit e Alec Guinness como o pai dela, William Dorrit. Teve duas indicações ao Oscar – Alec Guiness como ator coadjuvante e Christine Edzard pelo roteiro adaptado.

E então, finalmente, 20 anos depois, em 2008, veio esta série produzida pela BBC, com roteiro de Andrew Davies. Esse senhor escreveu os roteiros de sucessos como O Diário de Bridget Jones e Bridge Jones: No Limite da Razão, de O Alfaiate do Panamá, baseado em John Le Carré. É um especialista em adaptar grandes clássicos da literatura para o cinema e a televisão; fez os roteiros da minissérie Razão e Sensibilidade de Jane Austen (2008), Vanity Fair de William Thackeray (1998), Moll Flanders de Daniel Defoe (1996), Os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas (2011), Brideshead Revisited de Evelyn Waugh (2008), A Room with a View de E.M.Forster (2007), Doutor Jivago de Bóris Pasternak (não a superprodução de David Lean, é claro, mas um filme para a TV feito em 2002).

Andrew Davies conhece bem o universo de Dickens. Escreveu o roteiro de duas adaptações do romance Bleak House – uma de 1985, outra de 2005.

Ao que tudo indica, o roteiro que ele escreveu para esta minissérie é bastante fiel ao catatau criado por Dickens.

E se Andrew Davies é um especialista nas adaptações de clássicos da literatura para o cinema e a TV, a BBC é especialista em belas produções.

Este Little Dorrit é, como tantas outras obras da TV pública britânica, uma produção caprichadíssima em todos, absolutamente todos os quesitos técnicos. Fotografia e direção de arte são suntuosas. A ação se passa em Londres e Veneza, nas primeiras décadas do século XIX, e não há economia na reconstituição de época. Há longas, belíssimas tomadas externas de Londres – tanto nas áreas ricas quanto nos becos imundos. As tomadas internas são igualmente bem cuidadas, seja nos ambientes absurdamente miseráveis, seja nos absurdamente milionários.

Devem ter sido criados uns mil figurinos para os 30 personagens mais importantes e outros tantos para as centenas de figurantes. Para gente que gosta de moda, Little Dorrit é de babar – mas há especialistas tão atentos a detalhes que o IMDb traz uns 15 exemplos de peças de roupa que aparecem na minissérie e também foram usadas em outras produções da BBC! Uma completa coisa de louco, que está no endereço http://www.imdb.com/title/tt1178522/trivia, e faria a festa das editoras e produtoras de moda das revistas femininas.

Uma minissérie que não dá para parar de ver. Unputdownable. Uma cachaça

zzdorrit3São 14 episódios; o primeiro e o último têm quase uma hora de duração. Os 12 episódios intermediários duram cerca de meia hora. No total, 440 minutos – sete horas e uns trocados. Mary achou na locadora e pegou imaginando que poderíamos ver uns dois episódios por dia, ao longo de uma semana. Vimos num único fim de semana. Um fim de semana de imersão total e absoluta em Little Dorrit.

Se um livro que não dá para parar de ler é page turner, qual seria o adjetivo para uma minissérie da qual não se consegue desgrudar? Talvez pudesse ser o termo que minha amiga Regina Berlim usou para descrever exatamente a Trilogia Millennium do sueco Stieg Larsson: unputdownable.

Unputdownable. Que-não-dá-prá-deixar-de lado. Ou, em legítimo português, cachaça. Viciante.

Um profundo ódio dessa sociedade dividida entre milionários e miseráveis

A ação da minissérie começa com o nascimento da personagem que dá o título da obra, Little Dorrit. A menininha Amy Dorrit nasce na prisão de Marshalsea, onde seu pai, William Dorrit, que outrora havia sido rico, agora cumpre pena por dívidas não pagas.

Corta, e vemos Amy Dorrit (interpretada por Claire Foy, à direita na foto acima) aos 21 anos de idade. O pai continua preso em Marshalsea, uma prisão um tanto sui-generis: em vez de celas, há quartos, pequenas casas. Os presos não podem ultrapassar os portões, mas seus familiares podem entrar e sair quando querem.

Por ter sido rico, por manter um certo ar cavalheiresco, por ter um vocabulário rico, beirando a afetação (ou às vezes mergulhando nela), por ser gentil com os colegas de prisão e com o carcereiro, Mr. Chivery (Ron Cook), William Dorrit (interpretado por Tom Courteney, na foto abaixo) é chamado de O Senhor de Marshalsea.

E, se ele é assim meio o rei da prisão, Amy, ou Little Dorrit, como todos a chamam, é a princesa. Uma bela flor do meio daquele pântano.

Não é à toa que o jovem John Chivery (Russell Tovey), filho e ajudante do carcereiro, e seu muito provável sucessor no cargo, é absolutamente apaixonado por ela. É impossível não simpatizar por Little Dorrit, não gostar dela, não se apaixonar por ela.

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E aqui cabem algumas observações. Conheço bem pouco Dickens, mas acho que dá para dizer que o universo de sua literatura gira em torno da existência, lado a lado, da miséria e da opulência. A Inglaterra daqueles anos 1820, 1930, 1840, pós Revolução Industrial, era uma dessas absurdas sociedades divididas entre miseráveis e milionários. O Complexo do Alemão ao lado da Vieira Souto de hoje. A São Petersburgo da servidão de milhões e das centenas nobres esbanjadores ociosos daquela mesma época e até 1917.

Little Dorrit – assim como Oliver Twist, assim como Grandes Esperanças, assim como praticamente todas as obras de Dickens – transpira um imenso ódio contra essa sociedade em que praticamente não existe o meio termo, e em que tudo, tudo, absolutamente tudo se baseia em dinheiro, na quantidade de posses de cada um. Em que os outros valores – talento, capacidade, esforço, caráter – praticamente não contam. Ou se tem muito dinheiro, ou não se é nada.

Uma prisão para gente incapaz de pagar suas dívidas parece uma absoluta ficção, uma metáfora para aquela sociedade dos have x os have not. E no entanto existiam de fato na Inglaterra prisão para os inadimplentes. Mais ainda: o pai do próprio Dickens foi enviado para uma delas – exatamente a prisão de Marshalsea, ao Sul de Londres, na margem direta do Tâmisa.

Apenas em 1869 uma lei – a Debtor’s Act – extinguiria a prisão por dívidas.

O outro personagem central é Arthur, rapaz de bom caráter e imenso coração

Paralelamente à história dos Dorrit, pai e filha, o espectador ficará conhecendo o outro personagem central de Little Dorrit. Chama-se Arthur Clennam (interpretado por Matthew Macfadyen, na foto abaixo). Havia passado os últimos muitos anos com o pai, na China. A família tinha uma empresa de importação de fios de seda, de matéria-prima para a indústria têxtil, tocada em Londres pela sra. Clennam (Judy Parfitt). Mr. Clennam havia morrido fazia pouco tempo, ainda na China; antes de morrer, entregara ao filho Arthur um relógio de bolso com, lá dentro, a inscrição “Não se esqueça”, e pedira a ele várias vezes para descobrir com a mãe uma verdade escondida, e então “acertar as coisas”.

LITTLE DORRITA sra. Clennam, mulher rígida, rigorosa, forte, dominadora (parece que no livro ela é também uma fanática religiosa, detalhe que o roteirista Andrew Davis preferiu omitir), está hoje vivendo nas ruínas do que outrora foi um pequeno palacete em Londres, um prédio de uns quatro andares, a loja no térreo, a casa nos demais pisos. Está com as pernas paralisadas, presa a uma cadeira de rodas, mas continua mantendo sob seus domínios o velho mordomo Flintwinch (Alun Armstrong, uma figura impressionante, dickensiana ao estupor, até mesmo, como percebeu a Mary, felliniana) e a criada Affery (Sue Johnston).

Nada afeita a gestos bondosos, caridosos, a sra. Clennam, no entanto, resolveu dar emprego a Little Dorrit. Pagava a ela uma soma até boa para tê-la três vezes por semana costurando no palacete agora decadente, em ruínas.

Ao retornar após mais de uma década no Oriente, Arthur tem um duro embate com a mãe. Mostra a ela o relógio que o pai moribundo havia lhe dado, fala dos insistentes pedidos do pai para que “acerte as coisas”, suplica que a mãe conte o que ele não sabe. A sra. Clennam diz que não há o que contar – e Arthur diz então que deixa a empresa.

O fato de a mãe estar dando emprego àquela moça deixa suspeitas na cabeça de Arthur: será – pensa ele – que os tais segredos do passado que o pai queria ver revelados têm a ver com Little Dorrit?

Arthur passará a ser um benfeitor dos Dorrit. Amy Dorrit vai se apaixonar por ele; todo mundo percebe isso, até a amiga doidinha varrida de Amy, Maggy (Eve Myles); John Chivery, o filho do carceireiro eternamente apaixonado por Amy, percebe claramente. Só o bobalhão Arthur, com seu bom caráter e imenso coração, não vê.

Arthur fica de olho na loura Pet (Georgia King), filha dos Meagles (Bill Paterson e Janine Duvitski), que ele havia conhecido na viagem de volta do Oriente para a Inglaterra, numa parada em Marselha, onde os passageiros do navio tiveram que ficar em q     uarentena. Mas Pet, para infelicidade dos pais, quer saber é de Henry Gowan (Alex Wyndham), um escroquezinho, que por sua vez já havia seduzido e abandonado uma mulher bastante misteriosa, Miss Wade (Maxine Peake).

Um trama folhetinesca, autêntica precursora das de Janete Clair e Gloria Perez

A narrativa de Little Dorrit lança para o espectador, desde o início, um bom número de mistérios. Qual é o segredo que a sra. Clennam esconde, de que só ela e aparentemente também seu serviçal Flintwinch têm conhecimento? Há um segredo, disso não há dúvida, já que, antes de morrer, o sr. Clennam pediu ao filho, Arthur, insistentemente, que descobrisse o segredo, e que “acertasse as coisas”. Claro, dá para supor que é algo que tem a ver com herança, e que provavelmente envolve os Dorrit, e que possivelmente envolve aquela coisa tão presente na vida real e nos folhetins, a verdadeira identidade de pai e mãe de alguns dos personagens.

zzdorrit6Mas o segredo que a sra. Clennam guarda não é o único mistério lançado já no início dos 440 minutos da série. Quem será, afinal de contas, esse Monsieur Rigaud (Andy Serkis), que no começo da narrativa está preso em Marselha junto com o italiano Cavalletto (Jason Thorpe), e que se confessa um assassino?

Qual será a ligação de Rigaud com a igualmente misteriosa Miss Wade?

Por que Amy Dorrit é tão absolutamente diferente de seus irmãos, Tip (Arthur Darvill), um completo indolente, frágil, gastador, irresponsável, e Fanny (Emma Pierson), uma pustemazinha, dançarina, talvez prostituta, alpinista social sem caráter?

Quem não será filho biológico de seus pais de criação?

Charles Dickens tinha, de fato, um lado folhetinesco que era autêntico precursor de Janete Clair e Gloria Perez.

“Um dos porta-vozes mais influentes da consciência de seu tempo”

“Ele descreve Londres como um enviado especial à posteridade”, escreveu o jornalista e escritor Walter Bagehot em 1858. Esse senhor, Walter Bagehot (1826-1977), é, ele mesmo, uma figura fascinante; foi editor-chefe da revista The Economist, fundada por seu sogro, James Wilson, em 1860; escreveu sobre economia, administração, direito constitucional.

Que maravilhosa definição de Charles Dickens (1812-1870).

O início do verbete de seis páginas sobre Dickens na Britannica dá vontade de parar tudo e ir atrás dos livros do cara. É mais ou menos assim (vai sem aspas para eu não precisar me ater literalmente ao texto original):

zzdickensTido geralmente como o maior romancista inglês, Charles Dickens desfrutou de uma popularidade maior do que qualquer outro autor havia tido em vida. Muito de seu trabalho poderia agradar aos simples e aos sofisticados, aos pobres e à Rainha, e os desenvolvimentos tecnológicos tanto quanto as qualidades de seu trabalho permitiram que sua fama se espalhasse pelo mundo muito rapidamente. Sua longa carreira viu flutuações nas vendas e na forma com que foram recebidos seus romances, mas nenhum deles era negligenciável ou sem suas características ou foi desprezado. E, embora ele seja atualmente admirado por aspectos e fases de seu trabalho que tinham menos importância para seus contemporâneos, sua popularidade nunca cessou e sua posição atual entre a crítica é mais alta do que jamais foi antes. O mais abundantemente cômico dos escritores ingleses, ele foi muito mais do que um grande autor de entretenimento. A variedade, a compaixão e a inteligência de sua apreensão com a sociedade e suas falhas enriqueceram seus romances e o transformaram ao mesmo tempo em que uma das grandes forças da literatura do século XIX e um dos porta-vozes mais influentes da consciência de seu tempo.

Dickens soltou na obra “um pouco do vapor de indignação” que sentia

Dickens estava na fase intermediária da sua longa carreira quando escreveu Little Dorrit. São consideradas de sua primeira fase os romances As Aventuras do Sr. Pickwick (1836 a 1937, quando estava, portanto, com 24, 25 anos!), Oliver Twist (1837 a 1839) e Nicholas Nickleby (1838 a 1839).

Da fase intermediária são David Copperfield (1849 a 1850), Bleak House (1852 a 1853) e Little Dorrit (1855 a 1857, como já havia sido dito). Grandes Esperanças viria entre 1860 e 1861.

O autor não estava numa fase boa da vida, na época em que escreveu Little Dorrit. O casamento não ia bem, e ele se indignava com a pouca atenção dada pelo governo de seu país “à pobreza, à fome e ao desespero” de grandes multidões de ingleses. Na época, ele escreveu, sobre Little Dorrit: “Tenho soltado para fora um pouco do vapor de indignação que teria, de outra forma, me feito explodir, mas eu não tenho atualmente nenhuma fé política ou esperança – nem sequer um grão”.

Dickens era felliniano um século antes de Federico existir

A sociedade inglesa pintada por Dickens em 1855 – conforme mostra a série da BBC – é simplesmente um nojo. É tudo aparência, falsidade, hipocrisia, e o único valor reconhecido pelas pessoas, por quase todas as pessoas, é o dinheiro.

zzdorrit8Em muitas passagens, Little Dorrit pega pesado demais. Há lá um sujeito chamado Panks (uma interpretação extraordinária de Eddie Marsan, na foto), que é empregado de um capitalista, Mr. Casby (John Alderton). Esse Casby dá uma de bonzinho, visita os pobres, os miseráveis que habitam os cortiços de sua propriedade, sorri para eles, faz agrados às crianças. Mas, na intimidade de sua elegante casa, manda Panks espremer os inquilinos até a última gota de seu sangue. “Esprema-os, Mr. Spanks, esprema-os”.

E Panks sai pelas vielas miseráveis cobrando o aluguel das famílias pobres, miseráveis, aos berros, soltando ameaças.

Panks parece um porco – e às vezes solta guinchos, grunhidos.

Esse Casby, capitalista com ares de populista, é o pai de Flora (Ruth Jones), que, na juventude, havia sido noiva do então muito jovem Arthur Clennan. Casby havia sido contra o casamento, e Arthur viajara com o pai para a China. Na ausência de Arthur, Flora havia se casado e depois ficado viúva. Quando Arthur retorna, encontra uma Flora duas vezes maior, uma infeliz que come pantagruelicamente.

Casby, Panks, Flora, o mordomo Flintwinch, todos são figuras pavorosamente, exageradamente feias. É como se o caráter ruim, ou a falta de qualquer caráter, se expusesse concretamente no rosto, no corpo.

Dickens era felliniano um século antes de Federico existir.

Poucas pessoas de bem, no meio de três dezenas de personagens

Entre três dezenas de personagens, há poucas pessoas de bem. Amy Dorrit, a heroína, e Arthur Clennam, o herói, naturalmente. O pobre, infeliz John Chivery, o jovem carcereiro apaixonado por Amy. Daniel Doyce (Zubin Varla), o empreendedor com que Arthur vai se associar. O casal  Plornish (Rosie Cavaliero e Jason Watkins), pobres e honrados. Talvez Meagles, o pai da loura Pet.

zzdorrit7Pet, tadinha, não é má pessoa – mas é fraca, e explorada pelo marido, o indolente Henry Gowan. Da mesma maneira Affery, a criada da sra. Clennam, é boa pessoa, mas fraca, saco de pancadas tanto da patroa quando do marido-patrão Flintwinch.

Dickens concentrou sua fúria contra o governo, o Estado, incompetente diante da miséria da imensa maior parte da população, na figura do fictício Escritório de Circunlocação – que seus contemporâneos viram como uma metáfora para o Departamento de Tesouro. No Escritório de Circunlocação os servidores públicos não servem para nada – a não ser receber seus salários, alguns bem polpudos, pagos pelo Estado.

O Escritório de Circunlocação que a série da BBC mostra é a imagem mais perfeita da burocracia estatal – imensa, descomunal, que não serve para absolutamente nada, a não ser infernizar a vida dos cidadãos, os decentes e os não tão.

Tom Courtney constrói um William Dorrtit que dá nojo, asco

No papel, Little Dorrit se divide em dois livros, dois tomos. O primeiro tem o título de Poverty, pobreza. O segundo, de Riches, um termo um tanto pejorativo para riqueza. Na série da BBC, não há essa divisão em dois tomos, duas partes, com as palavras aparecendo na tela, mas a diferença entre a primeira parte e a segunda é nítida, cristalina.

E, a partir da segunda parte, o personagem de William Dorrit passa a se demonstrar talvez o pior caráter de todos, no meio daquele mundo de maus caracteres. É uma figura nojenta, abjeta, desprezível, porque demonstra que não aprendeu nada com o sofrimento, a provação, o tempo duro. Muito ao contrário. Cospe no prato em que comeu. É a mais absoluta falta de gratidão, de generosidade que pode haver no mundo.

Gostaria de ver como o grande, gigantesco Alec Guinness interpretou William Dorrit no filme de 1988.

A interpretação de Tom Courtenay é muito boa. Ele consegue, com perfeição, o que é necessário: deixar o espectador nauseado com o personagem.

zzdorrit999Tom Courteney. Que coisa, o Tom Courteney. Levei um susto ao ver que o intérprete de William Dorrit é Tom Courteney. Um susto parecido com o de Arthur Clennam ao rever Flora após 15 anos.

Me lembrava de Tom Courtney em Doutor Jivago, de 1965. De lá para cá, vi poucos filmes com ele, talvez nenhum. Me assustei ao revê-lo, assim, de repente, quase meio século depois. Quando a gente vai acompanhando o envelhecimento dos atores, se acostuma – é como com os amigos que a gente vê sempre. Voltar a ver meio século depois, de repente, é traumático.

Em 1855-1857, Charles Dickens previu o colapso do Lehman Brothers

Evidentemente, não quero dar spoiler, antecipar fatos que só aparecem mais para o final da longa narrativa. Mas é impossível não pensar, e não dizer aqui, que Charles Dickens, em meados do século XIX, em 1855-1857, no seu nojo pelos males do capitalismo selvagem, conseguiu antecipar as crises de 1929 e 2008.

Em Little Dorrit, Charles Dickens previu o Lehman Brothers.

Esta beleza de série bem que poderia fazer mais gente ir atrás dos livros dele.

Anotação em janeiro de 2013

Little Dorrit

De Adam Smith, Dearbhla Walsh e Diarmuid Lawrence, Inglaterra, 2008

Com Claire Foy (Amy Dorrit), Matthew Macfadyen (Arthur Clennam), Tom Courtenay (William Dorrit), Emma Pierson (Fanny Dorrit), Alun Armstrong (Flintwinch), Judy Parfitt (Mrs. Clennam), Eddie Marsan (Pancks), Andy Serkis (Rigaud), Rosie Cavaliero (Mrs. Plornish), Russell Tovey (John Chivery), Jason Thorpe (Cavalletto), Amanda Redman (Mrs. Merdle), Sebastian Armesto (Edmund Sparkler), James Fleet (Frederick Dorrit), Georgia King (Pet), Ron Cook (Chivery), Alex Wyndham (Henry Gowan), Bill Paterson (Mr. Meagles), Janine Duvitski (Mrs. Meagles), Freema Agyeman (Tattycoram), Zubin Varla (Daniel Doyce), Anton Lesser (Mr. Merdle), Eve Myles (Maggy), Arthur Darvill (Tip Dorrit), Sue Johnston (Affery), Maxine Peake (Miss Wade), Ruth Jones (Flora Finching), Pam Ferris (Mrs. General), Jason Watkins (Plornish), John Alderton (Mr. Casby)

Roteiro Andrew Davies

Baseado no romance de Charles Dickens

Fotografia Owen McPolin, Lukas Strebel e Alan Almond

Musica John Lunn

Produção BBC. DVD Logon

Cor, 440 min

***1/2

5 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » O Quarteto / Quartet em 14 novembro 2013 às 2:47 pm

    […] Tom Courtney, 75 anos; 48 títulos na filmografia, 10 prêmios, fora outras oito indicações, inclusive duas ao […]

  2. […] dívidas. Little Dorrit, assim como boa parte das obras do autor, já virou filme e série de TV. Uma maravilhosa adaptação foi feita em 2008 pela mesma BBC que foi uma das produtoras deste filme […]

  3. […] a ação se passe na época em que o filme foi feito, 1938, senti uma certa influência de Charles Dickens sobre a história que mostra pobres muito pobres numa cidade de gente muitíssimo rica. Não há […]

  4. Por 50 Anos de Filmes » The Crown em 12 novembro 2016 às 2:18 pm

    […] da série. Em 2008, Claire Foy interpretou o papel título numa outra suntuosa série britânica, Little Dorrit, baseado em Charles Dickens; é uma boa atriz. Não tem um rosto muito parecido com o da monarca […]

  5. Por 50 Anos de Textos » Meryl defende a luz em 10 Janeiro 2017 às 12:02 pm

    […] inglesinha da classe de 1984, que teve uma bela interpretação no papel principal da minissérie Little Dorrit (2008), baseada em Charles Dickens, e levou o Globo de Ouro de melhor atriz em série de TV drama […]

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