Je l’aimais

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Nota: ★★★☆

Belo, triste, melancólico, amargurado filme sobre escolhas afetivas.

Tem muito pouco a ver, mas, por algum motivo, ele me fez lembrar As Pontes de Madison, aquela maravilha que Clint Eastwood fez em 1995. Não há como explicar racionalmente lembranças, e os dois filmes têm pouco em comum, a não ser o fato de que ambos tratam – cada um à sua maneira – de escolhas afetivas.

Me ocorreu também que esta é uma das melhores interpretações de Daniel Auteuil, na minha opinião. É difícil dizer isso, até porque Daniel Auteuil é um daqueles atores que trabalham demais, fazem três ou quatro filmes a cada ano, e além disso é extremamente regular – nunca está ruim. Mas acho que a interpretação dele neste Je l’aimais é uma das melhores de sua grande carreira – mais de 90 filmes, a partir de 1974, quando ele e eu tínhamos 24 anos de idade.

Je l’aimais. Passou assim no Max, sem título em português. No IMDb também não consta título em português. Aparentemente, não foi lançado no Brasil, nem no cinema, nem em DVD.

É uma produção de 2009. Zabou Breitman, a diretora, é também co-roteirista, ao lado de Agnès de Sacy, e o roteiro se baseia em romance de Anna Gavalda. Confesso que não conhecia nenhuma delas.

Autora mulher, duas mulheres autoras do roteiro, diretora mulher. Dava para perceber, mas, em nova confissão de ignorância, admito que só estou sabendo que Zabou Breitman é mulher agora, ao dar uma olhada na internet para escrever esta anotação.

Uma mulher em estado de choque após uma perda

Je l’aimais narra sua história devagar – para que ter pressa?

zzaimais2Começa com um close-up do rosto de uma jovem mulher que sofre. Chama-se Chloé (Florence Loiret Caille, na foto), e nas primeiras cenas parece em estado de choque após uma perda. Um homem, Pierre (o papel de Daniel Auteuil), chega à casa dela à noite. Pede que ela se apronte, que apronte as duas filhinhas – uma garotinha aí de uns cinco anos, outra de uns três.

Chloé primeiro protesta, diz que é noite, está frio, mas enfim deixa-se levar.

Vão enfrentar uma viagem longa de carro. Pierre dirige, as garotinhas dormem no banco de trás. Chloé está no banco do carona, como um zumbi, um autômato.

Vêm os créditos iniciais.

Pierre, Chloé e as duas meninas ficarão em uma ampla, confortável casa de montanha. Pertence a ele, veremos.

Os primeiros dias passam bem devagar. Chloé faz as coisas mecanicamente. Pierre toma à frente as providências todas, inclusive na cozinha. Falam-se pouco.

O espectador poderia pensar que são pai, filha e netas.

Só lá com uns 15 minutos de filme veremos que não é exatamente assim. Pierre é o sogro de Chloé. A rigor, a rigor, agora ex-sogro: Adrien, o filho mais velho dele, acaba de abandonar a mulher.

Pierre se condoeu dela, quis tirá-la da casa, levar para outro ar, para a casa da montanha, até que ela tivesse condições de se recompor.

Passa-se mais algum tempo até o filme mostrar que não vai contar a história de Chloé, e sim a de Pierre.

O sogro começa a contar para a nora que teve um grande amor na vida

zzaimais3Nora e sogro têm uma discussão acolorada, depois de conviverem por dias na casa de montanha apenas trocando algumas poucas frases sobre as providências do dia-a-dia. Pela primeira vez, Chloé sai de seu estado quase catatônico, e chora, e grita de ódio e desespero por ter sido abandonada pelo marido. Diz que o marido é exatamente como o pai, Pierre, como todas as pessoas da família dele: nunca fala, nunca de fato entra em contato com os outros, vive fechado em si mesmo.

E veremos que Pierre é de fato um homem crispado, solitário, fechado em si mesmo, uma pedra. Nunca de fato esteve presente na criação dos filhos, mal tinha contato com eles. Sempre trabalhou demais – é um dos donos de uma empresa familiar da área de construção de material para estocagem de combustíveis.

Quando, após a discussão, os gritos, o choro, Chloé se aquieta, Pierre começa a contar para ela que teve um grande amor na vida.

A diretora Zabou Breitman vai mostrando tudo com imensa sensibilidade e maestria.

Não se sabe exatamente por que Pierre resolve, pela primeira vez na vida, contar a história do grande amor que perdeu justamente para a nora que estava ali à beira da catatonia por ter sido abandonada pelo marido. Talvez, muito provavelmente, numa tentativa de consolá-la. Diante de uma pessoa que acaba de ser abandonada, outras histórias de amor perdido podem eventualmente trazer algum consolo.

Qualquer um de nós pode ter tido experiência semelhante: ao ouvir de um amigo, um parente, o relato de um fim de caso, somos impelidos, sabe-se lá por quê, a contar uma nossa experiência semelhante.

Ou talvez Pierre precisasse extravasar, relatar, pela primeira vez na vida, a história que jamais havia revelado a ninguém, que estava presa na sua garganta.

Provavelmente as duas coisas juntas.

E então ele conta sua história – para Chloé e para o espectador.

Je l’aimais. Em francês se chama imperfeito do indicativo. Eu a amava. Em português se chamava (sei lá como se chama hoje) pretérito imperfeito do modo indicativo.

O amor de Pierre por Mathilde era tão imperfeito que resistia à definição clássica de “ação ocorrida no passado cujo começo e fim ocorreram em período não determinado”. Ele diz “eu a amava”, mas é bem provável que continue amando até hoje. Ou, no mínimo, que continue até hoje amando a possibilidade de que o amor não houvesse acabado.

Há alguns belos momentos em que imagens do passado e do presente se juntam

zzaimais4Pierre conheceu Mathilde numa circunstância especialmente difícil. Estava chegando a Hong Kong para uma importantíssima reunião com os diretores de uma empresa chinesa interessada em uma enorme compra de equipamentos para estocagem de combustível. Se a empresa de Pierre fosse a escolhida para fornecer os equipamentos, seria o melhor dos mundos.

Mas ele chegou sozinho para a reunião com mais de meia dúzia de chineses. Sozinho, cansado da longa viagem, em jet-leg, sentindo-se mal com a comida do avião, e despreparado – nunca havia estado em Hong Kong, nunca havia feito negócio com chineses, tinha um inglês fraquíssimo. Havia encomendado um intérprete. A intérprete era Mathilde (o papel de Marie-Josée Croze, na foto).

Neste filme belo, feminino, sensibilidade à flor de cada tomada, há uma seqüência especialmente brilhante. É quando Pierre e sua mulher, Suzanne (Christiane Millet), estão jantando em um restaurante, e pela primeira vez falam da existência da amante dele. É Suzanne que começa: diz que sabe que existe outra, que todas aquelas viagens a trabalho, todas aquelas noites de excesso de trabalho na empresa escondiam – mal escondido – o fato de que existia outra.

Suzanne diz que quer o divórcio. Duro, sem sensibilidade, sem perceber que era um blefe, Pierre saca o talão de cheque e pergunta quanto ela quer.

Suzanne é então forçada a dizer a verdade: não quer divórcio algum, quer continuar o casamento.

O diálogo mais importante entre Pierre e Suzanne ao longo de muitos anos é a toda hora interrompido pela chegada do garçom.

É uma seqüência antológica, inesquecível.

Em meio à sua narrativa sóbria, serena, a diretora Zabou Breitman se permite, com extrema suavidade, alguns belos momentos em que imagens do passado e do presente se juntam na tela. Assim, por exemplo, o Pierre de hoje, com a roupa que está usando na casa da montanha, aparece numa cena do passado ao lado de Mathilde. E, numa sequência extraordinariamente bela, em meio às viagens sem parar de Pierre por aviões, trens, lobbies e corredores de hotéis mundo afora, à procura de Mathilde, quem aparece no sofá do hall de entrada de hotel caro é Chloé, encolhida sob suas cobertas.

Não tem jeito: qualquer escolha trará dor imensa

zzaimais6Enquanto conta sua história para a nora que acabou de ser abandonada pelo marido, filho dele, Pierre várias vezes diz coisas do tipo eu não queria, eu não fui atrás, aconteceu, as coisas acontecem, são maiores do que a gente, não há o que a gente possa fazer. Alguém vai sofrer.

Pierre, sujeito duro, insensível, num momento único de abertura do coração, tenta, com sua história, consolar a nora. Como se estivesse dizendo que o marido dela não queria, não tinha ido atrás, aconteceu, as coisas acontecem, são maiores do que a gente, não há o que a gente possa fazer. Alguém vai sofrer.

Je l’aimais é um filme que toca fundo em qualquer pessoa que já tenha passado por uma situação semelhante – estar no meio de uma relação sólida, e ser atingido por um tremor de terra.

Diante do tremor de terra de uma nova paixão, há, basicamente, como cada pessoa sabe, duas opções: ou se abandona a ligação sólida, antiga, duradoura, ou se abandona a possibilidade de nova vida.

Não tem jeito, não tem remédio: cada uma das escolhas trará dor imensa.

A Francesca interpretada por Meryl Streep em As Pontes de Madison poderia passar um bom tempo do resto da vida sufocando a paixão que descobrira pelo Robert que cai de pára-quedas em sua vida, e manter seu casamento – um casamento confortável, agradável, harmonioso, embora sem o fogo da paixão. Ou poderia jogar tudo o que havia construído ao longo de décadas com o marido e se deixado levar pelo novo amor.

Exatamente como aconteceu com a Laura interpretada por Celia Johnson em Desencanto/Brief Encounter, a pérola do mestre David Lean. Exatamente como aconteceu com tantos personagens de tantos belos filmes, exatamente como já aconteceu com tantos de nós. Mais fácil, talvez, seria enumerar com quem não aconteceu algo assim.

Não tem jeito, não tem remédio: cada uma das escolhas trará dor imensa.

Uma história contada com sensibilidade, honestidade, conhecimento de causa

zzaimais7Je l’aimais conta essa história triste, melancólica, amargurada, com tamanha sensibilidade, honestidade, conhecimento de causa, que fico imaginando se o romance que deu origem ao roteiro não terá alguma dose de autobiográfico.

Anna Galvada, a autora do livro Je l’aimais, nasceu em 1970. Quando o livro – seu segundo romance – foi lançado, tinha apenas 32 aninhos. Foi um extraordinário sucesso de vendas, com mais de 1,2 milhão de exemplares.

Terá Anna Galvada conhecido algum Pierre na vida? Deixemos pra lá: é uma pergunta cretina.

Zabou Breitman havia dirigido apenas dois longa-metragens antes deste aqui: Se Souvenir des Belles Choses, de 2001, com Isabelle Carré, e L’homme de Sa Vie, de 2006. Tem grande experiência como atriz, com mais de 70 títulos no currículo, o que certamente ajuda a explicar como os atores todos estão tão bem dirigidos neste Je l’aimais.

Uma beleza de filme triste.

Anotação em janeiro de 2013

Je l’aimais

De Zabou Breitman, França-Itália-Bélgica, 2009

Com Daniel Auteuil (Pierre), Marie-Josée Croze (Mathilde), Florence Loiret Caille (Chloé),

e Christiane Millet (Suzanne Houdard), Geneviève Mnich (Geneviève, a secretária), Winston Ong (M. Xing), Olivia Ross (Christine), Antonin Chalon (Adrien), Ysée Dumay Duteil (Lucie)

Roteiro Zabou Breitman e Agnès de Sacy

Baseado no romance de Anna Gavalda

Fotografia Michel Amathieu

Música Krishna Levy

Montagem Frédérique Broos e Bernard Françoise

Produção Babe Films, Banana Films, Indigo Film, France 2 Cinéma, SND, Canal+.

Cor, 99 min

***

Um comentário para “Je l’aimais”

  1. Geralmente filmes com esse tema “homem casado conhece e se apaixona por outra” (invariavelmente muito mais jovem) não me comovem, mas esse aqui eu achei bem feito, e até quase derramei uma lágrima. E olha que vi o filme com uma legenda em inglês (porque meu francês se resume a bonjour – na verdade, entendo um pouco se prestar atenção, mas cansa; e porque não encontrei legendas em português, claro). Então não sei se a legenda foi fiel aos diálogos, e ainda assim o filme me tocou (estou dizendo isso porque uma legenda mal feita pode acabar com um filme).

    Ao menos o Pierre parecia sentir mesmo um sentimento legítimo pela Mathilde, não era apenas uma paixão dessas que acabam rapidamente. Acho até que no começo foi mesmo paixão, mas depois se transformou em algo mais forte. O que eu gostava na sua relação com ela era que a Mathilde fazia dele uma pessoa melhor. E pelo o que a história conta, ela também gostava dele, não era apenas uma aventureira. Eu gostei muito da atuação da atriz. Ele também está muito bem, mas não tem carisma nenhum, o que o deixa ainda mais feioso. Carisma zero, beleza passou longe (não sei se ele já foi bonito um dia, mas nesse filme está particularmente sem graça, talvez pelo papel, não sei). E eu ficava me perguntando o que a Mathilde tinha visto nele, um cara duro e insensível, como você bem disse; então acho que ela gostava realmente dele.
    O filme é bom e sensível, tanto que eu até torci em determinado momento pra eles ficarem juntos, mas ao mesmo tempo tinha pena da mulher dele.
    Mas essa história de novo amor pra quem já está em um antigo é meio traiçoeira, porque o novo, belo, inédito é sempre mais atraente que o velho, rotineiro, conhecido. Resta saber até que página vão histórias assim.

    SPOILER:

    Afinal, o filho era ou não dele?

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