Enquanto Você Dormia / While You Were Sleeping

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Nota: ★★½☆

Quando Lucy, a personagem central da história de Enquanto Você Dormia, era criança, seu pai costumava dizer que às vezes as coisas na vida não acontecem como planejamos. É uma incontestável verdade – como na velha música dos Stones: “You can’t always get what you want” –, que deve mesmo ser dita para os filhos. É bom que eles saibam desde cedo que a vida inclui uma imensa quantidade de adversidades.

O interessante é que o próprio filme prova isso. Os produtores queriam Demi Moore no papel de Lucy. Como as coisas na vida nem sempre acontecem como planejamos, como você nunca consegue tudo o que quer, o passe de Demi Moore estava muito alto, e o papel de Lucy acabou indo para a na época menos conhecida Sandra Bullock, que havia tido seu primeiro papel importante em filme de sucesso no ano anterior, Velocidade Máxima/Speed, de 1994.

Sorte dos produtores. Sandra Bullock é a melhor coisa do filme.

zzwhile0E, além disso, Demi Moore seria um perfeito caso de miscasting, de escolha errada de atriz para fazer o papel de Lucy. Lucy é uma moça solitária, que nunca teve um amor na vida; tem um emprego modesto, trabalha na bilheteria do metrô de Chicago. Ora, o filme é de 1995, e Demi Moore era bela demais para o papel da moça que não tem uma beleza especial, é um tipo normal, meio comum, a garota da porta ao lado – exatamente como é Sandra Bullock, essa típica girl-next-door que acabou, em parte até por isso mesmo, virando estrela.

Há muita gente que não gosta de Sandra Bullock, que até a detesta, minha filha inclusive. Esses devem passar longe de Enquanto Você Dormia. Os de narizinho empinado que gostam de filmes “de arte” e detestam “filme americano” também não deveriam vê-lo, de forma alguma, sob pena de ter choque anafilático.

Enquanto Você Dormia é a típica comedinha romântica do cinemão comercial de Hollywood. É bobinha, bobinha. A trama parte de uma situação forçada, quase inverossímil. Mas é uma comedinha engraçadinha, não ofende nenhum valor importante, tem boas atuações, a Bullock está ótima. É uma diversão gostosinha – daquelas que a gente curte enquanto está vendo e pode esquecer em seguida.

Na minha opinião, comedinha romântica é sempre tão bobinha quanto indispensável.

Uma moça solitária, que conversa com seu gato

É assim:

zzwhile2Lucy, a moça que trabalha na bilheteria do metrô de Chicago, é apaixonada pelo homem bonitão bem vestido que passa por ela todas as manhãs. É seu príncipe encantado – embora ela nem saiba seu nome. Veremos depois que é Peter (interpretado por Peter Gallagher, que eu acho um grande canastrão). Claro que ele sequer a vê, quando passa, toda manhã, entre as 8h00 e as 8h15, pela bilheteria.

Lucy mora num apartamento legalzinho, simples mas confortável, em companhia de um gato. Solitária demais, conversa com o gato. Perguntar como uma bilheteira do metrô pode pagar um apartamento daqueles poderia parecer natural para quem não entende que esta é uma comedinha romântica do cinemão comercial americano, e nelas – como definiu com ironia e algum carinho a diretora Daniele Thompson na boca de uma personagem de Fuso Horário do Amor – “os pobres ficam ricos, os ricos têm uma vida dura, os sem-documento encontram os documentos, as guerras terminam, os mortos voltam a viver e as putas se casam com milionários”.

Lucy é benquista por seu chefe no metrô, Jerry (Jason Bernard), porque é pontual, nunca falta ao serviço e topa trabalhar nos feriados. Trabalhou no Dia de Ação de Graças – e Jerry quer que ela trabalhe também no Natal. Ela quer folgar, mas Jerry pede, explica que as outras funcionárias estão com problemas e, afinal de contas – sim, ela não tem família. (A mãe morreu quando ela era bem pequena. O pai morreu um ano antes da época em que se passa a ação.)

E então lá está Lucy trabalhando na véspera de Natal.

Peter, o príncipe encantado, passa pela bilheteria e pela primeira vez na vida se dirige a ele, desejando feliz Natal.

Atônita, nas nuvens, a coitadinha não tem tempo sequer de responder.

Naquele dia, há pouquíssima gente na estação. E então Lucy vê dois pivetes atacando o seu príncipe encantado para roubar o que conseguirem. Saem correndo – e empurram Peter para o vão dos trilhos.

Lucy corre para lá, pula para dentro do vão, tenta chamar o homem, fazê-lo acordar. Peter está desmaiado. Lá vem um trem – Lucy agarra-se a Peter e rola com ele para fora dos trilhos. Peter abre os olhos, vê o rosto de Lucy – e desmaia de novo.

A moça solitária, de vida cinzenta, salva a vida de seu príncipe encantado!

zzwhile4No hospital, ela quer vê-lo. Fala alto, para si mesma, algo do tipo: “Eu ia casar com ele!” Uma enfermeira ouve. Quando um funcionário tenta barrar a entrada de Lucy na UTI, exatamente no momento em que toda a família de Peter está lá, a enfermeira diz: “Ela é a noiva dele!”

O pai, a mãe, a avó, o padrinho, a irmã de Peter, todos olham com surpresa para Lucy.

Ela não consegue dizer que não é verdade.

Alguém que sabia do acontecido na estação de trem conta que ela salvou a vida de Peter.

Toda a família dele se apaixona imediatamente por Lucy – o pai, Ox (Peter Boyle), a avó, Elsie (Glynis Johns), a mãe, Midge (Micole Mercurio), a irmâ, Mary (Monica Keena).

Não estava no hospital o irmão de Peter, Jack (o papel de Bill Pullman, nas fotos abaixo). Ele conhecerá Lucy mais tarde. A princípio, vai desconfiar que ela mente, que não é noiva do irmão coisíssima nenhuma. Depois, é claro, vai se apaixonar por ela.

Uma família simpática. E suaves gozações sobre a Igreja Católica

É gostosa, simpática, a família de Peter, os Callahans. São alegres, extrovertidos, afáveis. Têm um negócio de compra e venda de móveis usados: compram todo o mobiliário antigo de pessoas mortas, para revender por preços bem mais altos. (Exatamente como no interessante, sensível filme Sentimento de Culpa/Please Give, de 2010.) Têm bastante mais dinheiro que Lucy, mas não são ricos demais: todos trabalham duro na empresa criada pelo pai, Ox.

zzwhile3Peter, sim, é um novo rico; estudou Direito, tornou-se advogado muitíssimo bem pago de firma importante. Quanto mais dinheiro ganhava, mais se afastava da família.

Os roteiristas Daniel G. Sullivan e Fredric LeBow incluíram no filme algumas piadinhas com a Igreja Católica. Os Callahans, como bons descendentes de irlandeses, são católicos. Quando Saul (uma bela interpretação, como sempre, do ótimo veterano Jack Warden) conta para Lucy que é padrinho de Peter, ela estranha, já que Saul é judeu. Aí ele explica que Ox subornou o padre da paróquia que a família frequenta, dando um monte de móveis para a igreja – e então permitiu-se que um judeu fosse padrinho do garoto.

Uma sequência especialmente gostosa se passa durante uma missa, quando Ox e o filho Jack conversam sobre negócios, e a avó, Midge, diz: “Eu preferia quando as missas eram em latim; assim a gente não entendia nada do que os padres diziam”.

Há também uma divertida seqüência em que, à mesa, durante o almoço, a família discute sobre atores de cinema, e citam John Wayne, Dustin Hoffman, Cesar Romero.

E a Bullock está gracinha.

Foi este filme aqui, logo depois de Velocidade Máxima, que tornou Sandra Bullock uma estrela, vejo agora na biografia dela no Baseline.

“Um destes filmes que surpreendem você com seu charme”

Leonard Maltin deu ao filme 2.5 estrelas em 4. “Primeiro filme com Bullock como a principal protagonista exibe seu irresistível apelo de girl-next-door, mas essa agradável comédia de elenco bem escolhido sofre de anemia. É uma história interessante, mas deveria ter sido mais rápida (e mais curta).”

zzwhile5Já Roger Ebert encantou-se com o filme. Seria pelo fato de ser do Estado de Illinois, e ter vivido boa parte da vida em Chicago, que o filme retrata com carinho e até devoção, com diversas tomadas gerais de paisagens da cidade? “While You Were Sleeping é um destes filmes que surpreendem você com seu charme”, começa ele.

Lá adiante ele escreve o seguinte:

“Não há muitos atores de cinema de quem nós simplesmente GOSTAMOS. (Assim, em caixa alta.) Marilyn Monroe foi uma, e essa qualidade, e não o sex appeal, é o motivo pelo qual ela permaneceu tão forte e durável na memória. Com base em Speed e While You Were Sleeping, Sandra Bullock pode ser outra. Ela interpreta Lucy num tom menor, como uma jovem tímida, insegura, e, naturalmente, mais tarde, no filme, quando ela tem que se assumir, ficamos com orgulho dela. Ela nos faz querer protegê-la.”

E conclui assim:

“Comédia romântica leve é um dos gêneros mais traiçoeiros do cinema. Em geral não funciona. Às vezes funciona, como em Harry e Sally – Feitos um para o Outro (1989), Sintonia de Amor (1993) e Quatro Casamentos e um Funeral (1994). (…) É um filme caloroso, bem intencionado, para deixar o espectador alegre, e enquanto se encaminhava para o final feliz, eu ainda estava um tanto surpreso pelo tanto que estava me divertindo com ele.”

Roger Ebert pode ter exagerado um pouco – quando a gente se apaixona por um filme é assim mesmo. Mas a verdade é que gostei bastante de Enquanto Você Dormia.

Anotação em dezembro de 2012

Enquanto Você Dormia/While You Were Sleeping

De Jon Turteltaub, EUA, 1995

Com Sandra Bullock (Lucy), Bill Pullman (Jack),

e Peter Gallagher (Peter),  Jack Warden (Saul), Peter Boyle (Ox), Glynis Johns (Elsie), Micole Mercurio (Midge), Monica Keena (Mary), Jason Bernard (Jerry), Michael Rispoli (Joe Jr.), Ally Walker (Ashley Bacon)

Argumento e roteiro Daniel G. Sullivan e Fredric LeBow

Fotografia Phedon Papamichael

Música Randy Edelman

Montagem Bruce Green

Produção Hollywood Pictures, Caravan Pictures.

Cor, 103 min

**1/2

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