Em Busca da Fé / Higher Ground

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Nota: ★★★☆

Vera Farmiga, ótima atriz, estreou na direção com um filme sobre um tema bem pouco usual no cinema americano e no cinema de qualquer outro país: fé, religião.

E estreou muito bem. Higher Ground, no Brasil Em Busca da Fé, é um belo drama, feito com imensas doses de sensibilidade e talento.

Baseia-se num livro autobiográfico, escrito por Carolyn S. Briggs, ela também uma das autoras do roteiro, ao lado de Tim Metcalfe. O título completo do livro resume bem a história: This Dark World: A Memoir of Salvation Found and Lost – Este mundo escuro: uma memória da salvação encontrada e perdida.

Não sei fazer sinopses curtas, que contem em poucas palavras do que um filme trata. Acabo sempre contando os fatos que acontecem no início da narrativa em relatos longos, detalhados. Evito os spoilers, é claro, mas me falta o dom da concisão.

O IMDB traz uma sinopse de apenas uma linha que diz bem o que é este Higher Ground: “The chronicle of one woman’s lifelong struggle with her faith.” A crônica da luta de vida inteira de uma mulher com sua fé.

Crônica – um texto curto em prosa coloquial, mas também um relato de fatos 

zzhigher4Rápida digressão sobre a palavra crônica. Meu dicionário preferido, o Dicionário Unesp de Português Contemporâneo, aponta crônica como sinônimo de relato como sexta e última acepção. A primeira acepção é a de uso mais comum entre nós, “composição curta, em prosa coloquial, sobre assuntos do cotidiano, comumente publicada na imprensa”. Essa arte que Rubem Braga, talvez mais que todos os outros escritores brasileiros, soube dominar. Como segunda acepção, ele registra “fatos históricos apresentados segundo a ordem de sucessão no tempo.

Em inglês, esta aí é a principal acepção de chronicle: “um relato de eventos históricos, arranjada na ordem do tempo”, segundo o Dictionary of English Language and Culture da Longman.

Claro: cronos é tempo em grego – de onde vem cronologia, por exemplo.

No inglês, chronicles é basicamente, em primeiro lugar, um relato de eventos em ordem cronológica. (Até mesmo Bob Dylan, artista que desrespeita todas as regras de todo tipo de gramática, já que pode, faz um relato em ordem cronológica – embora sem qualquer rigor – em seu livro Chronicles Volume One.)

Na abertura do filme, um rapaz faz uma pregação sobre Jesus

Higher Ground conta, de forma quase rigorosamente cronológica, a história da vida de uma mulher chamada Corinne – que, obviamente, é a personagem inspirada na vida real da autora do livro de memórias e co-roteirista Carolyn S. Briggs. Mostra a vida de Corinne desde a infância até a maturidade – e, para isso, a personagem é interpretada por três diferentes atrizes. McKenzie Turner faz a Corinne criança, Taissa Farmiga (na foto abaixo) faz a Corinne adolescente e a própria diretora Vera Farmiga faz o papel principal, a Corinne adulta.

Só não é uma narrativa em absoluta ordem cronológica porque as primeiras sequências mostram cenas da época em que Corinne era uma jovem adulta. É o que eu chamo de narrativa laço: começa quando, digamos, o jogo de futebol está aí com uns 30 minutos do segundo tempo, e depois volta para o começo, e aí prossegue na ordem cronológica.

zzhigher2As primeiras sequências mostram um jovem aí de uns quase 30 anos fazendo pregações. Aquele tipo de discurso: “Eu estava perdido, mas aí encontrei Jesus, e Jesus me salvou”.

Na canção folclórica, tradicional, é bonito. “Amazing Grace, how sweet the sound. I once was lost, but now I’m found”. “Amazing Grace”, o hino cristão cujos versos foram escritos pelo poeta e religioso inglês John Newton (1725-1807), é de uma beleza extraordinária. Não admira que tenha sido gravado por praticamente todos os cantores, sejam de folk, do pop, do que for. Diversos hinos cristãos são cantados ao longo dos 109 minutos de duração de Higher Ground, mas “Amazing Grace” não está entre eles. Lembrei de “Amazing Grace” porque a canção resume com precisão o tipo de coisa que o jovem prega bem no iniciozinho do filme, e está no próprio título do livro autobiográfico em que o filme é baseado.

“Amazing Grace”, a rigor, é um hino que pode ser cantado por qualquer crente de qualquer religião. Não fala em Jesus. Fala da perda e da salvação. Um muçulmano, um judeu, um budista poderia perfeitamente cantar essa canção: já fui perdido, mas agora me encontrei, fui encontrado. Estava perdido, mas encontrei a salvação.

Depois dessas cenas em que o rapaz faz sua pregação, e aí citando especificamente Jesus, e portanto reduzindo o escopo, a amplitude do tema, surgem cenas de batismo de adultos nas águas de um lago.

Aquela coisa de enfiar a pessoa de cara para cima para dentro da água e depois puxá-la de volta, a cara toda molhada, os cabelos molhados, água tendo entrado pelo nariz. Aquele batismo inspirado, acho, em João Batista.

Diversas pessoas são mostradas nesse batismo, esse ritual de iniciação que os não crentes podem até achar cruel como um trote violento de ingresso em universidade.

A mesma cena é repetida diversas vezes, com várias pessoas sendo batizadas.

Até que a pessoa que ressurge de debaixo da água é Corinne, a protagonista da história.

E então há a volta no tempo, para quando Corinne era uma garotinha. Toda a narrativa a seguir é em estrita ordem cronológica.

A garotinha Corinne abriu seu coração para Jesus – mas imaginou o pastor atracado com a mãe   

Não entendo lhufas das religiões cristãs não católicas. Bem, a rigor, não entendo nada de coisa alguma, mas, entre as coisas que definitivamente não entendo estão as religiões cristãs não católicas. Sei um pouquinho sobre o que é a religião anglicana, a batista, a luterana, até um pouquinho sobre os mórmons, os ortodoxos russos, mas não entendo coisa alguma sobre essas dezenas e dezenas de religiões evangélicas todas.

O filme não faz qualquer questão de explicitar qual é esse tipo de culto a que Corinne, já jovem adulta, adere, que nome ele tem. Mas imagino que deve ser alguma coisa ligada ao que se chama de born again Christians.

zzhigher0Corinne é a filha mais velha de um casal de protestantes de igreja tradicional, secular. Quando criança, teve uma experiência com o pastor da igreja dos pais – o pastor fez todo um longo discurso para uma congregação de crianças a respeito de Jesus estar batendo à porta do coração das crianças, e perguntou quem abriria seus corações a ele, e então Corinne levantou a mão.

A mãe dela, Kathleen (Donna Murphy), tinha uma vida aparentemente normal com o pai, CW Walker (John Hawkes). Mas a relação foi para o brejo depois que Kathleen perdeu o filho que seria o terceiro, depois de Corinne e da sua irmã loura Wendy (interpretada por Taylor Schwencke quando garotinha, Kaitlyn Rae King quando adolescente, e Nina Arianda quando adulta).

No dia em que Corinne levantou a mão para o pastor, a mãe apareceu na igreja. Tinha já perdido o bebê, e estava numa fase estranha, um tanto psicótica maníaca depressiva; insinua-se para o pastor, e a garotinha Corinne vê na sua imaginação a mãe atracada ao pastor peladão ali mesmo, num banco da igreja.

Como por milagre, a filhinha é salva da morte, e então o casal vira fanaticamente cristão

Corta bastante rapidamente para Corinne adolescente. Adolescente, Corinne é uma leitora voraz, uma jovem que parece que vai ter jeito para a escrita. Na high school, atrai as atenções de um garoto que toca numa banda de rock, The Renegades. Ele se chama Ethan, e é interpretado por Boyd Holbrook enquanto adolescente e por Joshua Leonard quando adulto.

O garoto Ethan come a garota Corinne, e ela fica grávida.

Casam-se.

Corinne e sua primeira filha acompanham The Renegades em suas turnês.

Numa das viagens, a van em que o grupo está cai num rio, a filhinha do casal quase morre afogada.

A partir da quase miraculosa salvação da filhinha, o jovem casal vira cristão renascido, born again Christian.

Passam a seguir o culto do Pastor Bill (Norbert Leo Butz).

Não entendo nada, repito, das religiões cristãs não católicas, e o filme não dá nome ao tipo de culto do Pastor Bill, mas é um culto exagerado. Fundamentalista.

E então Corinne percebe que está perdendo a fé

Isso que relatei acontece nos primeiros 30 minutos do filme, se tanto.

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Corinne desenvolverá uma amizade profunda com Annika (Dagmara Dominczyk, belíssima e boa atriz, à esquerda na foto), que pertence à mesma comunidade da igreja do Pastor Bill, mas tem uma personalidade forte, marcante, e consegue ser uma mulher liberada, solta, amante dos prazeres da vida. A amizade entre Corinne e Annika é extremamente importante no desenrolar da história.

Lá pela metade da narrativa, acho que na verdade depois da metade, depois que já teve o terceiro filho, Corinne perderá a fé.

Há uma seqüência, passada na igreja do Pastor Bill, que mostra a angústia de Corinne na época em que está perdendo a fé. É uma sequência estupenda, maravilhosa. A interpretação da diretora e atriz Vera Farmiga é absolutamente extraordinária. O rosto de Vera Farmiga mostra a angústia imensa de uma pessoa que já não consegue mais acreditar em uma palavra que o pastor está dizendo.

Temas complicados, polêmicos, sobre que é impossível haver uma debate racional

A rigor, existem na vida três temas complicados, polêmicos, de se abordar, temas em que as opiniões se dividem, em que fica tudo absolutamente controverso, em que não há possibilidade de acordo. Um é simples: o clube pelo qual você torce. Não há possibilidade de discussão tranquila, racional, entre, digamos, um corintiano e um palmeirense.

O outro tema em que é impossível haver racionalidade é a política. Na civilizadíssima Inglaterra, não há possibilidade de razão numa discussão entre um trabalhista e um conservador. (O país voltou a demonstrar que é dividido ao meio recentemente, quando Margareth Thatcher morreu.) Não há possibilidade de uma discussão racional entre um americano republicano e outro democrata, assim como não há entre um petista e um tucano.

O terceiro tema é religião.

Bem, a rigor, tudo se resume a religião, porque time esportivo e partido político podem também virar religião.

São raros os filmes que falam sobre pessoas comuns e suas dúvidas sobre a fé

zzhigher5Quantos filmes há sobre religião, sobre fé, perda de fé? A cada ano (repito isso sempre, mas o que fazer? É a mais pura verdade dos fatos), fazem-se 2.349 filmes sobre assassinos e ladrões. Fazem-se duzentas vezes mais filmes sobre bandidos do que sobre gente como a gente.

Entre os poucos (em termos relativos) sobre gente como a gente, quantos são os filmes que tratam de religião, fé, perda de fé?

Há alguns filmes sobre religiosos – gente boa, ou então calhordas. Há, por exemplo, filmes que denunciam os falsos pastores, como Entre Deus e o Pecado/Elmer Gantry, de Richard Brooks, e os que falam sobre pastores um tanto falsos, um tanto verdadeiros, como O Apóstolo, de Robert Duvall. São poucos – e na minha opinião são muito bem-vindos.

Mas quantos filmes há sobre pessoas comuns em suas dúvidas sobre Deus?

Só por ser um destes pouquíssimos filmes que falam sobre pessoas comuns em suas dúvidas, em suas “discussões com Deus”, como dizia o jovem Chico, este Higher Ground já seria uma obra para se aplaudir.

Como é um filme feito com talento, sinceridade, emoção, sensibilidade, é um grande filme.

É absolutamente natural que uma mulher inteligente questionasse aquele fundamentalismo

Para mim, Higher Ground demonstra, mais uma vez, aquela verdade básica: todo fanatismo é ruim, é negativo. Seja muçulmano, seja judaico, seja cristão de qualquer uma de suas diversas denominações.

Há muita gente, em especial gente como a gente, classe média, estudada, intelectualizada, que é contra todo tipo de religião. Aquela noção de que a religião é o ópio do povo. Não sou destas pessoas. Não tenho religião, mas não sou contra as religiões, a fé. Até ao contrário: respeito as religiões e os religiosos. Acho que a fé ajuda muito as pessoas.

Mas fanatismo é ruim.

Os cristãos fanáticos da igreja do Pastor Bill mostrados no filme não chegam a extremos do tipo pregar jihads, guerras santas, ou impedir que os filhos sejam vacinados ou passem por transfusão de sangue quando necessário. Sequer consideram, por exemplo, que sexo por prazer, e não para procriação, seja pecado.

zzhigher8Mas são fanáticos. Falam de Deus e Jesus e Bíblia o tempo todo, pautam cada pequena decisão na vida no que acham que a Bíblia quis dizer. Obrigam os filhos a seguir cuidadosamente todos os seus preceitos. E chegam a excessos absurdos, como considerar que as mulheres não devem nunca demonstrar que sabem mais do que os homens, porque os homens é que mandam. Ou achar que um vestido que mostra os ombros da mulher é indecente.

É absolutamente natural que Corinne – uma mulher inteligente, leitora voraz, curiosa – em algum momento questionasse tudo aquilo.

A diretora Vera Farmiga foi criada sob uma rígida disciplina católica

Vera Farmiga descende de ucranianos que se estabeleceram em Nova Jersey; nascida em 1973 (estava, portanto, com 38 anos quando fez sua estréia na direção), a segunda de um casal que teve sete filhos, foi criada sob uma rígida disciplina católica; começou a estudar uma escola mantida por religiosos ucranianos, e consta que só a partir dos seis anos começou a aprender inglês.

(Um detalhinho interessante: Taissa Farmiga, que interpreta Corinne adolescente, e se parece muito fisicamente com Vera, é a irmã mais nova da atriz e agora diretora. Nunca tinha se interessado pela carreira de atriz, mas foi convencida pela irmã a fazer o papel da protagonista em seus anos de adolescência. E parece que gostou do métier: depois de Higher Ground, já trabalhou em três filmes e uma série de TV.)

A diretora escreveu um belo texto que está no site oficial do filme. Vale a pena transcrever.

“A maternidade me mudou como artista e contadora de histórias. (Ela teve um filho em 2009 e uma filha em 2010, em seu segundo casamento.) Agora que meus filhos me fazem tantas perguntas, tenho mais certeza do que antes de que não sei as respostas. Li as memórias de Carolyn S. Briggs, This Dark World, e me senti tocada pelo seu testemunho, seu candor, humor e honestidade sobre o tema de ‘não saber’. Sua jornada de auto-descoberta ressoou em mim em todos os níveis, como filha, irmã, esposa, amiga e mãe.

zzhigher6“Também adoro uma boa história de amor. Nossa história segue um espaço de 20 anos de todas as relações amorosas na vida de Corinne. Ela estuda as quatro camadas de amor: ágape, eros, philia e storge (amor incondicional, amor romântico, amor pela família e amigos, afeição profunda). Foi especialmente relevante e único para mim na maneira com que representa a amizade feminina – como um refúgio em harmonia, não conflito ou competição, como é muitas vezes mostrada entre mulheres no cinema. Os homens também são personagens completos, ricos, mas a história realça que o amor entre mulheres é importante. (…)

“As escolhas e verdades que o filme explora são universais: somos todos pessoas que procuram, precisam de um significado. Todos nós queremos um melhor sentido de nós mesmos. Todos nós, em algum nível ou outro, experimentamos momentos cheios de dúvidas e questionamentos, nos sentimos desapontados ou desiludidos, precisando de claridade. Por que não jogar todas essas noções na tela?

“O filme pergunta: é possível que fé e dúvida coexistam? O que é uma alma saudável? O que nos impede de ter um crescimento interno? A Cristandade é a ‘locação’ do filme, não seu tema, preocupação ou questão. O filme poderia perfeitamente tratar de uma variedade de fés e culturas. Tenho um profundo respeito por todas as religiões, mas a Cristandade me é mais familiar. Não queria fazer um filme sobre o que é certo e errado na religião. Queria ser reverente e respeitosa, e não queria infectar a história com vieses. É sobre aqueles momentos na vida em que você perde a noção de quem você é, de em que você acredita, e para onde você está indo. Aqueles momentos de tropeço. O filme é sobre achar onde você pisa, achar o chão mais alto.”

O chão mais alto – higher ground, o título original.

Uma figura, essa Vera Farmiga. Bela, talentosa, grande atriz, soube fazer um belo filme de estréia como realizadora. E ainda por cima escreve muito bem.

Anotação em maio de 2013

Em Busca da Fé/Higher Ground

De Vera Farmiga, EUA, 2011

Com Vera Farmiga (Corinne adulta), Taissa Farmiga (Corinne adolescente), McKenzie Turner (Corinne criança), Joshua Leonard (Ethan adulto), Boyd Holbrook (Ethan adolescente), Dagmara Dominczyk (Annika), Norbert Leo Butz (Pastor Bill), Michael Chernus (Ned), Donna Murphy (Kathleen, a mãe de Corinne), John Hawkes (CW Walker, o pai de Corinne), Nina Arianda (Wendy adulta), Kaitlyn Rae King (Wendy adolescente), Taylor Schwencke (Wendy criança), Bill Irwin (Pastor Bud), Sean Mahon (Liam Donovan)

Roteiro Carolyn S. Briggs e Tim Metcalfe

Baseado no livro This Dark World: A Memoir of Salvation Found and Lost, de Carolyn S. Briggs

Fotografia Michael McDonough

Música Alec Puro

Montagem Colleen Sharp

Produção BCDF Pictures, The Group Entertainment, Ruminant Films.

Cor, 109 min

***

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » As Sessões / The Sessions em 28 novembro 2013 às 10:51 pm

    […] uma história real. Mark O’Brien (o protagonista, interpretado por John Hawkes) nasceu em Boston, em 1949, de uma família católica de vários filhos. Aos 6 anos, contraiu […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Um Novo Amor / At Middleton em 19 fevereiro 2015 às 12:25 am

    […] um tema sério, difícil, polêmico e por isso mesmo pouco usual: fé, religião, religiosidade (Em Busca da Fé/Higher Ground, […]

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