Elas / Elles

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Nota: ★★★½

A vida de Anne (Juliette Binoche), a protagonista de Elles, é um horror insuportável. As jovens Charlotte e Alicja levam vidas bem mais leves, quase tranquilas, prazerosas. Anne é jornalista, mãe de dois filhos, classe média para média alta. Charlotte (Anaïs Demoustier) e Alicja (Joanna Kulig) são garotas de programa em meio expediente.

Bem, a rigor, não são exatamente tranquilas, prazerosas, as vidas das moças. Um dos clientes de Alicja urina em cima dela, e Charlotte já teve pelo menos uma experiência de agressão violentíssima, quando um cliente enfiou o gargalo de uma garrafa em seu ânus.

Mas as moças não reclamam. Ao contrário – não parecem humilhadas, ofendidas, com o fato de se prostituírem.

Joanna Kulig as Alicja in ``Elles.''Alicja (na foto ao lado) veio da sua Polônia natal para estudar em Paris. A vida é cara, e rapidamente ela percebeu que não daria para viver com conforto apenas com o dinheiro que a mãe lhe enviava. E então demonstra orgulho por, após um mês de prostituição em meio período, enquanto continua seus estudos (será mesmo que continua?), estar morando bem em Paris. Além disso, é chegada a uma vodca, o que seguramente ajuda a tocar a vida.

Charlotte (na foto abaixo) fez a opção de vender o corpo simplesmente porque os trabalhos que tinha antes, como garçonete, eram muito duros e mal pagos. Vive com os pais, tem namorado firme, e seu maior problema, o que a incomoda, é o fato de ter sempre que mentir para os conhecidos, e esconder de onde vem o dinheiro que ganha. Às vezes até se diverte: conta para Anne, a jornalista, que o cliente que vai ver naquela noite é bonitinho.

Um peso imenso, uma carga tripla de trabalho sobre os ombros da protagonista

Anne está fazendo uma reportagem para a revista Elle sobre estudantes – moças de classe média, não pobres, miseráveis – que se prostituem. Conseguiu os depoimentos de duas delas. Quando a ação começa, Anne está escrevendo o texto que terá que entregar na manhã seguinte.

As roteiristas – a própria diretora, a polonesa Malgoska Szumowska,  e a francesa Tine Byrckel, jornalista e psicanalista – comprimiram em um único dia toda a ação. Como em tantas narrativas clássicas e/ou modernas, do Ulysses de James Joyce a Sábado de Ian McEwan, passando por Matar ou Morrer/High Noon de Fred Zinnemann a Pacto Sinistro/The Rope de Alfred Hitchcock.

A narrativa de Elles começa então no alvorecer de um dia, para terminar na manhã do dia seguinte. Mas haverá flashbacks, para mostrar Anne entrevistando Charlotte e Alicja – e também alguns dos fatos que as duas moças relatam para a jornalista, alguns de seus encontros com clientes.

Ana•s Demoustier (left) as Charlotte in ``Elles.''Anne passou a noite inteira diante do computador, escrevendo. Escrevendo, reescrevendo, ouvindo as fitas com as entrevistas, conferindo as anotações.

A primeira seqüência que o espectador vê, na verdade, é de uma felação. As imagens dos atos sexuais descritos por suas entrevistadas povoam a cabeça de Anne, como um feitiço, como fantasmas.

Veremos que a relação de Anne com o marido, Patrick (Louis-Do de Lencquesaing), não anda nada bem. Foi tragada pela rotina, pela correria, pelo excesso de trabalho dos dois, pela dupla ou tripla jornada de Anne. O filho mais velho, Florent (François Civil), um aborrescente aí de uns 15, 16 anos, fará comentários irônicos sobre a relação desgastada dos pais.

Ao longo daquele dia após uma noite passada em claro, em que precisa terminar de escrever o texto de sua reportagem para entregar à revista na manhã seguinte, Anne terá que:

* preocupar-se com Florent, que – ela ficará sabendo naquele dia mesmo – tem faltado às aulas na escola, e anda fumando maconha;

* preocupar-se com Stéphane (Pablo Beugnet), o filho mais novo, aí de uns oito anos, que passa todo o tempo grudado em videogames;

* visitar o pai doente no hospital (interpretado por Jean-Marie Binoche – o pai dela na vida real, segundo me confirmou a Jussara Ormond após uma pesquisa na internet);

* fazer compras no supermercado;

* cozinhar o jantar para o patrão do marido, que virá visitar o casal à noite;

* cuidar da casa – pôr alguma ordem nas coisas espalhadas pelo amplo apartamento pelo marido e pelos dois filhos bagunceiros, desordeiros, incapazes de ajudar na tarefa básica de manter uma mínima ordem na casa;

* ao final do dia, aprontar-se, botar um belo vestido, pentear o cabelo, apresentar-se perfeita diante dos convidados – e ainda seguir as recomendações do marido de não vir com papos feministas à mesa;

* e, at last but not least, conviver com os fantasmas, as inquietações trazidas para dentro de sua cabeça pelas entrevistas com as duas jovens prostitutas, e encarar a frustação com sua própria vida sexual.

A câmara de mão nervosa aumenta o clima de sufoco, tensão

O que o filme mostra é que, dentro daquele amplo, confortável, bem mobiliado apartamento, a burguesa Anne leva uma vida besta. Uma vida de merda.

zzelles4Poucas vezes o cinema terá mostrado com tanta força, tanta virulência, como é trágico o cotidiano de jornada dupla, tripla, quadrúpula da mulher moderna.

A diretora Malgoska Szumowska e seu diretor de fotografia Michal Englert realçam esse clima sufocante fazendo a câmara de mão perseguir os apressados passos de Anne dentro de seu apartamento.

A câmara de mão nervosa aumenta o clima de sufoco, tensão. Dá agonia, como diz Mary.

Essas seqüências com câmara de mão são alternadas com tomadas em que a câmara fica fixa diante de Anne no trabalho no computador, ou diante dos rostos jovens e belos das atrizes que interpretam Charlotte e Alicja.

Uma jovem diretora com talento saindo pelo ladrão. E uma atriz que é um fenômeno

Malgoska Szumowska é também bastante jovem; nasceu na Cracóvia em 1973; estava, portanto, com 38 anos quando Elles foi lançado. Vem de uma família ligada a texto e a cinema: o pai é um jornalista famoso, a mãe é escritora; tem um irmão diretor de cinema e uma irmã escritora.

Sua filmografia como diretora tem 11 títulos – alguns deles são documentários de curta-metragem, e outros são segmentos de filmes assinados por vários realizadores. Seu filme anterior, 33 sceny z zycia, em inglês 33 Scenes from Life, de 2008, amealhou nove prêmios.

Elles é seu quarto longa-metragem de ficção.

A moça demonstra que tem talento saindo pelo ladrão. Elles é um filme espetacular em cada quesito artesenal. Como diretora de atores, Malgoska Szumowska demonstra uma maturidade de profissional de décadas e décadas de estrada.

Joanna Kulig, que faz a polonesinha Alicja, nasceu em 1982, estudou arte dramática na Cracóvia e já tem 16 títulos em sua filmografia. Belíssima, tem imensos olhos azuis; está maravilhosa como essa garota um tanto revoltada, um tanto arisca, fechada, difícil de se chegar perto.

Anaïs Demoustier está igualmente perfeita como a jovem que não vê grande drama em se prostituir – um trabalho bem mais leve e muito mais bem pago do que os outros que poderia ter – e tem um jeitinho doce, tranquilo, de moça de boa família. Embora jovem demais (nasceu em 1987), já coleciona 38 títulos na filmografia – inclusive com o badaladíssimo diretor Christophe Honoré, A Bela Junie, e com o excelente Robert Guédiguian, As Neves do Kilimanjaro.

Mas o espetáculo, é claro, é de Juliette Binoche.

La Binoche é um fenômeno.

zzelles5Aos 47 anos, Juliette Binoche parece ter sido trabalhosamente produzida para parecer… ahn, não propriamente feia, porque isso seria impossível, mas desgastada, cansada, tensa, pouco cuidada, sem tempo para tratar de sua própria aparência – o que realça a diferença entre Anne e as garotinhas que contam para ela como são as trepadas com seus clientes, garotinhas cheias de juventude e cuidados com o visual.

Após uma noite em claro e um dia inteiro estafante, no entanto, Anne-Juliette Binoche se produz, bota um vestido elegante e – shazam! – está pronta para aparecer não nos textos, mas na capa da Elle ou de qualquer outra revista feminina.

Juliette Binoche não precisa mais de prêmios na vida. Já foi indicada para 38 prêmios, e ganhou 18, inclusive um Oscar, um Bafta e um Urso de Prata em Berlim (por O Paciente Inglês, de 1999). Mas eu diria que sua interpretação como essa triste, pobre, angustiada Anne é um dos melhores de sua carreira maravilhosa.

Cenas explícitas de sexo – mas o filme passa a anos-luz da apelação

Em 1964 – quando, portanto, o mundo e o cinema eram bem diferentes, e passava-se muito longe das explicitudes todas que viriam depois –, Billy Wilder fez um filme, Beije-me, Idiota, em que mostrava uma dona de casa que queria ter seu dia de puta, e uma puta que queria ter seu dia de dona de casa. Foi um escândalo. Uma tal de Liga Católica de Decência estigmatizou o filme com a classificação C, de condamned, condenado, a pior possível. Segundo Pauline Kael notou, Beije-me, Idiota foi recebido com os adjetivos grosseiro, obsceno, repelente.

Maior besteira. Beije-me, Idiota é um filme que pode ser visto hoje por qualquer criança.

Não se pode dizer o mesmo de Elles. Elles tem seqüências de sexo bastante explícitas (o que me faz botá-lo na tag QuasePornô). Mas não chegam a ser sequências apelativas, ao contrário de diversos outros filmes que estão nessa tag.

Nisso, Elles é o exato oposto, por exemplo, dos espanhóis Dieta Mediterrânea e Diário Proibido, que são pornôs apenas levemente disfarçados. Malgoska Szumowska mostra tudo com a mais absoluta naturalidade – a mesma naturalidade com que Charlotte e Alicja contam para Anne alguns detalhes de seu trabalho.

A corajosa seqüência em que Anne se masturba, por exemplo, me pareceu mais angustiante, dramática, triste, desesperada, do que sensual. Passa a anos-luz da apelação.

Um filme que mostra pequeninos detalhes cotidianos, como só uma mulher faria

Mas, ao fim e ao cabo, além de expor o absurdo que é o fato de as mulheres na nossa sociedade terem jornada de trabalho dupla, tripla, quádrupla, o filme não teria como moral da história o fato de que é mais fácil, mais bem pago, mais prazeroso ser prostituta do que trabalhadora-dona de casa-esposa-mãe?

zzelles6Bem, essa coisa de moral da história é complicada. Ao fim e ao cabo, é o espectador que tira suas conclusões. Em entrevistas, tanto a diretora Malgoska Szumowska quanto a co-roteirista Tine Byrckel disseram e repetiram que não pretendiam fazer qualquer julgamento moral – queriam mostrar uma realidade.

Tine Byrckel conta que a idéia original de se fazer o filme foi da produtora Marianne Slot. “A mídia fala regularmente dessas jovens mulheres que se prostituem para conseguir terminar os estudos. Esse fenômeno social a intrigava. O que isso significava para aquelas jovens? O que isso quer dizer a respeito da sociedade? A prostituição é o ato máximo de liberação para a mulher, ou um intolerável ato de submissão? Queríamos apresentar essas questões sem fazer qualquer julgamento, coisa que o cinema permite fazer mais do que qualquer outro meio de comunicação.”

A co-roteirista conta que ela e a produtora Marianne Slot haviam ficado encantadas com o filme anterior de Malgoska Szumowska, 33 Scenes from Life. “Ela tem uma habilidade única de filmar o universo em todos os seus pequeninos detalhes.”

Isso é a mais absoluta verdade. Mary e eu ficamos impressionadíssimos com a capacidade dessa jovem realizadora polonesa de mostrar os pequenos, ínfimos detalhes de que é feito nosso dia-a-dia. Quando Anne chega do supermercado e vai guardar as compras na geladeira, por exemplo, deixa cair um pedacinho de carne no chão, e tem que reabir a geladeira para guardá-lo. Por várias vezes, a porta da geladeira não fecha; Anne primeiro tenta forçar a barra, mas depois tem que observar o que é exatamente que não está permitindo que a porta se feche.

Ao jogar a roupa dos filhos dentro da máquina de lavar, Anne tem que se livrar de um boneco do homem-aranha, brinquedo do caçula, deixado ali. O boneco cai sobre ela, e Anne tem que mais uma vez jogá-lo para cima da máquina.

São exemplos desses pequeninos detalhes, que de fato só uma realizadora mulher poderia mostrar tão bem.

Elles é um filme profundamente femino, em cada detalhe.

A diretora confessa que ficou chocada com o que ouviu de jovens prostitutas

Tine Byrckel conta que ela e Malgoska Szumowska escreveram boa parte do roteiro em Varsóvia, e só mais tarde fizeram o que se costuma chamar de pesquisa de campo. Encomendaram à documentarista Hélène de Crécy uma série de entrevistas com jovens mezzo estudantes, mezzo prostitutas. “Ela ficou tão fascinada pelas histórias que fez um documentário, Escort, também produzido por Marianne Slot.”

zzelles7Malgoska Szumowska conta que, antes do início das filmagens, teve alguns encontros com jovens prostitutas. “Eu sabia, pela leitura dos jornais, que na Polônia muitas estudantes mulheres são forçadas a dormir com os donos dos quartos em que vivem. O relato de uma jovem que era bela e elegante me deixou uma impressão forte. Desde o início da entrevista, ela só falava sobre sexo, o que ela fazia e o que ela gostava de fazer. Para ser franca, fiquei chocada. Chocada com o fato de que uma moça tão bonita e inteligente tivesse prazer de dormir com homens por dinheiro. E não era apenas para obter coisas vitais como casa e comida, mas também por prazer, para ter uma vida mais agradável. Na verdade, é muito diferente do que a maioria das pessoas pensam sobre prostituição.”

Tine Byrckel diz que, ao imaginar a história de Elles, pensou em Mrs. Dalloway, de Virginia Wolf – no livro, como no filme dirigido pela holandesa Marleen Gorris, narra-se o dia na vida de uma mulher que está preparando um jantar, uma recepção para um grupo de amigos à noite.

E Malgoska Szumowska diz: “O que me interessa é a exatidão nas pequenas emoções transmitidas por gestos espontâneos. O que tento mostrar, sobretudo, é a intimidade.”

Ela não apenas tenta. Ela sabe mostrar a intimidade de seus personagens – com uma maestria rara.

Cada espectador pode concluir o que bem entender, após ver este filme impressionante, atordoante. Mas uma conclusão é inevitável: eis aí uma realizadora de imenso talento.

Anotação em dezembro de 2012

Elas/Elles

De Malgoska Szumowska, França-Alemanha-Polônia, 2011

Com Juliette Binoche (Anne),

e Anaïs Demoustier (Charlotte/Lola), Joanna Kulig (Alicja), Louis-Do de Lencquesaing (Patrick), François Civil (Florent), Pablo Beugnet (Stéphane),

Arthur Moncla (Thomas), Krystyna Janda (a mãe de Anne), Andrzej Chyra (o cliente sádico), Ali Marhyar (Saïd), Jean-Marie Binoche (o pai de Anne),

Valérie Dréville (a mãe de Charlotte), Jean-Louis Coulloc’h (o pai de Charlotte),

Argumento e roteiro Malgoska Szumowska e Tine Byrckel

Fotografia Michal Englert

Música Pawel Mykletyn

Montagem Jacek Drosio e Françoise Tourmen

Produção Slot Machine, Zentropa International Poland, Zentropa International Köln, Canal+ Polska, Zweites Deutsches Fernsehen. DVD Imovision.

Cor, 99 min

***1/2

3 Comentários

  1. Carla
    Postado em 20 março 2013 às 9:42 pm | Permalink

    Nunca tinha ouvido falar. Fiquei impressionada.

  2. Jussara
    Postado em 21 março 2013 às 8:39 pm | Permalink

    Oi, Sérgio,
    Segundo a Wikipédia o Jean-Marie Binoche é sim o pai da Juliette. Dá uma olhada: http://pt.wikipedia.org/wiki/Juliette_Binoche

    Quero muito ver o filme! Geralmente gosto bastante de filmes escritos e/ou dirigidos por mulheres, por causa da sensibilidade que só as mulheres possuem, e dos detalhes que elas mostram, como você bem cita no texto (que como sempre, me deixou com vontade de assistir).

  3. André Farias
    Postado em 21 março 2013 às 11:36 pm | Permalink

    Sérgio,
    Esse filme realmente é muito bom! A diretora foi muito inteligente ao convidar atrizes que conseguem falar com os olhos, ao utilizar muito a câmera subjetiva e praticamente nenhuma trilha sonora (A música mais significativa, aliás, é aquela interpretada pela Joanna Kulig). Esses elementos contribuem demais para provocar mal-estar no espectador. Afinal, as histórias das três são tenebrosas.

    O documentário “Child of Rage: A Story of Abuse” (1990) cria o mesmo ambiente com uma estratégia semelhante: https://www.youtube.com/watch?v=szcsT3pOuBw.

    Abraço!

    André

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  2. […] aí em meados dos anos 1990, e Marie (o papel de Juliette Binoche) é uma bela jovem de classe média, que estudou, é esforçada, tem um bom currículo. Durante as […]

  3. […] cacete, Monsieur Ménard é casado com Odile (o papel de Nathalie Baye). Têm uma filha, Justine (Anaïs Demoustier), uma aborrescente já bem grandinha, aí pelos 17 anos. Nem pai nem mãe dão muita bola para a […]

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