De Coração Aberto / À Coeur Ouvert

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Nota: ★☆☆☆

De Coração Aberto, da diretora Marion Laine, ela também autora do roteiro, é o retrato de uma folie à deux. O espectador, coitado, que não tem nada a ver com aquilo, é forçado a partilhar da loucura de um casal que se ama mas se destrói.

Mila (Juliette Binoche) e Javier (Édgar Ramírez) são belos e absolutamente apaixonados um pelo outro. Vivem juntos e trabalham juntos: são, os dois, cirurgiões cardíacos no mesmo hospital. O título do filme, De Coração Aberto, À Coeur Ouvert, não é figurativo: é explícito, absolutamente explícito. Na primeira seqüência, a diretora já submete o espectador à tortura de ver aquela explicitude toda de um peito de paciente sendo aberto. Em big close up!

Mila é uma boa cirurgiã, mas Javier, ah, Javier é demais! Ele é um bambambã, e se acha o maior bambambã que já houve na história da medicina.

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Talvez para compensar o stress de abrir peitos e pegar corações pulsantes nas mãos, Mila e Javier, embora já em idade de serem adultos, têm atitudes, comportamentos, de namorados adolescentes. Vão para boates, dançam freneticamente, enchem a cara e, de cara cheia, andam a toda de motocicleta pelas ruas à noite.

Adultos, os dois se comportam como adolescentes. A câmara também

Como namorados adolescentes, dão gritinhos, fazem brincadeirinhas tipo cuspir cerveja na cara do outro.

A câmara da diretora Marion Laine é tão adolescente quanto o casal: nervosa, nervosa.

Toda a competência extrema do cirurgião Javier e toda a alegria juvenil do casal não conseguem, no entanto, esconder um problema sério, pesado: Javier bebe demais. É alcoólatra. Antes de operar, manda ver um golão.

Ah, mas então pelo menos é um filme que encara de frente o problema sério que é o alcoolismo?

Mas que nada, como diria o jovem Jorge Ben. Qual o quê, como diria o jovem Chico. O chefe do hospital ameaça suspender Javier, mas ele nem liga. É suspenso – e passa a beber mais ainda.

Mila nunca quis ter filho, e na verdade já não está mais na hora de ter um primeiro filho – afinal, o tempo passa, a Lusitana roda, e La Binochinha já estava, em 2012, ano do lançamento do filme, com 48 anos.

Mas fica grávida. Pensa em abortar – mas Javier quer demais ter um filho, e Mila ama muito aquele filho da mãe, e pensa que ter o filho poderia fazer bem para o maridão bêbado.

E a vida do casal vai ficando um inferno cada vez pior – e, assim como Mila não tem a sanidade de se separar do marido infernal, não tive a sanidade de apertar a tecla stop, e amarguei essa porcaria até o fim de seus torturantes 87 minutos.

Peço desculpas ao eventual leitor, mas tinha que desopilar o fígado.

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A diretora e roteirista mudou o sexo e a nacionalidade do personagem

Vejo no AlloCine que a crítica francesa se dividiu em suas opiniões sobre o filme. Le Parisien deu 4 estrelas em 5; já Le Monde, Première e Télerama deram 2 estrelas em 5.

Foi o terceiro filme dirigido por Marion Laine.

O AlloCine, belo site sobre o cinema francês, informa que o filme se baseia na novela Remonter l’Orénoque (voltar ao Orinoco), o segundo romance de Mathias Énard, publicado em 2005.

Remonter l’Orénoque. Orinoco, o rio cuja bacia banha a Colômbia e principalmente a Venezuela.

No livro, quem é sul-americano é a mulher do casal, e não o homem. Segundo o AlloCine, a diretora Marion Laine ficou tão encantada com a interpretação do ator venezuelano Edgar Ramírez na minissérie Carlos, sobre o terrorista conhecido como o Chacal, que resolveu convidá-lo para o papel do cirurgião no filme que faria. Para isso, ela alterou a história original: “No livro, é a mulher que é imigrante, e então eu procurava uma atriz espanhola que falasse francês. Mas quando vi Edgar Ramírez, decidi inverter tudo por causa dele”.

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Já que havia trocado o sexo do imigrante do livro, a diretora mudou também o país de origem do médico. Em vez da Venezuela natal do ator, o personagem Javier virou argentino, e o filme é uma co-produção França-Argentina. Em vez do Orinoco, o que aparece no filme é o Rio Iguaçu, nas cataratas, mostradas do lado argentino.

Foi Edgar Ramírez que propôs o nome de Juliette Binoche à diretora. “Ele sonhava trabalhar com ela”, contou Marion Laine. “Não tivemos tempo de ensaiar antes do início das filmagens. Juliette e Edgar só se viram uma vez para os testes de câmara. Foi uma grande sorte que eles se entenderam tão bem e que eles me deram sua confiança total.”

Na minha opinião, La Binoche entrou numa gelada. Mas isso é só minha opinião, e, como eu digo sempre, ela não vale nem dois guaranis furados.

Anotação em agosto de 2013

De Coração Aberto/À Coeur Ouvert

De Marion Laine, França-Argentina, 2012

Com Juliette Binoche (Mila), Édgar Ramírez (Javier),

e Hippolyte Girardot (Marc), Amandine Dewasmes (Christelle), Aurélia Petit (Sylvie), Bernard Verley (Masson), Elsa Tauveron (a enfermeira chefe)

Roteiro Marion Laine

Baseado em novela de Mathias Énard

Fotografia Antoine Héberlé

Música Bruno Coulais

Montagem Mathilde Van de Moortel

Produção Manchester Films, Thelma Films, MK2 Productions, France Télévision. DVD Imovision.

Cor, 87 min

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