Clube dos Pervertidos / A Dirty Shame

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Nota: ★★★☆

Que John Waters é um profissional da arte de provocar, chocar, escandalizar os conservadores, reacionários, religiosos fundamentalistas, pudicos, envergonhados, os caretas, enfim, de todas as matizes, disso eu já sabia. Mas não podia imaginar que chegaria tão longe quanto chegou em A Dirty Shame, uma vergonha suja, no Brasil Clube dos Pervertidos.

A Dirty Shame é um escândalo. Shame and scandal in the family, para lembrar a cançãozinha pop dos anos 1960 gravada por um monte de gente, de Trini Lopez a Peter Tosh, do Kingston Trio a The Stylistics.

Sai fogo, literalmente, das partes pudendas de Sylvia (Tracey Ullman, foto abaixo, numa interpretação sensacional), uma até então dona de casa muito pouco afeita a sexo, e que, depois de uma batida na cabeça, se transforma numa ninfomaníaca insaciável. Sylvia sai então de casa, troca o uniforme de trabalho (ela, a mãe e o marido são donos de um armazém num bairro residencial de Baltimore, a cidade em que se passa a ação de praticamente todos os filmes de John Waters) por um vestido apertado de oncinha e vai em busca de sexo.

zzshame0As árvores viram vulvas, as ramagens viram falos eretos.

Uma senhora de grandes óculos e aparência educada revela-se uma masturbadora crônica, e exercita-se num telefone público na rua, enforcando-se com o fio do aparelho, para aumentar o prazer com sufocação.

Um funcionário do armazém revela-se um tarado por lixo; lambe o chão, lambe o pneu dos carros.

Um operário usa uma daquelas máquinas de quebrar concreto como se fosse o seu falo.

Três homens gordos, peludos, foram uma família de gays, chamam a si próprios de Mamãe Ursa, Papai Urso e Bebê Urso, e ficam se pegando pela rua.

Lésbicas em grupo atacam as mulheres que passam à sua frente.

Uma senhora de proporções avantajadas (John Waters adora personagens gordos) mostra os peitos grandes na rua para um espantado Vaughn (Chris Isaak, na foto abaixo), o marido da antes sisuda Sylvia.

A Dirty ShameMas nem de longe os peitos da senhora obesa chegam perto dos peitões de Caprice (a bela Selma Blair), a filha rebelde do casal Vaughn e Sylvia.

Adolescente ainda, Caprice havia feito uma operação plástica e transformado os seios em uma coisa horrorosa, gigantesca, amazônica – para John Waters, exagero pouco é bobagem. Adotara o nome artístico de Ursula, fizera muita dança de poste e striptease em bares barra-pesada. Acabara sendo presa por atentado violento ao pudor e por dirigir embriagada. Estava agora em prisão domiciliar – os pais, até então caretas, a trancafiavam num grande quarto no segundo andar da casa.

A ausência de Ursula era pranteada por um grande fã-clube, liderado por um sujeito cujo apelido era Fat Fuck Frank – algo tipo Frank Gordo Fodedor.

Depois da batida na cabeça, e da transformação de senhora de família que não gostava de sexo em piranha ninfo, Sylvia revê seus conceitos sobre a filha que antes considerava maluca – e saem juntas as duas para a putaria. Enquanto Caprice agora de novo Ursula tirava a roupa para um monte de fãs babões, Sylvia se deixa chupar – no meio do bar – por um negão, epa, perdão, um afrodescendente de estatura avantajada.

A súbita e violenta transformação de Sylvia tem a ver com Ray Ray (Johnny Knoxville), um sujeito que trabalha como dono de garagem e motorista de caminhão de reboque como fachada para sua verdadeira missão na terra: a de reunir 12 apóstolos e, juntos, descobrirem uma nova forma de orgasmo.

Ray Ray estava dirigindo seu caminhão de reboque pelas ruas de Baltimore, enquanto uma de suas discípulas o chupava, quando vê o momento em que Sylvia leva a bordoada na cabeça. Ray Ray descobre no ato que Sylvia será a 12ª de seu grupo de apóstolos.

Nas ruas, bárbaros enfrentamentos entre pessoas anti-sexo e taradões

Lá pelas tantas, no meio da zorra, Sylvia agora piranha e Caprice tornada de novo Ursula levam nova pancada na cabeça cada uma; Sylvia volta a ser a senhora que não quer saber de sexo, e Ursula volta a ser Caprice, uma comportada moça que, com a ajuda de Prozac, arrepende-se de sua vida de exageros e decide fazer nova operação para tirar o pentanzil.

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E lá ai toda a família – chefiada pela matriarca Big Ethel (Suzanne Shepherd), uma anti-sexo xiita – para uma reunião dos Viciados em Sexo Anônimos.

Na reunião, Paige (Patricia Hearst), uma jovem senhora vestida como executiva, está falando na tribuna, contando que é viciada em sexo por esfregação : – “Eu me esfrego em pessoas inocentes”.

Big Ethel vinha organizando no bairro uma campanha pela moralidade.

Os moralistas chefiados por Big Ethel terão enfrentamentos bárbaros nas ruas com os taradões e taradonas.

Uma gigantesca gozação dos caretas – e da sociedade em que tudo vira espetáculo midiático

Besteira? Comedinha imbecil? Comedinha que na verdade é um pornô disfarçado? Coisa de cineasta depravado, safado, sacana?

Claro, muita gente vai achar isso. É o direito delas.

Me pareceu uma deliciosa sátira sobre a repressão ao sexo alegre e livre, sobre todos os tipos de repressão a comportamentos que não são iguais ao da maioria. Uma grande gozação sobre os fundamentalistas todos.

Mais ainda: me pareceu uma grande gozação a toda sociedade americana, eternamente dividida ao meio entre democratas x republicanos, pró-direito ao aborto x religiosos virulentamente anti-aborto, contra a pena de morte x a favor da pena de morte, favoráveis às minorias x xenófobos, a favor da união gay x contrários à união gay.

zzshame4Todos esses grupos, os pró e os contra qualquer tipo de opção, estão sempre medindo força nas ruas, diante das clínicas de aborto, diante das prisões onde são executados presos, diante da Suprema Corte quando esta tem que decidir sobre algum assunto controverso, polêmico.

Os enfrentamentos viram um festival midiático – e é para zombar de tudo isso que A Dirty Shame está aí.

Mas Mary, sempre mais arguta do que eu, fez um raciocínio melhor ainda. Além de tudo isso que acabo de citar, o filme exagerado de John Waters pode ser visto como uma demonstração de como as pessoas, nesta nossa sociedade midiática, podem ser manipuladas por líderes das mais variadas causas. De como as pessoas passam depressa demais de uma crença para outra, completamente diferente.

Os fiéis defensores da moralidade podem de repente virar viciados em sexo, tarados. E vice-versa.

Tracey Ullman está excelente, cheia de caras e bocas, na versão assexuada e na taradona

Algumas informações sobre os atores.

Posso estar enganado, mas me parece que Tracey Ullman não é muito conhecida do público brasileiro. No entanto, é uma figura de grande sucesso no cinema e na TV nos Estados Unidos. De 1987 a 1990, estrelou na TV americana The Tracey Ullman Show, um seriado cômico que teve 14 prêmios – inclusive um Globo de Ouro como melhor atriz de série musical ou cômica – e 25 outras indicações. Ela mesma já ganhou 31 prêmios, fora 27 outras indicações. Trabalhou duas vezes com Woody Allen: em Tiros na Broadway/Bullets over Broadway (1994) e Trapaceiros/Small Time Crooks (2000).

As caras e bocas que ela faz – tanto na versão assexuada quanto na versão taradona – são absolutamente deliciosas.

Chris Isaak, que faz o maridão de Sylvia, é um simpático ator, com 18 filmes e/ou séries de TV no currículo, mas trabalha diante das câmaras como segundo emprego. O primeiro é como cantor de um country moderno e suave – um bom cantor. Suas músicas já foram usadas em mais de 60 filmes.

Selma Blair é uma atriz que tem talento e beleza. Não reparei muito nela em Banquete de Amor/Feast of Love, de Robert Benton (2007), mas ela me deixou encantado em Segunda Chance para o Amor/Purple Violets, de Edward Burns (também de 2007). E aí me permito transcrever o que escrevi depois de ver o filme de Burns:

“São quatro personagens centrais, mas a principal protagonista é Patti – e até se tem a impressão de que o autor e diretor Edward Burns estava apaixonado por Selma Blair, a atriz que faz Patti. A câmara passeia longamente pelo rosto de Selma Blair-Patti. Acaricia seu rosto, sua expressão em geral pensativa, ensimesmada, tristonha, melancólica. A câmara de Edward Burns acaricia tanto o rosto de Selma Blair-Patti que ele fica lindo. O que é fascinante, porque Selma Blair está longe de ter aquela beleza acachapante de uma Grace Kelly, ou Michelle Pfeiffer, ou de sua quase xará Salma Hayek, só para dar alguns exemplos de diferentes gerações. Seu rosto tem aquela beleza forte, que parece vir de dentro, da personalidade – muito longe da beleza óbvia de traços perfeitos de deusa grega.”

Em A Dirty Shame, ela não mostra essa beleza – até porque é difícil olhar para o rosto dela tendo aqueles mamutianos peitos logo abaixo.

Johnny Knoxville (na foto acima), que faz Ray Ray, o profeta dos viciados em sexo, é roteirista e produtor, além de ator. Como ator, tem 30 filmes no currículo, inclusive dois que já estão no 50 Anos de Filmes, embora eu não me lembrasse nem da cara nem do nome dele: Um Grande Problema/Big Trouble (2002) e Parceiros Até o Fim/Grand Theft Parsons (2003).

Não reconheci Patricia Hearst (na foto abaixo) ao ver o filme. Só fui dar com o nome dela depois, ao ver os créditos no IMDb. Ela interpreta Paige, a tal mulher vestida como executiva viciada em sexo tipo esfregação.

zzshame8Pensei em dizer que a vida de Patricia Hearst daria um filme de trama sensacional – mas me lembrei que na verdade já houve um filme sobre sua vida. A cinebiografia Patty Hearst foi dirigido por Paul Schrader, o roteirista de Taxi Driver (conferir), em 1988, com a maravilhosa Natasha Richardson no papel central.

Os mais jovens talvez não conheçam a história de Patty Hearst. É uma história fantástica. A moça é neta de William Randolph Hearst, o maior magnata da imprensa americana da primeira metade do século XX – o homem que, entre tantas outras coisas, serviu de modelo para o personagem título de Cidadão Kane de Orson Welles, e esteve envolvido no episódio que resultou na morte, jamais devidamente esclarecida, de Tom Ince, Thomas Harper Ince, um dos pioneiros do cinema americano. (Esse episódio é o tema de O Miado do Gato/The Cat’s Meow, que Peter Bodgdanovich dirigiu em 2001.)

Patty Hearst, neta de bilionário, estudava na University of San Francisco quando, em 1974, foi sequestrada por um grupo fanático de nome Symbionese Liberation Army, Exército de Libertação Simbionesa – seja lá o que isso queira dizer, se é que queria dizer alguma coisa. Ficou em poder dos loucos durante dois meses – e virou ela mesma, depois do que parece ter sido um duro processo de lavagem cerebral, uma “guerrilheira” do SLA. Acabou sendo presa, após ter participado de diversos assaltos a mão armada.

Em 1982, lançou sua autobiografia, Every Secret Thing, que foi a base do roteiro da cinebiografia dirigida por Paul Schrader.

Em 1990, estreou como atriz, em um filme dirigido por John Waters, é claro – Cry-Baby. Teve pequena participação em outro filme do diretor doidão, Mamãe é de Morte/Serial Mom (1994), e voltou a trabalhar com Waters em Cecil Bem Demente/Cecil B. DeMented (2000).

Como diria Joe Giddeon, o coreográfico-cineasta de All That Jazz: – “It’s showtime, folks!”

Maltin diz que parece coisa de adolescente. Eu acho um filme deliciosamente engraçado

Leonard Maltin deu 2.5 estrelas em 4 para A Dirty Shame. Diz que o filme de Waters, que parece de outro mundo, mostra um mundo de história em quadrinhos que virou maníaco sexual. “Ocasionalmente engraçado, na maior parte do tempo tolo, parece uma invenção de um garoto pré-adolescente que acabou de aprender seu primeiro palavrão.”

Opinião é opinião.

zzshame6E, de fato, A Dirty Shame pode até parecer algo próximo desses besteróis sobre sexo visto por e para adolescentes tão comuns nos últimos anos, tipo American Pie e suas diversas seqüências.

É o risco que correm os filmes que, ao gozar – ou denunciar – uma determinada situação usam alguns dos ingredientes daquilo que quer combater.

Mas, na minha opinião, há um Amazonas, um Grand Canyon entre os besteróis sobre sexo tipo American Pie e este A Dirty Shame.

John Waters é um iconoclasta, um gozador. Um mestre da arte de provocar, chocar, escandalizar.

E, para o espectador que não seja conservador, reacionário, religioso fundamentalista, pudico, envergonhado, careta, A Dirty Shame é engraçadíssimo.

Anotação em abril de 2013

Clube dos Pervertidos/A Dirty Shame

De John Waters, EUA, 2004

Com Tracey Ullman (Sylvia), Johnny Knoxville (Ray Ray), Selma Blair (Caprice-Ursula), Chris Isaak (Vaughn), Suzanne Shepherd (Big Ethel), Mink Stole (Marge, a assexuada), Patricia Hearst (Paige), Jackie Hoffman (Dora), Nick Noble (garoto do papel esquisito), Lucy Newman-Williams (Yuppie em recuperação), Scott Morgan (Yuppie em recuperação), Wes Johnson (Frank Gordo Fodedor), David A. Dunham (Mamãe Ursa), Dave Moretti (Papai Urso),  Jeffrey Auerbach (Bebê Urso), Jewel Orem (Loose Linda)

Argumento e roteiro John Waters

Fotografia Steve Gainer

Música George S. Clinton

Montagem Jeffrey Wolf

Produção Fine Line Features,

This Is That Productions,

Killer Films/John Wells, City Lights Pictures

Cor, 89 min

***

Um Comentário

  1. Joao Paulo
    Postado em 10 julho 2013 às 8:20 am | Permalink

    John Walters é meu diretor predileto.
    Diversão garantida!

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Mamãe é de Morte / Serial Mom em 2 setembro 2014 às 1:22 pm

    […] John Waters é um realizador totalmente à parte de todos os demais tipos de cinema americano. É absolutamente único, singular. É punk, como sucintamente o define o Dicionário de Jean Tulard; é o rei do trash, do underground, como adiciona Rubens Ewald Filho; seu humor é agressivo, escatológico, fedido; ele ri da violência, do sexo, do medo, de tudo. Uma figura […]

  2. […] – enquanto via Earth Girls Are Easy, me ocorreu que o filme tem um tanto a ver com o estilo John Waters, talvez o cineasta americano mais iconoclasta que já […]

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