Clamor do Sexo / Splendor in the Grass

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Nota: ★★★★

Um titulo original tão suave, um título em português tão bombástico, quase apelativo. Que gigantesca distância há entre Splendor in the Grass e Clamor do Sexo.

Splendor in the Grass – que o grande Elia Kazan lançou em 1961, um dos cinco últimos filmes de sua carreira – tem seu título tirado de um poema do inglês William Wordsworth (1770-1850), “Ode: Intimations of Immortality”:

“Though nothing can bring back the hour of splendour in the grass, / of glory in the flower, / we will grieve not, / rather find strength in what remains behind.”

Na tradução de Paulo Vizioli, no livro bilíngue Recordações da Primeira Infância (editora Mandacaru, 1988), é:

“Mesmo que nada nos devolva o instante / De esplendor para a relva e glória para a flor, / No que restou vamos achar, / Sem mágoa, um poder similar.”

Numa tradução muito menos bela, porém mais literal, seria:

“Embora nada possa trazer de volta a hora do esplendor na relva, da glória na flor, não lamentaremos, e encontraremos força com o que fica para trás.”

Tradução traição. De Splendor in the Grass para Clamor do Sexo

Como escreveu Joaquim Alves de Aguiar: “Parece nome de fita pornô, daquelas produzidas na famosa Boca do Lixo paulistana dos anos 70, ou dessas que hoje em dia abundam nas prateleiras destinadas à pornografia das videolocadoras”.

(Encontrei esse texto de Joaquim Alves de Aguiar quando procurei na internet uma tradução poética dos versos em inglês; é um erudito estudo sobre o filme, publicado no número 48 da Revista USP, com data de dezembro de 2000 a fevereiro de 2001.

No tempo em que se exigia das jovens a virgindade

zzsplendor2É exatamente isso: está absurdamente distante do suave, poético titulo original, e parece nome de filme pornô. Mas não está totalmente errado.

O clamor do sexo, o tesão é uma parte importante da história criada pelo dramaturgo, novelista e roteirista William Inge (1913-1973). Apenas uma parte, é verdade, e então o título escolhido pelos exibidores brasileiros é apelativo e reducionista – mas tem algum sentido.

A ação de Splendor in the Grass se passa – o filme nos informa isso com um letreiro logo após a primeira sequência – no Sudeste de Kansas, em 1928. Poderia se passar em qualquer lugar interiorano de qualquer país ocidental, até os anos 1960, 1970. Na verdade, não só em qualquer pequena cidade: poderia perfeitamente se passar em qualquer cidade brasileira, argentina, italiana, em que os pais criavam os filhos e as filhas ensinando que as moças decentes não poderiam, de forma alguma, ter relações sexuais antes do casamento.

Em suma: aquela coisa asquerosa, nojenta, imbecil, do tabu da virgindade da mulher.

Tanta preocupação, tanta energia dispendida, tanto drama por uma bobagem, uma tolice.

“Os rapazes querem uma boa garota como esposa”

Na primeira sequência do filme, um casal se beija dentro de um carro, parado junto de uma cachoeira. São dois jovens belos, extremamente belos.

Este é o primeiro diálogo que ouvimos (transcrevo como está no IMDb):

Deanie (o papel de Natalie Wood): – “Bud…”

Bud (o papel de Warren Beatty): – “Deanie, por favor…”

Deanie: – “Bud, eu tenho medo. Oh, Bud… não, Bud.”

Bud: – “Deanie…”

Deanie: – “Não… Nós não devemos, Bud… não… não”.

Ele sai do carro.

Deanie: – “Bud, não fique bravo.”

Bud: – “É melhor levar você para casa.”

zzsplendor3A mãe de Deanie, Mrs. Loomis (Audrey Christie), está bem acordada quando Bud deixa Deanie em frente de casa. Ela ouve o diálogo dos dois, observa os dois pela janela. No momento em que a filha está para entrar em casa, sobe correndo as escadas para não ser vista. Em seguida desce de novo, como se estivesse acordando naquele momento. Puxa conversa. Menciona as ações que o pai dela comprou, e que não param de se valorizar. Pergunta se Bud não comentou com ela sobre a alta das ações. E aí, tendo chegado ao assunto Bud como quem não quisesse nada, pergunta o que os dois tinham ficado fazendo até aquela hora.

Deanie mente que estavam estudando.

A mãe segue Deanie até o quarto da moça. E aí abre o verbo, diz o que vinha querendo dizer:

– “Os rapazes não aeitam uma garota que faz tudo o que eles querem. Os rapazes querem uma boa garota como esposa. Wilma Dean, você e Bud não foram longe demais ainda, foram?”

Uma sociedade apegada aos bens materiais e a uma moral rígida, puritana

Ao chegar à sua casa, Bud tem uma conversa algo parecida com o pai, Ace Stamper (Pat Hingle). Ace fala muito, e então fala com Bud de diversos temas, inclusive sua firme determinação de que o filho vá para a Universidade de Yale, mas, no meio da conversa, pergunta se ele está saindo com a filha dos Loomis. Diz que ela é uma bela moça, lembra que cresceu junto com Del Loomis (Fred Stewart), que não tem nada contra eles, contra o fato de eles serem pobres.

– “Mas você não está fazendo nada que possa te envergonhar, não é? Se acontecer qualquer coisa, você teria de se casar com ela.”

zzsplendor5Nestas duas sequências, a da casa dos Loomis e a da casa dos Stamper, o roteirista William Inge e o cineasta Elia Kazan já nos dão um claro retrato daquelas pessoas, daquele tipo de sociedade, de seus valores.

Os pais da garota Deanie são classe média baixa; Del tem um pequeno armazém, junto da casa em que moram – uma casa espaçosa, confortável, mas simples, mal cuidada, precisando de uma pintura. A sra. Loomis é falante, até demais; Del, o marido, é extremamente mais calado, reservado.

Os pais do garoto Bud são muito ricos, dos mais ricos dos habitantes da pequena cidade da qual nunca se fala o nome. Ace Stamper tinha tido a sorte de achar petróleo em suas terras; sonhava com a possibilidade de fundir sua pequena empresa com uma das grandes companhias “lá do Leste”. Ace é daquele tipo de pai e marido ditatorial: só ele fala, os outros escutam; ele mesmo não escuta o que os outros dizem, conforme dirá um personagem secundário quando a narrativa vai se aproximando do fim. Mrs. Stamper (Joanna Roos) é aquele tipo de mulher absolutamente subjugada pelo marido dominador.

Como tantos pais – da vida real e da ficção – que constroem fortuna, Ace Stamper exige que Bud se prepare para herdar sua emergente empresa de petróleo. O fato de que tudo o que o rapaz quer na vida é ser fazendeiro não importa a mínima.

Quanto a Bud, além de bonito e bom no futebol americano, é também rico. O melhor partido da cidade, como as mães diziam naquela época – e até hoje, provavelmente.

Todas as garotas da escola tinham uma ponta de inveja de Deanie – por ela ser a mais bela de todas, e por namorar Bud.

Proibido para menores de 18 anos na época, o filme hoje pode ser visto por todos

A menção feita à alta das ações bem no início da narrativa não é, evidentemente, gratuita. Assim como não é gratuita a escolha do ano em que a ação começa, 1928. Os personagens, é claro, não sabiam, mas os espectadores estão cansados de saber: em 1929 haveria a quebra da Bolsa de Nova York e o início da Grande Depressão. A grande crise econômica terá efeitos fortes, naturalmente, sobre a vida dos personagens.

Tirando esse detalhe que é local, específico dos Estados Unidos, a questão da virgindade das moças que o filme aborda é de fato universal.

zzsplendor7Era assim quando eu era adolescente, em Belo Horizonte, nos anos 60. No quarto ano do ginásio, quando estávamos todos com 14 ou 15 anos, havia uma única menina na nossa turma que não era virgem. O fato era sabido por todos, ou quase todos, da turma. Não que houvesse menosprezo por ela por causa disso, no nosso caso específico; ao contrário; todos nós, homens e mulheres, a respeitávamos como uma menina corajosa, pra frente, que tinha tido a coragem de fazer o que era absolutamente proibido.

Os namoros eram bastante parecidos com o de Bud e Deanie: muito beijo, amasso, no máximo bolinação – sexo, de jeito nenhum.

Essa besteira de tabu de virgindade só começaria a cair no final dos anos 60, início dos 70, depois da grande revolução comportamental em todo o mundo ocidental.

Não vi Splendor in the Grass quando era adolescente em Belo Horizonte; li sobre o filme nas revistas da época, vi as fotos, vi os cartazes do lado de fora do cinema, sabia da história, mas a censura era 18 anos. Fora de questão.

Hoje, o DVD – lançado no Brasil pela Lume Filmes – traz a censura indicativa de proibido para menores de 10 anos.

“Estou tão fresca e virginal quanto no dia em que nasci, mãe!”

Em 1961, o Código Hays, o código de autocensura dos grandes estúdios de Hollywood, ainda estava em vigor, embora muitos filmes começassem a desobedecê-lo. Anatomia de um Crime, o belo clássico de Otto Preminger de 1959, foi na época considerado ousadíssimo; pela primeira vez pronunciou-se num filme americano a palavra panties, calcinha. E o austro-húngaro Preminger não se fez de rogado: a palavra panties é pronunciada diversas vezes, no julgamento do crime do título.

Segundo o IMDb, o beijo apaixonado de Natalie Wood e Warren Beatty em Splendor in the Grass foi o primeiro French kiss mostrado em um filme de Hollywood. French kiss é beijo de língua – que hoje as novelas das 6 da tarde mostram diariamente.

zzsplendor4Transcrevo outra anotação do IMDb – vendo o peixe como ele é vendido no grande site enciclopédico:

“O filme incluía uma cena em que Wilma Dean Loomis toma um banho enquanto discute com a mãe. A briga fica tão intensa que Wilma pula fora da banheira e corre nua pelo corredor até seu quarto, quando a câmara corta para um close-up de suas pernas nuas batendo histericamente no cobertor. Os censores de Hollywood e a Legião Católica da Decência se opuseram à cena do corredor, achando que a nudez não era admissível. Consequentemente, o diretor Elia Kazan tirou o trecho, deixando um pulo abrupto da banheira para a cama.”

Essa sequência acontece quando o filme – de 124 minutos – já vai lá pela metade, ou pouco mais, mas creio que não é um spoiler transcrever uma das frases que Deanie grita para a mãe:

– “Não, mãe! Eu não fui estragada. Não fui estragada, mãe! Estou tão fresca e virginal quanto no dia em que nasci, mãe!”

Aos 22 e 23 anos, Natalie e Beatty interpretam garotos de 17, 18

Há uma questão da qual é impossível escapar quando se fala de Splendor in the Grass: Natalie Wood estava com 22 anos e Warren Beatty com 23, na época das filmagens. E eles interpretam adolescentes, que estariam com uns 17 e 18 anos, respectivamente.

Foi a estréia de Warren Beatty no cinema. O irmão mais novo de Shirley MacLaine já havia trabalhado na TV, mas este foi seu primeiro filme. Nos créditos iniciais aparece “Introducing Warren Beatty”.

Aos 22 anos, Natalie Wood era uma absoluta veterana. Nascida em 1938, em San Francisco, filha de imigrantes russos, Natalia Nikolaevna Zakharenko apareceu pela primeira vez na tela aos cinco anos, em 1943, ainda sem ter seu nome nos créditos. Em 1945, aos sete anos, portanto, já aparecia como Natalie Wood em O Amanhã é Eterno/Tomorrow is Forever, com Claudette Colbert e Orson Welles. Em 1956, quando estava com 18 e interpretou a sobrinha do personagem de John Wayne em Rastros de Ódio/The Searchers, já tinha duas dezenas de títulos na filmografia – inclusive o icônico, emblemático Juventude Transviada/Rebel Without a Cause, de Nicholas Ray, em que interpreta a namoradinha de James Dean.

zzsplendor99É bem verdade que a ação de Splendor in the Grass abrange um período de uns três anos, talvez até um pouco mais. Portanto, lá pelo final da narrativa, Deanie e Bud estariam bem próximos da idade de seus intérpretes. Se Elia Kazan tivesse escolhido atores adolescentes, eles pareceriam estranhos no final do filme.

Mas não dá para fugir: é estranho ver Natalie Wood e Warren Beatty interpretando garotos na escola – mesmo eles sendo bastante jovens.

Para o público americano, acostumado a ver Natalie Wood desde sempre na tela, então, deve ter sido muito esquisito.

Causa estranheza até hoje.

É bem provável que Kazan tenha preferido correr o risco desse estranhamento em troca de ter atores experimentados, de talento comprovado.

E a verdade é que estão excelentes os dois protagonistas, Natalie Wood e Warren Beatty. Suas atuações são maravilhosas – eles carregam o espectador para dentro de suas tragédias.

Todo o elenco está muito bem. Não era de se esperar nada diferente, já que Elia Kazan, formado no teatro, um dos criadores do lendário Actors Studio, era exímio diretor de atores, um dos melhores do cinema.

Para não ficar flagrante demais o fato de que seus atores principais eram mais velhos do que os personagens, Kazan decidiu – é o que diz o IMDb – que os demais atores que interpretariam os colegas de escola de Deanie e Bud teriam que estar na mesma faixa etária de Natalie e Beatty. Entre estes aparece Sandy Dennis, no papel de Kay, colega de classe de Deanie. Foi a estréia da jovem atriz que em 1966 contracenaria com o tempestuoso casal Liz Taylor-Richard Burton em Quem Tem Medo de Virginia Wolf.

Além de Warren Beatty e Sandy Dennis, três outros atores estrearam no cinema em Splendor in the Grass: Phyllis Diller, Marla Adams e Eugene Roche.

É uma tradição de Elia Kazan introduzir caras novas no cinema. James Dean fez seu primeiro filme – Vidas Amargas/East of Eden – com o diretor. O segundo filme em que Marlon Brando apareceu também é uma obra de Kazan – Uma Rua Chamada Pecado/A Streetcar Named Desire, a peça de Tennessee Williams que o ator havia estrelado na Broadway, sob a batuta do diretor.

A filha rebelde do ricaço é interpretada por Barbara Loden, atriz de vida atribulada

Uma atriz que impressiona de maneira especial em Splendor in the Grass é Barbara Loden (na foto abaixo). Ela interpreta Ginny Stamper, a irmã mais velha de Bud, uma jovem rebelde, anticonvencional, muito chegada à bebida e a namoros, inclusive com homens casados, com uma tendência forte à autodestruição. É motivo das fofocas de todas as mães da cidadezinha, e de profundo desgosto para o pai, que a detesta, tem vergonha de seu comportamento mas não consegue domá-la de maneira alguma.

zzsplendor999Filha de homem muito rico que tem comportamento errático, fora da linha, do padrão. Essa é uma figura muito comum na ficção americana. Luz Benedict II (Carroll Baker), filha do casal interpretado por Rock Hudson e Elizabeth Taylor em Assim Caminha a Humanidade/Giant, é um pouco assim. Marylee Hadley (Dorothy Malone), a filha do milionário interpretado por Robert Keith em Palavras ao Vento/Written on the Wind, é exatamente como Ginny.

A atriz Barbara Loden parece ter tido uma vida atribulada e trágica como a de Ginny, seu personagem. Nasceu em 1932, no interior da Carolina do Norte; belíssima, virou modelo bem cedo e teve carreira de sucesso. Estudou teatro em Nova York nos anos 1950 e suas atuações na Broadway chamaram a atenção de Elia Kazan, que deu a ela um pequeno papel em Rio Violento/Wild River, o drama social que o diretor havia feito um ano antes de Splendor in the Grass.

Depois deste filme aqui, Kazan a colocou como atriz em peças encenadas por sua companhia teatral, e Barbara Loden ganhou um Tony, o Oscar da Broadway. Em 1968, casou-se no papel com o veterano diretor; tinha 36 anos e ele, 58.

Em 1970, ela lançou Wanda, um filme totalmente independente dos estúdios, escrito, dirigido e estrelado por ela, que ganhou o prêmio da crítica no festival de Veneza. Aparentemente, Kazan não a incentivou a prosseguir na carreira de diretora. Barbara Loden morreu prematuramente, aos 48 anos, em 1980, de câncer de mama.

Hoje pouco conhecido, William Inge fez peças e roteiros de grande sucesso

É necessário fazer um registro, ainda que rápido, sobre William Inge. Embora pouco lembrado hoje, Inge, nascido no interior do Kansas, assim como os personagens de Splendor in the Grass, foi o autor de diversas peças de teatro que fizeram grande sucesso nos anos 1950 e 1960, e foram transpostas para o cinema por diretores importantes e com grandes atores, muitas vezes com roteiro escrito pelo próprio autor.

São dele as peças e/ou os roteiros de A Cruz da Minha Vida/Come Back Little Sheba, com Burt Lancaster (1952), Férias de Amor/Picnic, com William Holden e Kim Novak (1955), Nunca Fui Santa/Bus Stop, com Marilyn Monroe (1956), Sombras no Fim da Escada/The Dark at the Top of the Stairs, com Angela Lansbury e Shirley Knight (1960) e O Anjo Violento/All Fall Down, com Warren Beatty, Eva-Marie Saint e Karl Malden (1962).

zzsplendor6William Inge ganhou o Oscar de melhor roteiro original por Splendor in the Grass.

Natalie Wood foi indicada ao Oscar, ao Globo e Ouro e ao Bafta de melhor atriz por sua belíssima interpretação de Deanie; não levou os prêmios.

Detalhezinho que vejo agora na crítica de Pauline Kael: o próprio William Inge faz uma pequena ponta no filme, como o pastor que pronuncia um sermão sobre bens materiais versus espiritualidade. O nome dele não aparece nos créditos como ator.

Dame Pauline Kael diz que o filme é histérico. Histérico é o texto dela

Pauline Kael diz que William Inge “escreveu o roteiro barroco, tipo Freud para principiantes, sobre as frustrações da sexualidade adolescente”, e “Elia Kazan o apimentou”. “O filme faz uma defesa histérica do amor juvenil, e essa histeria parece parte integral de seus momentos de força emocional, humor e beleza. Natalie Wood e Warren Beatty são namorados de escola cujos pais julgam muito jovens para casar-se.”

E mais adiante: “O filme não sugere que os adolescentes têm direito a experiências sexuais – simplesmente ataca os adultos corruptos por não colocarem o amor acima de tudo. É o velho peixe vendido em nova embalagem, com muita gritaria, uma sequência de curra, e apalpos nos rebolantes bumbunzinhos das colegiais; Natalie Wood tem talvez o derrière mais ativo desde Clara Bow. O elenco extraordinário inclui Sandy Dennis, Barbara Loden, (…).”

Todo mundo tem direito à sua opinião, é claro, e, já que é assim, minha opinião é de que Dame Kael escreveu uma crítica um tanto histérica.

É óbvio que o filme sugere que os adolescentes têm direito a experiências sexuais. E o filme ataca, sim, com toda razão, os adultos daquela sociedade repressora, careta, puritana, rígida demais.

“Um país em crise, cujo sistema de valores começa a ser abalado”

É chocante a diferença entre o que diz a grande dama da crítica americana e o que diz o Guide des Films do mestre Jean Tulard. Aí vai a segunda parte (a primeira, como sempre, é uma sinopse) do longo verbete do Guide sobre La Fièvre dans le Sang. Vai sem aspas, para me desobrigar a ser literal:

zzsplendor8Como em cada um de seus filmes, Elia Kazan persegue a longa busca, apaixonada e angustiante, do país que o acolheu, os Estados Unidos. Splendor in the Grass (magnífico título original, homenagem ao poeta Wordsworth), cujo roteiro se deve ao grande escritor William Inge, se situa com precisão no tempo (1929, na maior parte da ação) e no espaço (uma pequena cidade do Kansas). Prolongando À l’Est d’Eden (no Brasil Vidas Amargas, já citado acima) na exposição dos malfeitos do puritanismo herdado dos Pais Fundadores, La Fièvre dans le Sang apresenta também um país em crise, cujo sistema de valores (capitalismo, fé no trabalho recompensado pelos dólares, a todo-poderosa figura paterna) começa a ser abalado. O estado de “crise” é a característica dos personagens deste filme exacerbado e febril, em que os seres, abalados por pressões antagônicas, submergem, para escapar (Deanie, Bud) ou para naufragar definitivamente (Ace, Ginny). Kazan fica atento aos impulsos vitais ou destrutivos dos personagens que exibe, privilegiando as sensações, os sentimentos, as pulsões, os gritos os risos, os choros. Natalie Wood e Warren Beatty resplandecem de juventude, mas, através deles, Kazan nos mostra que não é sempre fácil ter 20 anos, sobretudo quando a sociedade pesa forte sobre nossos ombros.

Uau! Que abismo entre Pauline Kael e o guia de Jean Tulard! É, são os tais seis mil anos de civilização a mais.

Mas, apesar dos seis mil anos de civilização a mais, os franceses pisaram um pouco no tomate no título, A Febre no Sangue – sendo que fièvre, além de febre, significa também excitação, ardor, paixão. Melhor fizeram os exibidores espanhóis e portugueses, que chamaram o filme pelo que ele é: Esplendor en la hierba, Esplendor na Relva.

A partir daqui, um registro absolutamente pessoal. E que contém spoiler!

Este texto já está absurdamente grande, mas ainda quero fazer mais um registro.

zzsplendor9Minhas anotações mostram que antes só havia visto Splendor in the Grass uma única vez, em 1974, recém-casado com a mãe da minha filha; por uma dessas coincidências da vida, Suely tinha uma beleza esplêndida que fazia lembrar muito a da jovem Natalie Wood.

Ao rever o filme agora, ele me fez lembrar do final de Les Parapluies de Cherbourg, que vi pela primeira vez em fevereiro de 1966, de passagem por São Paulo rumo a Curitiba, onde viveria por dois anos. Estava sendo retirado de Belo Horizonte por decisão da família, e, com 16 anos, não poderia lutar contra isso, mas saía da cidade em que passei a infância e o início da adolescência com o gosto de que estava deixando para trás o grande amor da vida. Ficou gravado na minha memória que, depois de ver Parapluies, escrevi no diário de adolescente algo do tipo “obrigado, Jacques Demy, seu filho da puta, por mostrar que o grande amor acaba”. Algo assim; não tenho coragem de ir ali pegar os caderninhos com letra adolescente para checar a frase exata, mas era algo assim.

Algum tempo mais tarde reencontraria a menina que na época considerava o grande amor da vida. Foi um reencontro de alguma maneira um tanto parecido com o dos personagens de Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo em Parapluies, e com o dos personagens de Natalie Wood e Warren Beatty em Splendor in the Grass.

O grande amor acaba, e a consciência disso é terrível quando somos jovens demais.

O bom é que depois surgem outros grandes amores.

Anotação em setembro de 2013

Clamor do Sexo/Splendor in the Grass

De Elia Kazan, EUA, 1961.

Com Natalie Wood (Wilma Dean Loomis, Deanie), Warren Beatty (Bud Stamper),

e Pat Hingle (Ace Stamper), Audrey Christie (Mrs. Loomis), Fred Stewart (Del Loomis), Barbara Loden (Ginny Stamper), Joanna Roos (Mrs. Stamper), Zohra Lampert (Angelina), John McGovern (Doc Smiley), Jan Norris (Juanita Howard), Martine Bartlett (Miss Metcalf, a professora),

Gary Lockwood (Allen Tuttle, Toots), Sandy Dennis (Kay), Crystal Field (Hazel), Marla Adams (June), Lynn Loring (Carolyn), Ivor Francis (Dr. Judd, o psiquiatra), William Inge (Reverendo Whitman)

Argumento e roteiro William Inge

Fotografia Boris Kaufman

Música David Amram

Montagem Gene Milford

Produção Elia Kazan, Newton Productions, Warner Bros. DVD Lume Filmes.

Cor, 124 min

R, ****

Título em Portugal: Esplendor na Relva. Na Espanha: Esplendor en la hierba. Na França: La fièvre dans le sang.

8 Comentários

  1. Postado em 5 dezembro 2013 às 9:26 am | Permalink

    A obra máxima de Kazan. Bem merecedora de todas as estrelas disponíveis.

    Abraço

  2. Postado em 5 dezembro 2013 às 11:54 am | Permalink

    Outros olhares sobre este filme lindissimo:
    http://ratocine.blogspot.pt/2012/05/splendor-in-grass-1961.html

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 5 dezembro 2013 às 3:20 pm | Permalink

    Rato, você tem toda razão. Não sei onde eu estava com a cabeça quando botei lá só 3 estrelas. Vou mudar em seguida!

  4. Sérgio Vaz
    Postado em 5 dezembro 2013 às 3:30 pm | Permalink

    O texto do Rato Cinéfilo sobre “Splendor in the grass” me deixou com vergonha do meu.
    É brilhante.
    Repito aqui o endereço:
    http://ratocine.blogspot.pt/2012/05/splendor-in-grass-1961.html
    Parabéns, Rato!

  5. Cleusa Pereira Botel
    Postado em 19 agosto 2016 às 9:30 am | Permalink

    Na busca coloquei apenas “nada pode trazer de volta o esplendor da relva” e apareceu este texto. Não me lembro em que ano assisti esse filme e nem me lembrava do nome do filme embora nunca o tenha esquecido, me deu saudades. Mais tarde vou nas locadoras procurar. Amores adolescentes, quem não os teve.

  6. ArnaldoF
    Postado em 7 outubro 2017 às 1:39 pm | Permalink

    Achei muito curioso o espanto com o fato de Beatty e Wood serem um pouco mais velhos do que os personagens que interpretavam. Essa é uma marca de Hollywood, muito mais comum que o ‘The End’ no final dos filmes (que caiu de moda).
    Entre dezenas de exemplos, aos 25 anos Ryan Phillippe interpreta Sebastian Valmont (‘Segundas intenções’), um jovem de c. de 17 anos. Zac Efron, aos 21 anos, interpreta Troy Bolton (‘High School Music 3’), que tem 17 anos. Nesse mesmo filme (HSM 3), Lucas Stephen Grabeel, então com 24 anos, é outro que interpreta um teen de 17 (Ryan Evans). Andrew Garfield, aos 31 anos, interpreta Peter Parker (‘O Espetacular Homem Aranha 2’), de 17 anos. Selma Blair aos 29 anos interpreta Vivian Kensington (‘Legalmente loira’) de 20 anos. A lista é interminável. Em qualquer sala de aula cenográfica hollywoodiana de ‘high school’ é raro algum ator ou atriz ter menos de 20 anos.
    Hollywood não gosta muito de lidar com astros adolescentes e podemos pensar em mil motivos para isso. Atores e atrizes ‘teens’ existem, claro, mas são menos frequentes do que os personagens nessa faixa etária.

  7. ArnaldoF
    Postado em 7 outubro 2017 às 1:54 pm | Permalink

    Não me contive de dar mais dois exemplos emblemáticos, de ícones adolescentes (sqn).
    Michael J. Fox tinha 24 anos quando interpretou Marty McFly (‘De volta para o futuro’), de 17 anos, pela primeira vez. No último filme da trilogia. McFly continua com 17 anos, mas Fox tem 29 anos.
    Há símbolo maior de adolescente moleque dos anos 1980 que Ferris Bueller, personagem central de ‘Curtindo a vida adoidado’? Não há. Mas Matthew Broderick tinha 24 quando interpretou o icônico Bueller.

  8. Sérgio Vaz
    Postado em 8 outubro 2017 às 3:20 pm | Permalink

    Caro Arnaldo,
    Obrigado pelo seu comentário. Ficou muito bem provado o seu ponto.
    Só gostaria de reafirmar que eu não estava espantado com a diferença de idade entre os personagens e os atores. Estava apenas registrando que a diferença existe.
    Um abraço.
    Sérgio

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