A Primeira Coisa Bela / La Prima Cosa Bella

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Nota: ★★★½

Anna sofreu demais na vida, enfrentou dramas pesados, comeu o pão que o diabo amassou – e sempre foi alegre, sorridente, bem disposta, pra cima. Bruno teve muito mais oportunidades na vida do que Anna – e é um homem amargurado, inseguro, não resolvido, infeliz.

Pior ainda: em grande parte, Bruno responsabiliza por suas misérias o comportamento de Anna, sua mãe.

A Primeira Coisa Bela, um filme emocionante, espantoso e espantosamente bem realizado, demonstra, como se fosse um teorema – c.q.d. – aquela verdade básica de que muitas vezes nos esquecemos: cada um escolhe seus caminhos.

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Há quem faça a opção preferencial pela infelicidade. Há quem prefira a alegria.

Ou, como disse um personagem do também recente O Exótico Hotel Marigold (e Mary se lembrou da frase assim que acabamos de ver La Prima Cosa Bella): há pessoas que vêem a vida como um privilégio, não como um direito.

Anna vê a vida como um privilégio. Seu filho vê a vida como um direito.

Ou ainda: “Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”.

Que maravilha a frase de Graciliano Ramos, bem no início de suas Memórias do Cárcere: “Nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”.

zzbella4Mulher humilde, sem estudo, sem preparo para qualquer profissão, Anna viveu nos estreitos limites impostos por um marido violento e ciumento, uma sociedade machista, moralista, que a olhava como se fosse uma puta – e mesmo assim atravessou a vida irradiando uma felicidade que nem a doença fatal conseguia apagar.

Bruno estudou, foi muito bem nos estudos, chegou a escrever poemas de que as pessoas ainda se recordavam, é professor, vive com conforto material – e passa a vida culpando os outros por suas incapacidades e sua miséria pessoal.

Um grande afresco – mas mais voltado para a vida privada, para o pessoal

O cinema italiano tem uma sólida tradição de construir afrescos – talvez como herança dos geniais pintores de séculos passados. Grandes afrescos, visões panorâmicas da história, da sociedade, tramas que atravessam décadas e décadas. Bernardo Bertolucci quis contar a história da primeira metade do século XX na Itália em seu Novecento. Visconti fez afrescos mostrando a Itália dos séculos XIX (em O Leopardo) e XX (em Rocco e seus Irmãos). Ettore Scola fez seu afresco da história italiana entre os anos 1940 e 1970 em Nós Que Nos Amávamos Tanto, e voltou a focalizar histórias que se estendiam por décadas em outros filmes, como A Família, O Baile e Splendor.

A Primeira Coisa Bela é um herdeiro dessa excelsa tradição, ao acompanhar a vida da família Michelucci desde 1971 até 2009.

Diferentemente dos filmes-afrescos anteriores, no entanto, que davam forte ênfase à Grande História, sempre presente como pano de fundo da narrativa, e eram claramente simpáticos a uma ideologia, o socialismo, A Primeira Coisa Bela se concentra quase exclusivamente nas vidas privadas, no comportamento, nas emoções das pessoas.

A câmara passa algumas vezes na frente da sede do Partido Comunista Italiano na cidade de Livorno, o PCI, o que foi o partido comunista mais forte do Ocidente – mas muitos espectadores poderão nem sequer reparar nesse detalhe.

É apenas um detalhe mesmo.

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Há um elemento em comum entre três dos filmes citados acima e A Primeira Coisa Bela – e este não é um mero detalhe. Novecento, Nós Que Nos Amávamos Tanto, A Família e A Primeira Coisa Bela têm Stefania Sandrelli (na foto acima).

Outra das tradições do cinema italiano é a quantidade e a qualidade de atrizes estrondosamente belas e/ou talentosas. Anna Magnani, Silvana Mangano, Giulietta Masina, Alida Valli, Sophia Loren, Claudia Cardinale, Monica Vitti, Virna Lisi, Gina Lollobrigida, Monica Bellucci – fora as de outros países que brilharam em produções italianas, Ingrid Bergman, Annie Girardot, Catherine Spaak, Dominique Sanda, Fanny Ardant, e as mais jovens, como Giovanna Mezzogiorno, Margherita Buy, Alba Rohrwacher, agora essa Micaela Ramazzotti.

No meio dessa constelação toda, Stefania Sandrelli tem um brilho especial.

Uma jovem mãe linda – e o filho fica incomodado com a beleza e a alegria da mãe

Stefania Sandrelli interpreta Anna em 2009, já velha, tomada pela doença de tal maneira que os médicos optaram por interromper a quimioterapia – mas ainda alegre, feliz, cheia de força, energia.

Está ótima, como sempre, Stefania Sandrelli. O tempo também passa para as deusas, e evidentemente os tempos de garotinha ficaram bem lá atrás. A deusa Stefania começou cedo demais: nascida em 1946, tinha apenas 15 anos de idade em 1961, o ano de Divórcio à Italiana.

Ao fazer a Anna velha, doente, estava com 64 anos bem vividos.

Quando o espectador vê Anna primeira vez, estamos em 1971, e a personagem é interpretada por Micaela Ramazzotti, uma jovem (nasceu em 1979, em Roma) de beleza estonteante.

É uma grande festa anual, a escolha da Miss Verão no Balneário Pancaldi. Naquele ano de 1971, os organizadores decidiram escolher também uma Miss Mamãe Verão entre as jovens mães presentes na volumosa platéia. Várias belas jovens mães são achadas por olheiros do concurso, e levadas para o palco – mas não é nada difícil a escolha de Anna Nigiotti, tornada Anna Nigiotti Michelucci com o casamento com Mario (Sergio Albelli, na foto abaixo), sargento de polícia.

zzbella5Vemos a eleição de Anna como Miss Mamãe Verão enquanto rolam os créditos iniciais.

Anna está na festa com o marido Mario e os dois filhos – Bruno e Valeria, ele com uns nove, dez anos, ela com uns sete, seis.

Estamos ainda nos créditos iniciais, e já dá para ver que Mario é ciumento, e que ao garoto Bruno incomoda a glória da mãe – o fato de ela se destacar por sua beleza, de ir para o palco e receber aplausos da multidão irritam o menino.

A câmara mostra o rosto do menino, nada à vontade, muito antes ao contrário, enquanto sua irmãzinha se diverte com tudo aquilo.

Corta, e um sujeito está dormindo num gramado numa praça pública. Leva uma bolada na cara – um grupo joga uma pelada ali na praça – e acorda zonzo. Tinha fumado um baseadão, e apagado ao ar livre.

Não há letreiro informando, mas a narrativa vai deixar bem claro que estamos em Milão, em 2009, e aquele sujeito é o Bruno adulto (numa interpretação magistral de Valerio Mastandrea, à esquerda na foto abaixo).

Algumas poucas seqüências vão demonstrar o quanto Bruno é uma pessoa desorientada, frágil, perdida, infeliz. Em casa, discute sem qualquer razão com a mulher com quem vive, Sandra (Fabrizia Sacchi), pessoa de paz, do bem – veremos que não estão casados porque, apesar dos 40 e tantos anos dele, apesar de Sandra ser bela e tranquila, ele não é homem de assumir compromissos com nada.

Na escola em que dá aula, Bruno foge dos alunos, das obrigações. É informado de que uma mulher está ali para falar com ele, e tenta fugir dela, mas acaba sendo alcançado pelo filho dela e depois por ela mesma. É sua irmã Valeria (uma bela interpretação de Claudia Pandolfi).

Valeria pede que ele vá para Livorno: Anna, a mãe deles, está muito mal, a quimioterapia foi interrompida, agora é uma questão de algumas semanas.

zzbella3Bruno tentará escapar. Acabará indo, mas a contragosto, querendo não ter ido, segurando o freio de mão, recusando-se a ver a mãe que o deixou envergonhado a vida inteira – não por ser puta, ou fácil, mas por ser bela, alegre, expansiva, e ter sido desejada por muitos dos homens que passaram pela vida dela.

A narrativa que virá a seguir entremeará os acontecimentos do presente, 2009, com os de 1971 a 1981, segundo as recordações de Bruno – os duros anos de sua infância e juventude, em que o pai, por ciúme de tudo e todos, expulsou a mãe de casa, e pai e mãe ficaram brigando pela guarda das crianças.

Paolo Virzi, o diretor, é de Livorno, onde se passa a história, e está casado com a atriz Micaela

Nunca tinha ouvido em Paolo Virzì, o diretor e um dos três autores do roteiro de A Primeira Coisa Bela. Além dele, assinam o argumento e o roteiro Francesco Bruni e Francesco Piccolo – e esta é outra tradição do cinema italiano, os roteiros feitos a seis ou mais mãos.

Vejo então que o realizador é de Livorno – exatamente a cidade em que se passa sua história. Nasceu ali, na cidade que retrata em seu filme, em 1964. Como roteirista, tem 21 títulos no currículo, e, como diretor, tem 15. Ah, já tinha visto, sim, um filme de Paolo Virzì: ele é o realizador de N (Io e Napoleone), com Daniel Auteuil e Monica Bellucci. Os demais filmes dele me são totalmente desconhecidos.

Hum… Detalhinho interessante: Paolo Virzì é casado, desde 2009, com sua atriz Micaela Ramazzotti. Sujeito de bom gosto.

A Primeira Coisa Bela teve 14 prêmios e 28 outras indicações. Teve  nada menos de 18 indicações ao David di Donatello, o Oscar italiano, e levou três prêmios – melhor ator para Valerio Mastandrea, melhor atriz para Micaela Ramazzotti, melhor roteiro.

Foi o filme escolhido pela Itália para participar da corrida ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Não chegou a ser indicado – o que não é demérito algum.

Como é tradição no cinema italiano, o filme cita diversos filmes feitos na Itália

Há outra cara tradição do cinema italiano que A Primeira Coisa Bela mantém: as referências ao cinema italiano.

Cara, rica, bela, soberba tradição.

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Os filmes italianos adoram citar filmes italianos. É uma mania nacional. Em Divórcio à Italiana, a cidadezinha siciliana pára quando chega a sua sala de cinema La Dolce Vita, de Fellini. Em Aquele Que Sabe Viver/Il Sorpasso, o personagem de Vittorio Gasmann discorre – ironicamente – sobre os filmes de Antonioni. Em Cinema Paradiso, o velho projetista e o garotinho seu amigo vêem diversos filmes estrangeiros mas também italianos. Splendor, como Cinema Paradiso, conta a história de uma sala de cinema.

Nós Que Nos Amávamos Tanto não pára de citar o cinema italiano. Nicola, o personagem interpretado por Stefano Satta Flores, é um cinéfilo de carteirinha, fã incondicional de Vittorio De Sica; o próprio mestre do neo-realismo aparece na história. Os personagens interpretados por Nino Manfredi e Stefania Sandrelli se encontram junto da Fontana di Trevi no momento em que Federico Fellini está filmando a antológica cena de La Dolce Vita em que Anita Ekberg entra na fonte.

A lista de exemplos é imensa.

Em A Primeira Coisa Bela, a jovem e linda Anna é levado por um fã, um jornalista puxa-saco dos ricos e famosos, a conhecer um conde; o conde, fascinado com a beleza da moça, a leva para fazer uma ponta em um filme que está sendo realizado por Dino Risi, La Moglie del Prete, A Mulher do Padre, com Marcello Mastroianni e Sophia Loren. Há uma seqüência que mostra, bem rapidamente, Dino Risi e Mastroianni no set de filmagem – num momento em que o marido Mario, de uniforme de polícia, chega para roubar de Anna os garotinhos Bruno e Valeria.

A Mulher do Padre é uma produção de 1970. Dino Risi era um dos diversos grandes realizadores de uma cinematografia que era, então, indiscutivelmente, a melhor do mundo. O cinema italiano dos anos 1950 a 1970 era tão extraordinário que Dini Risi não poderia ser considerado de primeiríssimo time, já que estavam lá Luchino Visconti, Federico Fellini e Michelangelo Antonioni.

Mas Dino Risi era famoso e respeitado. Entre vários bons filmes, havia feito em 1962 o já citado Il Sorpasso, que significa a ultrapassagem mas no Brasil teve o título de Aquele Que Sabe Viver. O então jovem Ettore Scola era um dos roteiristas do filme.

Fiquei pensando, enquanto começava a deglutir toda a beleza que é este A Primeira Coisa Bela, que ele talvez pudesse ter como subtítulo Aquela Que Sabe Viver.

Anotação em novembro de 2012

A Primeira Coisa Bela/La Prima Cosa Bella

De Paolo Virzì, Itália, 2010

Com Valerio Mastandrea (Bruno Michelucci em 2009), Micaela Ramazzotti (Anna Nigiotti Michelucci entre 1971-1981), Stefania Sandrelli (Anna Nigiotti Michelucci em 2009), Claudia Pandolfi (Valeria Michelucci em 2009), Sergio Albelli (Mario Michelucci), Marco Messeri (Il Nesi), Fabrizia Sacchi (Sandra)

Argumento e roteiro Paolo Virzì, Francesco Bruni e Francesco Piccolo

Fotografia Nicola Pecorini

Música Carlo Virzì

Montagem Simone Manetti

Produção Motorino Amaranto, Medusa Film, Indiana Production Company. DVD Califórnia Filmes. Estreou no Rio em 7/2012.

Cor, 122 min

***1/2

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