A Grande Guerra / La Grande Guerra

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Nota: ★★★☆

Em 1959, catorze anos depois do final da Segunda Guerra, em que Benito Mussolini botou a Itália para lutar junto com o nazismo de Adolph Hitler e o Estado militarista japonês contra o resto do mundo, o socialista Mario Monicelli exorcizou fantasmas fazendo esta superprodução passada na Primeira Guerra.

É um dos filmes mais virulentamente antiguerra que já foram feitos.

O tom é de profunda, violentíssima indignação contra o fato de o Estado, os poderosos, os ricos, os que mandam no Sistema, botarem as pessoas, os seres humanos, os trabalhadores, os homens que não têm nada a ver com o grande jogo político, passarem por todas aquelas duríssimas, desumanas provações, e morrerem por uma luta que não é deles, que não tem nada a ver com eles.

Ferino, sarcástico, iconoclasta, Monicelli mostra um exército italiano confuso, louco de pedra, como dizem que é o trânsito em Roma, ou como são as tentativas de se governar os italianos, esse povo literalmente ingovernável.

O próprio trailer do filme diz que A Grande Guerra dividiu as opiniões do país ao meio antes mesmo de ser exibido.

Deve de fato ter muito italiano nacionalista que detestou o filme mesmo antes de vê-lo. Monicelli expõe a hierarquia militar italiana ao ridículo, ao grotesco.

É preciso muita coragem para expor as forças armadas de seu próprio país ao ridículo, ao grotesco.

Monicelli tem.

Na Itália do neo-realismo, Monicelli realizou uma superprodução

zzgrande2Fascinantemente, A Grande Guerra é uma superprodução. Tem centenas, centenas, milhares de figurantes. É um filme de extraordinários planos gerais; há tomadas de batalhas tão poderosas, tão amplas, tão estupidamente bem realizadas quanto… Vá lá, ouso dizer: tão estupidamente bem realizadas, naquela pobre Itália de 1959, quanto as que Steven Spielberg, o grande mago, faria em O Resgate do Soldado Ryan, de 1998, magnífico filme, superprodução de US$ 70 milhões.

US$ 70 milhões! Com esse dinheiro, daria para reconstruir parte da Itália arrasada pelo fascismo de Mussolini.

Insisto: A Grande Guerra tem tomadas gerais de batalha que são tão imponentes, e bem realizadíssimas, como as de Spartacus, de Stanley Kubrick, de Guerra e Paz, de King Vidor, de O Resgate Soldado Ryan – três bilionárias superproduções com dinheiro americano.

Em 1959, a Itália apenas começava a sair do caos em que havia mergulhado durante a Segunda Guerra.

O mais extraordinário movimento cinematográfico da História, o movimento que influenciaria as mais diversas cinematografias mundiais, o neo-realismo, havia nascido nos escombros da Segunda Guerra, com o país ainda absolutamente destroçado.

O neo-realismo existiu porque o país era miserável.

Tudo, no neo-realismo, se devia às condições da Itália destruída pela guerra. Foi por ser pobre que o neo-realismo trocou os estúdios pelas ruas verdadeiras das cidades, foi por ser pobre que os filmes italianos do pós-guerra usaram como atores pessoas do povo, não profissionais, foi por ser pobre que mostraram a vida de pessoas pobres – e o cinema, em todo o mundo, em todo o planeta, jamais seria o mesmo.

Não é à toa que o filme é uma produção de Dino de Laurentiis, o Cecil B. de Mille italiano

zzgrande3Os teóricos, os livros, os alfarrábios trazem grandes discussões sobre quando o neo-realismo começou a acabar. Exatamente em que ano, em que filme, Visconti fez uma obra que renegava o neo-realismo, querendo seguir em frente? Até que ponto Il Grido, que Antonioni fez em 1957, ainda com protagonistas trabalhadores, operários, mas já com dúvidas existenciais, era neo-realista, ou era um corte para o que viria depois, sua preocupação pequeno-burguesa com os dramas pequeno-burgueses? Seriam os primeiros filmes de Fellini próximos do neo-realismo, ou não? Que há uma distância oceânica, amazônica, entre Noites de Cabíria, de 1957, e La Dolce Vita, de 1960, lá isso há – mas seria Os Boas-Vidas, de 1953, de fato próximo do neo-realismo, ou já seria um filme felliniamente distante do movimento?

Todo esse tipo de discussão me parece, evidentemente, besteira. Bullshit, pura e simples – mas muita gente se empenha sobre esses temas.

Por isso me pareceu fascinante, ao ver pela primeira vez La Grande Guerra, que Monicelli fez em 1959, que o filme seja uma superprodução. Ou seja: o contrário, a antítese do que era o neo-realismo.

La Grande Guerra é uma superprodução assinada por Dino de Laurentiis, que vem a ser assim uma espécie de Cecil B. de Mille da Europa.

Dino de Laurentiis, mais Carlo Ponti, outro super-produtor de grandes espetáculos, que aconteceu de ser o sr. Sophia Loren, e mais outras produtoras se reuniram para produzir exatamente aquele Guerra e Paz filmado basicamente na Itália por Henry Vidor, em 1956.

É estranho, e estranhamente fascinante, que o produtor dos filmes mais caros da Europa naquela época tenha financiado o filme do socialista Mario Monicelli, um filme que defende a anarquia e chama o exército de imbecil – e que foi feito com a ajuda do Exército italiano, conforme confessam os créditos.

Outro dia vimos um filme inglês, Salmon Fishing in the Yemen, produzido em parte pela estatal BBC, que goza deslavadamente o governo britânico.

La Grande Guerra foi feito com dinheiro de grandes produtores, e usa como extras soldados italianos, para demonstrar que toda guerra é idiota – e que o exército italiano é uma josta total.

A Petrobrás privatizada pelo lulo-petismo não botaria dinheiro em projetos assim.

Um roteiro a oito mãos – mais uma colagem de esquetes que propriamente uma história

zzgrande00La Grande Guerra segue uma tradição cara ao cinema italiana: a de argumentos e roteiros escritos a muitas mãos. É raro ver, nos filmes italianos, uma pessoa apenas assinando o “soggetto” e a “sceneggiatura”. Nos letreiros de La Grande Guerra, assinam “soggetto” e “sceneggiatura” Age-Scarpelli, Vincenzoni e Monicelli – assim mesmo, apenas os sobrenomes, e com Age-Scarpelli aparecendo como uma coisa só. Agenore Incorcci (1919-2005) e Furio Scarpelli (1919-2010) formavam uma dupla tão coesa que virou uma entidade única, algo mais ou menos como a assinatura Lennon-McCartney ou George & Ira Gershwin

Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Mario Monicelli e Luciano Vincenzoni escreveram um roteiro que parece outra tradição do cinema italiano, os filmes de esquetes, episódios. La Grande Guerra acompanha as peripécias e desventuras de uma dupla de soldados nada heróicos, Oreste Jacovacci (interpretado por Alberto Sordi) e Giovanni Busacca (o papel de Vittorio Gassman). Jacovacci e Busacca são o fio condutor da trama, da história – mas, na realidade, a trama, a história não interessam muito. São, na verdade, um conjunto de pequenos esquetes: o alistamento militar; a viagem para perto do front de batalha; a chegada dos combatentes que voltam do front; a ida do grupo para o front – e assim por diante.

Jacovacci é romano, Busacca é milanês. O primeiro é um folgazão, um cabeça de vento; o segundo se diz um anarquista, e está sempre a citar o anarquista Bakunin.

A princípio, Jacovacci e Busacca se detestam. Ou melhor: Busacca detesta Jacovacci, porque o subornou na fila do alistamento para se livrar de ter que servir o exército, mas o outro embolsou a grana e não moveu uma palha para livrá-lo das agruras da guerra. Mas acabarão se tornando amigos, companheiros, ao longo da narrativa.

          Para garantir as bilheterias, uma mulher surge do nada. Uma mulher, não – uma deusa

O humor, a mordacidade, a ironia criada pelos quatro roteiristas são de um virulência poucas vezes vista.

zzgrande8Sobre os filmes comerciais americanos, diz-se que é necessário ter sempre um female interest – uma mulher qualquer na história, para atrair os espectadores à bilheteria. Neste filme escrito por socialistas com elogios ao anarquismo, há um female interest, na pele de Silvana Mangano, aquela deusa. Ela interpreta Costantina, uma mulher que surge do nada na história para dar uma beleza feminina às tomadas filmadas pelos diretores de fotografia Roberto Gerardi e Giuseppe Rotunno.

E aí é interessante lembrar que la Mangano já havia contracenado com Vittorio Gassman exatos dez anos antes, no clássico Arroz Amargo/Riso Amaro, em 1949, quando ambos eram iniciantes, ela, aos 19 aninhos de idade, ainda mais verde do que ele. Ela fazia o papel mais importante, e Gassman, um secundário. Aqui isso se inverteu.

Silvana está linda, esplendorosa, magnífica. Como sempre.

Um filme de um humanismo perturbador, assombroso, espantoso

A Grande Guerra foi um dos cinco indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Não levou: perdeu para Orfeu do Carnaval/Orphée Noir, que Marcel Camus filmou no Brasil baseado na peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes.

O americano Leonard Maltin não gostou do filme: deu 2 estrelas em 4, e o definiu como “Comédia-drama irregular, episódica, sobre dois amigos que adoram fugir do dever durante a Primeira Guerra Mundial, de alguma forma faz lembrar What Price Glory, mas nunca tão bom quanto este outro filme.” (What Price Glory, no Brasil Sangue por Glória, foi dirigido por John Ford em 1952, e é estrelado por James Cagney.)

O Guide des Films do francês Jean Tulard dá 3 estrelas em 4, algo raro: “Uma conquista de Monicelli que alterna sequências cômicas e episódios trágicos, batalhas e vida cotidiana do soldado. Sordi e Gassman, imensos atores, dão a seus personagens uma humanidade bouleversante.”

Eta texto bom, eta língua bonita. Bouleversante em si já é uma palavra de sonoridade bouleversante.

É exatamente isso. O humanismo de A Grande Guerra é bouleversant: perturbador, assombroso, espantoso, estupendo, desconcertante.

Anotação em dezembro de 2013

A Grande Guerra/La Grande Guerra

De Mario Monicelli, Itália-França, 1959.

Com Alberto Sordi (Oreste Jacovacci), Vittorio Gassman (Giovanni Busacca),

e Silvana Mangano (Costantina), Folco Lulli (Bordin), Bernard Blier (capitão Castelli), Romolo Valli (tenente Gallina), Vittorio Sanipoli (major Venturi), Nicola Arigliano (Giardino)

Argumento e roteiro Agenore Incrocci, Mario Monicelli

Carlo Salsa, Furio Scarpelli, Luciano Vincenzoni

Fotografia Roberto Gerardi e Giuseppe Rotunno

Música Nino Rota

Montagem Adriana Novelli

Produção Dino di Laurentiis Cinematografica, Grat-Film. DVD Versátil.

P&B, 130 min.

***

6 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 9 março 2013 às 7:10 pm | Permalink

    Vittorio Gassman era bouleversant e muito mais.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 10 março 2013 às 7:30 pm | Permalink

    Adoro seus comentários – sempre curtos, certeiros, exatos. Você deve ser uma tuiteira da primeira linha!
    Um abraço.
    Sérgio

  3. Senhorita
    Postado em 10 março 2013 às 8:13 pm | Permalink

    Não tenho twitter. Só escrevo aqui =D
    É ótimo encontrar aqui os filmes e os atores que eu adoro, e a forma interessante e gentil como você os trata (independente de quantas estrelinhas o filme ganha).

  4. Senhorita
    Postado em 11 março 2013 às 5:52 pm | Permalink

    Vittorio é ainda hoje, digo, repito, grito, a melhor atração turística da Itália =p

  5. Ricardo Fossati
    Postado em 2 junho 2015 às 4:41 pm | Permalink

    Prezado Sérgio, como fazer para ter acesso a alguns desses filmes que valem tanto a pena ver?
    Abraço e obrigado

  6. Vilson T. Souza
    Postado em 18 julho 2015 às 10:31 pm | Permalink

    Parabéns pelo site, sempre que vejo filme que interessa ou fazer downloads procuro seus comentários.
    Em reposta ao amigo, Ricardo Fossati Postado em 2 junho 2015 às 4:41, sugiro que visite:
    http://www.memocine.com.br/pagFil.php?cmbPesquisarPor=&edtPesquisar=&Campo=&Posicao=70

    Abraços a todos.

    Vilson

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  1. […] Silvana Mangano e Stefania Sandrelli, Amparo Muñoz havia sido miss. Foi Miss Espanha em 1973, aos 19 anos, e, em […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Casanova ’70 em 8 fevereiro 2017 às 1:41 pm

    […] curto período entre 1963 e 1965, os gigantes Mario Monicelli e Marcello Mastroianni fizeram dois dos mais comentados filmes do total de sete em que juntaram […]

  3. […] e Paz de King Vidor (1956), Barrabás (1961), A Bíblia (1966), mas também obras autorais como A Grande Guerra (1959), de Mario Monicelli, e O Estrangeiro (1967), de Luchino Visconti, baseado em […]

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