A Delicadeza do Amor / La Délicatesse

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Nota: ★★★½

Uma maravilha de filme, este A Delicadeza do Amor, no original apenas La Délicatesse. Desses de deixar o espectador mais leve, mais alegre, mais otimista com o gênero humano.

É quase uma comédia romântica – mas, a rigor, não é exatamente uma comédia. É sobre amor, romance, sim, e tem momentos até bastante engraçados, mas tem drama, e, no cômputo geral, é um filme bastante sério.

Conta uma história interessante, fascinante mesmo, mas, além disso, tem uma moral, como uma boa fábula. E uma moral maravilhosa, importantíssima: a de que, ao contrário do que a imensa maioria das pessoas acredita, nestes tempos glorificação da aparência, da beleza, da elegância das roupas, do sucesso material, da riqueza, há valores muito mais importantes do que tudo isso.

A Delicadeza do Amor vai, com firmeza, contra a maré do culto das aparências, contra tudo o que é simbolizado pelas publicações tipo Caras, Quem, Nova, e tantas outras.

Não é pouca coisa. De maneira alguma.

É uma maravilha.

É o primeiro longa de dois irmãos; um é romancista, o outro é veterano em casting

O filme é dirigido por dois Foenkinos, David e Stéphane Foenkinos. O roteiro é do primeiro deles, e se baseia num romance de sua autoria, publicado na França em 2009 – o filme é de 2011. A data da publicação do romance, pela Gallimard, está nos créditos iniciais.

zzdelicado2Sim: La Délicatesse, ao contrário da maioria dos filmes de hoje em dia, tem créditos iniciais. Também ao contrário de tantos filmes recentes, não usa narrativa-laço, não tem flashbacks, não tem idas e vindas no tempo. Mais uma vez remando contra a maré, conta sua história na velha e boa ordem cronológica.

Tem um ou outro criativolzinho, sim. Pequenas sacadas inteligentes, interessantes, mas nada que pareça uma feérica explosão de fogos de artifício.

É tão impressionantemente bem realizado, de maneira tão madura – a direção de atores, por exemplo, é soberba – que parece obra de um experiente veterano, uma puta velha, como se diz no jornalismo.

Surpreendentemente, no entanto, David Foenkinos é jovem – nasceu em Paris em 1974 – e, no cinema, quase inexperiente: La Délicatesse é seu primeiro longa-metragem como diretor. Antes, havia feito apenas um curta, Une Histoire de Pieds, de 2006. Seu irmão Stéphane também só dirigiu, ou melhor, co-dirigiu, essas duas obras, o curta Une Histoire de Pieds e este La Délicatesse, mas tem em seu currículo mais de 60 títulos como diretor de casting – o que pode explicar a boa escolha do elenco e o extraordinário trabalho de direção de atores.

David Foenkinos foi um instrumentista de jazz na juventude, e chegou a dar aulas de guitarra, mas o negócio dele é literatura. Estudou Letras na Sorbonne, e a partir de 2001 tem publicado um novo romance praticamente a cada ano. Seus livros foram traduzidos para cerca de 30 línguas; A Delicadeza foi lançado no Brasil em 2001 pela Rocco. Segundo o Figaro, ele foi um dos cinco maiores vendedores de livros na França em 2011.

A Delicadeza, o filme, foi indicado a dois Césars, o Oscar francês: como melhor roteiro adaptado e melhor filme de estréia.

A câmara baba por Audrey Tautou, assim como os homens babam por seu personagem

Não dá para saber, é claro, se o rapaz, ao escrever seu romance, já pensava na possibilidade de a história virar filme, e, ao criar a personagem central, Nathalie, tinha Audrey Tautou na cabeça. Mas a verdade é que todo o filme se constrói a partir de Audrey Tautou.

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La Délicatesse parece ser uma ode à sua atriz principal assim como Todas as Mulheres do Mundo era uma declaração de amor de Domingos Oliveira a Leila Diniz, e Annie Hall uma declaração de amor de Woody Allen a Diane Keaton.

A câmara do diretor de fotografia Rémy Chevrin passeia por Audrey Tautou com amor, admiração, encanto. A câmara baba por Audrey Tautou. Há uma cena, por exemplo, em que ela ergue os cabelos negros e deixa à mostra a nuca – e a câmara baba pela nuca da atriz. Há uma outra cena em que a câmara faz as vezes dos olhos de um homem que está saindo de um restaurante logo atrás dela, e de novo Audrey Tautou expõe a nuca – e luzes brilham, faíscam em torno dela.

Mas não é apenas a câmara. Todos os homens babam por Nathalie, a personagem interpretada pela atriz. Num fim de noite, bêbado de vinho e paixão, Charles (Bruno Todeschini, na foto abaixo), o patrão dela, diz:

– “Nathalie é daquela categoria especial de mulher que anula todas as outras. Nathalie é Yoko Ono – do tipo que é capaz de acabar com a maior banda de rock do mundo.”

(Aqui é interessante observar que David Foenkinos, fã de música, músico amador, apaixonado pelos Beatles, lançou em 2010 um livro chamado Lennon – um misto de biografia e relato ficcional sobre John Lennon, em que o músico confessa, por exemplo, seu amor por Brian Epstein, o primeiro empresário do grupo, homossexual, morto aos 32 anos em 1967. Nos créditos finais de A Delicadeza do Amor, há um agradecimento a Yoko Ono.)

A câmara, como a Truffaut, persegue as pernas da personagem

A primeira seqüência de La Délicatesse mostra Nathalie-Audrey Tautou caminhando pelas ruas de Paris. De início, a câmara se fixa em suas pernas – da mesma maneira com que a câmara de François Truffaut focalizava as pernas de Claude Jade em Domicílio Conjugal, de 1970, as pernas de praticamente todas as mulheres que aparecem em O Homem que Amava as Mulheres, de 1977, as pernas de Fanny Ardant em De Repente num Domingo/Vivement Dimanche!, de 1983.

zzdelicado7As pernas de Fanny Ardant são belas como uma estátua de Michelangelo, um quadro de Botticelli. As pernas de Audrey Tautou são uns cambitinhos magrelos, fininhas como bambu. Toda Audrey Tautou é de uma magreza quase anoréxica. E mesmo seu rosto não é aquele estupor de beleza de tantas outras atrizes, Catherine Deneuve, Ingrid Bergman, Sophia Loren.

Audrey Tautou é charme, graça, leveza. Uma coisa linda, maravilhosa – mas bem longe da beleza estrondosa de tantas outras atrizes. Nesses quesitos, charme, graça, leveza, Audrey Tautou é imbatível. Só teria comparação com a outra Audrey, a Hepburn – que, aliás, era quase tão biafrenta quanto a francesinha nascida em 1976 e que virou estrela de primeira grandeza no frescor dos 25 aninhos em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

Até uns 15 minutos de filme, um conto de fadas. E aí muda tudo

Mas então a câmara segue Nathalie-Audrey Tautou por algumas ruas de Paris, até que ela entre em um café. François (Pio Marmaï, na foto abaixo), um tipo bonitão, sentado a uma mesa do café, fica de olho nela.

Até os 12 minutos de filme, Nathalie e François vivem um romance de cinema, de fotonovela, de conto de fadas. O romance tipo O Grande Amor, aquele com que todos nós sonhamos um dia.

Quando estávamos por aí com uns 12, 13 minutos de filme, Mary comentou que só estava faltando uma história. Estava tudo bom demais – mas e daí?

Aos 15 minutos muda tudo.

kinopoisk.ruApesar de uma sinopse de duas linhas sobre o filme no IMDB revelar o que virá a seguir, apesar de a sinopse da caixinha do DVD também revelar, apesar de qualquer resenha ou sinopse revelar, eu não vou fazer isso. Acho que seria um desrespeito para com o eventual leitor desta anotação que não tiver ainda visto o filme.

Só gostaria de reafirmar que, num filme excelente, cheio de qualidades – e que defende os bons valores que há na vida –, sobressai o magnífico trabalho de direção de atores. Todo o elenco está perfeito, impecável, de aplaudir de pé como na ópera.

Audrey Tautou tem, na minha opinião, um dos melhores desempenhos de sua gloriosa carreira. Sua atuação em La Délicatesse se iguala às que nos deu em Amélie Poulain e em Coisas Belas e Sujas.

Mas a melhor atuação de todas, acho eu, é a de François Damiens (na foto abaixo). François Damiens, como tanta gente importante na cultura francesa – Georges Simenon, Jacques Brel, Agnès Varda, Cécile de France, para citar apenas alguns nomes – é belga. Nasceu em Uccle, em 1973. Sua filmografia tem 29 títulos. É um ótimo ator.

zzdelicado6 Tem uma característica que o diferencia bastante de Bruno Todeschini, que interpreta Charles, o patrão de Nathalie, de Pio Marmaï que faz François, ou de Mathieu Kassovitz, que faz o par com Audrey Tautou em Amélie Poulin, ou de Gad Elmaleh, que faz o par com ela em Amar… Não Tem Preço. Ao contrário de todos esses atores, François Damiens não é bonito. Não é boa pinta, bonitão, fina estampa.

E isso é bastante realçado neste belo filme. François Damiens está ficando careca, não tem dentes perfeitos (muito ao contrário, eles são bem separados uns dos outros), e, em A Delicadeza do Amor, mostra-se alto demais, desengonçado demais, vestido sem qualquer cuidado. É um sujeito feioso, deselegante. Como a imensa maior parte das pessoas, gente como a gente, ordinary people, como eu ou você.

E isso é uma maravilha.

La Délicatesse é uma maravilha.

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Anotação em novembro de 2012

A Delicadeza do Amor/La Délicatesse

De David Foenkinos e Stéphane Foenkinos, França, 2011

Com Audrey Tautou (Nathalie Kerr),

e François Damiens (Markus Lundl), Bruno Todeschini (Charles), Pio Marmaï (François), Mélanie Bernier (Chloé), Joséphine de Meaux (Sophie), Monique Chaumette (Madeleine, a avó), Marc Citti (Pierre), Alexandre Pavloff (Benoît), Vittoria Scognamiglio (a mãe de François), Olivier Cruveiller (o pai de François), Ariane Ascaride (a mãe de Nathalie), Christophe Malavoy (o pai de Nathalie), Audrey Fleurot (Ingrid, aa secretaria de Charles)

Roteiro David Foenkinos

Baseado em seu romance La Délicatesse

Fotografia Rémy Chevrin

Música Emilie Simon

Montagem Virginie Bruant

Produção 2.4.7. Films, France 2 Cinéma, StudioCanal, Canal+, Ciné+. DVD Califórnia Filmes.

Cor, 108 min

***1/2

 

6 Comentários para “A Delicadeza do Amor / La Délicatesse”

  1. Lindo demais. Simplesmente maravilhoso. Me senti como disseste logo no começo deste teu texto. É diferente de outras do mesmo gênero.
    Fôste direto no ponto: A Audrey Tautou fez com que me lembrasse tbm da outra, a divina e maravilhosa, Audrey Hepburn. De fato, não tanto pela beleza mas, pelo talento e pela magreza.
    Ao contrário do que muitos e muitos dizem, o tempo não cura nem apaga nada. Ele “mascara” a dor, o sofrimento, a lembrança. E, como a vida continua, ela resolveu se dar uma nova chance no amor.
    Lembras daquele tipo de classificado que entre outras coisas dizia,”môças e rapazes com bôa aparência” ?? Pois é …
    E, ficava tbm subentendido que NEGROS não seríam aceitos. Foi proibido (o anúncio)mas o fato continua por aí, como outras coisas neste Brasil.
    Magnífica a atuação do François. Eu não o conhecia.
    “Caminhando por aqui,pisando em suas dores,é neste local,no coração de tôdas as Nathalies onde vou me esconder”.
    Que final maravilhoso!!
    Um abraço, Sergio !!

  2. Gostei do filme pela moral que ele traz e que você cita no começo do texto, pois está cada dia mais difícil suportar pessoas que dão valor à aparência em primeiro lugar, aos bens materiais, à juventude, ao status e etc, mas que são completamente ocas de valores importantes: os que fazem a vida valer a pena e tornam o fardo mais leve.

    Mas a história propriamente dita eu achei chata e até meio boba em alguns pontos. Quem em sã consciência sai beijando um colega de trabalho com o qual não tem contato, assim sem mais?
    Também achei nada a ver escalar a Audrey Tautou para o papel de uma mulher fatal, linda e maravilhosa, pela qual todos os homens ficariam loucos. Ela é mirradinha, está claramente abaixo do peso (outro problema da sociedade moderna), tem um rosto estranho. Não é feia, mas também não é tudo isso que o filme quis passar e que o papel pedia.

    Em compensação, a beleza do Pio Marmaï é matadora. Eu não sou de me abalar com beleza física, mas confesso que fiquei embasbacada com a beleza dele, que diga-se de passagem foi necessária para fazer o contraponto com o personagem do François Damiens.

    Enfim, acho que o filme vale por nadar contra a “maré do culto das aparências”, como você bem disse. Mas eu não veria de novo porque achei a história meio sem pé, meio mal contada e desenvolvida. Uma amiga leu o livro no qual o filme foi baseado e também não gostou muito.

  3. Achei um ótimo filme, Muito agradável e, como você citou, valoriza bons valores. Tem mais: Adorei o final do Filme, achei uma sacada deveras criativa, Aquele esconde esconde, terminando com uma frase… Muito Show… Inesquecível.

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