A Casa dos Sonhos / Dream House

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Nota: ★½☆☆

A Casa dos Sonhos pode ser definido com duas frases com adversativas. A primeira: foi feito no Canadá, o diretor é irlandês, dois dos principais atores são ingleses e a terceira é australiana – mas é uma produção americana.

A segunda: os atores são ótimos (Daniel Craig, Rachel Weisz e Naomi Watts), o diretor Jim Sheridan já fez um monte de coisa boa – mas o filme decepciona.

Bem: me decepcionou. E, pelo que se vê no IMDb, decepcionou também Jim Sheridan e Daniel Craig.

Não é culpa deles. Diretor e ator se esforçam para fazer seu trabalho direito. Daniel Craig, esse ator que se firmou como um ótimo James Bond mas também consegue trabalhar em filmes sem o personagem mítico do agente que tudo pode, tem uma bela interpretação.

O problema – ao menos é o que eu achei – é a história, a trama. Argumento e roteiro são assinados por David Loucka, e, embora seja piada ruim e pré-fabricada, é impossível evitar: lá pelas tantas, parece que deu a louca no autor.

A sensação é de que ele quis criar uma história de suspense, mistério, quase terror, que tivesse uma reviravolta profunda, como, por exemplo, os excelentes Os Outros, de Alejandro Amenábar (2001), ou O Sexto Sentido, de M. Night Shyamalan (1999).

Deu com os burros n’água.

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Na casa de sonhos de que fala o título vive uma família de sonhos

O que se mostra no começo, na primeira metade do filme, é o seguinte:

Um editor de livros de uma grande editora de Nova York, chamado Will Atenton (o papel de Daniel Craig), sujeito respeitado, querido pelos colegas, consegue tomar a decisão de pedir demissão. Está determinado a mudar de vida. Havia comprado uma casa – ampla, confortável – num daqueles subúrbios de classe média ao Norte de Nova York. Não se precisa o lugar – fala-se até o nome da cidadezinha, New Ashford, mas deve seguramente ser um nome fictício. Pode ser Connecticut, ou algum Estado da Nova Inglaterra.

Ali, na calma do subúrbio, longe da agitação da metrópole, ele pretende escrever um livro.

(Penso agora que Jack Torrance, o personagem de Jack Nicholson em O Iluminado/The Shining, de Stanley Kubrick, também tinha planos de escrever um livro na solidão do hotel fechado para o período mais rigoroso de inverno nas Montanhas Rochosas. Aliás, o cartaz do filme, que está no alto deste post, também faz lembrar O Iluminado.)

Will sai então do trabalho pela última vez. Neva – é inverno bravo. Toma um trem para seu subúrbio.

Na casa recém-comprada, esperam por Will uma mulher que o ama e duas filhinhas que o adoram. A mulher, Libby, vem encarnada por Rachel Weisz com aquela beleza esplêndida toda dela, e as filhinhas são duas gracinhas, a mais velha, Trish (Taylor Geare), aí com uns nove anos, e a mais jovem, Dee Dee (Claire Astin Geare), com uns seis.

Durante alguns minutos, pinta-se o quadro da família perfeita, a família de sonhos na casa de sonhos de que fala o título.

A casa não é daqueles monumentos de ostentação, não é um palacete, uma mansão. É uma casa sólida, ampla, confortável. Se as sociedades fossem justas, todas as famílias deveriam ter uma casa como aquela, uma casa não milionária, pois a existência de milionários pressupõe também a existência de miseráveis.

A família dentro da casa dos sonhos é a família dos sonhos. Uma mulher belíssima, feliz, amorosa, empenhada em limpar, pintar o novo lar. Um marido que trabalhou bastante e agora se dá ao direito de ficar mais tempo com a família. Duas crianças adoráveis, bem cuidadas pelos pais atenciosos. Marido e mulher se amam e o sexo é ótimo.

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Exatamente na metade dos 92 minutos do filme, há uma reviravolta completa

A perfeição de sonho dura só alguns minutos. Começam a surgir fatos estranhos. A filhinha mais nova vê um homem parado do lado de fora da janela. Will a convence de que não havia ninguém, mas no dia seguinte vê na neve marcas de pés que passaram ao redor da casa.

E aí vem a revelação: naquela casa que a família comprou ao sair de Nova York havia acontecido uma tragédia. Cinco anos antes, o dono da casa tinha tido um acesso de loucura e assassinado suas duas filhinhas e sua mulher.

Ninguém havia dito isso para eles, quando compraram a casa.

Quando a narrativa está exatamente na metade dos 92 minutos de duração, há uma reviravolta completa.

As coisas se complicam, e muito.

E haverá nova reviravolta completa mais para o final.

Os produtores tiraram o filme das mãos do diretor e fizeram a montagem final

No ótimo All Movie, o filme foi classificado com 3.5 estrelas em 5. A crítica, assinada por Cammila Collar, trata o filme com grande simpatia – e respeito pelos leitores. Não revela o que não pode ser revelado. Diz ela:

“É difícil escrever sobre um thriller com uma reviravolta no final, já que presumivelmente você não quer entregar a reviravolta. Mas seria ainda mais difícil escrever sobre um filme como Dream House, em que há múltiplas reviravoltas que chegam bem antes de se chegar ao clímax final – e em que ainda há muitos mistérios a serem resolvidos. Dream House vira as mesas algumas vezes, muito tarde no jogo para ser parte da premissa, mas cedo depois para ser parte do final.”

Mais tarde, o texto diz: “Mas se você gosta da idéia de bons atores em uma narrativa que é em parte suspense, em parte drama, você não ficará desapontado.”

Segundo o IMDb, o diretor Jim Sheridan teve brigas feias com o chefão da produtora Morgan Creek, Jim Robinson, sobre como desenvolver o roteiro e a produção do filme. Nas exibições-teste para platéias fechadas, viu-se que a resposta dos espectadores não era boa, e Sheridan refez algumas sequências. Aí então a produtora tirou os filmes das mãos do diretor e resolveu ela mesma fazer sua montagem. “Sheridan, Daniel Craig e Rachel Weisz se recusaram a participar da promoção do filme para a imprensa”, afirma o IMDB.

zzsonhos2Ainda segundo o site mais enciclopédico sobre filmes que existe, Jim Sheridan chegou a pedir ao Sindicato dos Diretores, o Director’s Guild of America, que seu nome fosse retirado dos créditos. Deve posteriormente ter desistido disso, e até aparece num filmete de divulgação que acompanha o filme no DVD. Ali se vê claramente, no entanto, que o veterano realizador não está nada à vontade para falar do filme que acabou sendo montado sem a sua supervisão. Na entrevista, ele basicamente insiste em que poderia ter optado por usar imagens criadas por computação, mas preferiu usar o sistema antigo, de filmar cenários criados para o filme, para ser mais realista.

É necessário lembrar: Jim Sheridan é um excelente diretor e roteirista de poucos filmes. Poucos mas bons. É autor ou co-autor dos roteiros de Meu Pé Esquerdo, Terra da Discórdia, Em Nome do Pai, Mães em Luta, O Lutador, Terra de Sonhos. Vários deles abordam os sangrentos conflitos na Irlanda dividida entre católicos e protestantes. Dirigiu quase todos as obras citadas acima, com exceção de Mães em Luta, maravilha de filme, que foi dirigido seu amigo Terry George.

“O filme não ficou muito bom. Mas eu encontrei minha mulher. Bom negócio”

O que, para mim, mais define como a própria equipe avalia A Casa de Sonhos é uma frase de Daniel Craig que está também no IMDb.

Ele e Rachel Weisz se apaixonaram durante as filmagens. Casaram-se algum tempo depois.

Às vezes a vida imita os filmes – até a vida de atores de cinema. Os ingleses Daniel Craig e Rachel Weisz tiveram que ir filmar no Canadá uma produção americana dirigida por um irlandês para se encontrarem.

Diz o IMDb:

“Quando perguntado sobre o filme, Craig disse: ‘O filme não ficou muito bom. Mas eu encontrei minha mulher. Bom negócio’”.

Anotação em maio de 2013

A Casa dos Sonhos/Dream House

De Jim Sheridan, EUA, 2011

Com Daniel Craig (Will Atenton), Rachel Weisz (Libby), Naomi Watts (Ann Patterson),

e Elias Koteas (Boyce), Marton Csokas (Jack Patterson), Taylor Geare (Trish), Claire Astin Geare (Dee Dee), Rachel Fox (Chloe Patterson), Jane Alexander (Dr. Greeley), Brian Murray (Dr. Medlin)

Argumento e roteiro David Loucka

Fotografia Caleb Deschanel

Música John Debney

Montagem Barbara Tulliver e Glen Scantlebury

Produção Warner Bros, Morgan Creek. DVD Warner Bros.

Cor, 92 min

*1/2

Um Trackback

  1. […] primeira sequência do filme, Joan Morgan (Jane Alexander, na foto abaixo) acabou de morrer, e Matthew, o marido (o papel de Michael Caine, que estava com 80 […]

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