Valerie

Nota: ★★★☆

Obscuro, pouco conhecido, espezinhado em guias de filmes, este Valerie é fascinante. Feito em 1957, por um diretor sem fama, Gerd Oswald, é uma pouco comum mistura de gêneros: western, tribunal, crime, mistério. E ainda tem a beleza faiscante de Anita Ekberg, três anos antes de seu estrondoso sucesso em La Dolce Vita, de Fellini.

Só pelo fato de ser um western que tem como protagonista uma mulher já seria uma raridade. Mas Valerie ainda tem um tom de crítica social, uma denúncia do preconceito contra estrangeiros no Velho Oeste americano, do moralismo hipócrita que leva toda uma pequena cidade a condenar antecipadamente uma mulher suspeita de infidelidade conjugal, e do endeusamento de um homem pelo fato de ele ser rico e poderoso.

O início do filme é não menos que brilhante

Três homens chegam diante de uma casa. Um deles está mais atrás, segurando as rédeas dos cavalos. Dois deles se adiantam. O da frente, visivelmente o chefe do grupo, e o outro entram na casa. Vemos o terceiro, o que toma conta dos cavalos. Vemos novamente a frente da casa; um cachorro anda diante dela. Lá de dentro saem os estampidos de tiros, vários tiros. Apenas um homem sai da casa – o chefe do grupo, que está ferido no braço. Monta no cavalo, e ele e seu empregado vão embora. O cachorro late, entra pela porta da frente deixada aberta. A câmara entra atrás dele. Há mortos na sala – o homem que chegou com o chefe, um casal. Uma mulher de cabelos longos também parece morta. A câmara mostra a mulher caída, a imagem fica congelada nela – e aí surgem os créditos iniciais.

Na tomada seguinte aos créditos, o homem que saiu vivo depois dos tiros está em sua casa – uma casa ampla, de rico –, escrevendo num bloco. O xerife que chega para prendê-lo está completamente sem jeito, como se pedisse desculpas. Explica que tem um mandado. O homem, John Garth (interpretado por Sterling Hayden, na foto acima), diz que está tudo explicado na declaração que redigiu para o xerife e o promotor do condado.

O xerife informa: – “Parece que ela não vai resistir.”

Garth, surpreso: – “Valerie está viva?”

O xerife: – “Não por muito tempo.”

Corta, e uma mulher, uma enfermeira, se aproxima do médico sentado à beira da cama onde está Valerie.

Enfermeira: – “Como ela está, doutor?”

O médico: – “Não está nada bem. Sua vida está por um fio.”

Enfermeira: – “Ela era uma pecadora, teve o que merecia.”

O médico: – “Sra. Linsey, não vamos fazer julgamentos. Temos outras coisas a fazer.”

Em seguida chega um homem perguntando como está Valerie. É o reverendo Blake (Anthony Steel), o pastor da cidade. Enquanto o médico e o reverendo conversam, diante da cama da paciente, a câmara mostra pela primeira vez com nitidez o rosto de Valerie – o papel de Anita Ekberg, com toda aquela beleza sueca, aqueles cabelos enormes, olhos enormes, lábios enormes, aquela enormidade toda que seduziria Fellini e milhões de espectadores mundo afora.

Estamos com uns dez minutos de filme quando começa o julgamento de John Garth e seu empregado Mingo. Anotei a fala inicial do advogado de defesa:

– “Faz anos que não defendo um caso. (…) Eu estava aposentado, e satisfeito com isso. Não teria vindo por ninguém a não ser por John Garth, que conheço desde o dia em que nasceu. Eu o vi tornar-se um homem; eu o vi indo para a guerra, onde, mais uma vez, honrou o nome Garth. Eu o vi retornar. E então, com profunda tristeza, eu o vi casar com uma mulher, Valerie Hovart. Senhores, já testemunhei muita maldade nesta vida, mas não há nada mais perverso que uma mulher devassa e imoral.”

A infame, nojenta, abjeta tese da legítima defesa da honra

A culpa é da vítima, mulher devassa, imoral, argumenta o advogado.

Conhecemos histórias assim. Alguns casos ficaram famosos, como o da bela mineira Ângela Diniz, assassinada pelo namorado, Doca Street. Os advogados dos homens que assassinam suas próprias mulheres argumentam que a culpa é da vítima, e o assassino, ora, o assassino matou em legítima defesa da honra.

Que nojo.

É com essa situação nojenta que começa a trama de Valerie. Veremos já nos primeiros minutos de filme que praticamente todos, na pequena cidade de Limerock – com exceção do médico e do religioso – já condenaram Valerie, por ser pecadora, devassa, imoral, e além de tudo estrangeira, e estupidamente bela. E, naturalmente, já inocentaram John Garth, fazendeiro rico, major do Exército da União na Guerra da Secessão contra os Estados Confederados do Sul.

O primeiro a depor é um garotinho, Earl Davis, que viu quando Garth e seu empregado Mingo montaram em seus cavalos e foram embora da casa dos Hovarts, os pais de Valerie.

O garotinho se apressa em dizer que o senhor Garth fez muito bem.

O segundo a depor é o reverendo Blake – e, enquanto ele depõe, temos um flashback, mostrando a versão dele para os acontecimentos.

O reverendo Blake era uma forasteiro, havia chegado pouco tempo antes a Limerock. Conhecera o casal Garth logo após o primeiro serviço religioso que oficiou; à saída da igreja, o casal parou para cumprimentá-lo. Valerie elogiou o sermão: “O senhor invocou a fé e o coração, em vez de invocar o medo”.

Alguns dias depois, Mingo, o empregado dos Garth, havia levado ao reverendo um curto bilhete em que Valerie pedia que o religioso fosse visitá-la. O reverendo havia tomado o cuidado de perguntar se o senhor Garth sabia do bilhete, e Mingo havia dito que sim, que ele estava ao lado da mulher quando ela o escreveu.

Um crime violento, três versões diferentes

É um longo flashback, esse, com a versão do reverendo. Depois haverá outro, com a versão do réu, Garth. E, mais tarde, haverá um terceiro flashback, com uma terceira versão.

Um ato de violência, três diferentes versões para ele. É impossível deixar de lembrar de Rashomon, o grande clássico que o mestre Akira Kurosawa dirigiu em 1950, e que seria adaptado nos Estados Unidos, no western Quatro Confissões/The Outrage, em 1964. Este Valerie foi feito sete anos depois de Rashomon, e sete anos antes de Quatro Confissões.

Não se fala dessa semelhança com Rashomon, nos dois guias americanos de filmes que consultei depois de rever Valerie agora. Leonard Maltin dá 1.5 estrela em 4 e mata o assunto com uma frase: “Relato não memorável (via flashbacks) dos fatos que levam a ferimentos na mulher de Hayden e à morte dos pais dela.”

O guia de Steven H. Scheur dá 2 estrelas em 4: “Aborrecido quase-mistério sobre assassinato e romance, que só se torna assistível pela boa atuação, como sempre, de Hayden e a ardente e sexy Ekberg”.

Pauline Kael não fala sobre o filme, que também não está em outros guias que tenho. Não se fala dele no belo livro Great Hollywood Westerns. Valerie é de fato um filme obscuro.

Os franceses costumavam ser mais atentos a obras obscuras do cinema americano que os próprios americanos. Então, no Guide des Films do mestre Jean Tulard, está:

“O proprietário de um rancho é acusado de ter ferido sua mulher e matado seus sogros. A narrativa é tratada um pouco à maneira de Rashomon. Inédito na França, mas exibido na Cinemateca, este filme é objeto de culto de alguns cinéfilos.”

Grande Tulard!

Um filme muito bom, que merece ser mais conhecido

Valerie não chega a ser um grande filme, na minha opinião. A trama se perde um pouco a partir da metade; tudo fica exagerado demais, maniqueísta, o malvado é malvado demais da conta, e o retrato final de Valerie, a personagem-título, fica um tanto  inconsistente.

Mas é sem dúvida fascinante, interessante, pouco usual, e começa bem demais, promete ser uma obra-prima. Não chega a ser uma obra-prima, mas é um western muito bom, e um filme de tribunal muito bom. A sacada da mesma história contada em diferentes versões, nitidamente inspirada na obra-prima de Kurosawa, funciona muito bem.

E o filme ainda tem um detalhe memorável: trata de um tema pouquíssimo usual no western, a tortura. Tortura, tortura física – essa imensa chaga praticada nas ditaduras e também nas democracias. Em Valerie, afirma-se que a tortura era método usado às claras pela União na guerra contra os confederados.

É um filme que, sem duvida, merece ser bem mais conhecido.

Anotação em fevereiro de 2012

Valerie

De Gerd Oswald, EUA, 1957

Com Sterling Hayden (John Garth), Anita Ekberg (Valerie Hovart Garth), Anthony Steel (Reverendo Blake), Peter Walker (Herb Garth), Jerry Barclay (Mingo), Malcolm Atterbury

Roteiro Leonard Heidemann e Emmett Murphy

Fotografia Ernest Laszlo

Produção Hal R. Makelim, United Artists.

P&B, 84 min

R, ***

4 Trackbacks

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  2. […] detetive porque seu marido, o famoso escritor Roger Wade (o papel do grande, em todos os sentidos, Sterling Hayden), havia […]

  3. […] Whitmore, à esquerda na foto abaixo), que é dono de um pequeno bar; e um pistoleiro, Dix Handley (Sterling Hayden, à direita na foto […]

  4. Por 50 Anos de Filmes » O Purgatório / Purgatory em 29 outubro 2016 às 9:11 pm

    […] Um realizador pouco conhecido, Gerd Oswald, fez em 1957 um interessante western sobre amor e ciúme que é também filme de tribunal, de crime, de mistério, Valerie. […]

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