Uma Cilada para Roger Rabbit / Who Framed Roger Rabbit

Nota: ★★★½

Cacete, como é brilhante Uma Cilada para Roger Rabbit!

A constatação me veio à cabeça diversas vezes, enquanto revia o filme agora, pela segunda vez. Tinha visto na época da estréia, em janeiro de 1989, e revisto em 2003, conforme mostram minhas anotações. Não me lembrava dessa revisão em 2003; vimos agora com o prazer da redescoberta de algo que surpreende ainda mais.

Ao final, Mary e eu tínhamos certeza de que o filme é ainda melhor do que achávamos antes.

É tudo o que se pode esperar de uma diversão dessas para toda a família, que pais e filhos e avós podem ver juntos e cada um curtir a seu jeito.

E, vamos e venhamos, não é muito fácil um filme fascinar ao mesmo tempo a garotada e os velhinhos.

Uma homenagem aos filmes noir e aos romances policiais de Chandler e Hammett

Roger Rabbit – um filme que une os talentos de Steven Spielberg e dos Estúdios Walt Disney – tem um quê de homenagem aos filmes noir dos anos 1940, às histórias hard-boiled dos grandes escritores policiais americanos da época, Dashiell Hammett, Raymond Chandler. A ação se passa ali, na Los Angeles dos anos 40. O detetive particular, o private eye interpretado por Bob Hoskins, Eddie Valiant, é um parente próximo de Sam Spade, de Philip Marlowe. Seu escritório é uma bagunça como os deles. A porta de vidro, com o nome do detetive marcado nela, é exatamente como a dos filmes noir da época. Como Spade e Marlowe, Eddie Valiant usa ternos amassados, amarfanhados, velhos, sujos – e bebe uísque em quantidades industriais.

(Na primeira vez em que Eddie Valiant entra em seu escritório, pendura o chapéu em uma pequena estátua de um falcão maltês, o objeto de que são feitos os sonhos, como diz Sam Spade-Humphrey Bogart em Relíquia Macabra/The Maltese Falcon, o primeiro filme dirigido pelo grande John Huston, de 1941.)

E há a femme fatale – ou, no mínimo, a mulher que parece fatale, que tudo indica ser fatale. Jessica Rabbit é uma legítima herdeira das mulheres gostosas, voluptuosas, sensualíssimas, que assombram a imaginação dos detetives – e dos espectadores. Tem curvas descomunais, impressionantes. Quando canta, como na primeira sequência em que aparece, deixa Eddie Valiant de boca tão aberta que Betty Boop tem que ir lá fechá-la. E quando fala, vem com uma voz rouca, tesuda, sedutora – como a voz de Barbra Stanwyck no papel de Phyllis Dietrichson, a loura fatal que levará o pobre vendedor de seguros Walter Neff-Fred MacMurray para a cama e a desgraça fatal em Pacto de Sangue/Double Indemnity.

Como nos filmes noir dos anos 40 e início dos 50, e também naqueles mais modernos que conseguiram recriar seu clima, Chinatown, Los Angeles – Cidade Proibida, o caso em que o detetive particular se mete e parece a princípio simples acaba sendo apenas a ponta do iceberg de uma trama muito maior, muito mais complexa, sórdida, corrupta, em que correm cachoeiras de dinheiro, grandes propriedades, terrenos que terão valorização geométrica.

Como nos clássicos filmes noir, o progresso, a transformação de Los Angeles de cidade um tanto acanhada para uma das maiores metrópoles do mundo se fará com o fim de uma época em que ainda havia alguma inocência – o bonde vermelho vai desaparecer, o sistema de transporte coletivo será substituído por gigantescas freeways para dar espaço ao crescente número de carros. Vão surgir milionários a partir de esquemas corruptos, de mamatas, negociatas.

Uma idéia genial: os personagens de desenhos animados existem, e trabalham para os estúdios

Tudo isso está lá, em Roger Rabbit, um delicioso divertissement para toda a família.

Está lá numa história interessantíssima, uma trama fascinante, que parte de uma idéia absolutamente genial: os personagens dos desenhos animados – o Pato Donald, Mickey, Dumbo, o Pica-Pau, Frajola -, todos eles são atores, da mesma forma como os humanos. Os grandes estúdios têm sob contrato tanto os humanos quanto os personagens dos desenhos animados, os toons, diminutivo de cartoon, a palavra inglesa para desenho animado.

Os toons, os personagens animados, moram num bairro de Los Angeles, a Toontown. Pegam ônibus, ou táxis, e vão aos estúdios trabalhar, do mesmo jeito que os humanos.

Que maravilha de sacada.

Lembrando a trama:

R.K. Maroon (Alan Tilvern), o dono de um grande estúdio de cinema, especializado em cartoons, desenhos animados, está com um problema. Um de seus astros, o coelho Roger Rabbit (voz de Charles Fleisher), anda mal da cabeça, não consegue se concentrar, não consegue decorar as falas. Está desconfiado de que sua esposa, Jessica, aquele mulherão todo, pode estar saindo com alguém.

Para resolver de vez as suspeitas de Roger Rabbit, para pôr fim àquele período de angústia que não o deixa trabalhar direito, Maroon contrata o detetive particular Eddie Valiant (o inglês Bob Hoskins, baixinho, gorducho, ator excepcional, está perfeito no papel), para que ele siga Jessica Rabbit, e, eventualmente, tire fotos dela em alguma situação que indique infidelidade conjugal.

No passado, Eddie Valiant e seu irmão Teddy – os dois trabalhavam em dupla, dividiam o mesmo escritório – haviam trabalhado muito em Toontown; conheciam muita gente lá, fizeram belos trabalhos para alguns toons. Suas investigações salvaram o Pateta de uma séria acusação, uma vez – só para dar um exemplo.

Acontece que Valiant, hoje um homem absolutamente amargurado, descrente de tudo, afundado na bebida, jogando fora sua relação com a namorada, a dame, a doll Dolores (Joanna Cassidy, ótima no papel), tem um ódio mortal de todos os toons, os personagens animados. Levará um tempinho para que o espectador descubra de onde vem tanto ódio – Dolores, que trabalha como gerente e garçonete num bar fuleiro, decadente, revelará o motivo.

Betty Boop anda tristinha, sem convites para filmar, agora que os toons ficaram coloridos

Como precisa desesperadamente de dinheiro, Valiant, embora de mal grado, aceita o serviço, e vai atrás de Jessica. Ela está na época cantando em um cabaré, onde Valiant se encontra com Marvin Acme (Stubby Kaye, à direita na foto), um empresário da área do show business, um sujeito bem humorado até demais, que adora brincadeiras – e baba, baba demais por Jessica Rabbit.

Encontra também Betty Boop (voz de Mae Questel), trabalhando como garçonete naquele cabaré. Valiant, embora de mal com o mundo, gosta de rever Betty, pergunta como ela está – e ela responde, tristinha, que as coisas não andam muito bem para ela, agora que os toons ficaram coloridos e ela, tadinha, continua em preto-e-branco.

Delícia!

Valiant fotografará Jessica em seu camarim com Marvin Acme. Logo depois haverá um crime. A trama se complicará, surgirão novos e novos elementos. Haverá mistério, suspense – mas, sobretudo, haverá gags fantásticas, piadas maravilhosas, inteligentes, diálogos sensacionais, sequências de fazer o espectador chorar de tanto rir.

Ainda não havia as imagens feitas por computador – e o visual é perfeito, brilhante

Combinar animação com cenários reais e atores já era coisa antiga, em 1988, ano do lançamento de Roger Rabbit. Nos anos 50, houve um musical em que Fred Astaire dançou com personagem de Walt Disney. Novidade não era, de forma alguma. Mas, meu, quanto engenho, quanta arte o diretor Robert Zemeckis e sua equipe conseguiram reunir ali. É tudo uma absoluta perfeição técnica, tecnológica – e não seria mesmo para se esperar algo diferente de um filme produzido pela Amblin, a empresa de Steven Spielberg (ele mesmo um dos produtores executivos, junto com seus cupinchas Frank Marshall e Katheleen Kennedy), e a Touchstone, dos Estúdios Walt Disney.

Os embates entre o grande ator Bob Hoskins e o coelho animado são, além de absolutamente impagáveis, bem feitíssimos, realizados à perfeição. Não tenho idéia de quantas e quais técnicas os caras usaram – tenho imensa preguiça de ler sobre os detalhes técnicos, efeitos especiais, essas coisas. Mas o que hoje parece até assustador é que Roger Rabbit nasceu antes das CGI, as computer generated images. A era digital estava só começando – ainda estávamos muito longe do Avatar de James Cameron.

Mas a perfeição das imagens de Roger Rabbit não fica nada atrás do que Cameron obteria em 2009, quando toda a tecnologia de imagens por computação gráfica já era bastante desenvolvida.

Quando fala, com aquela voz capaz de levantar a múmia do faraó, Jessica é Kathleen Turner

Um detalhinho saboroso de Roger Rabbit é que não aparece, em momento algum, nos meticulosos créditos finais, o nome de quem emprestou a Jessica Rabbit aquela voz rouca, capaz de fazer levantar a múmia do faraó. Uma brincadeirinha a mais de Zemeckis e da produção. Hollywood gosta dessa brincadeirinha de esconder um ou outro crédito. Só para dar um exemplo: em Voltar a Morrer, o fascinante drama em dois tempos feito em Hollywood pelo inglês e shakespeariano Kenneth Branagh, não aparece o nome do ator que faz o psiquiatra banido da profissão, então trabalhando como operário em um frigorífico. E o ator, Robin Williams, era um astro no auge, na época do lançamento do filme.

Quem canta a canção apresentada por Jessica Rabbit que deixa Eddie Valiant de boca aberta e queixo caído é Amy Irving, que foi a senhora Steven Spielberg antes de ser a senhora Bruno Barreto.

E quem faz a voz de Jessica Rabbit em todos os diálogos é Kathleen Turner. O filme é de 1988; a voz, e o corpo magnífico, o rosto de beleza fulgurante de Kathleen Turner estavam ainda no imaginário de todas as pessoas que haviam visto Corpos Ardentes/Body Heat, que Lawrence Kasdan fez em 1981.

Jessica Rabbit pode não ser tão perfeita quanto a Valentina de Guido Crepax, mas é um tesão.

Quatro Oscars, belas críticas e um extraordinário sucesso de público

Roger Rabbit teve sete indicações ao Oscar, e levou quarto prêmios: montagem, efeitos sonoros, efeitos visuais e um especial para a direção de animação. Perdeu nas categorias de direção de arte, fotografia e som.

Foi um extraordinário sucesso de público. Foi o segundo filme de maior bilheteria nos Estados Unidos no ano de lançamento, 1988, logo atrás do grande vencedor do Oscar, Rain Man, com Dustin Hoffman e Tom Cruise, segundo o livro The Hollywood Reporter Book of Box Office Hits. O gostoso texto do livro sobre o filme, da autora Susan Sackett, diz “foi um dos filmes mais inteligentes, engraçados e felizes que apareceu em muitos anos, um filme de que Walt (Disney, claro) teria se orgulhado, para dizer o mínimo”.

Segundo o site Box Office Mojo, o filme faturou US$ 329 milhões.

Tremendo sucesso de público, foi também um grande sucesso de crítica. Leonard Maltin deu ao filme 3.5 estrelas em 4. Elogiou os “assombrosos” efeitos especiais, a “incrível” mistura de animação com atores, o fato de que o filme deixa o espectador convencido de que os personagens dos desenhos animados de fato existem. “Uma graça extra: tentar identificar os personagens dos cartoons que aparecem como participações especiais”. “A animação foi dirigida por Richard Williams, que recebeu um Oscar especial.”

O crítico Roger Ebert se derrama: “Nunca tinha visto nada como aquilo antes”

Roger Ebert deu cotação máxima, 4 estrelas. “Como 2001, Encontros Imediatos e E.T., o filme não é apenas um grande entretenimento, mas uma conquista do artesanato – o primeiro filme de combina convincentemente atores reais e personagens de desenhos animados no mesmo espaço, ao mesmo tempo, e faz tudo parecer real.”

Gosto demais da forma como Ebert escreve. Em vez de perseguir uma impessoalidade, como defendem alguns sujeitos metidos a entender de texto e de jornalismo, ele vem sempre em primeira pessoa:

“Nunca tinha visto nada como aquilo antes. Roger Rabbit e seus camaradas animados projetam sombras reais. Eles trocam apertos de mão e agarram os casacos e fazem ranger os dentes de atores reais. Eles mudam de tamanho e dimensão e perspectiva enquanto se movimentam dentro de uma cena, e a câmara não fica parada em um lugar para facilitar as coisas – a câmara neste filme se movimenta como nos thrillers dos anos 40, e os personagens de animação parecem ter três dimensões e ocupar espaço real.”

No final de seu longo, looongo texto, Ebert faz outra bela consideração, a respeito de um tema que levantei lá no começo desta anotação, antes, é claro, de ler o que o crítico americano havia escrito.

“Uma questão difícil é levantada por um filme como este: é um filme para crianças, para adultos, ou para ambos? Creio que ele pretende ser um entretenimento universal, como E.T. ou O Mágico de Oz, dirigido a todas as platéias. Mas tenho a impressão de que os adultos vão apreciá-lo ainda mais que as crianças, porque eles saberão perceber como é difícil realizar aquilo, e com que facilidade o filme consegue. As crianças vão amar também – mas, em vez de ficarem espantadas com a forma como os coelhos se dão com os humanos, elas vão ficar pensando o que os adultos estão fazendo ali no meio de um desenho animado.”

Robert Zemeckis – o diretor, entre outros, da trilogia De Volta para o Futuro e de Forrest Gump – voltaria à animação, anos depois deste fantástico Roger Rabbit, com O Expresso Polar, de 2004. O Expresso Polar foi um dos primeiros desenhos animados, ou talvez o primeiro, a usar personagens baseados nas características físicas de atores de carne e osso. Vários dos personagens animados são réplicas do ator que os dubla, Tom Hanks.

O homem é mesmo chegado a uma experiência nova.

Beleza de filme, este Roger Rabbit.

Anotação em maio de 2012

Uma Cilada para Roger Rabbit/Who Framed Roger Rabbit

De Robert Zemeckis, EUA, 1988

Animação dirigida por Richard Williams

Com Bob Hoskins (Eddie Valiant), Christopher Lloyd (juiz Doom), Joanna Cassidy (Dolores), Stubby Kaye (Marvin Acme), Alan Tilvern (R.K. Maroon), Richard Le Parmentier (tenente Santino)

e as vozes de Charles Fleischer (Roger Rabbit, Greasy Psycho e Benny the Cab), Lou Hirsch (Baby Herman), Kathleen Turner (Jessica Rabbit), Amy Irving (Jessica Rabbit cantando), Mae Questel (Betty Boop), Frank Sinatra (espada que canta), Tony Pope (Goofy Wolf), Peter Westy (Pinocchio), Cherry Davis (o Pica-Pau)

Roteiro Jeffrey Price e Peter Seaman

Baseado nolivro Who Censored Roger Rabbit?, de Gary K. Wolf

Fotografia Dean Cundey

Música Alan Silvestri

Produção Touchstone, Amblin Entertainment, Silver Screen Partners III. DVD Touchstone.

Cor, 103 min

R, ***1/2

2 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 2 agosto 2012 às 11:35 am | Permalink

    Gosto muito deste filme e concordo inteiramente com o seu comentário. Não sou um apreciador de filmes de animação, já não vejo nenhum há uns anos, mas este é impecável e tenho-o em DVD. Os primeiros minutos do filme, a cena com o R. Rabbit e o Baby Herman, são absolutamente fabulosos, eu até saltei na cadeira quando o vi da primeira vez.

  2. Senhorita
    Postado em 28 agosto 2012 às 11:32 am | Permalink

    E a espada canta Frank Sinatra =]

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Contato / Contact em 17 Março 2014 às 12:41 am

    […] de Robert Zemeckis (1997), é uma viagem extraordinária. Belíssimo viajandão. Para mim, é dos melhores filmes de […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Mary Poppins em 2 setembro 2014 às 12:45 pm

    […] durante tantas sequências. E nunca tinha sido feita com tal qualidade. Não fica nada a dever a Uma Cilada para Roger Rabbit/Who Framed Roger Rabbit, feito por Robert Zemicks, um mago dos efeitos especiais, em 1988, quando os recursos tecnológicos […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Mamãe é de Morte / Serial Mom em 2 setembro 2014 às 1:17 pm

    […] Corpos Ardentes, de Lawrence Kasdan, de 1981, e dado voz à igualmente sensual coelhinha Jessica em Uma Cilada para Roger Rabbit, de Robert Zemeckis, de 1988 – está esplêndida no […]

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