Um Homem em Estado Interessante / L’évènement le plus important depuis que l’homme a marché sur la lune

Nota: ★★★☆

Este é um daqueles filmes que caminham no fio da navalha. De um lado está a possibilidade de ele se safar dos perigos e ser gostoso, encantador, charmoso, engraçado. Do outro lado do fio da navalha está a bobagem completa. O risco de cair da corda bamba e ser uma imensa asneira é imenso.

Como o diretor é Jacques Demy, e os atores são Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve, dá a primeira opção. Mas é só porque Marcello é Marcello, La Deneuve é La Deneuve, e Demy… Bem, Demy é um mago, um bruxo do bem, um caso raríssimo de artista que consegue fazer da inocência, da pureza, da ingenuidade, a arte mais bela que possa existir.

Demy gosta das pessoas simples. Gente comum, normal, igual a todos, gente como a gente. Ordinary people, como diriam Paul McCartney e Robert Redford. Não gênios, não artistas, não intelectuais, não riquíssimos – gente simples, comum, normal. Mecânico, como Guy Faucher, ou vendedor de jóias, como Roland Cassard, em Os Guarda-Chuvas do Amor. Dançarina de cabaré, como Lola, em Lola, a Flor Proibida. Pessoas de classe média – nem ricos, nem pobres.

Marco (o papel de Marcello Mastroanni) tem uma pequena auto-escola. Irène (o papel de Catherine Deneuve) tem um pequeno salão de beleza. Vivem num apartamento muito simples – embora tenham o luxo de dispor de uma doméstica que limpa o lugar e prepara o jantar para o casal e o filho de oito anos. O jantar tem como prato principal, vários dias seguidos, um franguinho.

A ação começa com o dia-a-dia de Marco em sua auto-escola e Irène em seu salão de beleza, e prossegue num jantar dos dois mais o filho. Tudo absolutamente normal, pequeno, sem qualquer charme – se o espectador puder se abstrair da beleza estonteante dos atores que interpretam aquelas pessoas simples, e também se puder deixar de reparar a quantidade de cores fortes, vibrantes.

(Jacques Demy é um apaixonado por cores fortes, vibrantes.)

Passam-se aí uns dez, talvez 15 minutos de sequências do dia-a-dia daquele casal normal, simples, igual a todos nós. Irène conversa com as moças no salão de beleza sobre banalidades; Marco conversa com o colega da auto-escola e alguns amigos do bar sobre banalidades.

O grande especialista examina Marco e decreta: ele está grávido

Um dia Marco ganha de um amigo entradas para o show de Mireille Mathieu no Bobino. Então lá vão Marco, Irène e o filho ver Mireille Mathieu no Bobino, o mesmo teatro em que, três anos antes, em 1970, George Moustaki havia gravado uma maravilha de disco ao vivo – mas isso não tem nada a ver com o filme de Demy.

No meio do show, Marco se sente mal.

Nos dias seguintes, Marco continua se sentindo mal. Tem ânsia, mal-estar. Irène o convence a ir à médica dela, a dra. Delavigne (Micheline Presle, aquele mito).

A médica suspeita, mas precisa de uma segunda opinião, e manda Marco para um grande especialista, o dr. Chaumont de Latour (Raymond Gérôme).

Estamos aí com uns 20 minutos de filme, quando o dr. Chaumont de Latour decreta: Marco está grávido.

Em pouco tempo, o casal acostuma-se com a novidade, como se fosse a coisa mais normal do mundo

A grande sacada de Jacques Demy neste filme é a forma magistral com que ele contrapõe a simplicidade, a normalidade, a banalidade da vida do casal Marco e Irène com a notícia da gravidez de Marco – o acontecimento mais importante na história da humanidade desde que o homem andou na lua, como dirá mais tarde, em manchete, o New York Times, de onde saiu o título original do filme, L’évènement le plus important depuis que l’homme a marché sur la lune.

Um acontecimento absolutamente extraordinário na vida de duas pessoas simples, onde nada de especial acontecia.

A princípio, Marco fica chocado, Irène fica chocadíssima. Em pouco tempo, no entanto, acostumam-se com o fato – e vão convivendo com ele como se fosse a coisa mais normal do mundo.

E aí tomo a liberdade de repetir. Se fosse outro diretor, se fossem outros atores, talvez aquilo tudo desandasse. Mas, como são Demy, Mastroianni e Catherine, o filme é simplesmente encantador.

Marcello Mastroianni interpreta Marco aparentemente sem fazer nenhum esforço, como uma imensa nonchalance, como quem não quer nada, não está nem aí. Nos primeiros minutos, até achei que o ator estava um tanto negligente, descuidado demais, mas não, não é isso, de forma alguma. Ele compôs seu personagem assim, um sujeito tranquilo, que leva a vida numa boa, como quem não quer nada, como quem encara com naturalidade o que der e vier. Só a expressão um tanto sonsa de Mastroianni já arranca boas risadas.

Catherine Deneuve… Meu Deus do céu e também da terra, como está deslumbrante, chocante, absurdamente bela Catherine Deneuve na flor de seus… Quantos anos, afinal? Vixe: me assusto ao ver que, no ano de lançamento do filme, 1973, Catherine já estava com 30 anos. Parece bem mais jovem – parece ter menos que os 21 que tinha quando Demy a dirigiu em Os Guarda-Chuvas do Amor.

Um relacionamento de cinco filme e uma filha

Mastroianni e La Deneuve fizeram cinco filmes juntos. Além desse aqui, fizeram juntos As Cento e Uma Noites (1995), Liza (1972), Touche pas à la femme blanche (1974) e Ça n’arrive qu’aux autres (1971). A parceria dos dois grandes atores, aquelas belíssimas pessoas, resultou também em uma filha, Chiara Mastroianni, nascida em 1972. Chiara e Catherine trabalharam juntas em diversos filmes, alguns deles interpretando mãe e filha.

Mastroianni e Catherine não se casaram no papel – exatamente como seus personagens neste filme, Marco e Irène.

O tema homem grávido seria retomado pelo cinema americano duas décadas depois que Jacques Demy fez seu L’évènement le plus important…. Em Junior, de 1994, dirigido por Ivan Reitman, o personagem de Arnold Schwarzenegger, um cientista casado com o de Emma Thompson, fica grávido, como parte de um projeto de pesquisa sobre fertilidade. Não vi esse Junior, mas – apesar da presença de Emma Thompson, essa maravilha – duvido que tenha metade do charme do filme de Demy.

Anotação em janeiro de 2012

Um Homem em Estado Interessante/L’évènement le plus important depuis que l’homme a marché sur la lune

De Jacques Demy, França-Itália, 1973.

Com Catherine Deneuve (Irène de Fontenoy), Marcello Mastroianni (Marco Mazetti), Micheline Presle (dra. Delavigne), Raymond Gérôme (Gérard Chaumont de Latour), Claude Melki (Lucien Soumain), Benjamin Legrand (Lucas), Mireille Mathieu (ela mesma), André Falcon (Scipion Lemeu), Alice Sapritch (Ramona Martinez), Marisa Pavan (Maria Mazetti)

Fotografia Andréas Winding

Música Michel Legrand

Produção Lira Films, Roas Produzioni.

Cor, 87 min

***

Título na Inglaterra: A Slightly Pregnant Man. Título na Itália: Niente di grave, suo marito è incinto.

4 Trackbacks

  1. […] mas pudesse levar West Side Story, Charity, Cabaret, All That Jazz e Hair (mais uns dois ou três Jacques Demy), juro que não teria um minuto de […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Americano em 29 Janeiro 2013 às 6:28 pm

    […] Demy (na foto abaixo) é filho de Jacques Demy e Agnès Varda. Seria de se supor, ao ver o sobrenome honroso, honrado – mas não sabíamos disso […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Pele de Asno / Peau d’Âne em 22 dezembro 2014 às 6:48 pm

    […] grande Jacques Demy filmou a história em 1970, com um elenco estelar em que brilhavam Catherine Deneuve, Jean Marais, […]

  4. […] Jacques Demy, contemporâneo de Truffaut e que, como Truffaut, encantou o garoto Sérgio Vaz nos anos 60, também gostava de fazer isso, misturar os personagens de uma história na outra. Assim, Cassard, personagem de Lola (1961), reaparece em Os Guarda-Chuvas do Amor/Les Parapluies de Cherbourg (1964); ele corteja a jovem Geneviève (o papel da jovenzinha Catherine Deneuve), e, lá pelas tantas, conta para a garota e sua mãe a história de sua paixão por uma bela mulher chamada Lola – e aí o espectador vê tomadas de Lola, feitas em glorioso preto-e-branco, intrometendo-se num dos filmes mais intensamente coloridos da história do cinema. […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*