Um Homem Como Poucos / Le Voyou

Nota: ★★★☆

Le Voyou, que Claude Lelouch fez em 1970 e foi lançado no Brasil com o título Um Homem como Poucos, é um policial, mas não um drama. Uma das tramas policiais mais inteligentes, criativas e bem resolvidas das que Lelouch criou, senão a melhor de todas, Le Voyou é uma gostosa aventura, um divertissement.

O herói da história, o mocinho, por quem o filme torce abertamente, é um bandido, um fora-da-lei, um escroque.

Esse herói bandido é interpretado por Jean-Louis Trintignant, no auge de sua beleza jovem; foi a primeira vez que se reencontraram os dois, Lelouch e o ator que ajudou a garantir o extraordinário sucesso de Um Homem, Uma Mulher, lançado quatro anos antes, em 1966.

(Lembrando, bem rapidinho: quando se preparava para filmar Um Homem, Uma Mulher, Lelouch era então um jovem praticamente estreante; Trintignant, que havia começado a carreira em 1956, já era então um astro em ascensão. Aceitou de pronto o convite, e, segundo depoimento do próprio Lelouch, ajudou-o a convencer Anouk Aimée, já grande estrela, a topar a aventura de fazer um filme com realizador iniciante, com baixíssimo orçamento. A aventura é a aventura, e Um Homem, Uma Mulher, Palma de Ouro em Cannes e Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, foi um gigantesco sucesso comercial. Na verdade, Lelouch jamais teria outro igual.)

Na abertura, um musical com um gângster que atira e canta e mata

Le Voyou começa de uma forma um tanto, ou talvez bastante, desconcertante: as primeiras seqüências que vemos são de algo que parece um musical hollywoodiano, algo assim como uma mistura de West Side Story, do iniciozinho de Quanto Mais Quente Melhor e dos filmes de gângsteres dos anos 30 e 40. Em uma garagem, um bando de belas mulheres, em vestidos coloridíssimos que permitem a visão das coxas, dançam ao som de uma melodia do mesmo Francis Lai dos filmes anteriores de Lelouch, em torno de um primeiro bailarino negro que carrega uma metralhadora e atira ao ritmo da música.

Já na primeira tomada, antes do canto e dança, quatro homens são mortos.

E, quando cantam, os bailarinos cantam em inglês!

Atrás, ao fundo, um letreiro em neon anuncia: VOYOU.

Um letreio informa que “voyou” é a gíria parisiense para “gângster”, “vagabundo”.

E, depois do final do número de dança em torno do gângster que canta em inglês, e dos créditos iniciais, vemos um casal entrando num apartamento, que, obviamente, pertence à mulher. O homem é interpretado por Trintignant; a mulher, veremos que se chama Janine (Danièle Delorme, na foto). As expressões dos dois são sérias, pesadas; não parece que estão vindo de uma longa conversa num bar, já íntimos, já se encaminhando para a cama. De forma alguma.

Assim que Janine desaparece da sala, o homem – Simon Duroc é seu nome – tranca a porta de entrada. Pede uma cerveja. Ela diz que vai preparar algo para ele comer – e ele arrebenta o fio do telefone.

Não: definitivamente não é o encaminhamento de um fim de noite de um casal de namorados, ou um casal que começa a namorar. Não é hora de preliminares: está claro que Simon está invadindo à força o apartamento de Janine.

Ela faz um omelete, e ele come sozinho. Pergunta se ela não vai comer, ela diz que comeu antes de ir ao cinema. Ele pergunta se ela vai muito ao cinema…

E aí corta, e vemos Janine no cinema. Simon está sentado uma ou duas fileiras atrás dela. O filme que está sendo exibido, é claro, é Voyou, o musical que parece ambientado na Chicago de Al Capone.

Simon se levanta, vai se sentar ao lado de Janine.

Dois homens entram no cinema, evidentemente policiais, à procura de algum bandido.

Simon está beijando Janine. A câmara mostra que ele tem uma faca encostada nela.

Voltamos ao apartamento de Janine, após a refeição rápida de Simon. Ela quer saber quanto tempo ele pretende ficar ali, ele faz planos para o dia seguinte: ela não irá trabalhar, mandará recado de que está doente.

Ela diz que tem um carro, pode levá-lo até onde ele quiser. A conversa é tensa, mas controlada. Janine se mostra mais calma do que seria de se esperar de qualquer pessoa que está sendo mantida refém dentro de sua própria casa por um bandido.

O diálogo termina com uma frase do bandido: – “É melhor você ser gentil comigo, porque tive um dia bastante carregado”.

Um encontro com a ex-mulher em um parque

Corta, e Simon está saindo de um prédio. Vai até uma daquelas cabines de fotografias 3 x 4 automáticas, faz uma série de fotos – com bigode falso, sem bigode, com óculos, sem óculos. Pega um táxi, chega a um parque, senta-se ao lado de uma mulher, que está diante de uma área para crianças. Ele diz, olhando para a garotinha que brinca diante do banco em que estão sentados:

– “Ela é muito bela. Você também. Posso dar um beijo nela?

A mulher, Martine (interpretada por Christine Lelouch, na foto abaixo), não hesita um segundo, e chama a filha, Françoise, para que chegue perto dos dois, no banco do parque.

Pelos diálogos entre Simon e Martine, o espectador fica sabendo que Martine foi mulher de Simon, e Françoise, que está aí com quase cinco anos, é filha dos dois. Logo depois do nascimento de Françoise, Martine se casou com um sujeito rico, industrial, dono de uma fábrica de iogurtes; vive bem, e o marido trata muito bem a filha dela.

Martine pergunta onde ele está se escondendo, e Simon diz que há 15 dias está na casa de uma amiga. Martine comenta que ele não emagreceu muito, e ele responde que a amiga cozinha muito bem.

Ele quer saber se ela contou sobre os dois para seu marido, e Maetine responde que, durante o julgamento dele, o país todo ficou sabendo a respeito dos dois.

Nos primeiros 16 minutos, truques no roteiro

Estamos aí com uns 16 minutos de filme, e o roteiro já nos produziu alguns truques, alguns joguinhos com a ordem cronológica.

Tudo bem: que aquelas primeiras imagens – o musical com as dançarinas, o gângster, os tiros – eram um filme dentro do filme, isso fica bem claro. Era o filme que estava passando quando Simon se sentou ao lado de Janine e, para não ser visto pelos policiais que faziam a busca, a beijou, enquanto exigia silêncio com a faca.

E em seguida, na saída do cinema, foram para a casa dela.

Primeiro vimos o filme dentro do filme, depois a chegada do casal à casa de Janine, e em seguida, num rápido flashback, vimos o que havia acontecido logo antes de os dois irem para o apartamento dela – o encontro no cinema.

Mas o diálogo entre os dois termina com Simon dizendo que teve um dia muito carregado – e em seguida há as seqüências em que Simon se encontra com a ex-mulher, Martine, e a filha que jamais havia visto antes.

Não é obrigatório, é claro, mas, como já tinha havido um rápido flashback antes, com a cena do encontro do bandido com a moça inocente no cinema, o espectador pode achar que aquilo que está vendo quando o filme está aí com 15, 16 minutos – o encontro do bandido com sua ex-mulher – é outro flashback, explicando como tinha sido o dia muito carregado de Simon.

A rigor, acho que foi isso que os roteiristas pretenderam: eles quiseram induzir o espectador a crer que o encontro de Simon com a ex-mulher era um novo flashback.

Se o espectador caísse, tudo bem. Se não, tudo bem também.

Um cineasta que diz e repete que partiu da imagem para as histórias

A história de Le Voyou é de Lelouch. Lelouch é o autor da história, da trama, do argumento da imensa maioria de seus filmes.

Segundo o próprio Lelouch diz e repete, uma das diferenças entre ele e os cineastas da nouvelle vague é que eles partiram da literatura para o cinema, enquanto ele partiu da própria imagem, para só muito mais tarde fazer adaptações de obras literárias.

(Ele fez a afirmação pessoalmente para este reles anotador sobre filmes aqui, quando o reles anotador sobre filmes sentiu-se obrigado a – na falta de outro profissional mais qualificado e competente – entrevistá-lo durante sua visita ao Brasil para divulgar Um Homem, Uma Mulher Vinte Anos Depois, em 1986. Eu era editor de Cultura da revista Afinal, a época era de vacas magras, muitos dos profissionais que tinham lançado a revista haviam saído; não havia ninguém que eu pudesse escalar para a entrevista, e então lá fui eu.)

Vão aí, nessa afirmação que Lelouch faz repetidas vezes, uma dose de verdade, outra de ironia, outra de amargura, outra de desafio. Lelouch quer dizer com isso – entre outras coisas – que sua origem foi mais humilde que as dos seus conterrâneos e praticamente contemporâneos Godard, Truffaut, Rohmer, Chabrol. Que esses, os grandes nomes da nouvelle vague, cujos primeiros filmes foram lançados a partir de 1958, 1959, 1960, são mais letrados do que ele, iniciaram as carreiras na crítica de cinema – e que, em muitos de seus filmes, fizeram adaptações de obras literárias, enquanto ele, filho de imigrante africano, começou a vida como operador de câmara em documentários.

Se os argumentos de boa parte de seus filmes são de sua autoria, na tarefa de escrever os roteiros Lelouch tem a humildade de pedir ajuda a outros. Seu colaborador mais constante nos roteiros é Pierre Uytterhoeven. O roteiro de Le Voyou é assinado por Lelouch, Uytterhoeven e mais Claude Pinoteau. O próprio realizador, cuja humildade não chega a ser muito grande, de forma alguma, assina os diálogos – no cinema francês, o crédito dos diálogos é muito importante – e também o trabalho de câmara. (Talvez porque tivesse começado como cameraman, talvez por saber que é extraordinariamente competente nesse ofício, Lelouch continuou carregando a câmara durante muitos de seus filmes, mesmo depois que ficou rico, dono de uma produtora rentável.)

Mas o roteiro é assinado a seis mãos.

E é um roteiro brilhante.

Até mesmo por esses truquezinhos iniciais de sugerir que pode estar havendo um flashback quando na verdade não se está.

O que vem aqui é quase um spoiler. Pode-se pular para o próximo intertítulo

Revelei até aqui sobre a trama o que rola até aí uns 16 minutos dos 120 da duração do filme. Virão a seguir muitos acontecimentos completamente inesperados, fascinantes, engraçados, inteligentes, bem sacados.

Quando estamos já bem perto do desenlace da história, o espectador perceberá que – epa! teve algo aí que me escapou.

E é verdade. Quase ao fim da narrativa, cai a ficha de que houve algo, anteriormente, que não ficou exatamente claro.

Voltamos atrás, Mary e eu, para checar onde foi. E checamos: os roteiristas Lelouch, Uytterhoeven e Pinoteau dão um chapéu no espectador quando o filme está aí por volta de 45 minutos.

Um chapéu. Um truquezinho. Uma enganadazinha. Um pequeno jogo.

Na minha opinião, esse pequeno jogo não é uma sacanagem contra o espectador. É apenas isso: um pequeno jogo.

E aí fico me perguntando se eu não sou um sujeito profundamente incoerente.

Ao falar de alguns filmes recentes do cinemão comercial, reclamo do que chamo de “Essa regra cada vez mais comum segundo a qual Podendo-Complicar-a-Narrativa,-Por-que-Simplificar?”

No entanto, como este é um filme de Claude Lelouch, um dos cineastas que mais admiro, digo que o que ele faz é apenas um pequeno jogo com o espectador.

Um realizador de filmes autorais, pessoais, intransferíveis

Um dos motivos de minha admiração absoluta por Lelouch é o fato de que seus filmes são autorais, pessoais, intransferíveis feito dor de dente. OK: admito que outro dos motivos pelos quais Lelouch me fascina é o fato de que 99,99% dos críticos de cinema, do pessoalzinho de nariz empinado que se diz amante dos “filmes de arte”, que tem como projeto de vida poder dizer que detesta o “cinema americano” (uma entidade de resto mais inexistente que Papai Noel), detestam Lelouch.

Mas o principal motivo de minha admiração por esse realizador detestado por 99,99% dos “entendidos em cinema” é mesmo pelo fato de que, desde sempre, ele faz filmes pessoais.

É um autor. E é esquisito pensar que os “entendidos em cinema” veneram todos os autores, de D.H.Griffith até Quentin Tarantino, passando pelos grandes todos, Bergman, Buñuel, Ford, Eisenstein – mas detestam Lelouch.

Autor, Lelouch sempre volta aos mesmos temas, às mesmas manias. Parece o criminoso da frase velha, sempre querendo voltar ao local do crime. Seu crime maior, Um Homem, Uma Mulher, ele não pára de revisitar. Em La Bonne Année, no Brasil A Dama e o Gângster, de 1973, exibe-se para os presos – entre os quais o protagonista, interpretado por Lino Ventura – Um Homem, Uma Mulher. Em Robert e Robert, de 1978, os pobres corações solitários que precisam recorrer à agência de encontros para encontrar um(a) possível companheiro(a) cantarolam numa festinha o tema que Francis Lai criou para Um Homem, Uma Mulher e ficou mundialmente conhecido.

Revisita de novo seu maior sucesso neste Le Voyou. Primeiro, com a presença de Jean-Louis Trintignant. E até mesmo com o sobrenome de seu protagonista, Simon Duroc. Duroc era o sobrenome do personagem central de Um Homem, Uma Mulher, Jean-Louis Duroc. (E Simon é o prenome do filho que o realizador teve com Christine Lelouch, sua mulher na época, que interpreta Martine, a ex-mulher do protagonista do filme.)

Lá pelas tantas, quase perto do final da narrativa, o comissário de polícia, interpretado por Yves Robert, diz a Simon Duroc que foi visto um casal, “um homem, uma mulher” – e então Simon Duroc-Jean Louis Trintignant assobia os primeiros acordes da canção tema que Francis Lai criou para Um Homem, Uma Mulher.

O grande Yves Robert aceitou fazer um pequeno papel no filme

Mas péra lá!

Yves Robert!

Sim, sim, eu vi o nome nos créditos iniciais. Mas era muita informação junta, e aí me passou.

Vejo agora, enquanto estou escrevendo esta anotação, que o comissário de polícia – beleza de atuação, mas, também, quem não atua bem dirigido por Lelouch? – é interpretado por Yves Robert!

Fui checar se não seria um homônimo, mas não, é Yves Robert mesmo. O realizador que fez A Guerra dos Botões, de 1962, um filme fetiche, um filme maior, dos mais fascinantes que já foram feitos sobre crianças, comparável apenas a algumas poucas obras maiores, como Na Idade da Inocência/L’Argent de Poche, de Truffaut, de 1976. E mais Alexandre, o Felizardo, um dos filmes que Regina mais amava, e ainda o esplêndido díptico A Glória de Meu Pai e O Castelo da Minha Mãe.

Em sua autobiografia, Lelouch dá a entender que o único colega seu de metier, o único cineasta francês que era seu amigo, que o tratava bem, era Jean-Pierre Melville.

Vai aqui portanto uma prova de que há inverdade no livro de Lelouch. Ele conseguiu fazer com que Yves Robert trabalhasse em seu filme – e Yves Robert está extraordinário, maravilhoso, como o comissário de polícia.

Mais uma vez a trama inclui o Olympia. E tem Charles Denner

Mas volto então às coisas do autor Lelouch, sua mania de botar sempre as mesmas coisas em suas histórias.

Por exemplo, o Olympia.

O Olympia aparece em Toda Uma Vida, o filme de 1975. Gilbert Bécaud, fazendo o papel dele mesmo, canta no Olympia. O Olympia aparece em Robert e Robert – o encerramento da narrativa é lá, naquele teatro centenário por onde passaram todos, todos, exatamente todos os grandes músicos franceses do século XX. (Até mesmo alguns não franceses passaram por lá. Aqueles garotinhos de Liverpool inclusive.)

O Olympia tem uma importância grande na trama de Le Voyou.

E aí tem Charles Denner.

Mas que ator extraordinário é Charles Denner.

Ele só aparece neste Le Voyou quando estamos aí pela metade do filme. Faz o pai do garoto que será sequestrado à entrada do Olympia. O papel dele cresce a partir daí.

Deve ser engraçado ser ator francês e trabalhar ora com um realizador incensado, ora com um realizador odiado.

Charles Denner (1926-1995) trabalhou tanto com Truffaut quanto com Lelouch. Com Truffaut, fez um dos homens procurados pela noiva que estava de preto, no maravilhoso filme de 1968; esteve em Uma Garota Tão Bela Quanto Eu, de 1972; mais tarde, em 1977, seria o protagonista do excepcional, maravilhoso O Homem que Amava as Mulheres.

Paralelamente, trabalhava com Lelouch. Em Le Voyou, fazia um papel relativamente pequeno (afinal, só surge no meio do filme), mas importantíssimo. Participou de Uma Aventura é uma Aventura, de 1972; em Toda uma Vida, fez três papéis, de avô, pai e filho de um dos personagens centrais – uma interpretação maravilhosa. Voltou a trabalhar com Lelouch em Se Tivesse que Refazer Tudo/Si c’était a refaire, de 1976, e seria um dos protagonistas de Robert e Robert, de 1978.

Fico pensando aqui: será que Charles Denner levava confidências de um lado para outro, todos os grandes cineastas franceses de um lado versus esse outro aí execrado por toda a crítica mundial?

Com Truffaut, certamente, ele não teria feito intriga, mesmo que quisesse – e não acho que ele tenha querido. Truffaut era gente fina, da paz, do bem.

Lelouch é como sua personagem Anne Gauthier: quanto mais a crítica malha, mais ele faz filmes

Lelouch, no discurso, preza muito la generosité. Euzinho o ouvi prezar diversas vezes la generosité, e babei com isso, fã eterno que sou dele, e da generosidade.

Talvez por ser filho de imigrantes, talvez por ter sido tão combatido, tão malhado, tão espezinhado por 99,99% dos 1,432 milhões de críticos de cinema do mundo, Lelouch tenha reagido virando um casca grossa, uma tartaruga gigante, fingindo-se imune às críticas – ao mesmo tempo em que reage a elas com agressividade.

Joe Giddeon, o alter ego de Bob Fosse em All That Jazz, aquele gênio que fez apenas cinco filmes, não tinha forças para aguentar um pau da crítica. Quando, recém-operado do coração, vê a crítica de plantão na TV (seria ela inspirada em Dame Pauline Kael?) destruir seu novo filme, Joe Giddeon tem novo piripaque cardíaco.

Anne Gauthier, a personagem de Um Homem, Uma Mulher, que na continuação do filme, Um Homem, Uma Mulher 20 Anos Depois, é uma grande produtora de cinema, não se deixa abater nem mesmo quando seu namorado mete o pau em sua mais recente produção. De imediato, parte para fazer um novo filme.

Joe Giddeon é Bob Fosse escarrado – um gênio cheio de medo, de pavor, com o que a crítica vai dizer sobre sua obra.

Claude Lelouch é Anne Gauthier escarrada – um sujeito inseguro que finge ser seguro demais.

Lelouch finge ser tão seguro demais que cria, em Le Voyou, uma situação que ele não tinha nenhuma necessidade de criar.

Quando Simon foge da polícia, há dois cinemas, lado a lado, nos quais ele poderia entrar.

Era 1970, e então num cinema estava passando A Confissão/L’Aveu, filme extraordinário, sério, profundíssimo, feito pelo mestre do cinema político, Costa-Gavras, estrelado por Yves Montand (que havia trabalhado com Lelouch em Viver por Viver, o filme que ele realizou logo depois de Um Homem, Uma Mulher).

No cinema ao lado, estava passando Voyou, filme inexistente, filme dentro de filme, invenção de Lelouch.

No rádio, o locutor diz que é interessante o fato de que o bandido perseguidíssimo pela polícia tenha podido escolher se se escondia em um cinema que passava A Confissão e outro que passava Voyou. E, fã de cinema, o locutor diz:

– “Eu teria indicado A Confissão, mas meu gosto cinematográfico não é o que importa…”

Le Voyou não é sério. A rigor, é até moralmente errado

A Confissão/]L’Aveu, de Costa-Gravras, digo euzinho agora, é um filme importante, importantíssimo, maior. Em todos os sentidos – artísticos, e políticos. Ao mostrar a tortura executada pela polícia política da Checoslováquia, marcou o rompimento definitivo de Jorge Semprum e de Yves Montand com o comunismo stalinista. É um absoluto brilho, e de uma imensa força.

Le Voyou, ao contrário, não é um filme sério.

É uma aventura – l’aventure c’est l’aventure.

Se for visto com rigor, é um filme moralmente indefensável.

Muitos grandes cineastas fizeram filmes mostrando bandidos como heróis. A simpatia do cinema pelos bandidos, pelos foras-da-lei-, vem desde que o cinema existe.

E o cinema, coitado, não inventou nada. Quando surgiu, no final do século XIX, já havia uma centenária, quase milenar tradição de a arte admirar o fora-da-lei. Tá aí a folk song para não me deixar mentir.

E então, no frigir dos ovos, devo dizer que Le Voyou é bem realizado, gostoso, divertido – mas é moralmente errado.

Não é admirando ladrões, achacadores, sequestradores, que vamos poder ir em frente. Se quisermos ir em frente.

Se for mesmo para falar sério, assim como os mestres Akira Kurosawa e Satyajit Ray, não dá para compactuar com o crime, a corrupção. Qualquer que seja, em que nível seja.

Anotação em abril de 2012

Um Homem Como Poucos/Le Voyou

De Claude Lelouch, França-Itália, 1970

Com Jean-Louis Trintignant (Simon), Danièle Delorme (Janine), Charles Denner (M. Gallois), Christine Lelouch (Martine), Amidou (Bill), Pierre Zimmer (o marido de Martine), Charles Gerard (Charles), Judith Magre (Mme. Gallois), Yves Robert (o inspetor), Sacha Distel

Argumento Claude Lelouch

Roteiro Claude Lelouch, Pierre Uytterhoeven e Claude Pinoteau

Fotografia Jean Collomb

Música Francis Lai

Produção Les Films 13, Les Films Ariane, Les Productions Artistes Associés, Produzioni Europee Associati (PEA). DVD Paragon Multimídia.

R, ***

Título em inglês: The Crook.

5 Trackbacks

  1. […] protagonista, Bertrand Morane, é interpretado por Charles Denner, um ótimo ator que nunca foi propriamente um astro. Denner teve papéis importantes em dois filmes […]

  2. […] sabido: com Lelouch, não tem meio termo. Ou se ama ou se odeia – profundamente. Eu sou do primeiro time, mas, mesmo […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Rendez-vous em 17 abril 2014 às 5:13 pm

    […] se envolve com um astro obsessivo de shows eróticos Wilson e seu mentor, um renomado diretor (Trintignant). O clima mórbido e as cenas de sexo extremas podem repelir algumas […]

  4. […] Morane, o protagonista, o homem do título, interpretado por Charles Denner, filosofa, volta e meia: “As pernas das mulheres são compassos que circulam pelo globo terrestre […]

  5. […] de que há um grupo de realizadores que tratou desse tema mais que todos os outros: Jacques Demy, Claude Lelouch e Krzysztof […]

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