Um Grito no Escuro / A Cry in the Dark

Nota: ★★★½

Um Grito no Escuro é um belíssimo filme, um emocionante drama familiar baseado numa história real. Poderia ser só isso, e já seria excelente, mas ele vai muito além. Ele deixa qualquer espectador que tenha um mínimo de sensibilidade com vergonha de algumas atitudes que ele próprio, espectador, já tomou na vida.

Enquanto via pela primeira vez o filme realizado em 1988 pelo australiano Fred Schepisi, me peguei com vergonha de mim mesmo por ter tido tantas certezas depois de ler algumas reportagens nos jornais, tipo de fato o casal Nardoni jogou a filhinha Isabella pela janela de seu apartamento na Zona Norte de São Paulo, ou Suzane Richthofen de fato executou seus pais para ficar com a herança.

Um Grito no Escuro vai muito além de reconstituir a descida ao inferno do casal australiano que perdeu a filhinha de poucas semanas de vida – e acabou sendo acusado de assassinar a garota. Faz a reconstituição, sim, com brilho, com a competência firme de Schepisi, auxiliado pelo talento de Meryl Streep e Sam Neill. Mas bota um dedão grande em duas feridas fundas, feias, horrorosas: a irresponsabilidade, o sensacionalismo de boa parte da imprensa, e a facilidade com que cada um de nós, pessoas comuns, passamos a condenar pessoas que não conhecemos, e que aparecem na imprensa como suspeitos de algum crime.

O filme mostra que cada um de nós ainda não aprendeu a lição da Escola Base.

Para quem não se lembra, ou se lembra mal, do caso Escola Base, vejo o lead de um texto assinado por Felipe Amorim no Uol, neste ano de 2012:

Dezoito anos atrás, os donos da Escola de Educação Infantil Base, na zona sul de São Paulo, foram chamados de pedófilos. Sem toga, sem corte e sem qualquer chance de defesa, a opinião pública e a maioria dos veículos de imprensa acusaram, julgaram e condenaram Icushiro Shimada, Maria Aparecida Shimada, Mauricio Alvarenga e Paula Milhim Alvarenga.

Michael é pastor adventista, e ele a mulher têm fé profunda

Um Grito no Escuro é o relato – brilhante – de uma tragédia semelhante à que se abateu sobre os donos da Escola Base.

Quando a narrativa está quase se aproximando do filme, se diz que foi o caso judicial que teve a maior repercussão em toda a história da Austrália.

O filme abre – depois de créditos iniciais sóbrios, clássicos, que não obrigam o espectador a dividir sua atenção entre os nomes das pessoas e as seqüências – com um letreiro: “Esta é uma história real. Começou em agosto de 1980, em Mt. Isa, no Estado australiano de Queensland.”

Vemos uma tomada geral da cidadezinha de Mt. Isa, e em seguida uma cerimônia em uma igreja adventista. O casal Michael e Lindy Chamberlain (interpretado por Sam Neill e Meryl Streep), com seus dois filhos aí de uns 8 e 6 anos, Aidan e Reagan, está introduzindo à comunidade de sua igreja a filhinha recém-nascida, Azaria.

Michael é um pastor adventista, e ele e Lindy têm fé profunda. Falam em Deus praticamente em cada frase.

Quando Azaria está com umas seis semanas de vida, Michael tira um período de férias e a família toda viaja no carro não muito novo deles até um dos principais pontos turísticos do interior da Austrália, o Ayers Rock – uma montanha de pedra que é tida como o maior rochedo do mundo.

Os Chamberlains são classe média média; vivem numa casa confortável, mas não têm dinheiro sobrando, de forma alguma. Na viagem até o parque em que fica o Ayers Rock, acampam em barracas, numa área grande reservada ali para campistas.

Durante os primeiros 12 minutos do filme, o espectador não tem a menor idéia do que vai se passar. Mostra-se uma família normal, comum, sem absolutamente nada de especial a não ser, talvez, a profunda religiosidade.

Aos 13 minutos de filme, é noite, e o bebê Azaria desaparece da barraca em que Lindy a deixara dormindo.

Lindy vê um dingo, uma espécie de cachorro selvagem extremamente comum na Austrália, saindo da barraca.

Grita que um dingo está levando seu bebê.

Dezenas de pessoas que estavam acampadas ali ajudam os Chamberlains a procurar por Azaria. Chega a polícia, que põe dezenas de homens na busca.

Não acham o bebê.

A história chama a atenção de toda a imprensa australiana.

O desaparecimento de Azaria vira notícia nacional.

A imprensa mente descaradamente. Inventa coisas a respeito da família, transcreve frases que Lindy e Michael não falaram.

Gente comum começa a discutir sobre o casal como se o conhecesse intimamente

E aqui entra uma bela sacada do diretor Schepisi, ele mesmo autor do roteiro, em colaboração com Robert Caswell.

O filme passa a mostrar, em rápidas sequências espalhadas ao longo da narrativa, pessoas comuns discutindo o drama da família Chamberlain.

Em lanchonetes, em lojas, em bares, gente comum discute o drama da família. Falam mal de Lindy, de Michael. Mostram profundo preconceito contra os adventistas. Começam a dizer que a família pratica rituais esotéricos, com sacrifício de animais.

Nunca se ouviu falar de um dingo raptar um bebê.

Surge a suspeita de que Lindy assassinou sua filha e inventou essa história maluca de dingo.

A polícia abre investigação, a justiça abre inquérito.

À dor absurda da perda da filhinha, junta-se uma dor que não cessa nunca, que só cresce.

Um filme com ritmo acelerado, para realçar a rapidez como a vida do casal vira um inferno

Schepisi imprimiu a seu filme um ritmo acelerado, apressado.

Fiquei com a impressão de que o filme, de 121 minutos, não tem sequer uma vez um fade out e fade in. Não posso jurar que isso não apareça sequer uma vez, mas, se aparece, é pouquíssimas vezes.

O fade out – a imagem anterior desparece, a tela fica negra por alguns segundos, ou décimos de segundo, até surgir outra imagem, no fade in – costuma ser usado na montagem para separar uma seqüência da outra. Como se fosse para separar os capítulos de um livro. Uma pequena pausa entre um fato e outro. Grandes realizadores e grandes montadores sabem usar essa pausa com maestria, para dar ênfase às sequências, às pausas, ao tempo decorrido entre uma ação e outra.

Schepisi e sua montadora Jill Bilcock aqui fizeram uso da ausência de pausas na narrativa. Como se para realçar a velocidade com que a vida dos Chamberlains vai mergulhando cada vez mais no inferno.

Estamos vendo uma determinada seqüência em que aparecem Michael e Lindy; de repente, corta, sem pausa alguma, montagem rápida, sem fade in e fade out, e estamos vendo um grupo num bar fofocando a respeito do drama alheio.

Fofocando. Tecendo considerações sobre um drama com o qual não têm nada a ver, sobre pessoas que não conhecem, sobre as quais apenas leram uma ou outra notícia no jornal ou viram no noticiário da TV.

A palavra gossip, fofoca, é usada algumas vezes na narrativa. Ao final, nos créditos finais, na relação de nomes de personagens e atores, é feita uma divisão por temas, locais. A família. O tribunal tal, o tribunal tal. Em Ayers Rock. Depois a polícia. Os jornalistas. E ao fim aparece: gossipers. Fofoqueiros.

Um Grito no Escuro é um belo, forte, esplendoroso libelo contra a fofoca

A forma com que Um Grito no Escuro faz a condenação das fofocas, dos fofoqueiros, é um brilho esplendoroso.

Dá vergonha na gente. Porque cada um de nós já fofocou na vida.

Me lembrei de outro grande filme, Dúvida/Doubt, de John Patrick Shanley – por coincidência, também com Meryl Streep no elenco. Em Dúvida, surge a suspeita de que um padre está dando muita atenção a um garotinho que estuda numa escola católica no Bronx, em Nova York, nos anos 1960. Logo espalha-se o boato de que o padre está abusando sexualmente do garoto.

Lá pelas tantas, o padre (interpretado por Philip Seymour Hoffman) faz um sermão do púlpito da igreja que é uma obra-prima, uma maravilha. Não resisto e transcrevo aqui o sermão:

– “Uma mulher estava fofocando com sua amiga sobre um homem que elas mal conheciam – eu sei que nenhum de vocês faz isso. Naquela noite, ela teve um sonho: uma grande mão apareceu apontando para ela. Ela foi imediatamente tomada por uma gigantesca sensação de culpa. No dia seguinte foi se confessar. Chegou-se para seu velho pároco, o Padre O’Rourke, e contou tudo para ele. “Fofocar é pecado?”, perguntou. “Era a mão de Deus Todo Poderoso apontando contra mim? Devo pedir sua absolvição? Padre, eu fiz algo errado?” “Sim”, respondeu o Padre O’Rourke. “Sim, mulher ignorante, mal criada. Você prestou falso testemunho sobre seu vizinho. Você brincou com a reputação dele, e deveria se sentir profundamente envergonhada.” E então a mulher disse que sentia muito, e pediu pelo perdão dele. “Não tão depressa”, disse O’Rourke. “Quero que você vá para casa, pegue um travesseiro, coloque-o no alto de sua casa, corte o travesseiro com uma faca, e volte aqui.” Então a mulher foi para casa, pegou um travesseiro de sua cama, uma faca da gaveta, subiu até o telhado e esfaqueou o travesseiro. Depois voltou ao velho padre, conforme ele havia ordenado. “Você cortou o travesseiro com a faca?”, ele perguntou. “Sim, Padre.” “E qual foi o resultado?” “Penas”, ela respondeu. “Penas?”, ele repetiu. “Penas, em todos os lugares, Padre.” “Agora quero que você volte lá e junte cada uma das penas que voaram com o vento.” “Bem”, ela disse, “isso é impossível. Não sei para onde elas foram. O vento as levou para todos os cantos.” “E isso”, disse o Padre O’Rourke, “é o boato!”

Um Grito no Escuro tem a força, a beleza, o esplendor dessa parábola.

“Meryl Streep e Sam Neill estão bons de quebrar o coração”

Virou lugar absolutamente comum se dizer que Meryl Street é a maior atriz de sua geração.

É a mais pura verdade dos fatos.

Por sua interpretação como essa australiana (e dizem que o sotaque de australiana dela no filme é perfeito) religiosíssima que come todo o pão que o diabo amassou, Meryl Streep recebeu uma indicação ao Oscar. Foi sua oitava indicação. Não levou a estatueta – mas isso não diminui em nada seu desempenho excepcional, brilhante.

(Em 2012, ela coleciona 17 indicações ao Oscar, com três vitórias.)

Leonard Maltin deu ao filme 3.5 estrelas em 4: “O autor-diretor Schepisi conta sua história com realidade quase de documentário, eloquentemente atacando o processo de julgamento por um boato que transformou Chamberlain e seu marido no mais caluniado casal da Austrália. Streep e Neill estão bons de quebrar o coração.”

E Maltin acrescenta que, na Austrália, o filme se chamou Evil Angels, anjos do mal. Que belo título.

Vejo que Evil Angels foi o nome do livro, de autoria de John Bryson, a respeito do caso dos Chamberlain, e que serviu de base para o roteiro de Schepisi e Robert Caswell. (Na foto, a Lindy Chamberlain da vida real, com seu bebê Azaria.)

Pauline Kael dedicou ao filme um texto maior do que o normal, em seu livro 5001 Nigths at the Movies. A crítica dela sobre o filme está na edição brasileira do livro, traduzido e editado por Sérgio Augusto. Alguns trechos:

“O diretor, Fred Schepisi, tenta fazer uma dissecação épica de como se espalham as superstições, e como pode ser falsa a percepção do público (baseada nos meios de comunicação). (…) Talvez o que a tenha tornado a mulher mais odiada da Austrália (Lindy Chamberlain) tenha sido o fato de que a TV acostumara as pessoas a ver mães em lágrimas, exibindo sua fragilidade e seu drama, e ali estava Lindy na TV – estóica, objetiva e abertamente impaciente com as intermináveis perguntas estúpidas.”

Aí Dame Kael argumenta que Schepisi acabou “juntando mais elementos do que podia desenvolver”. Acho isso bobagem dela. No fim, a grande dama da crítica americana diz: “Saímos comovidos – até mesmo abalados – mas não absolutamente certos do que vimos.”

Outra bobagem de Dame Kael, na minha opinião.

É um brilho de filme. Para ver, sofrer com aquelas pessoas decentes, honestas, jogadas no fundo do inferno. Para pensar. Para prometer a si mesmo não voltar a fazer fofoca na vida.

Anotação em outubro de 2012

Um Grito no Escuro/A Cry in the Dark

De Fred Schepisi, Austrália-EUA, 1988

Com Meryl Streep (Lindy Chamberlain), Sam Neill (Michael Chamberlain)

e Bruce Myles (Barker), Charles Tingwell (Muirhead), Nick Tate (Charlwood), Neil Fitzpatrick (Phillips), Maurie Fields (Barritt), Lewis Fitz-Gerald (Tipple), Dennis Miller (Sturgess)

Roteiro Fred Schepisi e Robert Caswell

Baseado no livro Evil Angels, de John Bryson

Fotografia Ian Baker

Música Bruce Smeaton

Montagem Jill Bilcock

Produção Metro-Goldwyn-Mayer, Verity Lambert. DVD PlayArte.

Cor, 121 min

***1/2

Título na Austrália: Evil Angels.

 

3 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 9 dezembro 2012 às 11:43 am | Permalink

    Filme fantástico. Assisti quando era novinha (tem uns dez anos), preciso rever. A piadinha em um dos episódios de Seinfeld ajudou a manter o filme na minha memória, também.

  2. José Luís
    Postado em 3 janeiro 2013 às 11:21 pm | Permalink

    Muito bom.
    O Sérgio outra vez acertou em cheio.
    Vi o filme e comprei o DVD guiado pelo opinião dele e mais uma vez fiquei muito satisfeito.
    Não conhecia nem sequer de nome, fui atrás do Sérgio e ainda bem.
    Obrigado.

  3. Mah
    Postado em 15 maio 2014 às 4:58 pm | Permalink

    Vi esse filme no TCM hj de tarde, simplesmente fiquei chocada como a opinião pública, as fofocas, e a imprensa podem denegrir tanto uma pessoa inocente…vale p começar a repensar em tudo q opinamos até hj sobre esses casos….

3 Trackbacks

  1. […] é um daqueles filmes de que é fácil gostar, este Seis Graus de Separação, que o australiano Fred Schepisi fez nos Estados Unidos em 1993. Baseia-se em uma peça de teatro nova-iorquina, sobre gente muito […]

  2. […] Meryl Streep estava, no ano de lançamento do filme, com gloriosos 63 anos. Tommy Lee Jones, com 66. […]

  3. […] é vizinha dos Barber. O pai, David Reid (o papel de Sam Neill), um empresário rico, está naquela época se separando da mãe, Irene (Justine […]

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