Um Gosto de Mel / A Taste of Honey

Nota: ★★★☆

Que ninguém se engane pelo título: Um Gosto de Mel é mais amargo que jiló. Ou, para usar a expressão dita pelo ministro Carlos Ayres Britto na mesma semana em que revi o filme agora, uns 50 anos depois de vê-lo pela primeira vez: tem “um gosto de jiló, de mandioca-roxa, de berinjela crua”.

O filme que Tony Richardson dirigiu em 1961 é um retrato dilacerante do período de alguns meses na vida de uma adolescente pobre na periferia de uma grande cidade inglesa. Dilacerante, tristíssimo, desesperançado, desolador.

É também mais uma obra marcante que reafirma aquela crença que tenho há décadas, e fica ainda mais forte a cada dia: a de que nenhum homem ou mulher deveria ter a capacidade de ser pai ou mãe — até prova em contrário. Ser pai ou mãe não deveria ser uma obrigação decorrente da biologia, deveria ser uma opção. Mais ainda: para permitir que alguém decidisse ser pai ou mãe deveria haver vestibular. Só poderia ter filhos quem passasse em concurso sério, com prova de títulos e de conhecimento, e banca examinadora exigente.

A protagonista é filha não desejada de pai nunca visto e mãe ignorante e fútil

Jo (o papel da então estreante Rita Tushingham, aos 19 anos, mas com a aparência de uns 15, 16) é uma garota inteligente, esperta, com um senso de humor apurado – e é estranho que ela tenha humor, ainda mais apurado, tendo a vida que tem. Jo é pobre sem eira nem beira, filha não desejada de pai nunca visto e uma mulher pobre, ignorante, fútil, chegada a uma noitada, um homem e alguma cachaça, uma tal Helen – interpretada, quase de maneira caricatural, por Dora Bryan.

Quando Jô volta da escola para o quarto quase dickensiano em que moram de aluguel, Helen acaba de ser cobrada pela dona da casa – está com o aluguel atrasado há várias semanas. Antes mesmo dos créditos iniciais, Helen e Jo juntam seus pertences e fogem dali pela janelinha que dá do quase subsolo para a rua.

Jo nunca teve uma casa. Passou a vida mudando de quarto alugado para quarto alugado, fugindo das dívidas da mãe que, aparentemente, nunca trabalhou na vida.

Filha de mãe que nunca trabalhou, nem working class Jo chega a ser. Working class, como diz o próprio nome, é a classe pobre que trabalha muito por salário pouco. O inglês que falam é o mais puro cockney, o inglês dos pobres iletrados.

E no entanto Jo tem humor. Ri de sua própria desgraça, e da desgraça da mãe.

A atriz Dora Bryan (na foto abaixo) compõe uma Helen desprezível, odiosa, nojenta. Sua filmografia quase chega a cem títulos, entre a estréia em 1947 e 2006. Estava, em 1961, época do filme, com 38 anos. Seu personagem está com cerca de 40 – mas é absolutamente incrível como parece ter muito mais. Parece uma matrona de uns 60, ou mais.

O filme não identifica a cidade em que se passa a ação. É, pelo que se vê, uma cidade grande, e à beira-mar. As filmagens foram na Grande Manchester, mas, a rigor, o que Tony Richardson pretende dizer é que aquelas vidas trágicas poderiam estar acontecendo em qualquer grande cidade inglesa.

Uns poucos momentos de algo parecido com um gosto de mel

Na hora em que as duas descem do ônibus com suas malas para se encaminhar até o novo quarto que Helen vai alugar, Jo é auxiliada por um rapaz simpático, prestativo, Jimmy (Paul Danquah). Veremos depois que Jimmy trabalha como cozinheiro em um grande cargueiro fundeado no porto. Os dois vão voltar a se encontrar por acaso, uma vez, depois outra, depois outra.

Jo pergunta a Jimmy, numa ocasião qualquer, se seus pais vêm da África – a pele do rapaz é negra, algo que, em 1961, ainda não era tão comum de se ver na Inglaterra. A invasão da sede do império por imigrantes das mais distantes possessões britânicas espalhadas pelo mundo estava apenas começando. Jimmy dá uma boa risada, e diz que não, que seus pais vêm de Liverpool.

Com Jimmy, Jo terá algo parecido com um gosto de mel. Por pouco tempo. Marinheiros vão embora, e adolescentes pobres não costumavam usar métodos anticoncepcionais, e então Jo se percebe grávida, depois que a mãe doidivana foi viver com um sujeito tão repulsivo quanto ela, um tal Peter (Robert Stevens). Esse Peter aceita ter e mantér aquele traste de mulher, desde que ela não carregue a filha.

Quando o filme já ruma para a segunda metade, Jo conhece outro jovem – Geoffrey, uma interpretação espetacular de Murray Melvin. É um personagem fascinante, assim como é fascinante a relação que se estabelece entre os dois garotos. Geoffrey é homossexual, e afeiçoa-se tremendamente por Jo, uma pessoa tão deslocada no mundo quanto ele mesmo.

Uma garotinha de rosto feio-lindo que se tornou o rosto do cinema inglês

Boa parte da beleza deste filme tristíssimo – que se baseia numa peça de teatro de Shelagh Delaney (1938-2011), lançada em 1958 – vem de Rita Tushingham, essa moça de rosto feioso e ao mesmo tempo lindo, iluminado por gigantescos olhos verdes.

A interpretação de Rita é fascinante, abençoada. Ela incorpora Jo completamente, e faz daquela pobre garota pobre uma bela flor no meio do lixo das periferias das grandes cidades. Algo mais ou menos como Debbie Reynolds havia criado Tammy como uma flor no meio dos pântanos do Mississipi.

Para mim, e tenho certeza de que para milhares e milhares de pessoas da minha geração, Rita Tushingham era a cara do novo cinema inglês, o Free Cinema, que surgiu no finalzinho dos anos 1950 e início dos 1960, na mesma época que a nouvelle vague de Godard, Truffaut e Chabrol. Mais do que o jovem Albert Finney de As Aventuras de Tom Jones, que Tony Richardson faria dois anos mais tarde, em 1963, mais do que o jovem Richard Burton de Odeio Essa Mulher/Look Back in Anger, que o mesmo Richardson havia feito em 1959, a cara do novo cinema inglês era a cara feiosa e linda de Rita Tushingham.

Ela voltaria a encantar em Girl with Green Eyes (1964), ao lado de Peter Finch e Lynn Redgrave, e em The Knack, no Brasil A Bossa da Conquista (1965), dirigido por Richard Lester, o realizador que faria os dois filmes com os Beatles, A Hard Day’s Night (1964) e Help! (1965). E depois ficaria marcada para sempre como a garotinha sem nome mas com um dom, um talento (herança do pai poeta?), que aparece no começo e no fim de Doutor Jivago (1965), a maravilhosa transposição para o cinema do romance de Boris Pasternak.

É impressionante como o filme mostra influência do neo-realismo italiano

Ao rever agora Um Gosto de Mel, me impressionou demais como o filme parece ter saído do neo-realismo italiano. Todo o visual e toda a ambientação é neo-realismo puro: o preto-e-branco não muito iluminado dos interiores e das cenas noturnas, a paisagem desolada e desoladora (lá, da Itália destruída pela Segunda Guerra; aqui, da periferia pobre das cidades industriais), a vida dura dos pobres e suas habitações inóspitas, a imensa quantidade de tomadas externas, longe dos estúdios.

É de fato impressionante como o neo-realismo italiano influenciou as cinematografias de tantos países: França, Inglaterra, Brasil, muito depois Irã… Impressionante.

Rita Tushingham e Murray Melvin levaram o prêmio de interpretação em Cannes

Um Gosto de Mel teve seis indicações para o Bafta, o prêmio da Academia Britânica: melhor filme britânico, melhor filme do ano, melhor atriz para Dora Bryan, melhor roteiro para Shelagh Delaney e Tony Richardson, melhor nova atriz para Rita Tushingham, melhor novo ator para Murray Melvin. Só não levou os de melhor filme e melhor novo ator.

Os créditos do filme apresentam Dora Bryan e Robert Stephens – os adultos, os nomes já com alguma consagração – como os atores principais, e colocam Rita Tushingham e Murray Melvin depois, sob o selo de “introduzindo”. Coisa ridícula da indústria. Os atores principais são mesmo os “introduzidos”, os jovens, os newcomers, como diz o nome dos prêmios Bafta, “Most Promising Newcomer to Leading Film Roles”.

O Festival de Cannes corrigiria essa distorção: Rita Tushingham e Murray Melvin (na foto abaixo) levaram lá os prêmios de melhor atriz e melhor ator.

O Dicionário de Filmes do mestre francês Georges Sadoul, que, ao contrário da maioria dos guias, concentra-se nas obras mais importantes, sem se preocupar com o número de filmes comentados, diz: “Originário do Free Cinema e dos “angry young men”, um quadro da vida numa grande cidade inglesa, que não resvala nem para o miserabilismo nem para o populismo, e centraliza-se na personagem ingrata mas cativante, interpretada por Rita Tushingham. Admiráveis imagens dos cenários naturais, obra de Walter Lassaly.”

Leonard Maltin dá 3.5 estrelas em 4: “A peça de Shelagh Delaney que fez sucesso nos palcos de Londres e da Broadway é tocante e descomprometida com ótimas, sensíveis atuações”.

“A taste of honey”, a canção, não está em A Taste of Honey, o filme

Um pequeno detalhe: qualquer fã dos Beatles conhece de cor e salteado a canção “A taste of honey”. Está no Please Please Me, o primeiro álbum, lançado na Inglaterra em março de 1963, e também no primeiro compacto duplo, que saiu no mercado inglês em julho de 1963. Pouquíssimos meses, portanto, após o lançamento do filme de mesmo nome. Paul faz a voz solo, com John entrando em dueto na abertura e no refrão.

A canção teria, é claro, um monte de outras versões, de gente de jazz, da grande música americana, do rock, do pop, do escambau: Andy Bey & The Bey Sisters, Johnny Rivers, Chet Baker, Julie London, Tony Bennett, Bobby Darin, The Hollies, Trini Lopez, Barbra Streisand, Sarah Vaughn. Em 2005, teria uma belíssima regravação da fantástica Lizz Wright. A gravação de maior sucesso, no entanto, foi apenas instrumental, por Herb Alpert & The Tijuana Brass, que ficou 13 semanas entre os mais vendidos segundo a revista Billboard.

Pois muito bem: “A taste of honey”, a canção, não está em A Taste of Honey, o filme.

Mas tem a ver com a obra.

Foi composta por Bobby Scott e Ric Marlow para a versão da Broadway da peça que havia feito sucesso no West End de Londres. A versão da Broadway começou a ser apresentada em 1960. Tony Richardson poderia, portanto, ter usado a canção no filme. Preferiu não usar.

A trilha sonora do filme, composta por John Addison, é cheia daquele tipo de melodia bem humorada, brincalhona – como se fosse uma trilha de uma comédia. Um toque de bom humor numa história profundamente deprê.

Para quem é mais velho, no entanto, é impossível dissociar a música cantada pelos Beatles – e por tantos outros – do filme.

Um Gosto de Mel tem um gosto amargo que nem jiló de vida de triste, sem horizontes, sem saída. Mas vem temperado por um toque de Beatles e a imagem eterna de Rita Tushingham.

Anotação em setembro de 2012

Um Gosto de Mel/A Taste of Honey

De Tony Richardson, Inglaterra, 1961

Com Rita Tushingham (Jo)

e Murray Melvin (Geoffrey), Dora Bryan (Helen), Robert Stephens (Peter), Paul Danquah (Jimmy), David Boliver (Bert)

Roteiro Shelagh Delaney e Tony Richardson

Baseado na peça de Shelagh Delaney

Fotografia Walter Lassally

Música John Addison

Montagem Anthony Gibbs

No DVD. Produção . DVD Cult Classic.

P&B, 100 min

R, ***

 

 

6 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 26 outubro 2012 às 10:35 pm | Permalink

    Cara, que texto incrível!!! Você mesclou cinema e realidade de forma espetacular.
    Eu adorei a interpretação da Dora Bryan… E o John Addison, hein… Esse cara não devia ter morrido NUNCA.

  2. Yasmin
    Postado em 15 janeiro 2013 às 11:04 pm | Permalink

    Alguém tem o link de onde eu posso baixar pra assitir? Não estou encontrando! ): Se puder, prefiro legendado! Obrigada!

  3. Paulo Cesar
    Postado em 1 agosto 2013 às 7:18 pm | Permalink

    Yasmmin, consegui upar o filme pra vc. Assista neste link:
    https://www.youtube.com/watch?v=2M_pfoHgUjA

    Espero q goste, bjs.

  4. Karina Silva
    Postado em 5 setembro 2013 às 10:08 am | Permalink

    Obrigada, Paulo Cesar! Realmente, obrigada =D

  5. Postado em 9 maio 2016 às 3:44 pm | Permalink

    Sérgio, essa sua crítica está divina, fantástica. Creio que você não esqueceu de nada. Incrível como você conseguiu tocar em todos os pontos importantes deste filme e dos fatos ligados a ele. Até a música dos Beatles você foi buscar não sei aonde! Apesar dos títulos idênticos eu nunca tinha associado a música dos Beatles com este filme de Tony Richardson. Parabéns!

  6. Sérgio Vaz
    Postado em 10 maio 2016 às 6:32 pm | Permalink

    Caro Alberto, muito obrigado pela sua mensagem.
    É gentileza demais!
    Um abraço.
    Sérgio

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  1. Por 50 Anos de Textos » A década que coloriu o cinema em 26 outubro 2015 às 12:39 am

    […] começou em preto-e-branco, com obras como Look Back in Anger, no Brasil Paixão Proibida (1959), Um Gosto de Mel (1961), tremendos sucessos de crítica, para logo em seguir encher a tela de cores em As Aventuras […]

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