Um Condenado à Morte Escapou / Un Condamné à Mort s’est Échappé

Nota: ★★★½

O jovem crítico François Truffaut escreveu em 1956: “Em minha opinião, Um Condenado à Morte Escapou não apenas é o mais belo filme de Robert Bresson como também é o filme francês mais importante dos últimos dez anos”.

E, para que não houvesse dúvida diante dessa afirmação superlativa tão absoluta, o crítico, então com 24 aninhos, acrescentou: “Antes de escrever esta frase tive o cuidado de escrever em uma folha de papel os títulos de todos os filmes que Renoir, Ophüls, Cocteau, Tati, Gance, Astruc, Becker, Clouzot, Clément e Clair realizaram a partir de 1946”.

Esta segunda frase que transcrevi é fascinante, porque dá para perceber claramente que o jovem Truffaut enumerou os cineastas franceses em ação entre 1946 e 1956 na ordem de preferência dele. Primeiro Jean Renoir, depois Max Ophüls. No fim da fila, os dois Renés, Clément e Clair. Truffaut sempre adorou Renoir e Ophüls, e desprezou René Clair.

Um ano antes de realizar Les Mistons, o delicioso curta-metragem de 1957, e três anos antes de conquistar a admiração mundial com Os Incompreendidos/Les Quatre Cents Coups, Truffaut escreveu não um artigo, mas dois, babando pela obra de Robert Bresson que estreou naquele ano de 1956.

Dá vontade de transcrever inteiros os textos, mas, é claro, seria trabalhoso demais. Transcrevo alguns trechos:

“Em muitos filmes atuais encontramos aquilo que se chama de ‘trecho de bravura’. Isso quer dizer que o realizador foi bravo, que tentou superar-se durante a filmagem de uma ou duas cenas de seu filme. Nesse sentido, Um Condenado à Morte Escapou, filme de obstinação, sobre a obstinação, (…) é o primeiro filme de bravura integral.”

“Os comentaristas determinaram que Bresson preocupa-se com a vida interior de seus personagens, com suas almas, quando na verdade, de maneira mais sutil, quem sabe não se trata do movimento interior do filme e de seu ritmo? (…) Talvez Bresson seja um alquimista às avessas: parte do movimento para chegar à imobilidade; sua peneira filtra o ouro para recolher a areia.”

“Todos sabem (…) que Robert Bresson, em seus filmes, dirige os atores obrigando-os a não interpretar ‘dramaticamente’, a não enfatizar, a abstraírem-se da ‘profissão’. Todos também sabem que ele consegue, matando neles toda vontade, exaurindo-os por meio de um número incalculável de ensaios e tomadas e por um trabalho que lembra o hipnotismo.”

Bresson deu um subtítulo a seu filme: O vento sopra para onde quer

“Filme de obstinação, sobre a obstinação.” O jovem Truffaut, com sua inteligência e texto brilhantes, fez a melhor definição possível para este filme que marcou gerações.

Desde o começo da adolescência ouvi falar Um Condenado à Morte Escapou. Un Condamné à Mort s’est Échappé. Esse título ficou gravado no fundo do meu hard disk. Só vim a ver o filme agora. Antes tarde do que nunca.

A primeira tomada é de uma prisão – a câmara parada, como se fosse uma foto. Sobre ela, aparece o letreiro:

“Esta história é real. Eu a dou como ela é, sem ornamentos” – e a assinatura: Robert Bresson.

Mas a ação ainda não começa. Vemos uma placa:

“Aqui, sob a ocupação alemã, sofreram 10 mil homens, vítimas dos nazistas. Sete mil sucumbiram.”

E aí, enquanto se ouve o Kyrie da Grande Missa de Mozart, surgem os créditos iniciais. Depois do título Un Condamné à Mort s’est Échappé, aparece: “Ou”, e em seguida: “Le Vent Souffle où il Veut” – o vento sopra onde quer, o vento sopra para onde quer.

E, com letras tão grandes quanto a assinatura de Robert Bresson: “Baseado no relato de André Devigny”.

Ao final dos créditos, ainda há um novo letreiro, o último:

“Lyon, 1943.”

Três homens estão sendo levado presos no assento de trás de um carro. Dois deles estão algemados um ao outro. O que está sentado à esquerda, atrás do motorista, não tem algema, e vê-se de imediato – a câmara mostra em close-up suas mãos aproximando-se do trinco da porta – que ele aguarda, impaciente, o momento de abrir a porta do carro e tentar fugir.

Tenta – e é capturado em instantes. A câmara nem se incomoda em mostrar como ele foi perseguido e preso de novo; fica parada mostrando o homem sentado no centro do assento traseiro, até que o prisioneiro volta a ocupar seu lugar, agora algemado.

A câmara também não mostra a tortura a que aquele prisioneiro é submetido ao chegar à prisão. Mostrará o homem sendo jogado dentro de uma cela, sangue escorrendo da cabeça.

Ao longo de 91 minutos, o prisioneiro planejará sua fuga. Obstinadamente

Seu nome é Fontaine; às vezes será chamado de tenente Fontaine, embora esteja em roupas civis – calça e paletó escuros, camisa branca. Por algum motivo, Bresson não quis chamar seu personagem pelo nome do homem real que viveu aquela situação, e que já havia aparecido grande nos créditos iniciais, André Devigny.

Fontaine é interpretado por François Leterrier. Volto a falar dele depois.

Fontaine-François Leterrier é depositado dentro de uma cela quando o filme está com 5 minutos. Durante os 91 minutos seguintes, ele vai, obstinadamente, planejar e preparar a fuga.

“Não se trata de uma história. É a escrupulosa reconstituição de gestos que tornaram a fuga possível”

Volto ao que escreveu François Truffaut.

Um Condenado à Morte Escapou é o relato minucioso da fuga de um homem: trata-se, de fato, de uma reconstituição maníaca e o comandante Devigny, que há 13 anos viveu a aventura, não saiu do set de filmagens, sendo incessantemente solicitado por Bresson para mostrar ao ator anônimo como se segura uma colher na cela, como se escreve nas paredes ou como se dorme.

“Não se trata aí de uma história, de uma narrativa ou de um drama. É somente a descrição de uma fuga através da escrupulosa reconstituição de alguns dos gestos que a tornaram possível. O filme inteiro é feito de closes de objetos e de closes do rosto do homem que manipula esses objetos.

Um Condenado à Morte Escapou, que Bresson primeiro pensou em chamar de O vento sopra para onde se quer, foi inicialmente uma experiência extremamente perigosa, depois transformou-se numa obra emocionante e nova graças ao gênio obstinado de Bresson que soube, enveredando pela direção oposta a todas as formas de cinema existentes, chegar a uma verdade inédita através de um novo realismo.

“O suspense, pois há um certo suspense em Um Condenado à Morte Escapou, é criado naturalmente, não através da dilatação da duração mas, ao contrário, por sua evaporação. Graças à brevidade dos planos e à rapidez das cenas, jamais se tem a sensação de uma escolha de momentos privilegiados; vivemos realmente com Fontaine na prisão, não durante 90 minutos, mas durante dois meses, e isso é fascinante!

“O texto, extremamente lacônico, alterna o monólogo interior do herói quando ele está sozinho com o diálogo utilitário, a passagem de um cenário para o outro fazendo-se com a ajuda de Mozart. Os ruídos são de um realismo alucinante: estrada de ferro, aferrolhar de portas, barulho de passos, etc.”

Um filme maior, que merece respeito, reverência

É preciso dar os créditos. Esses trechos acima são do livro Os Filmes da Minha Vida, que Truffaut publicou em 1973, e foi lançado em 1989 no Brasil pela Nova Fronteira, com tradução de Vera Adami. O livro reúne críticas que Truffaut escreveu para diversos jornais e também para os Cahiers du Cinéma; não se especifica, no entanto, em que periódico saiu cada crítica.

Fui buscar os livros de Truffaut após ver Um Condenado à Morte Escapou por ter certeza de que ele havia escrito sobre o filme, e por saber que trechos de textos de Truffaut aqui dariam à obra de Bresson o respeito que ela merece. Minhas anotações sobre filmes em geral são a expressão das minhas opiniões pessoais, particularíssimas, aqui e ali recheadas com informações objetivas e com a opinião de quem de fato conhece cinema. Eu não conheço coisa alguma, sou apenas um amador.

Em geral, me dou plena liberdade para execrar filmes que estão absolutamente acima de qualquer suspeita ou opinião de amador. No entanto, há obras grandes, maiores – como é aqui o caso –, que exigem reverência, e me fazem refrear as minhas próprias opiniões, e dar espaço maior para quem entende.

Um Condenado à Morte Escapou merece respeito, reverência.

O homem escolhido para o papel principal estudava Filosofia; nunca havia atuado como ator

Na sua procura por interpretações que fugissem do teatral, Robert Bresson, como outros grandes mestres, chegou ao ponto de usar pessoas que não eram atores profissionais. Foi o caso aqui. Um Condenado foi o primeiro de seus filmes a usar apenas não atores profissionais. François Leterrier não tinha experiência alguma como ator de cinema, quando foi escolhido por Bresson para interpretar Fontaine-na-verdade-André Devigny; estudava Filosofia na Sorbonne.

Só trabalharia como ator em um outro filme – Stavisky, do mestre Alain Resnais, de 1974. Mas as voltas que o mundo dá. Ator de dois únicos filmes, François Leterrier acabaria virando cineasta. Dirigiu 20 títulos, começando em 1961, cinco anos, portanto, após este Um Condenado.

No DVD brasileiro, um “que” surge do nada

Consulto outro grande nome, o historiador Georges Sadoul, e vejo que, no seu Dicionário de Filmes, ele próprio começa o verbete sobre Um Condenado citando outros autores. Sadoul cita Simone Dubreuilh: “O advento de um realismo sem baixeza”. Cita Truffaut: “O filme francês mais decisivo destes últimos dez anos”. Cita André Bazin, o teórico que formou toda a geração de críticos dos Cahiers que virariam cineastas e criariam a nouvelle vague: “Uma obra insólita, que não se parece com nada”.

Um Condenado à Morte Escapou é, de fato, um filme diante do qual é preciso tirar o chapéu. Repito: é uma obra que merece respeito, reverência.

Foi o que não teve a Lume Filmes, que lançou o filme em DVD no Brasil. E olha que a Lume é uma boa distribuidora; tem tornado acessíveis obras raras, importantes, em geral em edições bem cuidadas. Mas, justamente no filme de Bresson, pisou no tomate. O título do DVD brasileiro saiu como Um Condenado à Morte que Escapou.

Mas que que, o quê. Só se for a que pariu a empresa.

Anotação em maio de 2012

Um Condenado à Morte Escapou/Un Condamné à Mort s’est Échappé

De Robert Bresson, França, 1956

Com François Leterrier (Fontaine),

Charles Le Clainche (Jost), Maurice Beerblock (Blanchet), Roland Monod (o padre), Jacques Ertaud (Orsini), Jean Paul Delhumeau (Hebrard), Roger Treherne (Terry)

Roteiro Robert Bresson

Baseado no relato de André Devigny

Fotografia Léonce-Henri Burel

Produção Gaumont, Nouvelles Éditions de Films. DVD Lume Filmes

P&B, 99 min

***1/2

Um Comentário

  1. mauricio ferreira
    Postado em 25 Março 2015 às 11:50 pm | Permalink

    Gosto muito desse filme. Gostei também do seu artigo 🙂

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Calvário / Calvary em 8 outubro 2015 às 2:38 am

    […] também no IMDb: John Michael McDonagh tem citado o cineaste francês Robert Bresson como uma importante influência na criação deste […]

  2. […] Miller – que foi assistente de Robert Bresson, Jacques Demy, Jean-Luc Godard e François Truffaut – e seu co-roteirista Julien Boivent […]

  3. […] do cinema político, Costa-Gavras. Um que tratava sempre das questões da ética, da religião, Robert Bresson. Agora desponta um cineasta da medicina, Thomas […]

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