Temple Grandin

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Nota: ★★★☆

Temple Grandin é um daqueles tantos filmes que contam uma história de superação. Há quem goste muito desse tipo de história, como indica, por exemplo, o fato de a anotação sobre De Porta em Porta ser uma das mais lidas deste site. Mas também há, é claro, quem deteste.

Assim como De Porta em Porta, Temple Grandin é um filme feito para a TV americana, o que seguramente já espanta um grande número de pessoas que detestam filmes americanos, quanto mais se forem feitos para a TV.

Temple Grandin, a protagonista da história, exatamente como Bill Porter, o protagonista de Door to Door, tem uma doença grave que a faz ficar o tempo todo com caretas e a andar de uma forma deselegante, desconcertante – para muita gente, até assustador. Isso é mais um motivo para afastar um bom número de espectadores deste filme produzido em 2010 pela e para a HBO.

zztemple2Saem perdendo as pessoas que, por um desses motivos, ou por quaisquer outros, deixarem de ver Temple Grandin. Porque é um bom filme. Tem uma excelente interpretação da garota Claire Danes como a protagonista que dá nome ao filme, é extremamente bem feito. E, sobretudo, porque a história real retratada no filme é absolutamente extraordinária, impressionante, de babar.

Dessas histórias reais que fazem a gente pensar que, talvez, quem sabe, a humanidade possa não ser, afinal de contas, uma invenção que deu totalmente errado.

Enquanto via o filme, não consegui deixar de pensar em O Milagre de Annie Sullivan/The Miracle Worker, a obra-prima que Arthur Penn fez em 1962 contando a história – também real – de Helen Keller (1880-1968), a criança que ficou cega e surda quando bebê e por isso também era incapaz de falar, e, até uns 12 anos de idade, era pouco diferente de um animal selvagem. Basicamente graças aos esforços sobre-humanos de Annie Sullivan, mulher praticamente cega que estudou com afinco e foi contratada pela rica família Keller para cuidar da menina, Helen reagiu, e, com esforços igualmente ciclópicos, estudou, venceu as gigantescas dificuldades, transformou-se na primeira pessoa cega e surda a ter um diploma de faculdade de Artes nos Estados Unidos, foi escritora, ativista pelo voto feminino, por causas trabalhistas e sindicais e pacifistas.

Não que o filme Temple Grandin tenha propriamente as mesmas qualidades artísticas que o filme do grande Arthur Penn. Não tem – embora seja um filme de grandes qualidades. A lembrança de Helen Keller vem pelo paralelo que se pode fazer entre ela e Temple Grandin.

Ela se tornou uma especialista no comportamento de bois e vacas

Temple Grandin nasceu em 1947, em Boston, aquela espécie de capital não formal da Nova Inglaterra, do pedaço mais antigo e tradicional dos Estados Unidos. Nasceu autista – mas a doença só foi diagnostica quando ela estava com 4 anos. Assim como Helen Keller (e ao contrário de Annie Sullivan), era de família de posses. A garota teve professores particulares e boas escolas. Mas, sobretudo, teve uma força de vontade avassaladora, amazônica, e, apesar de todas as dificuldades – que incluíam a má vontade de muita gente a seu redor –, passou com brilhantismo por todas as escalas acadêmicas e se tornou doutora e professora em ciências no trato de animais pela Universidade Estadual do Colorado.

zztemple3Temple se especializou no conhecimento do comportamento do gado – vacas e bois. Contra a descrença, a desconfiança, e às vezes o total descrédito das pessoas a seu redor, tanto na universidade quanto no mundo real da pecuária – fazendeiros, criadores e vendedores de gado, industriais do ramo de carne –, lutou para demonstrar que os animais têm determinados comportamentos diante destes e daqueles fatores.

Um dos grandes feitos do diretor Mick Jackson foi ter conseguido colocar em imagens a forma com que Temple, exatamente devido ao autismo, enxergava os hábitos do gado, a forma com que os animais caminhavam, e a partir daí passou a projetar formas de facilitar a movimentação do rebanho nas fazendas – para, por exemplo, passar por tanques de água para se limpar, ou até mesmo para seguir rumo ao matadouro sem levar sustos, e portanto sem refugar, sem parar e se recusar a prosseguir a caminhada.

Esse Mick Jackson conseguiu reunir técnicas de montagem, de uso de cenas geradas por computação gráfica e de tomadas reais do gado para que o espectador acompanhasse a forma com que Temple observava os movimentos e criava estruturas que levam os animais a prosseguir em sua caminhada.

É como se o filme se utilizasse de técnicas de filmes de ação modernos, tipo Matrix, O Procurado ou Sem Limites, para, em vez de mostrar trajetórias de balas, ou outras asneiras assim, expressar a visão de um autista.

É impressionantemente bem realizado.

          Metade do gado americano é hoje tratado com alguma técnica criada por Temple Grandin

Não conheço nada sobre autismo, como, de resto, não conheço nada sobre quase absolutamente tudo, mas, pelo que mostram filmes como Rain Man e Um Certo Olhar/Snow Cake, há vários tipos de autismo, e muitos deles estão associados a um tipo de inteligência específica, que os pacientes desenvolvem muitíssimo mais do que as pessoas ditas “normais”. No caso do personagem de Rain Man interpretado por Dustin Hoffman, era o domínio da matemática e da memória para números. Temple Grandin, pelo que mostra o filme e pelo que se pode saber da personagem real, conseguiu desenvolver uma inteligência específica para compreender a forma de movimentação dos rebanhos.

Como se trata de uma história real, creio que não chega a ser um spoiler adiantar que, segundo mostra o filme, hoje metade do gado vacum americano é tratado por alguma técnica criada a partir das descobertas e experiências de Temple Grandin.

É algo absolutamente fascinante. Parece mágica, milagre.

Faz pensar.

zztemple4Faz lembrar, por exemplo, das palavras escolhidas por John Huston para abrir a narrativa de seu Freud – Além da Alma, com base em roteiro parcialmente escrito, vejam só os de narizinho arrebitado que não gostam de “cinema americano”, por Jean-Paul Sartre. Vou citar de memória, e portanto as palavras não são exatamente estas, mas é algo assim: Galileu Galileu e Giordano Bruno deram um golpe na vaidade dos homens ao demonstrar que o planeta Terra não é o centro do universo. Charles Darwin deu outro golpe ao demonstrar que o homem não é o senhor da criação, e sim um produto da evolução das espécies. E Sigmund Freud deu mais um golpe, ao mostrar que o homem não controla sequer a sua própria cabeça.

Somos pobres animais que não conseguimos usar mais que dez por cento do que nosso cérebro conseguiria fazer.

Pessoas tidas como sofrendo de graves problemas do funcionamento do cérebro enxergam muito mais do que a maioria de nós.

E, já que temos sido secularmente obrigados a engolir nossa soberba, e a entender que somos assim na verdade tão absolutamente tapados, como é que ainda temos a pretensão de entender mistérios tão profundos quanto a coexistência, dentro de uma mesma raça, de um Bach e um Napoleão, um Beethoven e um Hitler, um Shakespeare e um Stálin?

Uma interpretação extraordinária de Claire Danes. E a beleza faiscante de Julia Ormond

Vixe. Ficou viajandão demais.

Para tentar puxar os pés mais pra perto do chão, insisto em que a interpretação da garota Claire Danes é extraordinária.

Jovem demais (nasceu em Nova York em 1979), Claire Danes é daquele tipo de ator capaz de ter mil caras. Ao contrário de um Gary Cooper, ou um Jack Nicholson (e não vai aí qualquer crítica a eles), que têm a mesma cara seja qual for o personagem que interpretam, Claire Danes é do tipo camaleão. Do tipo Meryl Streep, Jennifer Jason Leigh, Bridget Fonda: em cada filme tem uma cara.

zztemple8Aqui tornou-se, com a ajuda da equipe de maquiagem, quase feia. Faz caretas e todos os seus movimentos são desajeitados – como provavelmente devam ser os da personagem real que interpreta. Mas demonstra garra, força de vontade, gana – exatamente como deve ter demonstrado na vida, e continua demonstrando, essa extraordinária mulher. (Na foto, Claire Danes e a própria Temple Grandin.)

Talvez como contraponto a ela, tornada feia por sua força interpretativa e pela maquiagem, brilha no filme a beleza soberba de Julia Ormond, essa atriz que tinha absolutamente tudo para ser uma das grandes estrelas de sua geração, e simplesmente acabou não acontecendo. Julia Ormond faz o papel da mãe da protagonista. Estava, em 2010, ano de lançamento de Temple Grandin, com apenas 45 anos. Sua beleza solta tanta faísca que até fere a vista da gente.

Claire Danes ganhou o Globo de Ouro por sua interpretação, na categoria melhor atriz em minissérie ou filme feito para a TV. O sempre competente David Strathairn, que interpreta um professor que soube reconhecer a inteligência de Temple Grandin, foi indicado ao Globo de Ouro como coadjuvante, e houve também indicação ao prêmio de melhor filme. Ao todo, foram 26 prêmios e outras 21 indicações.

É um belo filme. Não é para todas as audiências. Mas é um belo filme.

Anotação em outubro de 2012

Temple Grandin

De Mick Jackson, EUA, 2010

Com Claire Danes (Temple Grandin)

e Julia Ormond (Eustacia), David Strathairn (Dr. Carlock), Catherine O’Hara (Tia Ann), Stephanie Faracy (Betty Goscowitz), Barry Tubb (Randy), Melissa Farman (Alice), Jenna Hughes (Temple aos 4 anos)

Roteiro Christopher Monger e Merritt Johnson

Baseado nos livros Emergence e Thinking in Pictures, de Temple Grandin

e Margaret Scariano

Fotografia Ivan Strasburg

Música Alex Wurman

Produção HBO Films, Ruby Films

Cor, 107 min

***

3 Trackbacks

  1. […] vezes foi vista numa tela de cinema um rosto de mulher tão resplandescentemente belo quanto o de Julia Ormond como a princesa Guinevere nesta porcaria de […]

  2. […] sujeito com aparência de muito rico, Pierce Patchett (David Strathairn, grande ator, sempre muito bem), manda o motorista ver o que o tira quer. O motorista, Buzz Meeks […]

  3. […] Mathison vem na pele de Claire Danes – e, diacho, poucas vezes vi uma personagem tomar conta de uma atriz como neste caso, em que a […]

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