Telstar / Telstar: The Joe Meek Story

Nota: ★☆☆☆

Com a honrosa exceção dos aficionadíssimos pelo rock inglês pouco conhecido, obscuro, do início dos anos 60, imagino que pouca gente conheça Joe Meek, o homem cuja vida, ou ao menos parte dela, é retratada neste filme inglês Telstar/Telstar: The Joe Meek Story.

Joe Meek, pelo que posso perceber, tem alguma importância para os profundamente aficionados por exatamentea aquilo: o rock inglês pouco conhecido, obscuro, do início dos anos 60. Assim propriamente para os demais terráqueos, a existência de Joe Meek é equivalente a pouco mais do que um zero à esquerda.

Assim, sua cinebiografia não deverá interessar a um grande número de pessoas.

Ainda mais porque Joe Meek era louco. Louco no sentido mais restrito da palavra. Não doidão, visionário, chapadão. Ele era tudo isso, mas, sobretudo, era doido, louco mesmo. Psiquiatricamente doido. Muito doido – e um doido chato.

O filme que fizeram sobre o obscuro, pouco conhecido Joe Meek é muito doidão. Não é um filme que vá agradar a muita gente. A rigor, a rigor, é um filme bastante desagradável. Não tenho notícia se ele foi lançado no circuito comercial no Brasil; esteve em cartaz no Max, o canal 79 da Net que anda passando filmes pouco conhecidos europeus e asiáticos. Foi onde eu o vi.

Gosto de música pop, acho que o pop das Ilhas Britânicas é dos melhores que existem, e por isso vi o filme – que tem momentos insuportavelmente chatos, desagradáveis, cansativos. Às vezes dá a impressão de que os realizadores queriam, com o filme, afirmar que a grande mudança da cena musical britânica nos anos 60 se deu antes e mais profundamente com Joe Meek do que com Beatles e logo depois Rolling Stones, para não falar de todo o resto. Sacumé? Beatles, Rolling Stones, tudo isso aí foi poeira, porque antes deles havia alguém muito mais rebelde, muito mais radical, de quem vocês, caretões do mundo inteiro, jamais ouviram falar.

Ruídos, zoeira, barulheira

Fui ao AllMusic, o site mais absolutamente enciclopédico sobre música popular, que existe, e dei com o seguinte, assinado por Richie Unterberger:

“Não um artista no sentido tradicional do termo (ele não conseguia tocar ou cantar nada), o produtor Joe Meek tem sido, apesar disso, reconhecido como uma figura importante, até mesmo inimitável, do início do rock & roll britânico. Como Phil Spector, Meek desenvolveu técnicas de produção idiossincráticas que, muito mais do que os artistas com os quais trabalhou, criaram uma visão de um gênio louco em suas gravações. No caso de Meek, isso normalmente consistia em um som super-comprimido, vocais acelerados, fantasmagóricos violinos e coral…”

Preguiça de tentar continuar traduzindo os termos que o AllMusic usa.

Pelo que o filme mostra, Meek gostava daquele tipo de zoeira que fascinaria John Lennon, e que o faria criar coisas como “Revolution 9”, no Álbum Branco, e muita coisa parecida nos seus discos experimentais com Yoko Ono, aqueles em que eles aparecem peladões na capa. Nada contra eles mostrarem os corpos feios peladões na capa – mas nenhum aplauso para aquela barulheira que, na minha opinião, não tem nada a ver com música.

Informações objetivas sobre o disco que dá o nome do filme

Na Wikepedia, há um verbete sobre Telstar, o nome do disco que deu origem ao nome do filme. Diz ele:

Telstar é um disco instrumental de 1962 do grupo The Tornados. Foi o primeiro compacto de um uma banda britânica a chegar ao número 1 do Billboard Hot 100 dos Estados Unidos, e foi também número 1 no Reino Unido; foi o único single instrumental a chegar ao número 1 tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido. O disco teve este nome por causa do satélite de comunicações da AT&T Telstar, que entrou em órbita em julho de 1962. O disco foi lançado seis semanas mais tarde, em 17 de agosto de 1962. Foi escrito e produzido por Joe Meek, e apresentava um claviolino, um instrumento de teclado com um som eletrônico único. Estima-se que vendeu pelo menos 5 milhões de cópias no mundo inteiro.

“Esse disco inventivo pretendia evocar o alvorecer da era espacial, com efeitos sonoros para parecer que vinha do espaço. Espalhou-se na época do lançamento que as distorções estranhas e ruídos de fundo vinham do envio de sinais para o satélite Telstar e da regravação deles quando enviados de volta à Terra. É mais provável que os efeitos tenham sido criados no estúdio de Meek, situado num pequeno apartamento localizado acima de uma loja em Holloway Road, na região Norte de Londres.”

O filme parece se orgulhar do fato de que Meek era doido, absolutamente fora do sistema

Praticamente toda a ação do filme se passa exatamente nesse apartamento que Meek transformou em seu estúdio.

O filme faz questão de não dizer que John Lennon seria um seguidor de Joe Meek (na foto) nas suas experiências vanguardistas. Essa ilação apresentada acima, sou eu que faço. Para os realizadores deste Telstar: The Joe Meek Story, fazer qualquer citação de Beatles seria uma absurda, inaceitável rendição à música pop menor, trivial, essa que produz canções que podem ser assobiadas. Horror dos horrores.

O filme parece se comprazer com o fato de que Meek era doido, era louco, era, portanto, um herói que não compartilhava nada com o Sistema. Não, não, acho que fiz a frase errada. O filme parece se orgulhar do fato de que Meek era doido, fora, absolutamente fora do sistema.

É um direito inalienável dos cineastas elogiar quem quer que eles queiram. Os jovens ingleses raivosos têm, felizmente, larga tradição de serem raivosos, e elogiarem o que não compactua com o Sistema.

Euzinho achei, ao ver o filme, esse Joe Meek tão chato quanto um pernilongo que não deixa a gente dormir e a gente não consegue matar.

São maravilhosos os ruídos que invadem melodias – como os Beatles fizeram tantas vezes, como Cat Stevens fez com o brilho daqueles engenheiros de som geniais que ele sabia recrutar.

Atrás dos ruídos, tem que haver belas melodias. E isso, aparentemente, pelo que mostra o filme, Joe Meek desprezava. Até porque não tinha a menor idéia do que fosse uma bela melodia. Até porque era louco de pedra.

Na minha modestíssima opinião, aquela que não vale mais do que três guaranis furados, Joe Meek é um danado de um chato. Exatamente como o filme que conta sua doida vida.

Anotação em fevereiro de 2012

Telstar/Telstar: The Joe Meek Story

De Nick Moran, Inglaterra, 2008

Com Con O’Neill (Joe Meek), Kevin Spacey (Major Wilfred Banks), Pam Ferris (Mrs. Violet Shenton), JJ Feild (Heinz Burt), James Corden (Clem Cattini), Tom Burke (Geoff Goddard), Ralf Little (Chas Hodges), Sid Mitchell (Patrick Pink), Mathew Baynton (Ritchie Blackmore), Shaun Evans (Billy Kuy)

Roteiro Nick Moran

Baseado em peça de James Hicks e Nick Moran

Fotografia Peter Wignall

Música Ilan Eshkeri

Produção Aspiration Films

*

Um Comentário

  1. José Luís
    Postado em 17 abril 2012 às 10:05 pm | Permalink

    O Kevin Spacey lá vai fazendo filmes de caca…
    É pena um actor tão bom andar nesta vida.

Um Trackback

  1. […] ao entrar na escola, é recebida pelo diretor, que é o marido dela, Mr. George Wharton Robinson (Tom Burke). Marido-diretor estava apreensivo com a demora da mulher: visitava a escola, naquele momento, o […]

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