Tão Forte e Tão Perto / Extremely Loud & Incredibly Close

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Nota: ★★½☆

Tão Forte e Tão Perto, no original Extremely Loud & Incredibly Close, tem sido bastante aclamado. Venceu oito prêmios e teve 12 outras indicações, inclusive duas ao Oscar – de melhor filme e melhor ator coadjuvante para o veterano e bergmaniano Max Von Sydow.

O elenco reúne um bando de gente boa, além de Max Von Sydow: Tom Hanks, Sandra Bullock, John Goodman, Viola Davis, Jeffrey Wright.

A direção é do inglês Stephen Daldry, autor do extraordinário Billy Elliot, da ótima transposição para o cinema do romance O Leitor e do premiado e incensado As Horas.

A fotografia é de um mestre, um gênio, Chris Menges, e a trilha sonora, de um grande compositor, o francês Alexandre Desplat, que nos brindou com as belas trilhas de, só para citar uns poucos, O Discurso do Rei, O Curioso Caso de Benjamin Button, Tudo pelo Poder, O Escritor Fantasma.

O roteiro é de um mestre, Eric Roth, autor, entre muitos outros, dos roteiros de Munique, O Informante, O Encantador de Cavalos, Forest Gump, o Contador de Histórias, O Curioso Caso de Benjamin Button.

Todos esses grandes nomes realizaram belíssimos trabalhos. Tão Forte e Tão Perto é um daqueles filmes extremamente bem realizados, em todos os quesitos. Tudo é suntuosamente bem feito.

Os movimentos de câmara, o posicionamento da câmara em cada tomada, tudo é de um brilho absoluto.

Aos 14 anos, Thomas Horn estréia no cinema com um desempenho arrebatador

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A par de todos esses artistas e artesãos da mais alta competência, o filme ainda introduz um garoto, Thomas Horn, que é uma daquelas surpresas chocantes, fantásticas, inacreditáveis. Nascido em 1997, na região de San Francisco (estava, portanto, com 14 anos quando o filme foi lançado, mas parece ainda mais novo), esse menino jamais havia entrado em um set de filmagem na vida. Sua única experiência de interpretação anterior havia sido uma peça de teatro na escola.

Thomas Horn tem um desempenho magnífico, extraordinário, de aplaudir de pé, como Oskar Shell, o protagonista da história. Ele está em  praticamente todas as seqüências do filme. A rigor, a rigor, todos os demais atores são coadjuvantes, até mesmo os oscarizados e famosérrimos Tom Hanks e Sandra Bullock, que interpretam os pais de Oskar, Thomas e Linda.

Segundo o IMDb, 300 garotos foram testados para o papel que acabou ficando com Thomas Horn.

O menino é um desses geninhos, dessas crianças superdotadas. Quando estava com seis anos de escola, participou de um concurso nacional de conhecimentos de geografia e ficou em terceiro lugar. Em duas outras ocasiões, em novos concursos semelhantes, ficou entre os quatro primeiros.

Seus pais são médicos; a mãe é croata de nascimento. O garoto fala croata fluentemente e estudou também espanhol e mandarim.

Mandarim!

zzloud3Respondendo sobre mandarim, participou do programa de TV Jeopardy, do qual euzinho nunca tinha ouvido falar, mas é um desses programas de perguntas, tipo “O Céu é o Limite”.

Parece que alguém da produção do filme viu Thomas Horn no Jeopardy, e aí ele foi convidado para fazer um teste.

Num filmete que acompanha Extremely Loud & Incredibly Close no DVD, Stephen Daldry, Tom Hanks e Sandra Bullock derramam-se em elogios ao garoto. Tudo bem: nos filmetes promocionais, nos making offs, é claro que todo mundo fala bem de todo mundo. Mas aqui dá para perceber, claramente, nitidamente, que o diretor e os dois experientes atores ficaram mesmo boquiabertos e de queixo caído com Thomas Horn.

É gostosíssimo como Sandra Bullock se refere, espantada, ao mandarim que o garoto conhece.

É também La Bulock que resume, no filmete, a impressão óbvia, que todo mundo que trabalhou no filme deve ter tido, e que todo espectador terá: Thomas Horn é um garoto especial, uma inteligência rara – exatamente como Oskar Shell, seu personagem.

O pai joga gasolina na fogueira da inteligência do filho superdotado

Oskar Shell é um garoto superdotado. Inteligentíssimo, brilhantíssimo, com cerca de dez anos de idade tem o vocabulário e a capacidade de se expressar de um intelectual de 70, a curiosidade dos gênios e a cultura geral de um enciclopedista.

zzloud7O pai, Thomas, incentiva o filho, joga gasolina na fogueira da inteligência dele. É um pai extremado, apaixonado pelo filho, sempre bem humorado, sempre disposto a conversar, brincar com ele. Propõe a ele jogos – um dos prediletos deles é lembrar ou criar oxímoros, que as legendas do filme transformam em paroxismo, que é outra coisa completamente diferente. Oxímoro, diz aqui meu Dicionário Unesp do Português Contemporâneo (um dicionário honestíssimo, excelente, embora menos badalado que o Houaiss e o Aurélio), é “engenhosa combinação de palavras ou frases contraditórias ou incongruentes, como, por exemplo, ‘silêncio barulhento’, ‘grito silencioso’, etc”.

Uma sequência do filme mostra Oskar e Thomas brincando, na sala do confortável, rico apartamento da família em Manhattan, de um desafiar o outro a propor oxímoros, e os exemplos dados no Dicionário Unesp são citados por eles.

Outro dos jogos que Thomas propõe a Oskar são expedições por Nova York. Thomas diz ao filho que Nova York já teve um sexto distrito, que desapareceu – e lança para ele o desafio de descobrir esse sexto distrito.

(Hum… Fiquei tentando lembrar os cinco distritos de Nova York, enquanto via o filme. A ver: Manhattan, Brooklyn, Bronx, Queens… Falta um. Staten Island, me socorre a Wikipedia.)

Oskar é gênio – mas, como todo gênio, é um tanto problemático. Tem problemas comportamentais, é um tanto desajustado, por ser diferente do normal. Tem fobias. Por exemplo: jamais sentou-se a um balanço, desses de parquinho de crianças: acha que balanços são perigosos, inseguros.

EXTREMELY LOUD & INCREDIBLY CLOSEApaixonado pelo pai, tem uma relação bem mais distante com a mãe, Linda. Fica bem claro que sua proximidade com o pai se dá através da inteligência, e que Oskar não considera a mãe tão inteligente quanto o pai.

O roteiro do experiente Eric Roth tem horror à ordem cronológica dos fatos

O roteiro que Eric Roth escreveu, a partir de um romance de autoria de um Jonathan Safran Foer (muito prazer, Jonathan; eu sou Sérgio Vaz, aquela ali ao lado é a Mary Zaidan) é daquele tipo que tem horror a uma ordem cronológica. É como se Eric Roth pegasse a história de Oskar Shell em ordem cronológica, botasse num vidro, jogasse o vidro com bastante força contra o chão, e aí fosse pegando cada pedacinho e colando um a um, aleatoriamente, randomicamente, shufflemente.

Não vai aqui uma crítica: é apenas uma constatação, sem qualquer juízo de valor.

Na verdade, a forma como foram colados os caquinhos de vidro acaba funcionando muito bem. Tem muito mais impacto da forma com que Roth montou o quebra-cabeças do que se a história fosse contada de trás para a frente.

Estamos ainda bem no início do filme quando vemos que Thomas, o pai, morreu.

Perder o pai quando se é criança é, obviamente, uma experiência apavorante, traumatizante. Para Oskar, muito mais ligado ao pai que à mãe, como já foi dito, a perda do pai é catastrófica.

Um ano após a morte de Thomas, Oskar entra pela primeira vez no quarto do pai. Na prateleira mais alta do closet, descobre um vaso, um jarro azul de porcelana. O jarro cai no chão, se espatifa – e a queda é mostrada em câmara lenta, num show de beleza visual de que o filme, de resto, é repleto.

Dentro dele havia um envelope, com uma chave dentro. Oskar leva o envelope e a chave a um chaveiro. O chaveiro explica que é absolutamente impossível determinar de que é aquela chave – mas nota que no envelope está escrito a palavra “Black”.

zzloud5Oskar mete na cabeça que a chave poderá revelar a ele um segredo que o pai queria lhe contar. Que a chave é uma maneira de ele se manter perto do pai morto. Que ele poderá se aproximar do pai, e descobrir o que o pai queria lhe dizer, se encontrar o cofre, a porta, ou seja lá o que for, que corresponde àquela chave.

Pela lista telefônica, descobre que há 412 pessoas nos cinco distritos de Nova York com o nome Black.

Decide visitar um por um, à procura da fechadura na qual a chave caberá.

Se a morte de Thomas é mostrada ao espectador bem no início do filme, a explicação sobre como se deu sua morte demora um tanto.

O roteiro de Eric Roth adia para mais tarde o caquinho de vidro que mostra ao espectador que Thomas foi uma das vítimas dos ataques terroristas de 11 de setembro ao World Trade Center.

Uma trama que industrializa a tragédia de 11 de setembro

Muito que bem.

Até aqui, não dei uma única opinião pessoal sobre Extremely Loud & Incredibly Close. Apresentei dados, fatos, informações, e fiz uma sinopse – uma sinopse grande, como sempre costumo fazer. Mas, até agora, não dei uma única opinião pessoal – algo estranho, já que todas minhas anotações são basicamente a expressão de minhas opiniões pessoais sobre os filmes que vejo.

E então lá vai.

Não gostei de Extremely Loud & Incredibly Close.

Não entrei no espírito do filme. Não me deixei envolver por ele.

Mary gostou do filme. A princípio, não muito – mas depois foi gostando, e disse que cada vez que pensa nele, melhor acha que ele é.

O filme não me envolveu, eu não me envolvi por ele.

Não acho o filme ruim, não. De forma alguma. É um filme, repito, extremamente bem realizado, em todos os quesitos.

Achei a história artificial. Apropriada para um romance, um filme, uma ficção, mas muito longe da vida.

E senti também que é uma história… hum, qual o adjetivo correto? Apelativa.

Industrializa a tragédia de 11 de setembro. Foi criada para apelar ao sentimentalismo.

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É assim um tanto parecida com os filmes que se convencionou chamar esforço de guerra, muito comuns durante a Segunda Guerra Mundial. Feitos para induzir o espectador a chorar pela tragédia – como aqueles dos anos 1940 eram feitos para o espectador se engajar na luta contra o nazi-fascimo.

A tragédia do 11 de setembro foi uma das coisas mais brutais de que a humanidade já foi capaz. Tenho profundo nojo de quem comemorou os ataques terroristas de 11 de setembro como sendo uma derrota do capitalismo, do Grande Satã que são os Estados Unidos da América. Uma vez conheci uma senhora que era casada com um petralha, um cutista, que vibrou, comemorou como vitória da Causa o assassinato de centenas e centenas de inocentes perpetrado por terroristas fanáticos, loucos, insanos, malucos.

Vibrar com os ataques terroristas de 11 de setembro é uma das atitudes mais vis, mais calhordas que pode haver. É tão vil quanto defender o assassinato de milhões de judeus, ciganos e deficientes físicos nos fornos crematórios do nazismo.

Mas o absurdo do 11 de setembro já é grande demais por si só.

Não precisa de um filme que industrialize a tragédia, apelativamente.

Mas tudo isso, todos esses últimos parágrafos aí, são apenas a minha opinião personalíssima, pessoal e intransferível como dor de dente.

Posso simplesmente ter visto o filme num mau momento. Posso estar completamente enganado. Posso ter tido uma opinião absurdamente sem sentido.

Repito mais uma vez: é um filme extremamente bem realizado, em cada quesito.

Anotação em novembro de 2012

Tão Forte e Tão Perto/Extremely Loud & Incredibly Close

De Stephen Daldry, EUA, 2011

Com Thomas Horn (Oskar Schell), Tom Hanks (Thomas Schell), Sandra Bullock (Linda Schell),

e Zoe Caldwell (a avó de Oskar), John Goodman (Stan, o porteiro), Max von Sydow (o inquilino), Viola Davis (Abby Black), Jeffrey Wright (William Black)

Roteiro Eric Roth

Baseado em romance de Jonathan Safran Foer

Fotografia Chris Menges

Música Alexandre Desplat

Produção Warner Bros. DVD Warner Bros.

Cor, 129 min

**1/2

 

3 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 26 dezembro 2012 às 9:32 pm | Permalink

    Max Von Sydow é O CARA, em qualquer filme, em qualquer momento. O cara é fabuloso.

  2. Senhorita
    Postado em 26 dezembro 2012 às 9:33 pm | Permalink

    (Ah, sim, eu não esperava, e gostei de ver o John Goodman também.)

  3. Postado em 27 dezembro 2012 às 8:59 am | Permalink

    Concordo contigo também: é um filme apelativo… quer nos fazer chorar a qualquer custo, além de ter ficado um tanto longo demais.
    Mas Max Von Sydow está fabuloso.

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