Seis Dias, Sete Noites / Six Days Seven Nights

Nota: ★★½☆

Seis Dias, Sete Noites é uma diversão gostosinha. Não pretende ser mais do que isso. O diretor Ivan Reitman mistura comédia romântica com aventura em proporções acertadas. A gente vê, se diverte, e em seguida pode perfeitamente esquecer.

É assim:

Robin (Anne Heche) é uma jovem jornalista de Nova York, editora assistente de uma revista feminina do tipo Nova, dessas que a cada mês ensinam como as mulheres devem fazer para atrair os homens. Tem um namorado todo apaixonado por ela, Frank (David Schwimmer), um daquele tipo de cara todo certinho que, nas comédias românticas, têm tudo para levar um pé na bunda da namorada.

Frank presenteia Robin com uma viagem de uma semana a uma ilhazinha no Pacífico Sul. O pacote inclui viagem em grandes jatos comerciais até Papeete, no Taiti, e de lá até a ilhazinha específica em um pequeno avião, um bimotorzinho antigo – para ser preciso, um DeHavilland Beaver.

Robin fica espantada, surpresa, temorosa, ao ver aquela coisinha que parece frágil, e está, no momento em que ela o avista, sendo consertado  por um tipo que não parece nada confiável. E revela-se em seguida que o sujeito, além de estar consertando o aviãozinho, será também o piloto.

Chama-se Quinn Harris, o sujeito, e vem na pele de um Harrison Ford um pouco mais careteiro que de costume.

Mas não há opção, e Robin e Frank embarcam no teco-teco, nos dois bancos traseiros, com o banco dianteiro do carona sendo ocupado por uma beldade daquelas, como se dizia antigamente, de fechar o comércio – Anjelica (Jacqueline Obradors), namorada de Quinn.

Chegam sãos e salvos à ilhazinha, e ela é de fato paradisíaca. O primeiro dia é de prazer total – mas logo Robin recebe um telefonema da chefe, Marjorie (Allison Janney), com uma missão inesperada: terá que interromper as férias por um diazinho, e viajar de volta até Papeete, para fazer a produção a foto de capa da edição seguinte da revista. A modelo que a revista queria para a capa está lá, e então não tem outro jeito.

Como todo jornalista do mundo, Robin não tem como dizer não.

Procura Quinn, o piloto do teco-teco. Ele faz um pouco de doce, mas aceita a missão, é claro.

Estamos aí com cerca de 15 minutos de filme. Até aqui, era apenas o prólogo. Não é spoiler dizer que o aviãozinho, numa tempestade absurda, é obrigado a fazer um pouso forçado numa ilha deserta. A mocinha nova-iorquina está sozinha com um sujeito rude de meia-idade.

Aí começa a aventura.

Anne Heche, gracinha, está ótima no papel da urbanóide perdida numa ilha deserta

O motivo pelo qual quis ver essa bobagenzinha gostosa foi Anne Heche. Sou fã da moça, acho que ela é uma gracinha de mulher, lindinha com aquele cabelinho curto e aqueles gigantescos olhos de um azul mais belo do que qualquer mar do Pacífico, Sul ou Norte. Se não estou enganado, Anne Heche me conquistou em O Terceiro Milagre, um drama sério, fascinante, dirigido pela polonesa Agnieszka Holland em 1999, envolvendo catolicismo, a hierarquia da Igreja Católica, fé e perda de fé.

Anne Heche e Ellen DeGeneres foram, salvo engano, o primeiro casal de atrizes americanas que se assumiu como casal, o que aumentou minha admiração pela duas.

Lembro de ter lido numa matéria, na época do lançamento de Seis Dias, Sete Noites (o filme é de 1998, um ano antes de O Terceiro Milagre), que Harrison Ford teria comentando que Anne Heche foi uma das atrizes mais sensuais com quem ele já havia trabalho. Achei interessante essa observação, feita a respeito de uma lésbica assumida.

E Anne Heche está ótima no papel da urbanóide que de repente se vê náufraga (a expressão é usada por seu personagem) numa ilha deserta. Ela parece ser do tipo mignonzinha, magrinha, mas é toda gostosinha – e, ao longo de boa parte do filme, está com as coxinhas à mostra.

Achei interessante ler agora no IMDb, depois de ter visto o filme, a seguinte informação: Gwyneth Paltrow, Cameron Diaz e Uma Thurman chegaram a ser consideradas para o papel de Robin, mas os produtores da Touchstone achavam que bastava ter Harrison Ford para garantir sucesso na bilheteria – não seria necessário pagar um salário alto para uma atriz mais conhecida. E acabaram optando por Anne Heche, então relativamente novata. Foi o primeiro papel dela como protagonista.

Anne Heche é uma das boas coisas do filme. Acho que a melhor.

Ivan Reitman não é chegado a uma sutileza. Tudo no filme é exagerado

Ivan Reitman não é um diretor suave, delicado, sutil – qualidades que o filho, Jason Reitman, tem de sobra. Ao contrário, o bicho tem mãozona pesada. Pega pesado, por exemplo, na explicitude da sensualidade de Angelica-Jacqueline Obradors, a namorada de Quinn. Essa moça Jacqueline Obradors é tão ruim de serviço, assim como esse tal de David Schwimmer,  que faz Frank, o namorado apaixonado que todos sabemos que a mocinha vai no fim rejeitar, que, quando o filme estava aí com uns 15 minutos, pensei seriamente em acionar a tecla stop.

Mas, na verdade, o problema não é que esses atores sejam tão ruins assim. É a mão pesada do diretor que os faz ser tão exagerados, tão ruins que poderiam perfeitamente ter lugar na Escolinha do Professor Raimundo.

Passada a vontade de cascar fora de um filme bobo demais, Seis Dias, Sete Noites deixa-se ver, em especial, repito, graças à gracinha da Anne Heche.

Mas não é tudo ruim. Há diálogos engraçados. Um tanto grosseiros, é verdade – Ivan Reitman e fineza definitivamente não andam juntos -, mas engraçados.

No primeiro dia sozinhos na ilha deserta, Quinn-Harrison Ford e Robin-Anne Heche entram no mato à procura de água. Ela vai à frente. Usa um shortinho.

Robin: – “O que você está olhando?”

Quinn: – “Nada.”

Robin: – “Alguma coisa.”

Quinn: – “Nada.”

Robin: – “Ah, não me venha com essa, você está arregalando o olho.”

Quinn: – “Arregalando o olho? Me diga uma coisa. Quando você vai a uma loja comprar uma roupa assim, você pede pra vendedora: me dê uma roupa pra que ninguém olhe pra mim?”

Robin: – “Não. Eu gosto que as pessoas olhem – mas não você.”

Quinn: – “Se isso te faz se sentir melhor, você não é o meu tipo.”

Robin: – “Ah, bom. Por quê?”

Quinn: – “Por quê?”

Robin: – “É. Tô apenas puxando papo. Por quê?”

Quinn: – “Você fala demais. Você tem muitas opiniões. Você é teimosa, sarcástica e metida a besta. Sua bunda é fina e seus peitos são pequenos demais.”

E algum tempo depois:

Quinn: – “Sou o melhor piloto que você já viu.”

Robin: – “Ahá! Viajei com você duas vezes, e você caiu na metade delas. (Vira-se para ele, enfurecida.) E meus peitos não têm problema nenhum!”

E mais adiante ainda tem uma deliciosa brincadeira sobre o homem novo, o homem sensível de que a nova mulher gosta. Os dois acabavam de encontrar um barco de piratas, e os piratas estão atrás deles.

Robin: – “Tô com muito medo.”

Quinn: – “Se isso te consolar, eu também estou.”

Robin: – “Ah, não. Isso não me faz sentir melhor.”

Quinn: – “Achei que fosse isso que as mulheres querem.”

Robin: – “O quê?”

Quinn: – “Homens que não têm medo de chorar, que mostram seu lado feminino.”

Robin: – “Não quando eles estão sendo caçados por piratas. Aí elas gostam deles malvados e armados!”

Gostosinho, divertido – e, claro,  descartável

Só para conferir uma outra opinião. Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4, e disse que o filme é uma comédia romântica gostosa, que o casal central trabalha como muita verve e Harrison Ford está especialmente solto e engraçado.

Bateu com o que eu achei. Gostosinho, divertido – e, claro, descartável.

Anotação em outubro de 2012

Seis Dias, Sete Noites/Six Days Seven Nights

De Ivan Reitman, EUA, 1998

Com Harrison Ford (Quinn), Anne Heche (Robin),

e David Schwimmer (Frank Martin), Jacqueline Obradors (Angelica), Temuera Morrison (Jager), Allison Janney (Marjorie, a chefe de Robin)

Argumento e roteiro Michael Browning

Fotografia Michael Chapman

Música Randy Edelman

Produção Touchstone Pictures, Caravan Pictures, Northern Lights Entertainment, Roger Birnbaum Productions.

Cor, 98 min

**1/2

 

5 Comentários para “Seis Dias, Sete Noites / Six Days Seven Nights”

  1. Realmente não há muito o que comentar sôbre este filme.Típico filme sessão da tarde,que foi como eu assisti há bastante tempo.Se bem que reprisa muito.Não é filme para se ver duas vezes.Como dizes,bonzinho,bobinho e descartável.Não gosto do Ford em comédias românticas e,NEM PENSAR,”Indianas”.Deus me livre!!Gosto quando ele faz filmes sérios em que tem que mostrar talento e,já vi isso ao menos duas vezes.
    A Anne Heche é,com certeza,tudo isso que falas dela.Se bem que,não sei,é opinião minha,acredito que se fôsse a Gwyneth ou a Uma,seríam mais sensuais.Não gosto da Cameron

    Comparo a Cameron com a Brasileira Giovanna Antonelli,não há o que me faça gostar dessa atriz.
    Achei interessante e curioso quando dizes que o Leonard Maltin,deu 3 estrelas em 4 prá este filme.Como já vi em outros textos teus,
    ele,que se mostra severo demais,já deu nota menor para outros filmes melhores que este.
    É,acho que … são coisas,né?
    Abraço !!

  2. Ligeiro, (muito) divertido e descartável. É isso aí! O tipo de filme que não vou buscar de propósito à prateleira para ver, mas se por acaso me cruzo com ele fico a ver até ao fim.

  3. Vi esse filme faz muito tempo, não lembro de mais nada, só do óbvio (e pra saber o óbvio não é nem preciso assistir). Engraçado que só pelas fotos dá pra notar que o Harrison Ford estava mesmo mais careteiro. Mas ainda era um coroão enxuto. Se eu não estiver enganada ele é um dos poucos que envelheceram bem, parece que não se submeteu excessivamente às plásticas.

  4. Concordo sobre o Reitman. E como vi o filme, posso dizer que, seja quem for o roteirista, escolheu todos os caminhos mais fáceis. Talvez na mão de um Peter Weir saísse algo mais delicado, mais contemplativo, mais sutil. Talvez.
    As discussões entre homem/mulher nas comédias românticas antigas eram muito melhores. Saudades…

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