Querido Muro de Berlim / Liebe Mauer

Nota: ★★★★

Querido Muro de Berlim é um filmaço. Um brilho absoluto, uma maravilha.

Vejo filmes demais, mais de um a cada dois dias, quase um por dia. Pois digo que este foi um dos filmes novos que mais me encantaram, emocionaram, surpreenderam, nos últimos muitos e muitos meses. E assim me parece chocante demais o fato de Querido Muro ter passado quase em brancas nuvens. Não ganhou sequer um prêmio em qualquer um dos 4.327 festivais mundo afora; passou na 34ª Mostra de Cinema de São Paulo, em 2010, vejo agora; mas aparentemente não foi lançado no Brasil nem nos cinemas, nem em DVD.

Esteve na programação do Max, o canal 79 da Net em São Paulo, de onde tive a oportunidade e a sorte de gravá-lo. (Aliás, esse canal Max tem sido, nos últimos meses, uma das melhores coisas da TV a cabo, com uma programação quase inteiramente dedicada a filmes europeus e asiáticos.)

É absolutamente incompreensível que este filme não tenha tido mais reconhecimento. Na minha opinião, assim como na da Mary, tem a mesma importância, a mesma qualidade de Adeus, Lênin e A Vida dos Outros, dois filmes alemães mais ou menos recentes que tratam dos mesmos temas e foram – com toda justiça – incensados no mundo inteiro.

Com cinco minutos de filme, já dá para dizer: os caras têm muito talento

O filme abre com uma garota aí de uns 20 anos e pouquinho, imensa, incomensurável mochila às costas, pedindo carona numa bela estrada. Segura um papelão onde escreveu a letra B – de Berlim, é claro. Um belo carro vermelho, dirigido por um jovem louro, pára, a garota bota a mochila no porta-malas, sobe.

Enquanto o carro viaja rumo a Berlim, os créditos iniciais mostram um bando de nomes que, para a imensa maior parte dos espectadores brasileiros, não significa nada – o autor do argumento e do roteiro e também diretor é Peter Timm, o diretor de fotografia é Achim Poulheim, a trilha sonora é de Karim Sebastian Elias, e no elenco estão Felicitas Woll, Maxim Mehmet, Anna Fischer, Thomas Thieme, Karl Kranzkowski, Margarita Broich, Gisela Trowe, Katja Danowski.

Um bando de nomes desconhecidos, mas, com cinco minutos de filme, já dá para dizer, sem a menor possibilidade de erro: os caras sabem o que estão fazendo, são do ramo, são bons, são talentosos.

(Na imensa maioria das vezes, dá para dizer, com cinco, no máximo dez minutos de narrativa, se um filme presta ou não.)

O lourão deixa a moça no endereço que ela havia dado – e é um lugar danado de feio, degradado, bem perto de um trecho do Muro. Antes de agradecer e se despedir, a moça explica para o rapaz que deu a carona que havia escolhido aquele lugar porque era o único em que ela poderia pagar apenas 100 marcos pelo aluguel de um apartamento; ela tem pouca grana, vinda de um crédito para educação.

Não há aquele letreiro, presente em tantos filmes, para nos informar em que ano estamos. Mas podemos ver, do outro lado do Muro, um gigantesco cartaz que diz “40 Jahre DDR”. 40 Anos DDR. Não há legenda explicando, mas DDR é Deutsche Demokratische Republik, o nome oficial da Alemanha Oriental, o pedaço oriental da Alemanha tomado pelo Exército da União Soviética ao final da Segunda Guerra e tornado uma das repúblicas comunistas satélites da União Soviética até o esfacelamento do império, no finalzinho dos anos 80, início dos 90.

Se se estava comemorando os 40 anos da República Democrática Alemã (ah, democracia, quantos crimes se cometeram em seu nome, diria o Millôr Fernandes), e a Segunda Guerra terminou em 1945, então a ação deve se passar em 1986, ou 87, ou 88.

Na verdade, é 1989 – mas o espectador só vai saber disso lá bem para o fim do filme.

Uma bela estudante da Berlim Ocidental, um sargento boa pinta da Berlim Oriental

A jovem estudante – veremos que se chama Franzi Schubert, uma óbvia homenagem do diretor do filme ao compositor de nome quase idêntico, e é interpretada por Felicitas Woll, uma garota de beleza radiante – recém-chegada à Berlim dividida em duas se instala no apartamento alugado barato. É um amplo apartamento, que só é barato porque suas janelas dão de cara para o Muro, aquela chaga horrorosa da história da humanidade.

Franzi abre a janela, olha para o Muro, para uma torre de inspeção do lado comunista – e na torre está o jovem sargento Sascha (Maxim Mehmet), um garoto de boa estampa.

Até a mais desatenta, obtusa almofada da sala do espectador mais desatento e obtuso percebe que a estudante Franzi, do lado capitalista, e o sargento Sascha, do lado comunista, vão ter uma história.

A questão é saber como.

O diretor Peter Timm bolou um excelente como.

Do outro lado do Muro, mantimentos pela metade do preço

Franzi, estudante longe de casa, recém-chegada à antiga capital do país, dinheiro curto, fica sabendo que os mantimentos básicos são muito mais baratos no lado comunista da cidade. A metade do preço. E então cruza o Muro pela primeira vez. Apresenta o passaporte da Westdeutschland, a República Federal Alemã, ao guarda da Deutsche Demokratische Republik; passa por um guarda, e acha que já pode avançar, quando é parada por outro guarda, que exige dela 25 marcos, para fazer o câmbio do marco ocidental para o marco oriental.

No mercado do lado oriental, Franzi fica chocada com os preços – tudo metade do que custa do outro lado, o lado dela. Uma moça passa por ela, vê que ela está espantada com os preços, e comenta algo como: “É – mas veja só a qualidade”.

Franzi, no entanto, não está preocupada com qualidade; encantada com os preços baixos, compra um monte de mantimentos, ovos, pães. E vai de volta, enfrentar a burocracia da divisa entre as duas Alemanhas.

E aqui talvez fosse necessário dizer mais ou menos como as coisas funcionavam. Os alemães do Oeste capitalista tinham o direito de entrar no Leste comunista e de lá sair, mediante a apresentação de passaporte e pagamento de taxa mínima para fazer o câmbio.

No sentido inverso, a coisa era mais complicada. Para sair do paraíso comunista rumo ao decadente capitalismo, era preciso um visto – e só as figuras que tinham a total confiança do Partido Comunista conseguiam o visto.

Os ovos subsidiados pelo estado comunista se esfacelam no asfalto capitalista

E então Franzi se encaminha de volta para o Muro. O guarda quer saber o que ela está levando. Só se podem levar presentes para o Oeste capitalista decadente. Comida, mantimentos, não pode – porque a comida, no Leste paraíso comunista, é subsidiada pelo Estado.

Franzi se irrita, se adianta rapidamente, quase corre, e sai do paraíso comunista carregando aquele monte de sacos plásticos contendo mantimentos subsidiados pelo Estado – mas os sacos são muitos, ela se atrapalha, e os sacos caem no chão. Os ovos subsidiados pelo estado comunista se esfacelam no asfalto capitalista.

E então o sargento Sascha, munido de extravagantes armas – uma vassoura, uma pá –, deixa o posto de guarda da fronteira, e avança pelo solo capitalista para limpar a sujeira deixada pela moça tão alemã quanto ele.

Os demais guardas da fronteira empunham as armas, todas dirigidas ao colega que parece estar usando um pretexto para cometer o abominável crime de abandonar o paraíso socialista.

A câmara do diretor Peter Timms se permite uns instantes de lentidão.

Em câmara lenta, Romeu e Julieta estão, pela primeira vez, cara a cara.

A distância entre a Alemanha de Franzi e a Alemanha de Sascha é muito maior que o ódio de gerações de Capulettos e Tibaldos poderia jamais supor.

Na bem sacada, inteligente, fascinante trama que virá a seguir, a Stasi, a polícia política da Alemanha Oriental, de um lado, e a CIA e a polícia secreta da Alemanha Ocidental, de outro, vão ficar de olho nos encontros entre esses Romeu e Julieta da Guerra Fria.

E, de quebra, o espectador será brindado por excelentes piadas sobre a insanidade dos regimes totalitários e as lutas ideológicas que dividem países ao meio. Como estas duas pérolas aqui:

– “O capitalismo é exploração do povo pelo povo. O socialismo é o oposto.”

– “Guerra fria mais corações quentes dá corações partidos.”

Billy Wilder estava filmando seu Romeu e Julieta da Guerra Fria quando surgiu o Muro

Quando o veterano (e “acadêmico”, segundo muitas dezenas de críticos) Robert Wise filmou o primeiro encontro de Romeu e Julieta em West Side Story, no meio do baile, permitiu-se uma brincadeira formal de extraordinária beleza. De um lado do quadro está Maria, a porto-riquenha; do lado oposto está Tony, da gangue rival, a dos branquelos. Os dois se vêem, um num extremo do quadro do CinemaScope, hoje Widescreen, um grande salão de baile entre eles. E então tudo o que não é Maria e Tony se dissolve, fica embaçado, impressionista, flu – só o que se vê com nitidez são Maria e Tony, e eles vão se aproximando um do outro, tudo em volta flu.

No auge da Guerra Fria, em 1961, o grande Peter Ustinov, extraordinário ator e diretor bissexto, fez uma comedinha romântica chamada Romanoff e Julieta. A história se passava num paiseco imaginário da Europa, em que o filho do embaixador soviético (John Gavin) se apaixonava pela filha do embaixador americano (Sandra Dee). É um pequeno filminho datado, pouco importante – mas tenho especial afeição por ele porque o vi muito jovem, e ele me pareceu brincar com coisas importantes.

Naquele mesmo ano de 1961, Billy Wilder fez seu Romeu e Julieta da Guerra Fria: em Cupido Não Tem Bandeira/One, Two, Three, passado na Berlim dividida em duas, a filha do presidente da Coca-Cola (Pamela Tiffin) se apaixona por um comunista ferrenho (Horst Buchholz).

O genial Billy Wilder ficou puto com o fato de que, enquanto ele estava fazendo o filme, em Berlim, e estava filmando as paisagens reais da antiga capital, como o Portão de Brandenburgo, os imbecis dos comunistas começaram a construir uma porra de um muro separando os dois setores da cidade, e atrapalharam as filmagens. Está no livro Billy Wilder – e o resto é loucura, de Hellmuth Karesek:

“Em 1961, a equipe de Wilder está em Berlim filmando o terceiro ato. E quer o acaso que, em meio aos trabalhos de filmagem, haja um acontecimento arquitetônico. A construção do Muro de Berlim em 13 de agosto. As filmagens de Cupido Não Tem Bandeira são perturbadas por um acontecimento histórico, uma sensível onda de frio na já então gélida Guerra Fria.”

E depois:

“Quando o filme fez sua estréia, em dezembro de 1961, em Berlim, o Berliner Zeitung escreveu, amargo: ‘Billy Wilder acha engraçado aquilo que nos corta o coração’.”

Evidentemente, Billy Wilder não estava achando engraçada a Guerra Fria, a divisão da Alemanha em duas Alemanhas (aliás, algumas das imagens mais impressionantes da Alemanha destroçada pela guerra haviam estado em um outro filme de Wilder, A Mundana/A Foreign Affair, de 1946).

Mas dá para compreender a irritação do redator do Berliner Zeitung. Ah, caramba, vêm aqui esses caras estrangeiros (mesmo que Wilder seja austríaco de nascimento, e portanto próximo dos alemães), e ficam fazendo comédias sobre nossas tragédias.

O cinema alemão está sabendo enfrentar de frente os fantasmas do passado

É uma maravilha ver que os alemães estão fazendo filmes sobre suas tragédias – a ascensão do nazismo, a permissão da ascensão do nazismo, o espiamento da culpa que veio depois, a divisão do país em dois, a humilhação ao longo de 40 anos em ver o país que levou séculos para se transformar em uma nação dividido em dois pelos vencedores da guerra.

É uma maravilha ver que o cinema alemão está refletindo sobre tudo isso, em filmes sérios, profundos, impactantes, importantes, como A Queda! As Últimas Horas de Hitler, O Leitor, A Vida dos Outros, A Onda, Um Homem Bom, Operação Valkiria (o alemão, de Jo Baier, de 2004, não a desnecessária refilmagem hollywoodiana com Tom Cruise), Uma Mulher Contra Hitler, ou em filmes que ousam brincar com as coisas sérias, seriíssimas, como Minha Quase Verdadeira História, Adeus, Lênin, Aprendendo a Mentir, e este pouco conhecido porém extraordinário Querido Muro de Berlim.

(Um registro: o título original é apenas Liebe Mauer, Querido Muro. O “de Berlim” foi acrescentado no Brasil. Também para o mercado de língua inglesa houve o acréscimo, Beloved Berlin Wall. Os exibidores devem ter imaginado que as pessoas não soubessem de que muro se estava falando. É, talvez pudesse ser o do Pink Floyd. Tá legal.)

É uma maravilha ver que o cinema alemão tem se dedicado a rever o passado, estas horrendas décadas passadas. Demorou, demorou bastante. É muito triste ver que, nos anos 50, por exemplo, o cinema da Alemanha que renascia das cinzas do nazismo teve sucessos como a série Sissi – uma maravilha ver aquela Romy Schneider esplendorosamente jovem, mas a verdade é que aquilo ainda tinha um gosto ufanista de grande Alemanha conquistadora do mundo.

Fassbinder fez filmes duros questionando o que o resto do cinema alemão não gostava de questionar, nos anos 70 – mas era quase uma voz solitária, enquanto Werner Herzog, por exemplo, escapava da dura realidade recente em direção a tudo que não fizesse lembrar verdades recentes.

E então, por tudo isso, essas obras recentes todas são motivo de grande alegria: o cinema alemão está, finalmente, enfrentando de frente os fantasmas do passado.

Um jeito despretensioso de comedinha romântica – mas com fúria, rancor, ódio do totalitarismo

Só não dá para entender como um filme brilhante como este Querido Muro não tenha tido uma grande repercussão.

Talvez tenha algo a ver com o tom propositadamente despretensioso que o diretor Peter Timms adotou.

Querido Muro tem assim um tom quase de comedinha romântica.

Com um jeitão despretensioso, assim de quem não quer nada, Querido Muro faz no entanto uma radiografia do regime comunista que dominou a Alemanha do Leste durante 40 anos que é uma de uma dureza sem tamanho.

Querido Muro retrata o regime comunista, a Stasi, com mais fúria, rancor, ódio, do que o incensadíssimo A Vida dos Outros. (Repito: nada contra A Vida dos Outros, grande, belíssimo filme.)

Querido Muro ataca a ditadura comunista com a fúria, o rancor, o ódio de filmes feitos em outros países que se libertaram do comunismo, como Os 27 Beijos Perdidos, Casamento Silencioso, Contos da Era Dourada.

E deixa às claras, mais uma vez, aquela verdade que me parece a cada dia mais nítida: as pessoas são infinitamente melhores, mais importantes, que as ideologias. As ideologias – especialmente as extremadas, as radicais – só servem para enriquecer a camarilha que se instala no poder, e para infernizar a vida da imensa maioria das pessoas.

Mas por que um filme como este não teve amplo reconhecimento?

E aí sou levado a pensar o impensável.

Será que Querido Muro foi vítima da patrulha? Do fato de que boa parte da inteligentzia que controla os grandes festivais, os Cadernos Dois, ainda está com o pezão em 1917, e sonha com o dia em que afinal a Revolução Comunista irá prevalecer?

Ah, não, não dá pra pensar nisso. Besteira. Seria acreditar na teoria conspiratória da história.

Não, não. Os doutos 359.375 grandes críticos de cinema, e os escolhedores dos filmes para os 4.327 festivais, estavam ocupados vendo outras coisas mais importantes. Tantos Kiarostami para ver… Ah, quantas interpretações a se fazer do olhar da Binoche em Cópia Fiel

Anotação em janeiro de 2012

Querido Muro de Berlim/Liebe Mauer

De Peter Timm, Alemanha, 2009

Com Felicitas Woll (Franzi), Maxim Mehmet (Sascha), Anna Fischer (Uschi), Thomas Thieme (Major Kutzner, da Stasi), Karl Kranzkowski (Kurt, o pai de Sascha), Margarita Broich (Jutta, tia de Franzi), Gisela Trowe (Oma Emma) , Katja Danowski (Charly)

Argumento e roteiro Peter Timm

Fotografia Achim Poulheim

Música Karim Sebastian Elias

Cor, 103 min

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